Um em cada três usuários que relataram problemas de saúde mental aceitou diagnósticos de IA
A Coreia do Sul publicou novas orientações contra tratar conversas com chatbots como diagnósticos médicos depois que uma pesquisa do governo constatou que 33,9% dos entrevistados que avaliaram sua saúde mental como ruim tinham se diagnosticado com uma doença mental usando IA ou aceitado as respostas da tecnologia como avaliações médicas. Entre todos os entrevistados, a proporção foi de 14,6%, enquanto apenas 11,9% tinham conferido orientações de IA sobre saúde mental com um profissional ou informações oficiais.
Conteúdo
- Um em cada três usuários que relataram problemas de saúde mental aceitou diagnósticos de IA
- O que a pesquisa mede
- Por que as pessoas se abrem com chatbots
- Quando o conselho vira diagnóstico
- A dependência pode afetar o sono e decisões importantes
- Privacidade percebida não é proteção de dados
- Adolescentes precisam de mais do que responsáveis informados
- Evidências clínicas não validam todos os chatbots
- Quais são os próximos passos do governo
- Principais pontos
O Ministério da Saúde e Bem-Estar e a Associação Coreana de Neuropsiquiatria divulgaram as orientações sobre IA e saúde mental na quinta-feira, 8 de outubro de 2026, antes do Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro. O documento contém 21 recomendações para o público em geral e mais sete para crianças e adolescentes e outras sete para seus responsáveis.
Outro resultado torna o alerta particularmente urgente: entre 115 entrevistados que relataram à IA sofrimento psicológico, confusão ou situações graves envolvendo depressão, autolesão ou impulsos suicidas, 49,6% não tomaram nenhuma medida além de encerrar a conversa. As orientações direcionam pessoas em crise de saúde mental a buscar apoio de pessoas de confiança e serviços profissionais, em vez de continuar dependendo de um chatbot.
A política não proíbe conversas emocionais com IA nem certifica serviços específicos como seguros. Ela estabelece uma distinção entre obter informações ou conforto e atribuir a uma máquina a responsabilidade por diagnósticos, tratamentos ou decisões pessoais importantes.
Lee Sun-young, diretora-geral de políticas de saúde mental do ministério, explicou por que um tom tranquilizador não deve ser confundido com confiabilidade médica:
A IA generativa pode servir como uma nova ferramenta para obter informações e apoio emocional, mas respostas amigáveis e confiantes não garantem necessariamente precisão ou segurança.
O que a pesquisa mede
O Instituto Coreano de Saúde e Assuntos Sociais supervisionou a pesquisa online, realizada pela Korea Research de 25 de agosto a 4 de setembro de 2026. O levantamento abrangeu 1.019 pessoas de 15 a 79 anos que haviam usado IA generativa no mês anterior.
Esse recorte da amostra é importante. Os resultados descrevem usuários recentes de IA, não toda a população sul-coreana. Os entrevistados também relataram suas próprias experiências e percepções. A pesquisa não demonstra que a IA tenha causado doenças mentais nem que as pessoas que se descreveram como dependentes tivessem um diagnóstico clínico.
Na amostra, 112 entrevistados avaliaram sua saúde mental como ruim. A taxa de aceitação de diagnósticos de IA nesse grupo foi de 33,9%, ante 18,2% entre aqueles que avaliaram sua saúde mental como mediana e 9,3% entre os que a avaliaram como boa. Portanto, o grupo que relatou saúde mental ruim apresentou esse comportamento a uma taxa cerca de 3,6 vezes maior que a do grupo com saúde mental boa.
Os números, por si só, não permitem determinar a direção dessa relação. Pessoas que já enfrentam dificuldades podem recorrer mais prontamente a chatbots, enquanto as interações com eles podem influenciar a maneira como entendem seus sintomas. O que a pesquisa demonstra é que usuários que relataram maior sofrimento também tinham mais probabilidade de tratar respostas de IA como conclusões médicas.
Por que as pessoas se abrem com chatbots
A maioria dos entrevistados, 81,3%, teve o primeiro contato com a IA generativa por meio de estudos, trabalho, pesquisas de informação ou aquisição de conhecimento. Desde então, o uso se estendeu à vida emocional: 68,8%, ou 701 pessoas, disseram usar a tecnologia para conversas cotidianas, conexão emocional, conforto ou aconselhamento psicológico.
