Acusações vão além de anúncios disfarçados de serviços
A plataforma de revenda Xianyu, do Alibaba, enfrenta acusações de que vendedores usavam anúncios comuns de serviços para direcionar clientes a transações sexuais ilegais, incluindo ofertas que supostamente envolviam meninas de apenas 14 anos. A investigação colocou sob escrutínio o histórico de fiscalização da empresa: a Xianyu afirma ter bloqueado 98.358 contas suspeitas de direcionar usuários a conteúdo pornográfico e ajudado a polícia a desarticular 15 grupos.
Conteúdo
- Acusações vão além de anúncios disfarçados de serviços
- Como um anúncio de natação levou a um grupo privado
- O que vendedores teriam afirmado sobre menores
- Xianyu contesta onde as evidências apareceram
- Dez anúncios, três resultados diferentes de fiscalização
- Quase 100 mil bloqueios não medem crimes
- As datas não formam uma cronologia definida
- Automação e os limites do bloqueio de contas
- Obrigações legais e um problema recorrente de fiscalização
- Principais pontos
As acusações descrevem uma cadeia que começa com anúncios de aulas de natação, fotografia, massagem ou treinamento pessoal e depois migra para serviços de mensagens privadas. Em uma sequência documentada, um depósito de 99 yuans liberava uma tabela de preços de serviços sexuais. Vendedores diferentes teriam cobrado de 20 mil a 30 mil yuans por encontros envolvendo menores de idade.
A Xianyu pediu desculpas, anunciou a criação de uma equipe especializada e prometeu aprimorar a detecção automatizada e ampliar as revisões manuais. A empresa também contestou partes da investigação, afirmando que alguns materiais supostamente incriminadores apareceram no WeCom, aplicativo de mensagens corporativas da Tencent, e não na Xianyu, e que alguns serviços comuns foram identificados de forma equivocada.
A distinção central está entre as evidências de aliciamento, o relato da empresa sobre suas medidas de fiscalização e as conclusões confirmadas publicamente pela polícia ou por órgãos reguladores. As acusações são graves, mas os bloqueios de contas informados não demonstram quantos crimes ocorreram, quantas crianças foram afetadas nem se todas as contas sinalizadas estavam envolvidas em atividades ilegais.
Como um anúncio de natação levou a um grupo privado
A investigação descreveu vendedores que se apresentavam em anúncios de serviços que podem ter finalidades totalmente legítimas. Fotos de mulheres e linguagem sugestiva teriam ajudado a direcionar potenciais clientes para conversas fora do marketplace.
Um anúncio de aulas de natação levou os investigadores a um grupo privado no WeCom. Lá, um depósito de 99 yuans, também descrito como cerca de US$ 15, dava acesso a uma tabela de preços. Esse pagamento era uma taxa de entrada, não o preço total dos serviços oferecidos posteriormente.
Um investigador fez um pedido e forneceu um endereço. Mais tarde, uma mulher chegou ao local e disse que oferecia serviços de flerte, beijos e banho. Um dos relatos afirma que os investigadores notificaram as autoridades de segurança pública antes de fazer o pedido. Essa sequência sustenta a acusação de que pelo menos um anúncio aparentemente comum serviu de porta de entrada para outro tipo de transação.
Isso não demonstra que aulas de natação ou outras categorias de serviços sejam inerentemente suspeitas. A Xianyu sustenta que alguns anúncios de fotografia e treinamento pessoal apresentados na investigação eram legítimos. Distinguir um serviço genuíno de um anúncio usado para disfarçar aliciamento faz parte da controvérsia e não pode ser resolvido apenas pelo rótulo da categoria.
O que vendedores teriam afirmado sobre menores
As acusações mais graves dizem respeito a vendedores que afirmaram poder intermediar o acesso a menores. Um deles teria dito que a maioria das meninas disponíveis para encontros era menor de idade, e que a mais nova tinha 14 anos, além de cobrar de 20 mil a 30 mil yuans.
