Advogados de defesa afegãos perdem independência e acesso aos tribunais sob o regime do Talibã

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Afghan Defence Lawyers Lose Independence and Courtroom Access Under Taliban Rule

Uma licença já não garante uma defesa efetiva

Antes da tomada do poder pelo Talibã, quase 1.500 mulheres estavam registradas como advogadas e defensoras jurídicas no Afeganistão, cerca de um quarto dos membros da associação independente da advocacia. Quatro anos depois, a Anistia Internacional afirmou que a maioria havia sido forçada a se esconder ou se exilar. Advogados homens que ainda conseguem autorização para exercer a profissão enfrentam outro obstáculo: ter licença não significa necessariamente poder visitar clientes detidos, examinar autos ou defender seus casos com eficácia nos tribunais.

Conteúdo
  1. Uma licença já não garante uma defesa efetiva
  2. Como a associação independente da advocacia perdeu o controle do licenciamento
  3. Mulheres excluídas da representação e do julgamento
  4. Juízes ganham autoridade enquanto promotores perdem espaço
  5. Textos religiosos substituem regras jurídicas previsíveis
  6. O que os réus perdem quando os advogados são afastados
  7. A sequência das mudanças institucionais
  8. A exclusão profissional também traz riscos pessoais
  9. O que seria necessário para restaurar o sistema
  10. Em resumo

As restrições vão além do afastamento de profissionais do direito. Desde que tomou Cabul, em 15 de agosto de 2021, o Talibã suspendeu a Constituição de 2004, afastou juízes, assumiu o controle do sistema de licenciamento de advogados e transferiu as funções de investigação para os tribunais. Acadêmicos religiosos agora ocupam cargos judiciais, enquanto a interpretação da lei islâmica pelo Talibã substituiu o marco jurídico da República.

Advogados de defesa relatam acesso restrito aos documentos dos processos, poucas oportunidades para apresentar argumentos e, em alguns casos, hostilidade, intimidação ou detenção quando contestam decisões judiciais. Esses obstáculos enfraquecem o trabalho prático da defesa: verificar uma acusação, contestar provas e pedir a revisão de uma prisão ou punição.

Em sua avaliação do quarto aniversário, publicada em 15 de agosto de 2025, a Anistia Internacional pediu a restauração de um marco constitucional e jurídico formal. Samira Hamidi, ativista regional da organização para o Sul da Ásia, descreveu a ordem jurídica que surgiu sob o governo do Talibã:

Após quatro anos de governo do Talibã, o que resta é uma ordem jurídica profundamente opaca e coercitiva, que prioriza a obediência em vez dos direitos e o silêncio em vez da verdade.

O problema central é a combinação de representação enfraquecida, regras incertas e poder judicial concentrado. Um advogado pode continuar exercendo a profissão sem ter o acesso e a independência necessários para proteger os direitos de um cliente.

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Como a associação independente da advocacia perdeu o controle do licenciamento

Antes da tomada do poder, a Associação Independente da Advocacia do Afeganistão licenciava e regulamentava advogados de defesa privados sem controle direto do governo. A perda de sua independência eliminou uma instituição destinada a proteger a capacidade dos advogados de atuar em nome dos clientes sem interferência.

As especialistas independentes da ONU Margaret Satterthwaite e Richard Bennett, responsáveis, respectivamente, pela independência de juízes e advogados e pelos direitos humanos no Afeganistão, situaram a tomada da associação em novembro de 2021. Em sua declaração conjunta, divulgada em 20 de janeiro de 2023, eles disseram que o Talibã interrompeu uma reunião da associação e anunciou sua incorporação ao Ministério da Justiça de fato.

Em seguida, o gabinete exigiu que os advogados renovassem suas licenças por meio de um processo aberto somente a homens. Milhares de licenças existentes foram revogadas, e os advogados que buscavam autorização para exercer a profissão enfrentaram exames voltados principalmente à jurisprudência islâmica. O Instituto de Estudos do Sul da Ásia da Universidade Nacional de Singapura descreve a exigência como uma prova oral aplicada pelo Ministério da Justiça.

