Onze anos de recordes colocam os planos de transição do Vietnã em foco
Os anos de 2015 a 2025 foram os 11 mais quentes já registrados, e 2025 foi cerca de 1,43°C mais quente do que a média de 1850 a 1900, confirmou a Organização Meteorológica Mundial em seu relatório climático de 2025, publicado em 23 de março de 2026. O alerta vai além da temperatura do ar: o desequilíbrio energético da Terra atingiu seu nível mais alto em uma série histórica de 65 anos.
Conteúdo
- Onze anos de recordes colocam os planos de transição do Vietnã em foco
- O oceano revela a dimensão do calor acumulado
- A previsão indica pressão contínua sobre as temperaturas
- O que os números de 1,5°C significam e o que não significam
- Vietnã busca crescimento com redução das emissões
- Grandes volumes de investimento não garantem acesso a financiamento
- Pessoas e resiliência fazem parte da mesma transição
- Seis prioridades definem a orientação das políticas
- Fórum experimental busca resultados além do encontro
- Principais pontos
Essas conclusões dão contexto ao desafio discutido no Diálogo de Quy Nhon sobre Clima e Transição, realizado em 10 e 11 de outubro de 2026, no Centro Internacional de Ciência Interdisciplinar e Educação (ICISE), no distrito de Quy Nhon Nam, província de Gia Lai. Mais de 100 representantes de alto escalão do Vietnã, do Sudeste Asiático e de organizações parceiras internacionais participaram do encontro.
O vice-primeiro-ministro vietnamita Ho Quoc Dung apresentou a ação climática como parte da estratégia de desenvolvimento do Vietnã, e não como uma alternativa ao crescimento econômico. O país busca crescer pelo menos 10%, mantendo o compromisso de atingir emissões líquidas zero até 2050. Seu argumento central foi que a transição deve criar novas oportunidades de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, proteger o abastecimento de energia, a segurança alimentar e hídrica e os padrões de vida.
As mensagens científicas e econômicas estão estreitamente ligadas. A OMM documenta um planeta que continua acumulando calor, enquanto o diálogo se concentrou em como os países podem financiar e implementar mudanças sem restringir o desenvolvimento. O encontro foi um fórum experimental, não uma negociação internacional destinada a produzir compromissos vinculantes.
O oceano revela a dimensão do calor acumulado
A OMM classifica 2025 como o segundo ou terceiro ano mais quente já registrado. Alguns relatórios o descrevem simplesmente como o segundo mais quente, mas a redação da própria organização mantém as duas classificações possíveis. A estimativa de temperatura, cerca de 1,43°C acima da linha de base histórica, é consistente entre esses relatos.
Pela primeira vez, o relatório anual inclui o desequilíbrio energético da Terra entre seus principais indicadores climáticos. Ele mede a diferença entre a energia que chega do Sol e a energia que escapa para o espaço. Quando entra mais energia do que sai, o planeta acumula calor. O aumento das concentrações de gases que retêm calor perturba esse equilíbrio.
O relatório aponta que as concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso estão nos níveis mais altos em pelo menos 800 mil anos. O desequilíbrio energético aumentou desde o início das observações, em 1960, sobretudo nas duas últimas décadas, e atingiu um recorde em 2025.
Mais de 91% do excesso de calor fica armazenado nos oceanos. Nas últimas duas décadas, o oceano absorveu a cada ano uma quantidade de energia equivalente a cerca de 18 vezes o consumo anual de energia da humanidade. Essa comparação descreve a dimensão do acúmulo de calor, não a geração de eletricidade nem a energia disponível para consumo.
O conteúdo de calor dos oceanos atingiu outro recorde em 2025. A taxa de aquecimento dos oceanos mais que dobrou entre os períodos de 1960 a 2005 e de 2005 a 2025. O nível médio global do mar estava cerca de 11 centímetros mais alto em 2025 do que em 1993, quando começaram as medições por satélite.