Outro vendedor teria enviado fotos de um documento de identidade que supostamente pertencia a uma jovem de 16 anos, oferecido chamadas de vídeo e dito que as meninas poderiam viajar de avião se os clientes pagassem as passagens. Um dos relatos também descreve um vídeo de verificação em que uma menina afirmou ter nascido em 2011.
Esses detalhes são evidências do que os vendedores supostamente disseram aos investigadores. Por si só, não confirmam de forma independente a identidade, a idade ou as circunstâncias de todas as pessoas retratadas. Alegações sobre documentos de identidade, vídeos e exames médicos precisam ser investigadas, e não aceitas como prova.
Essa distinção não diminui a gravidade da conduta alegada. Anunciar acesso a crianças para fins sexuais exige investigação, mesmo que vendedores também possam estar usando alegações falsas para obter dinheiro. Nenhuma conclusão pública mencionada nos relatos informa quantos menores foram identificados, se algum foi localizado pela polícia ou que tipo de assistência recebeu.
Xianyu contesta onde as evidências apareceram
A resposta da Xianyu traça uma distinção entre o contato inicial no marketplace e as conversas posteriores em outros serviços. A empresa afirmou que uma expressão codificada associada ao suposto acesso a menores apareceu no perfil de uma pessoa no WeCom, não em nenhuma página, descrição de produto ou conversa privada dentro do aplicativo da Xianyu.
A plataforma afirmou ter examinado anúncios e comunicações relevantes entre 10 de agosto e 10 de setembro, abrangendo categorias como vouchers de massagem, roupas femininas, tintura de cabelo em casa e moedas comemorativas. Segundo a empresa, a expressão não apareceu nas informações, conversas ou transações do marketplace que foram analisadas.
A Xianyu afirmou que os compradores obtiveram contatos externos por conversas privadas e depois adicionaram essas pessoas no WeCom. A empresa também argumentou que alguns serviços de fotografia e condicionamento físico foram apresentados indevidamente como ilícitos, incluindo um serviço de personalização de imagens que produzia fotos em estilo de animação.
Essa contestação é relevante porque o local em que as evidências apareceram afeta o que cada plataforma poderia observar diretamente. No entanto, a ausência de uma expressão sexual explícita na Xianyu não basta, por si só, para determinar se um anúncio foi usado para aliciar clientes a uma atividade ilegal em outro serviço. A investigação trata da conexão entre essas etapas, enquanto a empresa contesta partes das evidências usadas para descrevê-la.
Dez anúncios, três resultados diferentes de fiscalização
A Xianyu apresentou um relato detalhado da análise de 10 produtos identificados em capturas de tela da investigação. A divisão da empresa separa as medidas tomadas antes da publicação das adotadas depois:
- Seis anúncios já haviam sido identificados como arriscados e removidos em verificações de rotina da plataforma antes da publicação da investigação.
- Três foram tratados após a publicação, por suspeita de direcionar usuários para fora da plataforma.
- Um não foi considerado uma infração, segundo a Xianyu, mas ficou oculto do público por causa de sua redação inadequada.
A empresa afirmou que os três anúncios tratados posteriormente não exibiam informações pornográficas dentro da Xianyu. Ainda assim, tomou medidas contra os produtos e as contas porque as comunicações externas geravam preocupações com a segurança das transações.
Sobre o anúncio restante, a Xianyu disse que o serviço envolvia personalização de imagens em estilo de animação, e não conteúdo sexual. A exibição pública foi bloqueada porque a descrição poderia ser mal interpretada, não porque a empresa tivesse concluído que houve uma transação ilegal.
Esses números oferecem um quadro mais útil do que uma afirmação genérica de que todos os anúncios contestados eram ilegais ou inofensivos. Eles mostram diferentes motivos e momentos para a intervenção. Ainda assim, são o relato da própria empresa sobre sua análise, e não uma determinação regulatória publicada de forma independente.
Quase 100 mil bloqueios não medem crimes
O número exato informado pela Xianyu, 98.358 contas, explica a descrição arredondada de quase 100 mil bloqueios. Vários relatos atribuem esse total a atividades desde janeiro de 2026. A plataforma também afirmou ter analisado mais de 10 milhões de produtos, a maioria mercadorias comuns, e encaminhado informações às autoridades de segurança pública.