Os relatos oficiais divergem quanto à data. O relatório sobre o Afeganistão de 2023 do Departamento de Estado dos EUA atribui a transferência da associação para o controle do ministério a um decreto de novembro de 2022. A declaração da ONU situa a incorporação em novembro de 2021. Nenhum dos relatos esclarece se foram etapas distintas, portanto as datas não devem ser tratadas como equivalentes.

Mulheres excluídas da representação e do julgamento

As mudanças no licenciamento, na prática, impediram as mulheres de exercer a profissão no sistema judicial do Talibã. Os especialistas da ONU disseram que elas não podiam pedir a renovação da licença e só podiam comparecer ao tribunal quando fossem parte de uma disputa, e não como profissionais do direito.

A exclusão das mulheres também afetou o Judiciário. A declaração da ONU de janeiro de 2023 informou que mais de 250 juízas haviam sido afastadas, o que representava mais de 10% do quadro de magistrados antes da tomada do poder. O relato da Anistia de agosto de 2025 estimou que as mulheres correspondiam a entre 8% e 10% do Judiciário. As estimativas divergem, mas ambas descrevem a eliminação de uma parcela expressiva da experiência feminina na magistratura.

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Para as mulheres que buscam assistência jurídica, a perda vai além da redução no número de profissionais disponíveis. A Anistia afirma que os Tribunais de Família, as Unidades de Justiça Juvenil e as Unidades de Combate à Violência contra as Mulheres foram desmantelados. Essas instituições ofereciam vias específicas para tratar de disputas e casos envolvendo pessoas que podem ter dificuldade para obter proteção por meio dos procedimentos comuns.

Algumas advogadas continuaram trabalhando fora das funções formais em tribunais. Os especialistas da ONU descreveram mulheres orientando clientes, redigindo documentos para colegas homens e atuando em organizações de assistência jurídica ou escritórios de advocacia. Essas práticas variavam muito entre as províncias e eram vulneráveis a novas restrições ao trabalho das mulheres, incluindo as impostas no fim de dezembro de 2022.

A assistência jurídica informal não restabelece o direito de representar uma cliente diante de um juiz. Também deixa as mulheres na dependência de um colega homem para apresentar o trabalho delas e da permissão das autoridades locais para que esse arranjo sequer seja possível.

Juízes ganham autoridade enquanto promotores perdem espaço

A reestruturação mudou quem investiga as acusações e quem as julga. O estudo sobre as instituições jurídicas do Instituto de Estudos do Sul da Ásia descreve tribunais geralmente formados por um juiz, um mufti e um escrivão. Mufti é um acadêmico religioso qualificado para emitir pareceres sobre a lei islâmica; o escrivão cuida do trabalho administrativo.

Segundo o estudo, as regras dos tribunais do Talibã reservam ao juiz o interrogatório de requerentes, réus e testemunhas. As regras também atribuem aos juízes, e não aos promotores, a autoridade para investigar. Isso concentra funções que antes eram divididas entre diferentes agentes do sistema jurídico.

Os especialistas da ONU relataram que os muftis passaram a participar das investigações e a aconselhar sobre as punições, e que os juízes, em grande medida, seguem suas recomendações. Quando os responsáveis pelo Judiciário investigam uma acusação e depois julgam o mesmo caso, enfraquece-se a separação destinada a garantir decisões imparciais.

Os relatos também registram mudanças na posição dos promotores ao longo do tempo. O estudo acadêmico descreveu o papel deles como indefinido e disse que o Talibã ainda não havia demitido os promotores nomeados durante a República. A declaração da ONU de janeiro de 2023 afirmou que todos os promotores foram inicialmente demitidos, que alguns homens foram posteriormente reintegrados e que aqueles que continuavam trabalhando receberam, em 2022, a ordem de parar e transferir as investigações para os tribunais. Orientações posteriores da União Europeia sobre asilo registraram diferenças substanciais entre regiões quanto à situação jurídica e operacional desses profissionais.

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Textos religiosos substituem regras jurídicas previsíveis

O estudo acadêmico afirma que a Suprema Corte do Talibã orientou os tribunais a não se basearem nas leis da República, enquanto um comitê da Academia Nacional do Afeganistão analisava a legislação para verificar sua conformidade com a Sharia. O estudo também descreve tribunais que se apoiam fortemente na Majjalah, uma compilação otomana de jurisprudência islâmica hanafita.

