Idosos concentram as mortes enquanto os planos de vacinação se ampliam
O surto de encefalite japonesa no Nepal chegou a 121 infecções registradas e 26 mortes, segundo uma atualização que contabiliza casos desde junho; a taxa de letalidade é de 21,5%. Autoridades afirmam que 77% das pessoas que morreram tinham mais de 50 anos e que nenhuma delas havia sido vacinada. Os preparativos para a vacinação em Jhapa e em três governos locais de Kailali indicam uma mudança em direção à proteção de adultos que não são contemplados pela imunização infantil de rotina.
Conteúdo
- Idosos concentram as mortes enquanto os planos de vacinação se ampliam
- A doença de uma criança se transforma em anos de cuidados para a família
- O que os números do surto mostram
- As seis mortes em Jhapa moldam a resposta de emergência
- Por que o calendário infantil deixa muitos adultos de fora
- Como o Nepal estruturou seu programa de vacinação
- O que as evidências sobre a vacina mostram e o que não mostram
- Campanhas direcionadas enfrentam limites de aquisição e financiamento
- A proteção é necessária além das áreas tradicionalmente consideradas de risco
- Principais pontos
A preocupação imediata é Jhapa, onde um balanço distrital anterior registrou seis mortes entre 10 casos confirmados. Inicialmente, as autoridades consideraram uma campanha de emergência para moradores com mais de 30 anos, usando doses adquiridas para a vacinação infantil e repondo-as quando novos estoques chegassem. Um anúncio posterior programou uma campanha distrital a partir de 21 de setembro, mas não confirma se a vacinação de fato começou.
A lacuna na política é clara. O programa de rotina do Nepal oferece a vacina contra a encefalite japonesa aos 12 meses, e doses atrasadas podem ser aplicadas antes de a criança completar cinco anos. Não há um programa permanente de vacinação para adultos. Campanhas em massa realizadas anteriormente alcançaram alguns moradores mais velhos, portanto nem todos os adultos estão desprotegidos, mas muitos não foram contemplados por essas campanhas e não têm acesso à vacinação de rotina.
O manual de vigilância da encefalite japonesa da Divisão de Bem-Estar da Família identifica a vacinação humana como o único método comprovado para reduzir a doença. O documento também orienta a vigilância a identificar populações em risco e subsidiar as políticas de vacinação. A concentração atual de mortes entre pessoas mais velhas e não vacinadas torna essas tarefas centrais para a resposta.
Além das mortes, há outro impacto: sobreviventes que precisam de anos de cuidados. Sayal Rai, infectado aos 12 anos e agora com 14, continua dependente de um ventilador em Dharan. A experiência da família mostra por que contabilizar apenas as mortes não revela a dimensão dos danos.
A doença de uma criança se transforma em anos de cuidados para a família
Sayal, de Belaka, no distrito de Udayapur, cursava o sexto ano quando teve febre alta. Seus pais o levaram ao Birat Medical College and Teaching Hospital, em Biratnagar, onde a piora do quadro exigiu cuidados intensivos. Mais tarde, ele foi transferido para o BP Koirala Institute of Health Sciences, em Dharan, depois que a família já não conseguia arcar com as despesas crescentes.
Nirmala, sua mãe e principal cuidadora, descreveu a dependência contínua do filho de suporte hospitalar.
"Já se passaram mais de dois anos desde a infecção, e meu filho ainda está ligado a um ventilador",
Ela disse que ele não consegue respirar sozinho nem falar e desenvolveu feridas por permanecer na mesma posição. A família gastou cerca de 800 mil rúpias nepalesas em seu tratamento inicial e afirma dever aproximadamente 4 milhões de rúpias ao hospital de Dharan. A administração do hospital o transferiu para um leito gratuito, mas os medicamentos, as fraldas, as pomadas para as feridas e outros materiais ainda precisam ser pagos.
Nirmala aluga um quarto perto do hospital por 2 mil rúpias por mês e prepara a alimentação administrada por sonda. Ela aprendeu a monitorá-lo e a cuidar de suas feridas. Seu marido agora carrega areia perto da fronteira com a Índia para sustentar a família, enquanto a ajuda dos parentes diminuiu.
Dr. Basanta Rai, professor assistente e pediatra consultor do BP Koirala Institute of Health Sciences, disse que os médicos não podem garantir a recuperação completa.
"A encefalite japonesa não é como outras doenças. Quem sofre conhece as consequências reais",
Não há confirmação sobre a situação vacinal de Sayal. Sua doença ilustra as consequências duradouras de uma infecção grave, mas não comprova por que ele foi infectado.
O que os números do surto mostram
Atualizações sucessivas mostram que o surto se espalhou por uma área maior. Um balanço de 25 de agosto de 2026 registrou 85 casos confirmados em 62 municípios de 26 distritos, com 21 mortes. Outra atualização contabilizou 121 casos e 26 mortes em 84 governos locais de 36 distritos, com registros nas sete províncias.