A empresa relatou ter cooperado com a polícia em ações contra 15 grupos. As descrições variam: algumas os chamam de grupos de prostituição, enquanto outras usam o termo mais amplo de grupos ligados à pornografia. Como não foi apresentado um detalhamento dessas operações, não se deve tratar todos os casos como ocorrências confirmadas envolvendo menores.
A Xianyu também afirmou ter publicado atualizações sobre 32 operações especiais desde o início do ano. Essas operações abrangeram diferentes tipos de irregularidades, incluindo fraude, manipulação e aliciamento fora do marketplace. O número não corresponde à quantidade de operações dedicadas exclusivamente à proteção infantil.
O bloqueio de uma conta mede uma ação da plataforma, não uma condenação, uma vítima identificada ou uma organização criminosa distinta. Sem números sobre cadastros repetidos, infrações confirmadas e resultados posteriores da atuação policial, o total não mostra quanto da atividade ilegal foi impedida nem quanto continuou apesar das intervenções.
As datas não formam uma cronologia definida
Os relatos divergem sobre a data de publicação da investigação. Um deles situa a publicação em 18 de setembro, junto da divulgação dos dados de fiscalização da Xianyu. Outro informa 15 de setembro para a investigação televisiva e 21 de setembro para o pedido de desculpas e a resposta detalhada da empresa.
Vários relatos atribuem explicitamente os números de fiscalização e a resposta de setembro a 2026, enquanto outras descrições informam datas ou dias da semana sem especificar o ano. Essas diferenças impedem estabelecer uma cronologia totalmente conciliada. Os principais acontecimentos datados são descritos da seguinte forma:
- A partir de janeiro: a Xianyu afirma ter acumulado o total de medidas contra contas e trabalhado com a polícia; vários relatos especificam janeiro de 2026.
- De 10 de agosto a 10 de setembro: período que a Xianyu diz ter analisado em busca da expressão codificada contestada e de comunicações relacionadas.
- 15 ou 18 de setembro: datas de publicação divergentes para a investigação.
- 18 de setembro: divulgação informada de medidas contra 98.358 contas e cooperação em ações contra 15 grupos.
- 21 de setembro: pedido de desculpas, análise detalhada dos anúncios e anúncio de uma equipe especializada, situados em 2026 em vários relatos.
Uma verificação posterior, descrita como realizada em uma quarta-feira, constatou que buscas por ensaios fotográficos de modelos em casa já não retornavam resultados, enquanto anúncios mais gerais de fotografia, condicionamento físico e natação continuavam disponíveis. Esses resultados não permitem determinar se os serviços restantes eram ilegais ou se anúncios removidos reapareceram com outros termos.
Automação e os limites do bloqueio de contas
Funcionários do atendimento ao cliente descreveram os sistemas automatizados como principal meio de analisar anúncios, com revisores humanos geralmente envolvidos durante os recursos. Posteriormente, a Xianyu prometeu aprimorar os filtros de palavras-chave e a detecção de imagens, além de ampliar a revisão manual de anúncios e contas suspeitos.
A empresa afirmou que infratores usam expressões codificadas que mudam para evitar a detecção. Isso cria uma dificuldade prática: um filtro precisa reconhecer padrões suspeitos sem tratar toda fotografia, descrição de serviço ou nome de produto comum como prova de irregularidade. A controvérsia sobre o anúncio de personalização de imagens ilustra o risco de classificação equivocada.
Chang Dongyue, sócio do escritório de advocacia Shanghai Droit&Elite, atribuiu a recorrência de anúncios ilícitos às baixas barreiras de entrada, à dependência do tráfego e do volume de transações e à pressão para manter baixos os custos de moderação. A avaliação dele diz respeito aos incentivos e ao modelo de fiscalização, não a uma auditoria divulgada dos gastos da Xianyu.
Ao responder ao apelo da plataforma por cooperação entre serviços, Chang explicou por que remover uma conta do marketplace pode deixar a operação mais ampla intacta.
