O crescimento voltou, mas a recuperação das famílias está incompleta
O Sri Lanka registrou crescimento econômico real de 5% tanto em 2024 quanto em 2025, seguido por 4,7% no primeiro semestre de 2026. Ainda assim, cerca de dois terços dos trabalhadores continuam na informalidade, e a pobreza foi estimada em 16,9% em 2025. Esses números dão contexto ao desafio central do relatório anual do Institute of Policy Studies of Sri Lanka: transformar a estabilidade econômica restabelecida em melhorias duradouras na renda, no emprego e na resiliência.
Conteúdo
- O crescimento voltou, mas a recuperação das famílias está incompleta
- Um modelo de crescimento diferente em meio a limites financeiros apertados
- O crescimento das exportações dependeu muito de produtos já existentes
- O aumento da arrecadação não impediu a redução dos investimentos
- O trabalho informal limita o alcance da recuperação
- A agroindústria conecta empregos, exportações e segurança alimentar
- Proteção climática e segurança energética devem fazer parte do planejamento de investimentos
- A assistência social não alcança algumas das famílias mais expostas a choques
- O planejamento regional precisa acompanhar as mudanças econômicas e populacionais
- Principais pontos
O principal relatório do instituto, Sri Lanka: State of the Economy 2026: Policy Choices for Durable Growth, argumenta que o país não pode voltar aos padrões de gastos que o deixaram vulnerável antes da crise de 2022. Com pouca margem para ampliar os gastos do governo ou pressionar os recursos em moeda estrangeira, o relatório defende mais investimento privado, maior produtividade e exportações mais competitivas.
A edição de outubro de 2026 do Sri Lanka Development Update do Banco Mundial, intitulada Da recuperação à transformação, apresenta uma avaliação semelhante. Segundo o documento, o produto interno bruto real voltou ao nível anterior à crise após doze trimestres consecutivos de crescimento. A forte atividade industrial, o aumento dos investimentos e a resiliência dos serviços sustentaram a recuperação.
No entanto, o Banco Mundial descreve essa recuperação como incompleta e desigual. Os indicadores do mercado de trabalho continuam atrasados, a pobreza permanece acima do nível anterior à crise, e novas pressões inflacionárias corroeram parcialmente os ganhos de bem-estar das famílias. O retorno da produção nacional ao nível anterior não significa que as famílias tenham recuperado o poder de compra ou a segurança no emprego que tinham antes.
Em conjunto, as duas avaliações apontam para a diferença entre recuperar a produção perdida e construir uma economia capaz de sustentar melhores padrões de vida. A próxima etapa exige mudanças no que o Sri Lanka produz, na forma como as empresas investem e na proteção oferecida a trabalhadores e famílias diante de interrupções.
Um modelo de crescimento diferente em meio a limites financeiros apertados
O IPS afirma que a inflação recuou substancialmente em relação ao pico de 2022, a reestruturação da dívida externa avançou e as reservas internacionais se recuperaram, chegando a níveis mais confortáveis. Esses avanços oferecem uma base mais sólida, mas não eliminam a necessidade de proteger as finanças públicas e a capacidade do país de pagar por importações e obrigações externas.
Na nota em que anunciou o relatório, o IPS, um instituto de pesquisa em políticas econômicas, estabeleceu os limites da abordagem anterior:
O Sri Lanka não pode mais depender de gastos financiados por dívida, concessões fiscais ou consumo intensivo em importações como motores do crescimento.
A alternativa é aumentar a produtividade, ou seja, a quantidade produzida com determinado volume de mão de obra, capital e outros recursos. Melhor qualificação, infraestrutura mais confiável e empresas mais eficientes podem apoiar essa mudança sem depender de uma expansão contínua do endividamento.
Essa distinção é importante para uma economia com pouca margem fiscal e externa. Margem fiscal é a capacidade do governo de gastar sem comprometer a sustentabilidade da dívida. A margem externa diz respeito aos recursos em moeda estrangeira necessários para financiar importações e cumprir obrigações no exterior. Um crescimento que aumente rapidamente tanto o endividamento quanto a demanda por importações pode voltar a pressionar a recuperação.
O Banco Mundial projeta crescimento de 4,4% em 2026 e de 4,2% em 2027. São previsões para anos-calendário completos, ao contrário da expansão registrada de 4,7% no primeiro semestre de 2026. As projeções também ficam abaixo da meta de crescimento de 7% no médio prazo discutida em pesquisas do IPS.