Esses números não devem ser tratados como uma única contagem simultânea. Relatos anteriores mencionavam 21 mortes e outras 59 infecções ao longo de aproximadamente seis semanas. Essa formulação sugere cerca de 80 pessoas afetadas, enquanto os números por província apresentados no mesmo relato somam 79 casos, incluindo 21 mortes. Portanto, o denominador exato desse primeiro recorte é incerto.
Os números de vacinação também variam entre as atualizações. Autoridades afirmaram anteriormente que 89% dos casos eram de pessoas não vacinadas; o balanço de 25 de agosto indicou 86%. A proporção de mortes entre pessoas com mais de 50 anos passou de 81% nas atualizações anteriores para 77% no balanço de 121 casos. As diferenças podem refletir a mudança no total de casos, mas os dados publicados não explicam todas as revisões.
A constatação consistente é que, segundo os relatos, as pessoas que morreram não estavam vacinadas e os idosos responderam pela maioria das mortes. A taxa de letalidade mede as mortes entre os casos registrados, não a probabilidade de que toda pessoa infectada pelo vírus morra. Infecções leves ou sem sintomas podem nunca entrar na contagem da vigilância, e médicos alertaram que testes concentrados em pacientes hospitalizados podem deixar parte do impacto de fora.
As seis mortes em Jhapa moldam a resposta de emergência
A primeira divisão dos casos por província colocou Koshi no centro do surto, com 24 casos e 10 mortes. Madhesh registrou 19 casos e seis mortes; Sudurpaschim, 13 e duas; Bagmati, 10 e uma; e Lumbini, sete e duas. Gandaki registrou cinco casos e Karnali, um, sem mortes listadas em nenhuma das duas províncias naquele balanço.
Jhapa respondeu por seis das 10 mortes de Koshi, ou 60%, e por seis das 21 mortes no país, cerca de 29%. As seis mortes entre 10 casos no distrito resultaram em uma taxa de letalidade de 60%. É um sinal local alarmante, embora uma taxa calculada com base em 10 casos possa mudar bastante à medida que novos casos sejam identificados.
Dr. Manohar Pradhan, consultor especializado do ministro da Saúde, Nisha Mehta, explicou o público inicialmente previsto.
"A taxa de mortalidade de 60% é alarmante",
Ele disse que os preparativos estavam concentrados em vacinar pessoas com mais de 30 anos em Jhapa. Outros distritos afetados incluíam Kailali, com sete casos e duas mortes; Saptari, com seis e duas; e Sunsari, com cinco e duas.
Alguns dados distritais são contraditórios. Os quatro casos e as duas mortes de Parsa correspondem à taxa de letalidade informada, de 50%. Para Nawalparasi e Ilam, os relatos divergem entre uma e duas mortes em cada distrito, que teve dois casos, embora indiquem uma taxa de 50% para ambos. Uma morte entre dois casos equivale a 50%; duas mortes entre dois casos equivaleriam a 100%. Esses números precisam ser esclarecidos antes de servirem para comparações distritais confiáveis.
Por que o calendário infantil deixa muitos adultos de fora
O manual de vigilância de 2025 do governo, hospedado pela Organização Mundial da Saúde, prevê a vacinação de rotina aos 12 meses e permite a aplicação de doses atrasadas antes dos cinco anos. O documento atribui aos voluntários comunitários de saúde da mulher a função de garantir que as crianças elegíveis recebam a vacina. As atividades anuais de Busca e Vacinação e o Mês da Imunização em Baishakh, entre abril e maio, buscam alcançar crianças que não receberam as doses.
Essas medidas atendem à cobertura vacinal infantil, não ao grande contingente de adultos não vacinados. Números de surtos anteriores indicavam que cerca de 70% dos casos no ano precedente ocorreram em pessoas com mais de 15 anos, enquanto 76% das mortes foram de pessoas com mais de 40 anos.
Dr. Arun Kumar Neopane, pediatra sênior e integrante do Comitê Nacional Consultivo de Imunização, descreveu o padrão etário recente.
Agora, pessoas com mais de 30 anos estão ficando gravemente doentes e morrendo. A maioria das pessoas com mais de 30 anos no Nepal não foi vacinada contra a encefalite japonesa.
Esse padrão recente não contradiz os dados históricos de longo prazo. A análise do manual de vigilância referente ao período de 2004 a 2024 identificou quase 60% dos casos em crianças com menos de 15 anos. Um registro acumulado ao longo de duas décadas pode continuar dominado por casos infantis, mesmo quando as mortes recentes se concentram entre adultos mais velhos.