As finalidades atuais se sobrepunham. Cerca de 54,4% usavam IA para conversas cotidianas ou companhia, 48,4% para conexão emocional e conforto e 44,1% para saúde mental ou aconselhamento psicológico. Essas porcentagens não devem ser somadas, pois os entrevistados podiam selecionar mais de uma finalidade.
Entre os usuários que recorriam à IA por motivos emocionais, 85,6% valorizavam poder conversar a qualquer hora e em qualquer lugar, e 77,6% mencionaram a facilidade de encerrar uma conversa. Outros 71,9% queriam evitar fofocas, 70,9% relutavam em conversar sobre o assunto com pessoas conhecidas e 62,6% não queriam preocupar os outros.
Muitos relataram benefícios práticos. Entre todos os entrevistados, 79,9% disseram que respostas ou conselhos da IA os ajudaram ou resolveram um problema. Mais especificamente, 54,9% disseram que as conversas os ajudaram a organizar sua situação, 49,7% afirmaram que elas ajudaram a refletir sobre as causas das emoções e 49,8% aprenderam sobre informações ou serviços de saúde mental.
Esses relatos medem a utilidade percebida, não a recuperação clínica. Ainda assim, ajudam a explicar por que o governo optou por orientar sobre o uso mais seguro, em vez de rejeitar a tecnologia por completo.
Quando o conselho vira diagnóstico
O ministério alerta contra usar conversas com IA para concluir que alguém tem depressão, transtorno de ansiedade ou outra doença mental. A avaliação que um chatbot faz de sintomas ou riscos não deve ser aceita como julgamento médico definitivo.
A pesquisa constatou que 16,5% dos entrevistados confundiram respostas confiantes da IA, inclusive conselhos falsos ou prejudiciais, com opiniões de especialistas. Esse resultado aponta para um problema diferente da precisão factual: uma resposta pode soar confiável mesmo quando seu raciocínio não é confiável ou seu conselho não se aplica às circunstâncias da pessoa.
As orientações recomendam conferir informações sobre saúde mental em materiais verificados por associações médicas e órgãos do governo ou consultar profissionais qualificados. Também aconselham os usuários a considerar outras explicações e perspectivas, em vez de tratar a concordância de um chatbot como prova de que sua própria interpretação está correta.
Choi Joon-ho, presidente da Associação Coreana de Neuropsiquiatria, descreveu o escopo de uma avaliação adequada:
Os problemas de saúde mental devem ser avaliados levando em conta as circunstâncias de vida de cada pessoa, suas relações interpessoais, as mudanças nos sintomas e o impacto deles no funcionamento cotidiano, em vez de se concentrar em um único sintoma.
Essa distinção importa porque uma conversa sobre um sintoma pode deixar de fora sua duração, as mudanças ao longo do tempo, outros problemas de saúde e os efeitos na vida diária. Choi também afirmou:
A IA não pode substituir a avaliação e o tratamento profissionais, por isso é importante que as pessoas procurem assistência médica em tempo hábil quando necessário.
A dependência pode afetar o sono e decisões importantes
Entre todos os entrevistados, 16,3% disseram que continuavam conversando com a IA mesmo quando queriam parar e se concentrar em atividades fora da conversa. Outros 9,8% relataram que a dificuldade de controlar o tempo das conversas havia prejudicado o sono ou a vida cotidiana.
Essas experiências foram mais comuns entre os 449 entrevistados que usavam IA especificamente para saúde mental ou aconselhamento psicológico. Nesse grupo, 23,4% tinham dificuldade para interromper as conversas e 15,1% relataram prejuízos ao sono ou às atividades diárias.
A diferença também apareceu nas decisões importantes. Na amostra completa, 10,6% tinham seguido conselhos da IA sobre questões como pedir demissão ou terminar um relacionamento sem consultar outras pessoas. Entre os usuários que recorriam à IA para aconselhamento, a proporção foi de 17,8%, uma diferença de 7,2 pontos percentuais.
Por isso, as recomendações vão além de limitar o tempo de tela. Os usuários devem decidir previamente sobre o que vão conversar e quando vão parar, evitar tratar a IA como uma pessoa real e reduzir as interações se as conversas com o chatbot começarem a tomar o lugar das relações com familiares ou amigos. Decisões importantes devem ser discutidas com pessoas de confiança ou profissionais qualificados.