As mudanças também alcançam as regiões congeladas. A extensão anual do gelo marinho no Ártico ficou em um nível próximo do mínimo recorde ou igual a ele; a extensão do gelo marinho na Antártida foi a terceira menor já registrada, e o derretimento das geleiras continuou. Em conjunto, esses indicadores mostram por que a temperatura do ar em um único ano não é suficiente para retratar o estado do clima.
A previsão indica pressão contínua sobre as temperaturas
A previsão climática para cinco anos da OMM, divulgada em 28 de maio de 2025, projetou 80% de probabilidade de que pelo menos um ano entre 2025 e 2029 superasse o recorde de temperatura estabelecido em 2024. Também estimou 86% de probabilidade de que pelo menos um ano registrasse mais de 1,5°C acima da média de 1850 a 1900.
A previsão situou as temperaturas globais anuais desse período entre 1,2°C e 1,9°C acima da linha de base histórica. São probabilidades divulgadas em 2025, não uma nova avaliação que incorpore todas as observações posteriores, e a previsão não atribuiu uma temperatura global específica a cada ano.
A Atualização Global Anual a Decenal 2025–2029 foi liderada pelo Met Office do Reino Unido e se baseou em 220 membros de conjuntos de modelos de 15 institutos. Um conjunto combina várias simulações de modelos para estimar uma variedade de resultados possíveis, em vez de depender de uma única previsão.
A vice-secretária-geral da OMM, Ko Barrett, descreveu o alerta da previsão quando ela foi divulgada:
Acabamos de vivenciar os dez anos mais quentes já registrados. Infelizmente, este relatório da OMM não dá sinais de trégua nos próximos anos, o que significa que haverá um impacto negativo crescente sobre nossas economias, nosso cotidiano, nossos ecossistemas e nosso planeta,
A referência dela a dez anos refletia as evidências disponíveis em maio de 2025. A avaliação de março de 2026 confirmou, posteriormente, um 11º ano nessa sequência recorde.
O que os números de 1,5°C significam e o que não significam
A previsão estimou 70% de probabilidade de que o aquecimento médio entre 2025 e 2029 ultrapassasse 1,5°C. A estimativa foi de 47% na previsão anterior, para 2024 a 2028, e de 32% na previsão para 2023 a 2027. O aumento de 47% para 70% corresponde a 23 pontos percentuais, embora as previsões abranjam períodos diferentes e parcialmente sobrepostos.
Um ano-calendário acima de 1,5°C não significa, por si só, que o limite de temperatura do Acordo de Paris tenha sido ultrapassado de forma duradoura. O acordo diz respeito ao aquecimento ao longo de um período mais extenso, geralmente avaliado em 20 anos. Uma média de cinco anos também difere dessa medida de longo prazo.
A OMM estimou que 2024 ficou 1,55°C acima da linha de base histórica, com margem de incerteza de ±0,13°C, o que faz dele provavelmente o primeiro ano-calendário acima de 1,5°C. A estimativa mais baixa para 2025 não demonstra que o aquecimento tenha sido revertido, sobretudo quando o calor dos oceanos e o desequilíbrio energético da Terra atingiram recordes.
A sequência de avaliações e marcos políticos é a seguinte:
- Na COP26, em 2021, o Vietnã se comprometeu a atingir emissões líquidas zero até 2050.
- Em 2024, a temperatura global anual provavelmente ultrapassou 1,5°C acima da linha de base histórica pela primeira vez.
- Em 28 de maio de 2025, a OMM divulgou sua previsão para o período de 2025 a 2029.
- Em 23 de março de 2026, a OMM confirmou que 2015 a 2025 foram os 11 anos mais quentes já registrados.
- Em 10 e 11 de outubro de 2026, o primeiro diálogo de Quy Nhon testou um formato destinado a apoiar encontros anuais a partir de 2027.
Vietnã busca crescimento com redução das emissões
Em Quy Nhon, Dung apresentou cinco princípios: vincular a ação climática ao desenvolvimento; tornar a transição justa e adequada às condições nacionais; alinhar a ambição ao financiamento, à tecnologia e à capacidade de execução; colocar as pessoas no centro; e usar o conhecimento como base para a ação.
