Long Bay põe em xeque a repressão de Camboja
Camboja afirma ter congelado mais de US$ 300 milhões em contas bancárias ligadas a golpes online e encaminhado à Justiça 446 casos envolvendo 3.927 suspeitos. A promessa mais recente é impedir que redes criminosas voltem a atuar, enquanto as acusações em torno do empreendimento Long Bay, na província de Koh Kong, reacendem o escrutínio sobre quem operava locais usados para golpes e se autoridades os protegiam.
Conteúdo
- Long Bay põe em xeque a repressão de Camboja
- O que as autoridades encontraram em Long Bay
- Como a investigação se desenrolou
- Ligações com a polícia recebem resposta à parte
- O que mostram os números nacionais
- Operações menores dificultam a alegação de que tudo foi fechado
- Autoridades, bens e lideranças criminosas
- Pessoas forçadas a aplicar golpes precisam de proteção
- Cooperação internacional vai além das operações
- Principais pontos
O ministro sênior Chhay Sinarith, vice-presidente permanente e chefe do Secretariado da Comissão de Combate a Golpes Online (CCOS), afirmou que as autoridades continuavam investigando os líderes das redes e outros envolvidos. Ele argumentou que imagens gravadas secretamente e publicadas em 10 de outubro mostram atividades anteriores à grande operação de repressão do governo.
Na declaração sobre Long Bay do governo, Sinarith afirmou que Camboja nunca negou a existência de golpes online e que os envolvidos seriam responsabilizados sem exceção. Sua resposta coloca em foco duas tarefas interligadas: fechar locais usados para fraudes e levar seus organizadores à Justiça.
Sinarith, que também é ministro sênior responsável por missões especiais, descreveu a posição do governo:
"Camboja nunca negou a existência de golpes online. O que importa é que Camboja é um país que toma medidas concretas para combater esses crimes e nunca recuou", afirmou.
O governo aponta avanços após mais de um ano de operações em todo o país. Seus próprios relatos também reconhecem que grupos criminosos deixaram grandes complexos e passaram a atuar em casas, apartamentos e outros locais menores. Impedir esse deslocamento, enquanto investiga acusações de proteção e corrupção, é agora parte central da promessa de manter essas redes afastadas.
O que as autoridades encontraram em Long Bay
Long Bay é um empreendimento turístico na área de Dara Sakor, em Koh Kong. Segundo Sinarith, as autoridades descobriram ali, em fevereiro de 2026, vários edifícios suspeitos de ligação com golpes online, depois que grupos criminosos suspeitos fugiram e deixaram provas para trás.
As autoridades da província de Koh Kong detiveram vários suspeitos, apreenderam provas e lacraram os locais suspeitos. O governo afirma que o local continua sob controle rigoroso e não poderá servir de base para golpes relacionados à tecnologia.
O primeiro-ministro Hun Manet inspecionou, em 5 de setembro de 2026, locais sob controle oficial em Koh Kong. Ele instruiu as autoridades a manter o controle sobre os imóveis e as provas e a conduzir investigações minuciosas.
O documentário publicado em 10 de outubro levantou acusações de fraude online, atividade criminosa forçada, uso de drogas e ligações com figuras influentes. A produção se concentrou no empresário de origem chinesa Deng Pibing e incluiu uma conversa em que ele discutia apoio financeiro à polícia e o financiamento de uma delegacia dentro do empreendimento.
Sinarith afirmou que as atividades mostradas ocorreram antes da operação de repressão, mas não informou as datas exatas das gravações nem apresentou provas adicionais que documentassem o encerramento completo das operações de golpes em Long Bay. As autoridades também não divulgaram o número exato de edifícios revistados, pessoas detidas ou acusações apresentadas no caso de Long Bay.
Como a investigação se desenrolou
A cronologia separa a descoberta de locais suspeitos de abrigar golpes da saída de Deng e da posterior publicação das imagens gravadas secretamente. Também situa Long Bay em uma campanha nacional iniciada em meados de 2025.