Os resultados sobre crises mostram por que encerrar uma conversa pode não ser suficiente. Entre 146 entrevistados que receberam respostas desagradáveis ou prejudiciais da IA, 45,9% ignoraram o problema ou continuaram conversando. As orientações, por sua vez, recomendam interromper interações perigosas e buscar ajuda humana. O documento indica o número 109, linha de prevenção do suicídio da Coreia do Sul, e o 1577-0199, linha de aconselhamento para crises de saúde mental, como canais de apoio.
Privacidade percebida não é proteção de dados
O atrativo de conversar sem medo de fofoca não significa que a conversa seja confidencial. O ministério constatou que 38,0% dos entrevistados temiam que suas conversas fossem vazadas ou usadas para outros fins.
As medidas de proteção variavam. Cerca de 61,0% filtravam informações privadas que não contariam a outras pessoas, 56,6% anonimizavam ou omitiam detalhes que identificassem uma pessoa ou organização e 50,8% mudavam de assunto ou paravam quando sentiam que estavam compartilhando demais.
As orientações recomendam verificar a finalidade de um serviço, o público a que se destina, as evidências de eficácia e suas práticas de tratamento de dados pessoais antes de usá-lo como apoio à saúde mental. Se um serviço alegar oferecer benefícios médicos, os usuários devem conferir se autoridades reconhecidas o verificaram ou aprovaram.
Nomes, números de telefone e endereços não devem ser informados, assim como documentos confidenciais, como atestados de diagnóstico, receitas médicas ou resultados de exames. Para usuários jovens, as recomendações também indicam que nomes de escolas e fotografias devem ser protegidos.
A proteção de dados também era uma prioridade para os entrevistados: 66,8% queriam regras para o armazenamento e o uso dos registros de conversas, além de garantias de controle por parte dos usuários. A relação é direta. Recomendações para proteger informações pessoais são mais úteis quando os serviços também explicam o que coletam, armazenam e reutilizam.
Adolescentes precisam de mais do que responsáveis informados
Entre os 201 entrevistados de 15 a 18 anos, 69,2% usavam IA para fins emocionais, índice próximo aos 68,8% registrados na amostra completa. O resultado mais expressivo foi o de dependência: 51,7% se descreveram como dependentes da IA, a maior proporção entre todas as faixas etárias.
O ministério descreve esse resultado como dependência percebida. Alguns relatos descrevem o mesmo número de forma mais específica, como depender mais da IA do que de outras pessoas. Nenhuma das descrições deve ser interpretada como diagnóstico clínico de vício.
Embora 83,1% dos adolescentes entrevistados tenham dito que seus responsáveis sabiam que eles usavam IA, apenas 2,5% haviam combinado regras de uso com um responsável. A diferença entre estar ciente e ter regras acordadas em conjunto é de 80,6 pontos percentuais, embora os números não mostrem que a ciência dos responsáveis, por si só, evite o uso prejudicial.
As recomendações específicas para jovens pedem que as crianças considerem suas próprias ideias e circunstâncias antes de seguir conselhos da IA, reconheçam que podem encerrar uma conversa quando quiserem e verifiquem se estão tratando personagens de IA como amigos reais ou parceiros românticos. Respostas perigosas devem ser compartilhadas com adultos de confiança, em vez de serem enfrentadas sem ajuda.
Os responsáveis são aconselhados a ouvir como e por que as crianças usam IA, verificar se o serviço é adequado à idade e conferir as configurações de privacidade, além de combinar regras em conjunto em vez de impor proibições gerais. Também devem observar o aumento do uso, o enfraquecimento das relações humanas e sinais de crise. Conselheiros escolares, centros de aconselhamento Wee Class e serviços de aconselhamento para jovens, incluindo o 1388, são indicados como opções de apoio.
O alerta surge em meio a um aumento dos atendimentos a jovens: os cuidados psiquiátricos para menores de 18 anos cresceram 76,6% entre 2020 e 2024. Resultados separados sobre privação de sono entre estudantes mostraram que 46,7% dos alunos de escolas de ensino médio regulares dormiam menos de seis horas. Esses estudos não demonstram uma relação com o uso de chatbots, mas ajudam a explicar por que a proteção do sono e o acesso a cuidados profissionais são importantes nas orientações para adolescentes.
Evidências clínicas não validam todos os chatbots
Uma revisão sobre psiquiatria digital publicada online na revista Clinical Psychopharmacology and Neuroscience em 1º de outubro de 2025 descreve tanto benefícios potenciais quanto limitações sérias. Ela examina ensaios e outras pesquisas sobre chatbots criados para intervenções em saúde mental, em vez de tratar todos os sistemas de conversação como equivalentes.
