Autorização de greve pressiona conselho da Micron
Os trabalhadores das operações da Micron Technology em Taoyuan, Taiwan, autorizaram uma greve por ampla maioria, pressionando a fabricante americana de chips de memória a negociar um sistema permanente de participação nos lucros. Dos 2.258 integrantes do sindicato aptos a votar, 2.012 votaram entre 1º e 6 de outubro de 2026. Foram 1.994 votos a favor, 14 contra e quatro cédulas inválidas.
Conteúdo
- Autorização de greve pressiona conselho da Micron
- O que a votação autoriza
- Uma fórmula de participação nos lucros em vez de pagamentos discricionários
- Por que o pacote de setembro não encerrou a disputa
- Comparações entre dinheiro e ações alimentam queixas dos trabalhadores
- Como o fundo proposto se compara ao dos concorrentes
- Lucros excepcionais elevam a pressão
- O risco para a produção depende do alcance da greve
- Negociações separadas, reivindicações coordenadas
- As próximas datas importantes
- Principais pontos
O sindicato anunciou o resultado em 7 de outubro, mas não definiu uma data para a greve. O presidente Jerry Lin disse que os integrantes poderiam receber uma mensagem de texto convocando uma paralisação surpresa caso a empresa não apresentasse propostas concretas após as reuniões do conselho marcadas para 8 e 9 de outubro, no horário dos EUA. Segundo o sindicato, o pouco tempo de aviso reduziria a possibilidade de a empresa se preparar.
A reivindicação vai além de um bônus maior neste ano. Os sindicatos de Taoyuan e Taichung querem que 15% do lucro operacional da Micron sejam destinados à remuneração dos funcionários, incluindo uma distribuição trimestral permanente a partir do ano fiscal de 2027. Também reivindicam um pagamento adicional referente ao ano fiscal de 2026, que, segundo estimam, poderia equivaler a cerca de 83 meses de salário por funcionário em Taiwan.
A Micron afirma respeitar os direitos legais dos funcionários, levar suas preocupações a sério e manter o diálogo e a mediação. O Ministério do Trabalho de Taiwan instou a empresa a apresentar propostas concretas e viáveis. A questão imediata é saber se as negociações conseguirão reduzir a distância entre o pacote excepcional de remuneração da Micron e a demanda dos sindicatos por uma fórmula previsível, válida para além de um único ano de alta lucratividade.
O que a votação autoriza
Segundo dirigentes sindicais, a votação dá ao sindicato de Taoyuan autorização para convocar uma greve e montar piquetes. Isso não significa que a paralisação tenha começado. O momento, a adesão e o formato exato de qualquer ação ainda não foram definidos.
Os totais da votação também explicam por que as porcentagens divulgadas variam ligeiramente. Os 1.994 votos a favor representam 88,3% do total de integrantes aptos a votar e aproximadamente 99,1% das 2.012 cédulas depositadas, incluindo as inválidas. Reportagens que apontam apoio de 99% estão usando um valor arredondado. A participação foi de aproximadamente 89,1%, às vezes arredondada para 89%.
O secretário sindical Chen Yan-kai relacionou diretamente o resultado à insatisfação com o Incentive Pay Plan (IPP) da Micron, seu sistema anual de bônus por desempenho.
A votação "mostra a desconfiança dos funcionários no sistema IPP".
A mediação em Taoyuan terminou sem acordo em setembro. Agora, o sindicato combina a autorização para a greve com a exigência de novas negociações, em vez de anunciar uma paralisação imediata.
Uma fórmula de participação nos lucros em vez de pagamentos discricionários
A principal proposta dos sindicatos é substituir o que descrevem como um sistema de bônus pouco transparente por pagamentos vinculados a uma medida divulgada do desempenho da empresa. O lucro operacional é o valor que uma empresa obtém após descontar as despesas operacionais, mas antes de itens como juros e impostos sobre a renda. Vincular a esse indicador um fundo de bônus faria seu valor variar conforme os resultados operacionais da empresa.
As reivindicações conjuntas incluem um bônus adicional referente ao ano fiscal de 2026, calculado com base em 15% do lucro operacional global, seguido de distribuições trimestrais com o mesmo percentual a partir do ano fiscal de 2027. Os sindicatos também querem cláusulas que tratem dos funcionários que se beneficiem de um acordo sem participar do sindicato e proteção contra retaliações por atividade sindical. A redação contratual exata ainda não foi divulgada.