- Meados de 2025: Camboja lançou sua grande campanha nacional contra operações de golpes online.
- Fevereiro de 2026: as autoridades descobriram edifícios suspeitos de abrigar golpes em Long Bay, detiveram vários suspeitos, apreenderam provas e lacraram os locais.
- Fim de maio de 2026: Deng Pibing deixou Camboja, segundo informações migratórias citadas por Sinarith.
- 12 de junho de 2026: a Decisão nº 70 do Governo Real criou uma comissão para administrar provas e bens relacionados a golpes online.
- 27 de agosto de 2026: Sinarith disse a cerca de 50 representantes de missões diplomáticas e organizações internacionais que Camboja já não tinha grandes centros de golpes.
- 5 de setembro de 2026: Hun Manet inspecionou locais sob controle oficial em Koh Kong.
- 23 e 24 de setembro de 2026: Camboja realizou em Phnom Penh uma conferência internacional sobre o combate a golpes online.
- 10 de outubro de 2026: o documentário que examina as acusações em Long Bay foi publicado na internet.
A investigação de Camboja prosseguiu após a saída de Deng no fim de maio. Sinarith citou o Departamento-Geral de Imigração para confirmar a data e afirmou que fontes especializadas indicavam que Deng era alvo de um alerta vermelho da Interpol.
O alerta mencionado não foi verificado de forma independente, e nenhum alerta publicado ou acusação subjacente foi identificado nos detalhes públicos do caso. Um alerta vermelho pede que as polícias de outros países localizem e detenham provisoriamente uma pessoa enquanto se considera uma extradição ou medida legal semelhante; as autoridades nacionais aplicam suas próprias leis ao agir com base nele.
Ligações com a polícia recebem resposta à parte
O Ministério do Interior se pronunciou sobre imagens que mostram uma mulher aparentemente atuando como intérprete para cidadãos chineses e um veículo com o logotipo da Polícia Nacional do Camboja. O porta-voz do ministério, Touch Sokhak, afirmou que o veículo usava placa e logotipo falsos para se passar por uma viatura policial.
O documentário identificou o policial Chiet Mony como associado de Deng. Também mostrou ligações com Yim Leang, vice-comissário-geral da Polícia Nacional, e uma reunião da qual participou o ex-primeiro-ministro Hun Sen.
Touch Sokhak afirmou que a reunião com Hun Sen tratou de oportunidades legítimas de investimento. Ele disse que os policiais devem cumprir padrões profissionais e que a conduta deve ser avaliada com base em provas e na lei. O ministério não anunciou se foram iniciados processos disciplinares ou criminais relacionados à aparição do policial nas imagens.
As acusações colocam em foco o tratamento dado pelo governo a possíveis envolvimentos de autoridades na campanha nacional. Camboja já anunciou medidas contra altos funcionários acusados de ajudar redes de golpes, além das operações contra locais suspeitos de abrigar fraudes.
O que mostram os números nacionais
Os dados do Secretariado da CCOS, publicados em um informe do governo em 18 de setembro, abrangem o período de julho de 2025 a 31 de agosto de 2026. As autoridades inspecionaram 832 locais suspeitos, realizaram operações de repressão em 663 e assumiram o controle de 86 grandes complexos de golpes. Os procedimentos legais para confiscar esses complexos estavam em andamento.
As 663 operações correspondem a cerca de 80% dos 832 locais inspecionados. Os números mostram o alcance das ações de fiscalização, enquanto os dados sobre processos judiciais e valores financeiros apontam outras frentes da campanha: 446 casos envolvendo 3.927 suspeitos encaminhados à Justiça e mais de US$ 300 milhões congelados em contas bancárias ligadas a golpes.
O encaminhamento de um caso à Justiça dá início a um processo judicial no qual acusações e provas devem ser examinadas. O congelamento de uma conta restringe o acesso aos recursos enquanto o processo legal avança. O confisco é uma etapa legal posterior pela qual os bens podem ser tomados definitivamente.