Ele argumentou que a redução das emissões de gases de efeito estufa deve ocorrer em paralelo ao crescimento econômico, à segurança energética, alimentar e hídrica e à estabilidade social. Para uma economia em desenvolvimento, isso significa avaliar como as medidas climáticas afetam a produção e os meios de subsistência, em vez de medir o sucesso apenas pelo total de emissões.
Emissões líquidas zero significa equilibrar as emissões remanescentes de gases de efeito estufa com as remoções. Portanto, o compromisso do Vietnã para 2050 estabelece um destino para a economia, mas não especifica, por si só, cada investimento, escolha tecnológica ou cronograma necessário para alcançá-lo.
Dung também rejeitou um modelo de transição único para todos os países. Diferenças no desenvolvimento, na estrutura econômica, na infraestrutura energética, na capacidade tecnológica e na exposição a riscos climáticos exigem caminhos distintos. Ele reafirmou o apoio ao Acordo de Paris e ao princípio de que os países compartilham responsabilidades, mas têm capacidades e circunstâncias diferentes.
Entre os pilares de desenvolvimento declarados pelo Vietnã estão a economia verde, a economia circular, a economia do conhecimento e a economia digital, articuladas com ciência, tecnologia e inovação. Nesse modelo, a resiliência climática e a redução das emissões devem contribuir para a modernização e a competitividade, em vez de funcionar como objetivos de políticas separados.
Grandes volumes de investimento não garantem acesso a financiamento
Os números apresentados no diálogo projetaram investimentos globais em energia de cerca de US$ 3,4 trilhões em 2026. Esperava-se que aproximadamente US$ 2,2 trilhões fossem destinados a energia limpa, redes elétricas, armazenamento, eficiência energética, eletrificação e tecnologias de baixas emissões.
Essas categorias representam aproximadamente 65% do total projetado, cálculo obtido pela divisão de US$ 2,2 trilhões por US$ 3,4 trilhões. Cerca de US$ 1,2 trilhão fica fora das categorias listadas, embora os números apresentados não detalhem o destino desse restante.
As estimativas de investimento ilustram a dimensão da transição, mas são projeções globais citadas no encontro, não alocações confirmadas para o Vietnã. Também abrangem diversas atividades. Investimentos em redes, armazenamento e eficiência energética são importantes, assim como a construção de nova capacidade de geração.
Dung defendeu a articulação entre recursos públicos, financiamento em condições favoráveis, bancos multilaterais de desenvolvimento, fundos climáticos e capital privado. Seu argumento foi além da necessidade de obter mais dinheiro: os países em desenvolvimento também precisam de financiamento acessível, acesso a tecnologias adequadas e capacidade interna para executar projetos.
Essa distinção é central para o objetivo prático do diálogo. Um grande volume global de investimentos não mostra se um país ou projeto específico consegue obter financiamento a um custo aceitável. Os relatos do encontro não especificaram novos pacotes de financiamento, alocações para projetos ou cronogramas de desembolso.
Pessoas e resiliência fazem parte da mesma transição
Dung propôs avaliar o sucesso por meio de vários resultados: maior proteção contra desastres, acesso a novas habilidades e empregos, oportunidades para as empresas inovarem e participação de grupos vulneráveis nos benefícios do desenvolvimento. A redução das emissões e o capital mobilizado continuariam relevantes, mas não seriam indicadores suficientes por si sós.
Essa abordagem conecta duas tarefas distintas. Reduzir as emissões enfrenta as causas do aquecimento, enquanto a adaptação diminui os danos provocados pelas condições climáticas que já ocorrem ou são esperadas. O diálogo inseriu ambas na mesma agenda de desenvolvimento.
Entre os temas práticos identificados para discussão estavam a resiliência das cidades, da infraestrutura e dos sistemas de produção, a segurança energética, o capital acessível, as mudanças tecnológicas e a qualificação da força de trabalho. Essas prioridades relacionam os alertas da OMM sobre calor, chuvas intensas e ciclones tropicais às decisões sobre investimentos e serviços públicos.