A jurisprudência hanafita é uma escola de interpretação jurídica islâmica. Seu uso, por si só, não explica todos os problemas identificados nos tribunais afegãos. As preocupações específicas são a exclusão, pelo Talibã, de outras abordagens jurídicas, a suspensão das garantias processuais e a margem de decisão deixada a cada autoridade judicial.

A Anistia descreveu julgamentos conduzidos por um qazi, ou juiz, com a orientação de um mufti sobre veredictos religiosos. Um ex-juiz entrevistado pela organização disse que tribunais de alguns distritos usavam a obra Bada’i al-Sana’i, enquanto outros recorriam a Fatawa-i Qazi Khan, o que resultava em veredictos diferentes para o mesmo crime. No caso de roubo, segundo a Anistia, as consequências podiam variar de açoites em público à detenção, dependendo da interpretação aplicada.

O problema não se resume à falta de textos escritos. Há compilações religiosas, regras judiciais, decretos e diretivas. A preocupação apontada pelos especialistas da ONU é a ausência de procedimentos padronizados e de leis penais e civis substantivas que policiais, juízes e advogados possam seguir de forma consistente. Sem um marco confiável, os advogados não conseguem explicar com segurança qual acusação se aplica, quais procedimentos são prováveis ou que recursos estão disponíveis.

O que os réus perdem quando os advogados são afastados

O Departamento de Estado informou que os advogados de defesa muitas vezes não conseguiam acessar clientes em centros de detenção e eram frequentemente deixados à margem dos processos. O acesso restrito impede consultas privadas e dificulta esclarecer o que aconteceu durante a prisão, o interrogatório ou a detenção.

Seu relatório de 2023 descreveu réus privados de diversas garantias de um julgamento justo, entre elas serem informados prontamente das acusações, dispor de tempo suficiente para preparar a defesa, ter acesso ao advogado de sua escolha, poder apresentar provas e testemunhas e estar protegidos contra depoimentos ou confissões forçados. O relatório também afirmou que o Talibã eliminou o processo de apelação.

Essas são garantias distintas que têm o mesmo objetivo: permitir que uma acusação seja examinada antes da imposição de uma punição. O acesso a um advogado tem pouco valor se ele não pode examinar as provas, contestar uma acusação ou pedir a correção de um erro.

O estudo acadêmico também alertou que, na época em que analisou os acontecimentos, o sistema formal de justiça criminal tratava de apenas um pequeno número de casos. Combatentes e comandantes locais às vezes impunham punições diretamente. Os especialistas da ONU descreveram casos em que supostos infratores eram detidos, sentenciados e punidos no mesmo dia por policiais ou outras agências de segurança, sem oportunidade efetiva para preparar uma defesa jurídica ou pedir uma revisão judicial.

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A sequência das mudanças institucionais

As mudanças foram implementadas por meio de nomeações, diretivas e restrições sucessivas, e não por uma única lei substituta. Alguns acontecimentos datados mostram como a exclusão profissional e a concentração do poder judicial avançaram em paralelo:

  • 15 de agosto de 2021: O Talibã tomou Cabul, encerrando a ordem política e jurídica da República.
  • Novembro de 2021: Segundo os especialistas da ONU, a associação independente da advocacia foi incorporada ao Ministério da Justiça, e a renovação obrigatória das licenças excluiu as mulheres.
  • 2022: Os especialistas da ONU disseram que os promotores ainda em atividade receberam a ordem de parar de trabalhar e transferir as investigações para os tribunais.
  • 13 de novembro de 2022: O porta-voz Zabihullah Mujahid disse que o líder do Talibã, Haibatullah Akhundzada, havia lembrado aos juízes que as penas de hudud e qisas eram obrigatórias quando as condições previstas pela Sharia fossem atendidas.
  • 20 de janeiro de 2023: Satterthwaite e Bennett divulgaram seu alerta antes do Dia Internacional do Advogado em Perigo, em 24 de janeiro.
  • Maio de 2024: As orientações da União Europeia sobre asilo afirmaram que ex-juízes, promotores e advogados de defesa continuavam, em sua maioria, excluídos do sistema de justiça.
  • 15 de agosto de 2025: A Anistia pediu a restauração de um marco jurídico formal após quatro anos de governo do Talibã.