Uma atualização oficial anterior, que cobria o período de julho de 2025 a 20 de agosto, listava 793 locais inspecionados e 624 operações. Também mencionava quase 30 mil suspeitos detidos, de 39 nacionalidades, 58.266 estrangeiros resgatados e deportados e 3.477 suspeitos de 29 nacionalidades mantidos sob custódia à espera de julgamento.
As diferentes classificações são importantes para as pessoas encontradas dentro das operações de golpes. Quem é detido durante uma operação, quem é tratado como vítima de tráfico de pessoas e quem é processado pode enfrentar consequências muito distintas. Os números das autoridades não apresentam um detalhamento que explique a relação entre os totais de resgate, deportação e detenção.
Operações menores dificultam a alegação de que tudo foi fechado
Em 27 de agosto, Sinarith disse a cerca de 50 representantes de missões diplomáticas e organizações internacionais que Camboja não tinha mais grandes centros de golpes online. Uma avaliação posterior da campanha pelo governo reiterou essa posição ao descrever as mudanças nos métodos dos grupos criminosos.
A CCOS afirmou que os grupos estavam se mudando para casas alugadas, apartamentos, condomínios, cafés e locais móveis. Em uma operação em Koh Kong, foram detidos 33 cidadãos chineses e apreendidos mais de 700 celulares em uma casa alugada.
Sinarith descreveu a avaliação do governo:
"Os grandes centros de golpes foram completamente desmantelados, enquanto medidas legais rigorosas foram tomadas contra alvos criminosos e autoridades envolvidas", afirmou.
Montse Ferrer, codiretora regional da Anistia Internacional, contestou a alegação de que o setor foi eliminado. Ela afirmou que responsabilizar as pessoas que comandam as operações é fundamental:
O verdadeiro teste do sucesso a longo prazo não é quantos complexos foram fechados, mas se os responsáveis foram investigados, processados e impedidos de retomar as operações.
Mark Taylor, consultor independente sobre tráfico de pessoas, também afirmou que operações significativas e o recrutamento continuavam. O relato do governo sobre a mudança das redes para locais menores torna necessárias investigações contínuas, mesmo após as autoridades assumirem o controle dos grandes complexos.
Autoridades, bens e lideranças criminosas
O informe de setembro de Camboja descreveu quatro casos envolvendo 15 autoridades suspeitas de participação em atividades de golpes. Entre os cargos citados estavam os de procurador-adjunto, diretor-geral adjunto de imigração, vice-comissário de polícia de Phnom Penh, ex-alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, além de policiais e militares.
A avaliação da campanha pelo governo afirmou que uma operação da Unidade Anticorrupção levou à prisão e ao afastamento de 15 altos funcionários e agentes da lei por suspeita de conluio com complexos de golpes, ajuda a essas instalações ou proteção a elas.
As autoridades também destacaram medidas contra empresários de destaque. Chen Zhi, presidente do Prince Holding Group, foi preso e extraditado para a China em janeiro de 2026. Li Xiong, presidente do Huione Group, foi extraditado para a China em abril de 2026.
A Decisão nº 70 do Governo Real, datada de 12 de junho de 2026, criou uma comissão liderada por Sinarith para examinar, monitorar, coletar, administrar e dar destinação a provas relacionadas a golpes online. Suas atribuições ligam as investigações criminais ao trabalho prático de preservar bens apreendidos e administrar ativos por meio de procedimentos legais.
Rastrear o dinheiro e a propriedade dos bens pode ajudar os investigadores a ligar um edifício usado para fraudes às pessoas que financiam ou dirigem a operação. A promessa do governo de congelar bens criminosos, portanto, acompanha o compromisso de processar líderes e cúmplices.
Pessoas forçadas a aplicar golpes precisam de proteção
O Relatório de 2026 sobre Tráfico de Pessoas dos Estados Unidos manteve Camboja na categoria 3, a mais baixa, embora reconheça o aumento de operações, prisões, cooperação internacional e fechamentos de centros de golpes. O documento também apontou aplicação seletiva da lei, cumplicidade de autoridades, triagem inadequada de possíveis vítimas e falta de processos contra traficantes ligados às operações.