- 2022: A crise econômica expôs vulnerabilidades fiscais e externas.
- 2024 e 2025: O PIB real cresceu 5% em cada ano.
- Primeiro semestre de 2026: A produção aumentou 4,7%, completando doze trimestres consecutivos de expansão.
- Outubro de 2026: O relatório anual do IPS e a atualização do Banco Mundial colocaram investimentos, exportações e produtividade no centro da próxima etapa.
- 2027: O Banco Mundial projeta crescimento de 4,2%, enquanto o atual programa do FMI tem previsão de encerramento.
O crescimento das exportações dependeu muito de produtos já existentes
Uma pesquisa do IPS estima que quase 95% do crescimento das exportações do Sri Lanka desde 2008 veio da venda de volumes maiores de produtos que já faziam parte da pauta exportadora. Dos quase mil novos produtos introduzidos nesse período, apenas 43 se tornaram competitivos.
Isso representa cerca de 4% dos novos produtos, considerando o total aproximado informado pela pesquisa. Os números mostram por que diversificar as exportações exige mais do que lançar produtos: as empresas também precisam desenvolver capacidade duradoura para competir nos mercados externos.
A pesquisa recomenda acordos comerciais e uma reforma das tarifas domésticas. Ela aponta riscos de depender de acesso preferencial a mercados que pode ser retirado devido a mudanças na classificação de renda ou ao cumprimento de condições. No entanto, não estabelece um cronograma para novos acordos nem garante que as negociações resultariam em termos favoráveis.
Uma das reformas propostas é eliminar as para-tarifas, cobranças adicionais sobre importações além dos direitos aduaneiros comuns. Segundo a pesquisa do IPS, essas cobranças elevam a base de cálculo do IVA sobre importações, tornando a carga efetiva maior do que a alíquota legal de 18% do imposto.
Simplificar essas cobranças poderia reduzir custos e facilitar a compreensão das regras comerciais. A perda de receita precisaria ser incluída nas estimativas orçamentárias, e as empresas sujeitas a uma concorrência maior das importações precisariam de apoio durante a transição. A pesquisa recomenda assistência para adaptação comercial, pois mudanças nas cobranças sobre importações podem ameaçar empregos e renda em pequenas empresas nacionais.
O aumento da arrecadação não impediu a redução dos investimentos
A receita do governo aumentou de 8,2% do PIB em 2022 para 16,6% em 2025, segundo os números discutidos na pesquisa do IPS. Isso representa um aumento de 8,4 pontos percentuais, elevando a participação da receita para pouco mais do dobro do nível anterior.
O investimento público, porém, caiu de 5% para 3% do PIB durante o ajuste fiscal. A queda de dois pontos percentuais representa uma redução de 40% em sua participação na economia. O contraste mostra por que uma arrecadação maior, por si só, não garante recursos suficientes para infraestrutura e outros investimentos que impulsionam a produtividade.
A pesquisa não recomenda novos aumentos de alíquotas, mas também considera prematuros os cortes de impostos, diante do cumprimento desigual das obrigações fiscais, da informalidade e das isenções. A proporção entre impostos diretos e indiretos é de 40:60. Em geral, os impostos diretos incidem sobre renda ou patrimônio, enquanto os indiretos são cobrados sobre o consumo de bens e serviços.
Para o período posterior ao fim do programa do FMI, em 2027, as propostas favorecem a ampliação da base tributária, a redução de isenções, a melhoria do cumprimento das obrigações fiscais por trabalhadores autônomos e pessoas de alta renda, além do uso de ferramentas digitais na administração tributária. São recomendações de política pública, não um pacote de impostos anunciado pelo governo.
A qualidade do investimento público também é uma prioridade. Avaliação confiável de projetos, licitações transparentes, implementação eficaz e resultados mensuráveis são necessários para que os recursos escassos sejam bem aproveitados. Gastar mais sem melhorar a seleção e a execução dos projetos não necessariamente produziria uma infraestrutura melhor ou um crescimento mais forte.
O trabalho informal limita o alcance da recuperação
A estimativa geral de que dois terços dos trabalhadores estão na informalidade é respaldada por um dado mais preciso de uma pesquisa do IPS: 66,5% do emprego total em 2024. As duas descrições são compatíveis: uma é arredondada, enquanto a outra especifica o ano e o percentual.
O IPS descreve os trabalhadores informais como pessoas sem contrato formal ou cobertura de seguridade social. Esse tipo de trabalho pode gerar renda sem oferecer as proteções associadas a empregos formais. Assim, a produção nacional pode crescer enquanto muitos trabalhadores continuam sujeitos a interrupções de renda e a pouco amparo.