Hudud se refere a crimes com penas prescritas pela lei islâmica. Qisas diz respeito à retribuição por assassinato ou lesão corporal intencional. A instrução de novembro de 2022 é relevante porque exigia punições severas dentro de um sistema no qual especialistas independentes haviam identificado grandes lacunas nos direitos de defesa e na independência judicial.

A exclusão profissional também traz riscos pessoais

A perda do emprego é apenas parte do perigo que ameaça ex-integrantes do Judiciário. As orientações de maio de 2024 da Agência da União Europeia para o Asilo descrevem buscas em residências, assédio, ameaças de morte e assassinatos. Muitos juízes e promotores, sobretudo mulheres, haviam se escondido ou deixado o Afeganistão.

Algumas ameaças vieram de pessoas que haviam sido processadas ou condenadas e foram libertadas após a tomada do poder. Outras estavam relacionadas ao trabalho anterior em casos envolvendo o Talibã. Segundo relatos, parentes, amigos e vizinhos foram pressionados a revelar o paradeiro dos juízes, ampliando o perigo para além dos próprios profissionais.

A declaração da ONU de janeiro de 2023 disse que mais de uma dúzia de promotores teriam sido mortos por pessoas não identificadas em Cabul e em outras províncias, e alertou que esse número provavelmente era inferior ao total real. Mais tarde, a Agência da União Europeia para o Asilo citou relatos de pelo menos 28 ex-promotores e familiares mortos desde a tomada do poder. Esses números não podem ser tratados como uma medida direta de aumento: abrangem períodos e grupos diferentes.

A Agência da União Europeia para o Asilo concluiu que atos relatados como assassinatos, tortura e desaparecimentos forçados eram suficientemente graves para configurar perseguição. Segundo a agência, o temor fundado de perseguição geralmente estaria comprovado no caso de juízes, promotores e ex-funcionários de tribunais. Advogados de defesa e outras pessoas ainda precisam ser avaliados de acordo com suas funções e circunstâncias específicas.

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O que seria necessário para restaurar o sistema

Os apelos da Anistia e dos especialistas da ONU vão além de emitir novas licenças para advogados. Eles pedem proteção para os profissionais do direito, o fim da exclusão das mulheres, instituições judiciais independentes e procedimentos que garantam um julgamento justo para todos.

Os especialistas da ONU pediram que atores internacionais ofereçam apoio financeiro flexível a advogados e prestadores de assistência jurídica, além de proteção e passagem segura para quem corre risco de represálias. A Anistia pediu pressão diplomática e diálogo voltados à restauração de um sistema jurídico formal, compatível com as obrigações internacionais de direitos humanos do Afeganistão.

O sistema anterior não estava livre de problemas graves. O estudo acadêmico descreve corrupção, impunidade e baixa confiança da população antes de 2021, além do uso de mecanismos informais de resolução de disputas e tribunais paralelos do Talibã. Reconhecer essas falhas não resolve a atual perda de representação independente nem a exclusão das mulheres.

Não há aqui um cronograma confirmado para reabrir a advocacia às mulheres, restaurar a independência da associação ou reintroduzir recursos de apelação eficazes. Também não há uma estimativa nacional atual e verificada do número de advogados de defesa em atividade. O teste prático de qualquer reforma seria verificar se os advogados podem se reunir com clientes, examinar autos, contestar provas e pedir revisão sem intimidação, e se as mulheres podem atuar como advogadas e juízas, em vez de apenas participar de disputas como partes.

Em resumo

  • O Talibã colocou o licenciamento de advogados sob o controle do Ministério da Justiça, encerrando a independência da associação da advocacia.
  • As mulheres foram excluídas da renovação das licenças, afastando da atuação formal cerca de um quarto dos profissionais do direito de antes.
  • Advogados em atividade enfrentam restrições ao acesso a clientes, autos e à participação em audiências.
  • Juízes e muftis assumiram funções de investigação antes atribuídas aos promotores.
  • Avaliações oficiais descrevem procedimentos jurídicos inconsistentes, garantias de defesa frágeis e graves ameaças contra ex-integrantes do Judiciário.
  • A Anistia e especialistas da ONU pedem instituições independentes, participação das mulheres, garantias de julgamento justo e proteção para os profissionais do direito.
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