Dung também ressaltou o compartilhamento de tecnologia, modelos computacionais e dados de observação. Cientistas e especialistas teriam a função de transferir conhecimento aos países em desenvolvimento, abrindo espaço para que pesquisadores mais jovens contribuam com as discussões de políticas públicas.
Seis prioridades definem a orientação das políticas
O Vietnã identificou seis diretrizes gerais para a ação climática e a transição verde. Elas combinam mudanças nas políticas internas com financiamento, segurança energética, adaptação e cooperação internacional:
- Melhorar as instituições e os marcos de políticas públicas que apoiam a transição.
- Promover ciência, tecnologia e inovação.
- Diversificar os recursos para responder às mudanças climáticas.
- Proteger a segurança energética ao avançar em direção a uma energia verde e sustentável.
- Adaptar-se de forma proativa e promover soluções baseadas na natureza.
- Fortalecer a cooperação e a diplomacia climáticas.
Soluções baseadas na natureza usam ecossistemas para ajudar a enfrentar desafios climáticos e de desenvolvimento. Entre as prioridades delineadas em Quy Nhon, elas fazem parte da adaptação, mas não substituem a redução das emissões nem o fortalecimento da infraestrutura.
As seis diretrizes descrevem uma agenda de políticas públicas, não uma nova lei ou um plano de implementação financiado. Sua importância está na combinação: as escolhas tecnológicas exigem instituições e financiamento, enquanto as mudanças no setor energético precisam levar em conta a resiliência e as necessidades nacionais de desenvolvimento.
Fórum experimental busca resultados além do encontro
O diálogo foi organizado pela Rencontres du Vietnam e pelo ICISE, com apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), sob o patrocínio do Ministério da Ciência e Tecnologia do Vietnã e com assistência da administração provincial de Gia Lai.
Os organizadores descreveram o evento de 2026 como Versão Zero, uma experiência inicial destinada a testar o conteúdo, o formato das discussões e a organização antes do início das edições anuais, em 2027. O encontro não foi um processo de negociação intergovernamental e não tinha o objetivo de produzir declarações ou compromissos oficiais.
Dung propôs três pilares para o fórum: ciência e evidências, problemas práticos da transição e cooperação que continue após o fim das discussões. Ele defendeu programas de pesquisa, propostas de políticas públicas e iniciativas que pudessem ser implementadas, apoiados por relações duradouras entre cientistas, formuladores de políticas, organizações internacionais, instituições financeiras e empresas.
O professor Tran Thanh Van, presidente da Rencontres du Vietnam e diretor do ICISE, também argumentou que a transição deve ajudar os países em desenvolvimento a responder às mudanças climáticas, criar empregos e melhorar os padrões de vida, em vez de restringir o desenvolvimento. Ele apontou novas parcerias e ações práticas como medidas de sucesso e manifestou a esperança de que o Vietnã e o Sudeste Asiático tenham uma voz mais forte.
O próximo passo previsto é avançar para diálogos anuais a partir de 2027. Dung pediu que ministérios e órgãos pertinentes trabalhem com Gia Lai, a Rencontres du Vietnam e o ICISE para avaliar as opiniões dos participantes e elaborar programas futuros. Os relatos do evento não identificam parcerias de pesquisa específicas, compromissos de financiamento ou prazos de implementação.
Principais pontos
- A OMM confirmou que 2015 a 2025 foram os 11 anos mais quentes já registrados.
- A temperatura global em 2025 ficou cerca de 1,43°C acima da média de 1850 a 1900.
- O desequilíbrio energético da Terra e o conteúdo de calor dos oceanos atingiram recordes em 2025.
- A previsão da OMM de maio de 2025 projetou 80% de probabilidade de que um ano entre 2025 e 2029 superasse o recorde de temperatura de 2024.
- O Vietnã busca um crescimento acelerado e mantém o compromisso de atingir emissões líquidas zero até 2050.
- O encontro de Quy Nhon foi um diálogo experimental, não uma negociação para assumir compromissos oficiais.
- As edições anuais devem começar em 2027, com ênfase em pesquisa, cooperação em políticas públicas e ações práticas.