O manual também afirma que pessoas de todas as idades podem ser afetadas quando a encefalite japonesa surge pela primeira vez em uma região. As decisões de vacinação, portanto, precisam considerar tanto os dados etários recentes quanto as informações geográficas, em vez de presumir que a doença continua sendo principalmente infantil em todos os lugares.
Como o Nepal estruturou seu programa de vacinação
O manual oficial descreve uma expansão gradual, não um único marco de início nacional. A vacinação por campanhas começou em 2006; a introdução de rotina veio depois das campanhas distritais. Os principais marcos são:
- 1978: A encefalite japonesa foi confirmada pela primeira vez no Nepal.
- 2004: Começou a vigilância específica, segundo o manual do governo.
- 2006: Começaram as campanhas de vacinação em etapas.
- 2011: As campanhas já haviam sido concluídas em 31 distritos de alto risco.
- 2012: A vacinação de rotina havia sido introduzida nesses 31 distritos.
- 2016: Campanhas em 47 distritos, incluindo três com surtos, foram seguidas pela vacinação de rotina nos distritos restantes.
- 11 de agosto de 2025: Uma atualização do surto registrou 33 casos e três mortes em 18 distritos.
- 25 de agosto de 2026: Uma atualização registrou 85 casos e 21 mortes em 26 distritos.
As diferentes descrições apontam datas distintas para a introdução da vacina. O texto introdutório do manual de 2025 menciona 2008, enquanto o histórico detalhado situa as campanhas em 2006 e a cobertura nacional de rotina em 2016. Outros relatos apontam 2015 como o ano da incorporação à vacinação de rotina. A cronologia distrital detalhada oferece o relato mais claro da expansão, mas as datas não são totalmente consistentes.
Os dados históricos da Divisão de Bem-Estar da Família registram 26,7 mil infecções identificadas e 5,4 mil mortes entre 1978 e 2003. As primeiras campanhas alcançaram todas as faixas etárias em vários distritos muito afetados, antes de as campanhas posteriores se concentrarem nas crianças. Esse histórico importa porque a idade de um adulto, por si só, não permite saber se ele foi vacinado.
O que as evidências sobre a vacina mostram e o que não mostram
O Nepal usa uma vacina viva atenuada contra a encefalite japonesa, ou seja, que contém uma forma enfraquecida do vírus, destinada a gerar proteção sem causar a doença. O manual oficial cita estudos com crianças de um a 15 anos em áreas endêmicas, onde o vírus circula regularmente.
Esses estudos encontraram eficácia de 99,3% no período entre uma semana e um mês após a vacinação e de 98,5% após um ano. Outro estudo que acompanhou uma campanha de vacinação infantil em massa encontrou eficácia de 96,2% cinco anos depois. Esses resultados dizem respeito à proteção contra a doença entre as crianças estudadas, não a uma taxa de eficácia medida para a campanha adulta proposta.
O manual também cita uma amostra de conveniência pequena, com 69 pessoas vacinadas, na qual foram detectados anticorpos protetores em 89,9% após quatro anos e em 63,8% após cinco anos. A medição de anticorpos e o estudo da prevenção efetiva da doença avaliam coisas diferentes. O percentual menor de anticorpos não deve substituir o resultado separado de eficácia da vacina após cinco anos.
Dr. Shyam Raj Upreti, especialista em imunização e ex-diretor-geral do Departamento de Serviços de Saúde, disse que a proteção proporcionada pela vacina viva se desenvolve entre 15 dias e um mês. Portanto, a vacinação não oferece proteção imediata no dia da aplicação nem trata uma infecção já instalada.
Upreti atribuiu as taxas mais baixas de infecção e letalidade na Índia ao programa gratuito de duas doses. Os números do Nepal comprovam a urgência do problema no país, mas, sem dados correspondentes sobre casos e mortes na Índia, não permitem uma comparação numérica confiável entre os países.
Campanhas direcionadas enfrentam limites de aquisição e financiamento
Autoridades descreveram um plano inicial para obter 3,5 milhões de doses para nove distritos de alto risco. Outro relato estimou a necessidade em aproximadamente 3,4 milhões de doses para alcançar pessoas não contempladas por campanhas anteriores. A diferença é de 100 mil doses, e a quantidade final a ser adquirida não foi definida.
As áreas prioritárias não foram apresentadas como uma lista única e definitiva. O histórico de casos entre 2020 e 2025 foi elevado em Nawalparasi East, Chitwan, Kailali, Tanahu, Dang, Jhapa, Kapilvastu, Morang e Rupandehi. A lista dos distritos com mais mortes era diferente. A mortalidade atual, o histórico de casos e o número de moradores não vacinados podem, portanto, apontar para prioridades distintas.