Lin, presidente do sindicato de Taoyuan, descreveu assim o objetivo da reforma proposta:
O que queremos é estabelecer um sistema de participação nos lucros aberto e transparente.
Os sindicatos afirmam que não exigem pagamentos elevados durante períodos de prejuízo. Argumentam que os funcionários assumem riscos empresariais nas fases de baixa e devem receber uma parcela definida quando a demanda e os lucros aumentam. Também dizem que a Micron já distribuiu aos funcionários 10% do lucro líquido trimestral. Esse modelo anterior, conforme descrito pelos sindicatos, usava um indicador contábil diferente do lucro operacional proposto agora.
Por que o pacote de setembro não encerrou a disputa
Em setembro, a Micron anunciou recompensas referentes ao ano fiscal de 2026 para mais de 60 mil funcionários no mundo todo, após o que a empresa chamou de "ano extraordinário". Para os funcionários elegíveis em Taiwan, o pacote incluiu um bônus em dinheiro de NT$ 1 milhão, prêmios anuais por desempenho que, segundo relatos, chegaram a até 500% da meta básica, além de remuneração adicional em ações.
As descrições do pacote variam. Uma versão aponta um mínimo de NT$ 1,7 milhão em remuneração em dinheiro para os funcionários de Taiwan, enquanto outras identificam o pagamento de NT$ 1 milhão como um dos componentes. Outra descreve o pacote como equivalente a até 68 meses de salário. Esses valores usam definições diferentes de remuneração e não devem ser tratados como quantias equivalentes garantidas a todos os trabalhadores.
Os sindicatos rejeitaram o pacote porque ele não criou o mecanismo permanente que reivindicavam. Também criticaram a Micron por anunciar as recompensas enquanto a mediação estava em andamento, sem antes chegar a um acordo com eles. A Micron não vinculou o anúncio das recompensas do ano fiscal de 2026 à disputa trabalhista em Taiwan.
A diferença está entre o valor de um pagamento específico e as regras que determinam os pagamentos futuros. Mesmo um prêmio excepcional elevado pode deixar os funcionários sem saber quem tem direito a recebê-lo, como o valor é calculado e o que acontecerá no próximo ano fiscal. Os sindicatos pedem que a direção negocie essas regras, além do valor deste ano.
Comparações entre dinheiro e ações alimentam queixas dos trabalhadores
Os sindicatos citam a remuneração do ano fiscal de 2025 como evidência de acesso desigual aos ganhos da empresa. Segundo eles, o fator de desempenho global do IPP para os funcionários foi de 93,9%, o que resultou em bônus de desempenho em Taiwan inicialmente equivalentes a cerca de 2,3 meses de salário e posteriormente ajustados para 2,6 meses. Eles comparam esse valor à remuneração anual em dinheiro por desempenho do diretor-executivo, que calculam como equivalente a 32,4 meses de salário.
Essa comparação exige uma ressalva: os prêmios dos funcionários e do executivo foram concedidos por programas diferentes. Expressar cada prêmio como número de meses do salário do beneficiário não demonstra que os programas tivessem as mesmas metas, condições ou métodos de cálculo. O sindicato reconhece a diferença, mas argumenta que a Micron deveria explicar por que as recompensas vinculadas ao desempenho da empresa divergem tanto.
Os prêmios em ações são outro ponto de conflito. O sindicato afirma que cerca de 40% dos funcionários de Taiwan receberam ações restritas em 2025. Qiao Yanxiang, representante sindical de Taichung, comparou esse percentual à cobertura quase universal nos Estados Unidos. Ações restritas são ações da empresa concedidas sob determinadas condições, que costumam incluir a permanência no emprego antes que se tornem integralmente propriedade do beneficiário.
O sindicato também cita uma média de aproximadamente 207 ações concedidas a funcionários no mundo todo em 2025, em comparação com 83.015 ações para o diretor-executivo, cerca de 400 vezes mais. Segundo o sindicato, em 2023, quando a Micron registrou prejuízo e cortou quase 15% de sua força de trabalho, o diretor-executivo recebeu cerca de 225 mil ações, aproximadamente 570 vezes a média global dos funcionários.
Essas comparações são do sindicato e não representam uma avaliação consensual de remunerações equivalentes. O sindicato afirma que a Micron anunciou posteriormente prêmios em ações para todos os funcionários, mas continua reivindicando regras mais claras de elegibilidade e distribuição.
