Três números sobre a pobreza, três interpretações diferentes
O Banco Mundial estima que 71,7% da população de Timor-Leste estará abaixo de um limite internacional de pobreza de US$ 4,20 por pessoa por dia em 2026. O governo informa uma taxa nacional de pobreza de 37% em 2024, com base em uma pesquisa domiciliar mais recente. Um terceiro número, 44,3%, é a estimativa do Banco Mundial para 2026 usando um limite internacional mais baixo, de US$ 3,00.
Conteúdo
- Três números sobre a pobreza, três interpretações diferentes
- Por que o limite altera o resultado
- O que significa paridade de poder de compra
- Por que Timor-Leste é avaliado com duas linhas
- O que a referência de 2014 permite concluir
- As projeções indicam queda após 2023
- O que informa a pesquisa de 2024
- Por que dados domiciliares mais recentes importam
- A publicação de outubro é o próximo marco
- Principais pontos
Esses números diferem quanto ao ano de referência, ao limite de pobreza e às evidências utilizadas. A perspectiva Macro Poverty Outlook de abril de 2026 do Banco Mundial usa projeções baseadas na Pesquisa de Padrões de Vida de 2014, e não uma nova medição das condições dos domicílios em 2026. O número de 37% informado pelo governo vem da pesquisa de 2024 e usa a linha nacional de pobreza.
Em sua nota técnica, o Banco Mundial explica que as linhas internacionais de pobreza permitem comparações entre países, enquanto a linha nacional é a referência mais relevante para a política interna. Nem a estimativa internacional mais alta nem o resultado nacional mais baixo, por si só, refutam o outro.
O próximo passo é a publicação do relatório completo da pesquisa de 2024. Em 23 de setembro de 2026, o presidente do Instituto Nacional de Estatística, Elias dos Santos Ferreira, afirmou que o relatório estava finalizado, havia sido apresentado ao Conselho de Ministros e tinha divulgação prevista para outubro de 2026. A publicação deve fornecer as evidências detalhadas necessárias para analisar o novo resultado nacional e atualizar as estimativas internacionais do Banco Mundial.
Por que o limite altera o resultado
Uma linha de pobreza estabelece o nível mínimo de recursos usado para classificar alguém como pobre. Quando esse limite aumenta, mais pessoas ficam abaixo dele, mesmo que suas condições não tenham mudado. Nas estimativas do Banco Mundial para 2026, passar de US$ 3,00 para US$ 4,20 aumenta a parcela medida em 27,4 pontos percentuais, de 44,3% para 71,7%.
O Banco Mundial, instituição responsável pelas referências internacionais, explica diretamente a diferença:
Uma linha mais alta simplesmente estabelece um patamar mais elevado, o que significa que mais pessoas ficam abaixo dele e são classificadas como pobres. Isso, porém, não significa que as condições de vida tenham piorado.
Desde 2025, a instituição utiliza três limites internacionais: US$ 3,00 para países de baixa renda, US$ 4,20 para países de renda média-baixa e US$ 8,30 para países de renda média-alta. Cada valor é expresso por pessoa por dia em paridade de poder de compra de 2021, ou PPC.
Os limites se baseiam nas linhas nacionais de pobreza de grupos de países. US$ 3,00 corresponde à mediana das linhas nacionais de 25 países de baixa renda. US$ 4,20 corresponde à mediana em 47 países de renda média-baixa. A mediana é o valor central quando essas linhas nacionais são ordenadas da menor para a maior.
O que significa paridade de poder de compra
A PPC converte valores monetários em uma unidade comum que leva em conta as diferenças de preços entre países. O objetivo é comparar a quantidade de bens e serviços que as pessoas podem obter, em vez de simplesmente comparar moedas pelas taxas de câmbio de mercado. A referência a 2021 identifica a base de preços usada para esses limites internacionais.
Essa diferença é importante em Timor-Leste, onde linhas de pobreza expressas em valores diários em dólares podem parecer diretamente comparáveis, embora não sejam. Dados históricos indicam que a linha nacional de pobreza era de US$ 1,52 por pessoa por dia em 2014. O Banco Mundial informa que a linha nacional atual corresponde a US$ 2,93 em valores de PPC de 2021. Esses valores usam bases de preços e métodos de medição diferentes e não devem ser tratados como descrições concorrentes do mesmo limite em dólares.
A linha nacional reflete os preços e os padrões de consumo locais, incluindo o custo de necessidades básicas como alimentação, moradia, saúde e educação. Já as linhas internacionais fornecem referências comuns entre países. Sua utilidade depende da pergunta: comparar com outras economias ou avaliar a pobreza segundo a definição do próprio Timor-Leste.
Por que Timor-Leste é avaliado com duas linhas
O Banco Mundial classifica Timor-Leste como país de renda média-baixa porque sua renda nacional bruta por pessoa, medida pelo método Atlas, foi de US$ 1.510 em 2025. A faixa dessa categoria em 2026 vai de US$ 1.136 a US$ 4.495. Por isso, US$ 4,20 é a referência internacional de pobreza correspondente.