O problema se concentra especialmente em locais de trabalho muito pequenos. Cerca de 60% dos trabalhadores assalariados informais atuam em estabelecimentos com menos de cinco empregados regulares, segundo a pesquisa. A pouca capacidade administrativa e o cumprimento limitado das obrigações trabalhistas e previdenciárias dificultam a reforma nesse contexto.
As propostas incluem simplificar os impostos, digitalizar os registros, adaptar as regras de contribuição para pequenas empresas, melhorar o acesso ao crédito e reforçar as penalidades por descumprimento. O objetivo comum é facilitar a formalização do emprego e tornar mais confiáveis as proteções associadas a ela.
A qualificação profissional é outro entrave. Estimativas do IPS com base na Pesquisa da Força de Trabalho de 2024 indicam que apenas 34,1% dos trabalhadores do conhecimento têm formação superior. A resposta recomendada inclui cursos superiores mais curtos para trabalhadores técnicos, educação em ciência e tecnologia, apoio financeiro a estudantes e incentivos para que profissionais qualificados permaneçam no Sri Lanka.
A agroindústria conecta empregos, exportações e segurança alimentar
O Banco Mundial identifica a agroindústria como um possível motor de crescimento, emprego, exportações e redução da pobreza. Os números mostram por que o setor importa para além da agricultura: a produção agrícola primária representa 8% do PIB, enquanto o sistema agroalimentar mais amplo responde por cerca de um sexto da produção, mais de 40% dos empregos e quase um terço das exportações de mercadorias.
O sistema agroalimentar inclui atividades que vão além da produção nas fazendas, como processamento, armazenamento, transporte e distribuição. Sua participação na produção é aproximadamente o dobro da agricultura primária, o que ilustra quanto da atividade econômica depende do que acontece entre a produção e a venda final.
O Banco Mundial aponta distorções nas políticas públicas, poucos incentivos ao investimento, agregação de valor limitada, lacunas de infraestrutura e acesso restrito à terra e ao financiamento como obstáculos. Também destaca resultados positivos nos setores de chá, coco, canela, frutos do mar e manufatura baseada em borracha.
Agregação de valor significa processar ou melhorar um produto de outra forma para que ele gere mais renda do que a matéria-prima básica. Avançar nessas atividades pode elevar os ganhos, mas as empresas precisam de investimentos, infraestrutura confiável e acesso a mercados para fazer essa transição.
Uma pesquisa do IPS estima que a produtividade total dos fatores na agricultura cresceu apenas 0,3% ao ano na última década, em comparação com 1,6% no conjunto do Sul da Ásia. Essa medida acompanha a eficiência com que mão de obra, terra, capital e outros insumos são usados em conjunto. A taxa do Sri Lanka foi 1,3 ponto percentual menor, indicando uma diferença considerável no avanço da eficiência.
Uma agricultura resiliente, a gestão da água e os investimentos em armazenamento e distribuição ajudam a lidar tanto com perdas na produção quanto com o transporte de alimentos aos consumidores. Esses investimentos conectam a agenda de produtividade à proteção contra impactos climáticos, em vez de tratar a reforma agrícola e a preparação para desastres como tarefas separadas.
Proteção climática e segurança energética devem fazer parte do planejamento de investimentos
O IPS cita o ciclone Ditwah e os choques globais nos preços da energia como lembretes de que acontecimentos fora da política financeira doméstica podem comprometer a estabilidade econômica. Os danos causados por desastres podem interromper a produção e o transporte, reduzir a produção agrícola e desviar recursos públicos das prioridades de desenvolvimento para a recuperação emergencial.
O instituto identifica energias renováveis, sistemas alimentares, infraestrutura e preparação para desastres como prioridades de investimento. Ampliar a capacidade de geração de energia renovável poderia reduzir a exposição à volatilidade dos preços internacionais dos combustíveis. Energia confiável e acessível também é importante para fabricantes, propriedades rurais, empresas de turismo e exportadores que avaliam se devem investir.
A geração renovável, por si só, não basta. A pesquisa do IPS também recomenda proteger os investimentos em transmissão durante a transição energética. As redes de transmissão levam eletricidade das instalações de geração até os locais de consumo e, por isso, são necessárias para que a capacidade adicional atenda famílias e empresas.