A revisão cita um ensaio clínico randomizado do Therabot que apontou reduções médias de sintomas de 51% para transtorno depressivo maior e 31% para transtorno de ansiedade generalizada. Também discute ferramentas estruturadas baseadas na terapia cognitivo-comportamental, que ajuda as pessoas a examinar as relações entre pensamentos, sentimentos e comportamento.
Esses resultados não demonstram que um chatbot genérico ofereça diagnósticos confiáveis ou tratamentos seguros. Os produtos diferem em concepção, conteúdo terapêutico e supervisão. A própria revisão aponta a escassez de evidências sobre efeitos duradouros e a necessidade de testes mais robustos de sistemas generativos para detectar informações falsas, respostas inconsistentes e comportamentos inseguros.
Entre as preocupações de segurança estão respostas prejudiciais durante crises, o reforço de crenças delirantes, vieses e riscos à privacidade. A revisão recomenda procedimentos para crises supervisionados por pessoas, governança mais rigorosa dos dados de saúde mental e atendimento que combine ferramentas de IA com profissionais clínicos, sem substituí-los.
Quais são os próximos passos do governo
O anúncio do ministério vem depois de compromissos de políticas anteriores e estabelece um cronograma para orientações mais específicas:
- Janeiro de 2025: a Coreia do Sul publicou as Diretrizes de Aprovação e Análise de Dispositivos Médicos de IA Generativa, discutidas na revisão acadêmica.
- 27 de março de 2026: o Terceiro Plano Básico de Bem-Estar em Saúde Mental, válido de 2026 a 2030, incluiu planos para orientações sobre dependência de IA.
- 9 de junho de 2026: medidas governamentais para prevenir o suicídio entre adolescentes também estabeleceram planos para a publicação de orientações.
- De 25 de agosto a 4 de setembro de 2026: foi realizada a pesquisa com 1.019 usuários recentes de IA generativa.
- 8 de outubro de 2026: o ministério e a associação de psiquiatria divulgaram recomendações para usuários e responsáveis.
- 2027: o ministério planeja orientações específicas para grupos de maior risco, incluindo pessoas com doenças mentais graves.
O apoio público a medidas de intervenção foi amplo: 86,9% disseram que o governo tinha um papel a desempenhar no enfrentamento de problemas associados ao uso de IA. Desse total, 45,0% eram favoráveis a orientações e 41,9%, à regulamentação legal. Cerca de 68,7% apontaram como prioridades urgentes as diretrizes sobre IA e saúde mental e as mudanças nos marcos legais.
As orientações para usuários e a fiscalização de produtos tratam de responsabilidades diferentes. As orientações da Organização Mundial da Saúde de janeiro de 2024 sobre modelos multimodais de grande escala, sistemas que processam informações como textos e imagens, alertaram sobre o viés de automação, isto é, a confiança excessiva em resultados produzidos por máquinas. A organização recomendou auditorias independentes e avaliações de impacto após a implantação em larga escala, com divulgação pública dos resultados.
As novas recomendações da Coreia do Sul não avaliam nem endossam serviços específicos. O ministério planeja programas educativos para escolas e ambientes clínicos, mas o anúncio não apresenta datas exatas para esses programas nem para as orientações de 2027. Também não anuncia uma nova lei vinculante que regule todos os chatbots de apoio emocional.
Principais pontos
- A Coreia do Sul publicou orientações sobre IA e saúde mental em 8 de outubro de 2026, com 21 recomendações gerais e outras sete para jovens usuários e sete para responsáveis.
- Entre os entrevistados que relataram saúde mental ruim, 33,9% aceitaram avaliações da IA como diagnósticos ou usaram a tecnologia para se diagnosticar.
- Apenas 11,9% de todos os entrevistados conferiram orientações de IA sobre saúde mental com profissionais ou informações oficiais.
- A dificuldade para encerrar conversas e a tendência a seguir apenas conselhos da IA foram mais comuns entre usuários que recorriam à tecnologia para aconselhamento psicológico.
- Entre os adolescentes entrevistados, 51,7% relataram dependência, enquanto apenas 2,5% tinham combinado regras de uso com seus responsáveis.
- As orientações recomendam proteger a privacidade, consultar pessoas e buscar ajuda profissional em crises. Recomendações específicas estão previstas para 2027.