A renda nacional bruta por pessoa é uma média nacional, não uma medida do que cada domicílio recebe. Ela determina a classificação de renda do país, mas não mostra como os recursos são distribuídos nem substitui uma pesquisa domiciliar sobre pobreza.
O Banco Mundial também divulga resultados para o limite de US$ 3,00 porque Timor-Leste está perto da faixa inferior de sua categoria de renda e sua linha nacional de pobreza, de US$ 2,93 em PPC de 2021, é próxima desse limite. A diferença entre as duas linhas é de apenas US$ 0,07 por pessoa por dia nas mesmas unidades de PPC.
A nota técnica em tétum da instituição apresenta a mesma explicação. Divulgar as duas taxas internacionais reconhece a classificação formal de renda do país e, ao mesmo tempo, mantém uma referência mais próxima de sua linha nacional de pobreza. A proximidade entre os limites, porém, não torna uma taxa internacional projetada intercambiável com o resultado de uma pesquisa nacional.
O que a referência de 2014 permite concluir
As evidências domiciliares por trás da perspectiva de abril de 2026 vêm da Pesquisa de Padrões de Vida de Timor-Leste de 2014. Ela coletou informações detalhadas sobre o consumo de alimentos, bens e serviços, moradia, saúde e educação. Nos limites internacionais atualmente expressos em PPC de 2021, a pobreza medida nessa pesquisa foi de 44,0% para US$ 3,00 e 71,3% para US$ 4,20.
Para os anos seguintes, o Banco Mundial estima a pobreza usando premissas sobre como o crescimento do produto interno bruto por pessoa se traduz em mudanças na pobreza. Sua nota técnica classifica o período de 2015 a 2026 como estimativas e o de 2027 a 2028 como previsões. Nenhum desses números anuais representa uma medição feita por uma pesquisa domiciliar específica.
A Macro Poverty Outlook abrange 150 países em desenvolvimento e é publicada duas vezes por ano, antes das reuniões de primavera e das reuniões anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Essa periodicidade permite avaliações econômicas regulares, mas não significa que os dados domiciliares de cada país sejam atualizados duas vezes por ano.
O representante do Banco Mundial no país, David Freedman, explicou que os dados da pesquisa de 2024 não estavam disponíveis para uso quando a perspectiva de abril foi preparada. Seu esclarecimento é compatível com a nota técnica: o número de 71,7% é uma estimativa derivada de dados domiciliares mais antigos e de desenvolvimentos econômicos posteriores, não um resultado confirmado pela pesquisa de 2024.
As projeções indicam queda após 2023
A perspectiva de abril projeta que a pobreza, pelo limite de US$ 3,00, caia de 48,3% em 2023 para 42,1% em 2028. Isso representa uma queda de 6,2 pontos percentuais. Pelo limite de US$ 4,20, a redução projetada vai de 74,5% para 70,1%, uma queda de 4,4 pontos percentuais.
As estimativas para 2026 ficam entre esses dois extremos: 44,3% para US$ 3,00 e 71,7% para US$ 4,20. O Banco Mundial atribui a trajetória de queda ao crescimento econômico observado e esperado. A instituição não descreve a diferença entre os dois limites como evidência de piora nas condições de vida.
A comparação de longo prazo exige cautela. As estimativas para 2026 estão ligeiramente acima das taxas medidas diretamente em 2014: 0,3 ponto percentual para US$ 3,00 e 0,4 ponto percentual para US$ 4,20. Portanto, a queda projetada após 2023 não comprova uma redução contínua desde 2014. Trata-se de uma trajetória modelada cuja referência inicial continua sendo a pesquisa mais antiga.
O crescimento também não mostra como os ganhos chegam a cada domicílio. O crescimento real informado do PIB por pessoa foi de aproximadamente 1,1% em 2021, 2,5% em 2022, 1,2% em 2023, 3,1% em 2024 e 3,2% em 2025. Esses números descrevem a recuperação econômica, mas não podem confirmar, por si só, uma taxa de pobreza nem mostrar se os domicílios rurais se beneficiaram tanto quanto os urbanos.
O que informa a pesquisa de 2024
A taxa nacional de pobreza informada pelo governo caiu de 41,8% em 2014 para 37% em 2024, uma redução de 4,8 pontos percentuais. A nova pesquisa abrangeu cerca de 7.500 domicílios em Timor-Leste. Segundo relatos da apresentação do governo, os resultados resumidos foram aprovados pelo Conselho de Ministros.
Os números nacionais são diferentes da série internacional do Banco Mundial. Em particular, a taxa nacional de 41,8% em 2014 não é a mesma medida que os 44,0% registrados naquele ano para o limite de US$ 3,00 nem que os 71,3% para o limite de US$ 4,20.
Os resultados de 2024 também mostram uma diferença geográfica expressiva: a pobreza foi registrada em 45,5% nas áreas rurais e 18,4% nas urbanas. A diferença é de 27,1 pontos percentuais, e a taxa rural é cerca de 2,5 vezes a urbana. Essa comparação é mais útil para identificar prioridades internas do que subtrair os 37% nacionais dos 71,7% internacionais.