Como o fundo proposto se compara ao dos concorrentes
Os sindicatos citam a Samsung Electronics e a SK Hynix como exemplos de fabricantes de memória cujas recompensas estão vinculadas aos lucros ou ao desempenho operacional. Também mencionam a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co., a Nanya Technology, a Winbond Electronics e a Powerchip Semiconductor Manufacturing como empresas que relacionam as recompensas dos funcionários aos resultados dos negócios.
Segundo relatos, um acordo da Samsung destinou aos bônus dos funcionários da divisão de semicondutores o equivalente a 10,5% do lucro operacional, com cerca de 78 mil funcionários elegíveis. Os sindicatos da Micron reivindicam 15%, uma diferença de 4,5 pontos percentuais. O percentual proposto é cerca de 43% superior ao percentual divulgado para a Samsung, mas isso, por si só, não permite determinar quais funcionários receberiam mais. Os lucros, o tamanho da força de trabalho, as regras de distribuição e a estrutura salarial afetam os pagamentos individuais.
Os sindicatos estimam que sua proposta para o ano fiscal de 2026 poderia gerar prêmios equivalentes a cerca de 83 meses de salário por funcionário em Taiwan. Esse é um cálculo deles, não um compromisso da empresa. Também argumentam que uma destinação de 15% não necessariamente colocaria os funcionários da Micron à frente de seus colegas coreanos.
A disputa inclui descrições divergentes dos limites dos bônus. Segundo relatos, o teto de desempenho do IPP atual é de 200%, o que corresponde a aproximadamente cinco meses de bônus, enquanto o pacote excepcional do ano fiscal de 2026 inclui prêmios de até 500% da meta básica. Essas descrições não devem ser confundidas como se fossem uma única regra. As negociações tratam tanto das recompensas excepcionais quanto da estrutura para os próximos anos.
Lucros excepcionais elevam a pressão
As reivindicações por remuneração surgem em meio à forte demanda por memória usada em infraestrutura de inteligência artificial. Dados divulgados para o ano fiscal de 2026 apontam receita de US$ 133,19 bilhões e lucro operacional de US$ 99,34 bilhões para a Micron no exercício encerrado em 3 de setembro. Esses números indicam uma margem operacional de aproximadamente 74,6%, calculada pela divisão do lucro operacional pela receita.
A aplicação dos 15% propostos pelos sindicatos a esse lucro operacional divulgado resultaria em um fundo global para os funcionários de aproximadamente US$ 14,9 bilhões. Esse cálculo ilustra a dimensão da reivindicação, mas não estabelece o direito de nenhum indivíduo a um valor específico. As regras de distribuição e os funcionários abrangidos determinariam os prêmios efetivos.
Outro relato aponta receita de aproximadamente US$ 133 bilhões no ano fiscal de 2026, um aumento de 256% em relação aos cerca de US$ 37 bilhões do ano anterior. Os valores arredondados de receita não reproduzem exatamente essa taxa de crescimento e, sem dados mais detalhados, não permitem uma comparação precisa.
Segundo relatos, as ações da Micron recuaram mais de 2% nas negociações nos EUA antes da abertura do mercado em 7 de outubro. A queda ocorreu quando a autorização para a greve se tornou pública, mas isso, por si só, não permite determinar quanto da baixa foi causado pela disputa trabalhista.
O risco para a produção depende do alcance da greve
Taiwan é um importante centro de fabricação de DRAM e de memória de alta largura de banda, conhecida pela sigla HBM, da Micron. A DRAM é usada como memória de trabalho em computadores e servidores. A HBM organiza chips de memória em pilhas para transferir grandes volumes de dados rapidamente, o que a torna valiosa para cargas de trabalho exigentes de inteligência artificial.
A fábrica de Taoyuan produz principalmente DRAM. Uma greve que interrompesse a manutenção dos equipamentos ou o monitoramento dos processos poderia reduzir a estabilidade da produção e a proporção de chips que atendem aos requisitos de qualidade. Uma interrupção mais longa poderia afetar gradualmente o volume produzido e a oferta. O impacto efetivo dependeria da adesão, da duração e dos planos de contingência da Micron.
Os relatos divergem sobre a parcela da produção da Micron localizada em Taiwan. Um deles estima que seja de 50% a 60% dos chips da empresa; outro, citando o sindicato, afirma que as unidades de Taoyuan e Taichung respondem por mais de 60% da produção global. Nenhum desses números significa que uma greve apenas em Taoyuan interromperia toda essa parcela da produção.