As autoridades propuseram usar primeiro o estoque do programa infantil e repô-lo posteriormente. Também avaliaram a aquisição de vacinas da China, inclusive por meio de um possível acordo entre governos. O Nepal já comprou anteriormente vacinas contra a encefalite japonesa da China, e as autoridades buscaram ajuda internacional.
Um anúncio posterior informou que estavam concluídos os preparativos para vacinar pessoas com mais de 30 anos em Dhangadhi Sub metropolitan City, Lamkichuha Municipality e Ghodaghodi Municipality, em Kailali. O anúncio também marcou 21 de setembro para a campanha em Jhapa. A conclusão da vacinação, as doses efetivamente aplicadas e a cobertura alcançada não foram confirmadas.
As declarações sobre financiamento dizem respeito a diferentes dimensões da resposta. Autoridades mencionaram um orçamento para ações direcionadas em nove distritos, mas disseram não haver verba para vacinar toda a população não vacinada. Em agosto de 2025, autoridades haviam informado que não havia vacina nem orçamento para a resposta mais ampla proposta e que os pedidos de apoio a parceiros de desenvolvimento não tiveram sucesso. O financiamento direcionado não comprova que um programa nacional para adultos seja viável financeiramente ou tenha sido aprovado.
A proteção é necessária além das áreas tradicionalmente consideradas de risco
A encefalite japonesa chega aos seres humanos por meio de mosquitos Culex infectados. Porcos e certas aves ajudam a manter o vírus no ciclo de transmissão. Os seres humanos não carregam vírus em quantidade suficiente para sustentar a transmissão adiante por mosquitos; assim, vacinar adultos protege principalmente essas pessoas, em vez de interromper uma cadeia de transmissão entre seres humanos.
Quem vive perto de plantações de arroz, água parada e criações de porcos está particularmente exposto. Estima-se que 12,5 milhões de moradores do Nepal estejam sob alto risco. Uma correspondência acadêmica sobre a encefalite japonesa, de Amogh Verma, Sanjit Sah e colegas, usou a estimativa de 12 milhões e documentou a chegada do surto ao vale de Kathmandu em 2024. Nenhuma das estimativas representa uma contagem de pessoas infectadas.
A correspondência registrou 63 casos confirmados e 17 mortes desde junho de 2024 até a data em que foi escrita. Para o ano completo de 2024, as duas versões do manual do governo informam 86 casos confirmados em laboratório e 25 mortes, uma taxa de letalidade de cerca de 29%. Outros relatos indicam 86 casos e 28 mortes, ou pelo menos 80 casos e 23 mortes. Esses totais anuais continuam inconsistentes.
Para 2025, uma série anual registra 183 casos e 41 mortes, aproximadamente 22,4%. Outros relatos indicam 141 infecções e 41 mortes, ao mesmo tempo que mencionam uma taxa próxima de 23%. Essa taxa não corresponde aos dados se as 41 mortes estiverem incluídas nos 141 casos; a formulação deixa o denominador incerto.
Os autores do texto acadêmico defenderam uma revisão das recomendações de vacinação para visitantes, incluindo quem viaja a áreas urbanas. Essa é uma recomendação dos autores, não uma evidência de que as orientações de viagem tenham mudado oficialmente. O relato também descreve sintomas como febre, dor de cabeça, rigidez na nuca, confusão, convulsões e paralisia, que costumam surgir de cinco a 15 dias após a infecção.
Não há tratamento antiviral específico para a encefalite japonesa. O atendimento trata as complicações, incluindo dificuldades respiratórias e lesões neurológicas. Repelentes de mosquitos, roupas que cubram braços e pernas, mosquiteiros e quartos com telas podem reduzir a exposição enquanto os planos de vacinação avançam. Sintomas neurológicos graves exigem avaliação médica urgente.
Principais pontos
- Uma atualização do surto registrou 121 casos e 26 mortes desde junho, com taxa de letalidade de 21,5%.
- Autoridades afirmaram que 77% das mortes ocorreram entre pessoas com mais de 50 anos e que nenhuma das pessoas que morreram estava vacinada.
- A vacinação de rotina está prevista para os 12 meses de idade, com doses atrasadas disponíveis antes dos cinco anos.
- Um balanço distrital anterior registrou seis mortes entre 10 casos em Jhapa.
- Foram anunciadas campanhas para adultos em Jhapa e em três governos locais de Kailali, mas a conclusão não foi confirmada.
- Os planos de aquisição previram aproximadamente 3,4 milhões a 3,5 milhões de doses para nove distritos prioritários.
- Não foi estabelecido nenhum programa nacional financiado para todos os adultos não vacinados.
- Totais anuais contraditórios e algumas contagens distritais de mortes precisam ser esclarecidos.
- Sobreviventes podem precisar de cuidados prolongados, como demonstra a dependência contínua de Sayal Rai de um ventilador.