Os números das áreas rurais e urbanas, por si só, não explicam as causas dessa diferença. São necessários resultados detalhados sobre consumo, meios de subsistência e municípios para avaliar onde a privação se concentra e quais domicílios têm mais dificuldade para atender às necessidades básicas.
Por que dados domiciliares mais recentes importam
O período entre as duas pesquisas incluiu perturbações econômicas que uma projeção precisa captar por meio de premissas. Uma avaliação de 2021, divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, abrangeu cerca de 4.200 domicílios e 1.100 empresas. Ela constatou perdas de renda em 81% das micro, pequenas e médias empresas e perdas de emprego entre 43,3% das pessoas de 25 a 39 anos durante a pandemia.
Esses resultados não são taxas de pobreza e não podem ser convertidos em uma. Eles mostram, porém, por que uma média econômica não descreve sozinha a experiência de todos os domicílios. As respostas à pandemia incluíram transferências de dinheiro, subsídios, descontos na eletricidade, alívio temporário de impostos e parcelas de empréstimos, ajuda para necessidades básicas e apoio da previdência social formal. Para medir seu efeito sobre a pobreza, são necessários dados domiciliares, em vez de presumir que essas medidas eliminaram as dificuldades ou não fizeram diferença.
Os relatos divergem quanto à data dos dados nacionais de pobreza mais recentes. Um deles afirma que foram coletados em 2023 e pede uma nova pesquisa de padrões de vida. A nota técnica oficial do Banco Mundial identifica explicitamente a pesquisa mais recente como a Pesquisa de Padrões de Vida de 2024 e informa que sua análise foi concluída. Comunicados do governo também se referem à pesquisa de 2024 e à publicação futura de seu relatório.
O esclarecimento oficial, portanto, muda a questão imediata. Uma nova pesquisa já foi realizada e analisada. O que falta é a publicação de seus dados e das estatísticas nacionais de pobreza correspondentes, seguida de sua utilização em estimativas internacionais atualizadas.
A publicação de outubro é o próximo marco
O presidente do INETL, Elias dos Santos Ferreira, afirmou em 23 de setembro que a divulgação de outubro apresentaria resultados detalhados, a metodologia e orientações para interpretar os números de 2024. O instituto planeja convidar o Banco Mundial, parceiros de desenvolvimento, a sociedade civil e jornalistas. Nos relatos dessas declarações, não foi anunciada uma data específica em outubro para o lançamento.
A sequência explica por que resultados nacionais resumidos mais recentes e projeções internacionais mais antigas podem circular ao mesmo tempo:
- 2014: A pesquisa domiciliar estabeleceu a referência usada nas atuais projeções internacionais de pobreza.
- 2024: Uma nova Pesquisa de Padrões de Vida coletou dados domiciliares para a medida nacional atualizada.
- Abril de 2026: A Macro Poverty Outlook publicou estimativas baseadas na referência de 2014.
- 23 de setembro de 2026: O INETL anunciou que pretende divulgar em outubro o relatório finalizado de 2024.
- Outubro de 2026: A publicação planejada deve tornar acessíveis os resultados detalhados e a metodologia.
A vice-ministra das Finanças, Regina de Jesus de Sousa, contestou o número do Banco Mundial e apontou o resultado de 37% do governo. A diferença técnica é mais específica do que escolher entre um número correto e outro incorreto: os números se referem a anos, limites e métodos diferentes. Não é possível resolver a divergência comparando apenas as porcentagens.
A publicação deve permitir o exame da amostra, do questionário, das definições das linhas de pobreza, dos cálculos de consumo e dos resultados por município. Esses detalhes são importantes para avaliar a redução informada pelo governo e compreender a diferença entre as áreas rurais e urbanas. Um resumo aprovado pelo Conselho de Ministros não substitui as evidências necessárias para examinar como o resultado foi calculado.
O Banco Mundial afirma que as estimativas internacionais atualizadas substituirão as projeções atuais em futuras edições da perspectiva, após a publicação dos dados oficiais da pesquisa de 2024 e das estatísticas nacionais pertinentes. A instituição não especificou qual edição será a primeira a incluí-las nem quais serão as taxas revisadas. Até lá, o resultado de 37% da pesquisa nacional e as projeções internacionais de 2026 devem continuar identificados com suas respectivas datas e medidas.
Principais pontos
- As estimativas do Banco Mundial para 2026 são de 44,3% abaixo de US$ 3,00 e 71,7% abaixo de US$ 4,20, ambas em PPC de 2021.
- Essas estimativas usam a pesquisa domiciliar de 2014 como referência, e não medições diretas de 2026.
- O governo informa pobreza nacional de 37% em 2024, ante 41,8% em 2014.
- A pobreza informada nas áreas rurais é de 45,5%, ante 18,4% nas áreas urbanas.
- O INETL pretende publicar o relatório completo da pesquisa de 2024 em outubro de 2026.
- O Banco Mundial atualizará suas estimativas internacionais após a publicação dos novos dados oficiais e das estatísticas correspondentes.