Banir contas em plataformas individuais remove apenas um elo da cadeia", disse ele. "Sem uma cooperação genuína entre plataformas, a fiscalização será menos eficaz.
A Xianyu também afirmou que a permanência de um vendedor na plataforma não significa necessariamente que nenhuma medida tenha sido tomada, pois infrações confirmadas nem sempre levam a um bloqueio imediato. Essa explicação torna a visibilidade pública da conta uma medida incompleta das ações adotadas. Também deixa sem resposta quais sanções mais brandas foram aplicadas e se impediram novos aliciamentos.
Obrigações legais e um problema recorrente de fiscalização
A Lei de Cibersegurança da China exige que as plataformas administrem as informações publicadas pelos usuários e removam conteúdo proibido. A Lei de Proteção de Menores também exige a exclusão de conteúdo ilegal direcionado a menores, a preservação de provas e a comunicação às autoridades. São obrigações distintas: remover o material limita novas exposições, enquanto preservar as provas contribui para uma investigação.
Xu Nan, sócio do escritório de advocacia Hebei Sanhe Times, afirmou que o descumprimento dos deveres de revisão de segurança de conteúdo poderia sujeitar uma plataforma a advertências, multas ou restrições às suas atividades. Em casos graves, poderia haver responsabilização criminal. Trata-se de uma avaliação de possíveis responsabilidades, não de uma conclusão de que a Xianyu tenha recebido essas sanções.
A controvérsia vem após escrutínio anterior. Em 2019, vendedores teriam usado anúncios de roupas a um yuan para atrair jovens mulheres para conversas privadas ligadas a serviços sexuais. Em janeiro de 2021, autoridades de defesa do consumidor da província de Jiangsu questionaram a Xianyu e outras 11 plataformas de revenda sobre problemas que incluíam aliciamento para transações ilícitas.
Novas acusações envolveram serviços disfarçados em 2022 e anúncios de produtos com mensagens codificadas em 2024. Relatos que situam o atual período de fiscalização em 2026 também descrevem uma controvérsia em junho sobre a venda de imagens de nudez que supostamente retratavam menores. Esses episódios mostram a recorrência das preocupações, mas não demonstram que os mesmos vendedores ou grupos estivessem envolvidos em todas as ocasiões.
Até o momento descrito nos relatos, não havia sido identificada nenhuma sanção regulatória separada nem anúncio público de um caso relacionado a essa investigação. A Xianyu afirmou que sua apuração continuava, mas não informou prazo para concluí-la, audiência marcada ou data para uma atualização pública da polícia.
A dimensão da plataforma torna relevantes as questões ainda sem resposta. A Xianyu tem mais de 600 milhões de usuários registrados, e um dos relatos estima que o número de usuários ativos mensais esteja próximo de 200 milhões. A hashtag relacionada mais visualizada no Weibo teria alcançado 490 milhões de visualizações até quarta-feira, um total de visualizações, não de pessoas distintas. Ainda falta uma confirmação sobre quantas crianças foram afetadas, quais processos criminais resultaram da investigação e se as mudanças prometidas interromperam toda a cadeia, do anúncio ao contato privado.
Principais pontos
- Vendedores teriam usado anúncios comuns de serviços na Xianyu para aliciar clientes a transações sexuais ilegais, incluindo ofertas envolvendo menores de apenas 14 anos.
- A Xianyu informou ter bloqueado 98.358 contas, analisado mais de 10 milhões de produtos e cooperado com a polícia em ações contra 15 grupos.
- A empresa contestou partes da investigação e afirmou que uma expressão codificada importante apareceu no WeCom, não dentro da Xianyu.
- Entre 10 anúncios analisados, a Xianyu afirmou que seis foram removidos antes da publicação, três foram alvo de medidas posteriores e um foi ocultado, embora nenhuma infração tenha sido constatada.
- Os relatos divergem sobre as datas de publicação, e vários situam explicitamente em 2026 o período de fiscalização e a resposta da empresa.
- Os relatos não identificaram um total confirmado de vítimas, uma sanção regulatória separada nem um prazo para a conclusão da investigação.