Essas propostas não estabelecem um cronograma de obras financiadas, um calendário de licitações ou uma data para a conclusão de projetos específicos. Na prática, o teste será verificar se a seleção, o financiamento e a execução dos projetos enfrentam as fragilidades que deixam a produção e a renda das famílias expostas a choques.
A assistência social não alcança algumas das famílias mais expostas a choques
Uma pesquisa do IPS identifica uma discrepância na abrangência do Aswesuma, programa de assistência social do Sri Lanka. Entre as famílias mais pobres, que correspondem ao quinto de menor renda, a cobertura é de 55% entre as mais expostas a choques, em comparação com 63% entre as menos expostas.
Essa diferença de oito pontos percentuais significa que o grupo mais exposto tem menor cobertura, apesar de sua maior vulnerabilidade. É um motivo concreto para aprimorar os critérios de seleção, em vez de presumir que a condição de pobreza, por si só, indique a probabilidade de sofrer perdas com desastres.
As propostas incluem fortalecer o Sistema Integrado de Gestão do Bem-Estar Social e criar um cadastro social abrangente e atualizado regularmente. Cruzar informações sobre as famílias com dados de risco de desastres e clima poderia ajudar a identificar quem precisa de assistência quando ocorre um choque.
A pesquisa do IPS também recomenda garantir antecipadamente o financiamento, com critérios de acionamento e procedimentos para ampliar os benefícios durante emergências. O objetivo é disponibilizar a assistência rapidamente, sem exigir que cada resposta dependa de uma nova decisão de financiamento após a ocorrência dos danos.
Isso importa também para a reforma do trabalho. Trabalhadores com pouca proteção no emprego e famílias afetadas por desastres podem sofrer perdas simultâneas. Critérios de seleção melhores e assistência mais rápida fortaleceriam a segurança das famílias sem tratar a proteção social como algo separado da estratégia de crescimento.
O planejamento regional precisa acompanhar as mudanças econômicas e populacionais
O relatório do IPS analisa investimentos em infraestrutura, desenvolvimento regional, urbanização e mudanças demográficas como partes de uma estratégia de crescimento mais inclusiva. É necessário coordenar o planejamento para que oportunidades de emprego, transporte e serviços essenciais respondam aos locais onde as pessoas vivem e trabalham.
O IPS estima que a parcela urbana da Província Ocidental seja de quase 61%, com base em medidas de densidade populacional e acesso à infraestrutura do censo de 2024. Trata-se de uma estimativa de pesquisa baseada nesses critérios, e não de um dado que deva ser automaticamente considerado a classificação urbana oficial da província.
Entre as propostas discutidas está a cobrança por congestionamento em Colombo, usando reconhecimento automático de placas e pagamentos digitais. O sistema cobraria dos veículos pelo uso de vias ou áreas congestionadas designadas. É uma recomendação, não um esquema de cobrança anunciado com limites, tarifas ou data de início definidos.
As recomendações do relatório anual abrangem comércio, gestão fiscal, mercados de trabalho, urbanização, energia, agricultura, proteção social e desenvolvimento do capital humano. O objetivo comum é ampliar a capacidade produtiva e reduzir o risco de que outro choque reverta os avanços obtidos desde 2022.
Ainda não está definido como as recomendações se traduzirão em programas financiados, reformas aprovadas ou prazos de implementação. Os próximos marcos com datas são a previsão de crescimento do Banco Mundial para 2027 e o encerramento previsto do atual programa do FMI naquele ano. Eles oferecem um horizonte de planejamento, não um cronograma para adoção da agenda do IPS.
Principais pontos
- O PIB real cresceu 5% tanto em 2024 quanto em 2025 e 4,7% no primeiro semestre de 2026.
- O Banco Mundial projeta crescimento de 4,4% em 2026 e de 4,2% em 2027; a pobreza foi estimada em 16,9% em 2025.
- O IPS recomenda investimento privado, ganhos de produtividade e exportações competitivas, em vez de uma nova dependência do endividamento e da demanda por importações.
- O emprego informal representou 66,5% dos postos de trabalho em 2024, limitando a segurança no emprego e a proteção social.
- Quase 95% do crescimento das exportações desde 2008 veio de produtos já existentes, segundo uma pesquisa do IPS.
- O sistema agroalimentar mais amplo sustenta mais de 40% dos empregos e quase um terço das exportações de mercadorias.
- Preparação climática, investimentos em energia e assistência com critérios de seleção aprimorados estão entre as principais recomendações, mas as datas de implementação ainda não foram definidas.