A Micron descreveu Taiwan como um centro de fabricação estratégico e afirmou ter investido mais de NT$ 1,6 trilhão na região. Uma interrupção poderia aumentar a pressão sobre um mercado de memória que já está apertado, mas não houve anúncio de perdas de produção, atrasos nas entregas ou impactos para clientes.
Negociações separadas, reivindicações coordenadas
A Micron emprega aproximadamente 15 mil pessoas em Taiwan. Estimativas locais apontam cerca de 3 mil funcionários em Taoyuan, dos quais aproximadamente 2.400 seriam sindicalizados, e 12.300 em Taichung, incluindo cerca de 11 mil integrantes do sindicato. Esses números aproximados por unidade não coincidem exatamente com o total nacional. Os relatos também variam entre quase 12 mil sindicalizados em Taiwan e mais de 80% da força de trabalho.
A distinção processual importante é que as duas localidades têm sindicatos independentes. Taoyuan obteve autorização para a greve, enquanto Taichung continua em negociação. A próxima sessão de mediação está marcada para 22 de outubro. A maioria dos relatos a descreve como a segunda sessão, enquanto um deles a chama de terceira; a data é a mesma.
Os sindicatos afirmam que apresentaram suas reivindicações em conjunto e que continuarão coordenados. O sindicato de Taichung pretende convidar representantes de Taoyuan para a mediação de 22 de outubro, a fim de discutir juntos as propostas da empresa. Taichung não anunciou uma decisão sobre greve.
A Micron afirmou que continuará se comunicando com os dois sindicatos. Em seu comunicado sobre a disputa, a empresa descreveu como pretende avançar:
Continuaremos seguindo os processos estabelecidos de diálogo e mediação.
O Ministério do Trabalho afirmou que a votação refletiu a expectativa dos funcionários por um sistema razoável de participação nos lucros. Classificou a greve como último recurso para garantir negociações em condições de igualdade e disse que trabalharia com o governo municipal de Taoyuan e o Escritório do Parque Científico da região central de Taiwan para apoiar novas conversas.
As próximas datas importantes
A sequência imediata de negociações envolve uma resposta do conselho, um ato público e novas sessões de mediação. O sindicato fez questão de diferenciar o ato de 19 de outubro de uma greve e incentivou os funcionários a tirar folga para participar.
- Setembro: A mediação em Taoyuan terminou sem acordo, e a Micron anunciou seu pacote de recompensas para o ano fiscal de 2026.
- De 1º a 6 de outubro: Os integrantes do sindicato de Taoyuan votaram sobre a autorização para greve; a apuração foi concluída em 6 de outubro.
- 7 de outubro: O sindicato anunciou o resultado e disse que uma greve surpresa continuava em consideração.
- 8 e 9 de outubro, no horário dos EUA: Reuniões do conselho previstas, após as quais os sindicatos esperavam propostas concretas.
- 19 de outubro: Ato previsto na Avenida Ketagalan, em Taipei, com participação por meio de folga dos funcionários, e não de uma greve formal.
- 22 de outubro: Mediação prevista em Taichung, com representantes de Taoyuan convidados a participar.
Nenhuma data para a greve ou acordo negociado foi anunciada. A fórmula de distribuição, o tratamento dos diferentes grupos de funcionários e as garantias relacionadas à participação sindical continuam sem solução. A autorização para a greve aumentou a pressão sobre a Micron, mas não encerrou as negociações nem confirmou que a produção será interrompida.
Principais pontos
- Os trabalhadores de Taoyuan aprovaram uma ação de greve com 1.994 votos a favor, equivalentes a 88,3% dos integrantes aptos a votar.
- Nenhuma data para a greve foi definida; o sindicato poderá avisar os integrantes por mensagem de texto.
- Os sindicatos reivindicam um bônus referente ao ano fiscal de 2026 e distribuições trimestrais permanentes com base em 15% do lucro operacional.
- O pacote excepcional de recompensas da Micron não atendeu às reivindicações por regras de remuneração transparentes e duradouras.
- O ato de 19 de outubro em Taipei não é uma greve formal; a mediação em Taichung está marcada para 22 de outubro.
- Qualquer impacto na produção dependerá da dimensão e da duração da paralisação e da resposta da empresa.