Criminalidade forçada é uma situação em que alguém é obrigado a cometer crimes, por exemplo, depois de ser recrutado com uma falsa oferta de emprego e, em seguida, confinado ou ameaçado. Os investigadores precisam determinar quem organizou as fraudes e quem agia sob coerção.
As prisões na Coreia do Sul após a repatriação ilustraram esse desafio em outubro de 2025. Dos 64 cidadãos enviados de volta para casa a partir de Camboja, mandados de prisão haviam sido aprovados para 49 até a publicação daquela reportagem. Quatro repatriados disseram à polícia que haviam sido agredidos e forçados a trabalhar dentro de complexos de golpes.
Os números elevados de resgates e deportações de Camboja tornam a triagem de vítimas uma parte importante da campanha. Entrevistas, proteção e acesso a assistência jurídica também podem permitir que pessoas mantidas em confinamento nas operações expliquem os métodos de recrutamento, as cadeias de comando e as ameaças usadas pelos organizadores.
Cooperação internacional vai além das operações
O ministro da Informação, Neth Pheaktra, afirmou que Camboja reconhece os golpes online como um problema grave e se considera vítima de crime transnacional. No informe de 18 de setembro, ele citou a cooperação com China, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Austrália, países da Asean e outros países.
O governo planejou a conferência de 23 e 24 de setembro em Phnom Penh para reunir autoridades, órgãos de segurança e outros participantes. Relatos posteriores afirmaram que o encontro aprovou a Declaração de Phnom Penh e resultou em iniciativas bilaterais voltadas a desarticular redes de golpes.
Mok Chansothea, secretário de Estado do Gabinete do Conselho de Ministros e vice-presidente do Secretariado da CCOS, descreveu as operações como redes criminosas interligadas que cruzam fronteiras nacionais. Essa estrutura exige cooperação em relação a suspeitos, provas e dinheiro mantido em diferentes jurisdições.
Camboja também está preparando projetos de lei sobre cibersegurança e crimes relacionados à tecnologia da informação, além de regulamentos para ativos virtuais. O governo mencionou possíveis penas, incluindo prisão perpétua e confisco de bens. As medidas ainda estão em preparação, e as declarações não anunciaram uma data para sua aprovação.
Os interesses financeiros também afetam a posição internacional de Camboja. O Grupo de Ação Financeira Internacional incluiu o país sob monitoramento ampliado, comumente chamado de lista cinza, em fevereiro de 2019 e o retirou em fevereiro de 2023, após avanços nas medidas contra a lavagem de dinheiro. A governadora do Banco Nacional, Chea Serey, alertou para a possibilidade de o país voltar à lista se as condições piorarem.
A promessa de Camboja agora vai além de fechar os portões dos grandes complexos. Ela inclui manter as provas em segurança, perseguir organizadores e autoridades implicadas em irregularidades, proteger pessoas forçadas a trabalhar em atividades criminosas e impedir que operações menores se tornem a próxima base das mesmas redes.
Principais pontos
- Camboja afirma que sua campanha congelou mais de US$ 300 milhões e encaminhou à Justiça 446 casos envolvendo 3.927 suspeitos até 31 de agosto de 2026.
- As autoridades dizem ter encontrado locais suspeitos de abrigar golpes em Long Bay em fevereiro de 2026, detido vários suspeitos e assegurado as provas.
- Deng Pibing deixou Camboja no fim de maio de 2026, segundo informações migratórias citadas por Chhay Sinarith.
- O Ministério do Interior afirma que um veículo mostrado com identificação policial usava placa e logotipo falsos; não foram anunciados processos relacionados a um policial que aparece nas imagens.
- O governo afirma que os grandes centros de golpes foram fechados, mas reconhece que os grupos se mudaram para locais menores.
- Investigações sobre líderes criminosos, suposta proteção por autoridades, bens e possíveis vítimas de tráfico de pessoas continuam sendo fundamentais para impedir a retomada das operações.






