Voluntários combatem incêndios em turfeiras na Indonésia enquanto carbono ancestral se transforma em fumaça tóxica

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Voluntários combatem incêndios em turfeiras na Indonésia enquanto carbono ancestral se transforma em fumaça tóxica

Fogo sob a floresta

O céu sobre o Bornéu indonésio ficou pesado e cor de âmbar, não por causa da chuva, mas da fumaça. Uma densa névoa se espalhou de florestas e terras agrícolas em chamas por Kalimantan e chegou à Malásia, ao Brunei, a Singapura e às Filipinas, afetando o cotidiano e levando pessoas aos hospitais com problemas respiratórios.

Conteúdo
  1. Fogo sob a floresta
  2. Por que é tão difícil conter incêndios em turfeiras
  3. Uma bomba de carbono com consequências regionais
  4. A névoa de fumaça atravessa fronteiras
  5. Por que os incêndios continuam voltando
  6. Bombeiros enfrentam exaustão e perigos ocultos
  7. Indonésia amplia resposta à emergência
  8. Prevenir exige manter as turfeiras úmidas
  9. O custo humano por trás da fumaça
  10. Principais pontos

No solo, o perigo muitas vezes fica oculto. As chamas podem parecer pequenas na superfície enquanto o fogo continua avançando pela turfa seca sob ela. Voluntários cavam o solo, bombeiam água para canais subterrâneos e trabalham durante a noite para conter incêndios que podem reaparecer dias depois de parecerem extintos.

Cerca de 200 mil hectares de florestas e terras agrícolas no Bornéu indonésio foram afetados desde o início de julho, segundo o material fornecido para esta reportagem. Os incêndios fazem parte de uma crise nacional mais ampla, com milhares de focos detectados na Indonésia durante uma longa estação seca, intensificada por um forte padrão de El Niño.

Dwi Sujatmoko, voluntário bombeiro de 35 anos, trabalha em meio à fumaça há mais de um mês. Ele diz que o ar é parecido com gás lacrimogêneo e que o efeito no nariz e nos olhos é imediato.

Quando um incêndio fica fora de controle, prejudica muita gente. Não apenas os seres humanos, mas também os animais e as plantas. Se o fogo subterrâneo se espalhar e não puder mais ser controlado, as perdas serão enormes.

Entre os voluntários, há muitos indígenas dayak e banjar que conhecem o território e seus cursos d’água. Eles usam ferramentas manuais, bombas portáteis, carrinhos, tubulações e poços improvisados para combater um fogo que pode avançar sob a superfície sem produzir chamas visíveis.

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Por que é tão difícil conter incêndios em turfeiras

A turfa é formada por plantas parcialmente decompostas que se acumularam em áreas alagadas ao longo de milhares de anos. Como há pouco oxigênio em uma turfeira úmida, a decomposição acontece lentamente. Camadas de matéria orgânica se acumulam e, em algumas áreas de Kalimantan, podem chegar a mais de 20 metros de profundidade.

Isso faz das turfeiras importantes reservatórios de carbono. O carbono absorvido pelas plantas permanece retido no subsolo, em vez de retornar rapidamente à atmosfera. As turfeiras tropicais da Indonésia estão entre as reservas naturais de carbono mais importantes da Terra.

Essa mesma característica cria um grave risco de incêndio quando a turfa é drenada. A implantação de plantações geralmente exige canais e bombas para baixar o nível do lençol freático. Quando o solo seca, pega fogo com mais facilidade e pode continuar combustível por longos períodos sem chuva.

A doutora Nisa Novita, pesquisadora de turfeiras do grupo conservacionista indonésio Yayasan Konservasi Alam Nusantara, explica que turfeiras profundas podem armazenar mais de 6 mil toneladas de carbono por hectare. Isso equivale aproximadamente às emissões anuais de dióxido de carbono de 4.800 carros, segundo a comparação apresentada pela pesquisadora.

As turfeiras são reservatórios de carbono extremamente eficazes porque as condições alagadas retardam a decomposição, permitindo que o carbono se acumule no subsolo por milhares de anos. Mas isso também significa que elas podem se tornar uma bomba de carbono quando são drenadas ou queimadas, porque esse carbono pode ser liberado rapidamente na atmosfera.

Quando o fogo alcança esse material, pode continuar queimando lentamente no subsolo por semanas. A água despejada na superfície talvez não chegue à camada em chamas. Os bombeiros precisam encharcar o solo até que a turfa fique quase como um mingau, verificando repetidamente a presença de calor e fumaça abaixo da superfície.

Uma bomba de carbono com consequências regionais

A queima de turfa libera dióxido de carbono, monóxido de carbono e metano. O dióxido de carbono e o metano contribuem para o aquecimento global, enquanto o monóxido de carbono é tóxico em altas concentrações. As partículas finas produzidas pelo fogo podem chegar às partes mais profundas dos pulmões e passar para a corrente sanguínea.

Susan Page, professora da Universidade de Leicester que estuda as turfeiras asiáticas há três décadas, diz que as pessoas que vivem sob a névoa inalam gases tóxicos e partículas extremamente pequenas.

Elas inalam monóxido de carbono, que é tóxico, e partículas muito finas, que podem atravessar os alvéolos pulmonares e chegar à corrente sanguínea, causando outros problemas em diferentes partes do corpo, inclusive no coração.

A expressão bomba de carbono descreve a liberação repentina de uma grande reserva de carbono. Isso não significa que cada hectare de turfa liberará toda a sua reserva de carbono de uma só vez. A expressão se refere ao risco de que uma reserva natural acumulada lentamente seja rapidamente convertida em gases de efeito estufa quando a terra é drenada e queimada.

Os incêndios também eliminam a vegetação que ajuda a manter a turfa úmida e estável. Depois de um incêndio, o solo exposto pode secar mais rápido, aumentando a probabilidade de novos incêndios. Queimadas repetidas podem criar um ciclo em que a recuperação da terra danificada fica cada vez mais difícil.

Page afirma que turfeiras drenadas emitem dióxido de carbono mesmo quando não estão pegando fogo. Nesse sentido, as chamas são a parte mais visível de um problema maior, que envolve drenagem, conversão do uso da terra e emissões de longo prazo.

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A névoa de fumaça atravessa fronteiras

A fumaça dos incêndios na Indonésia se espalhou pela Malásia, pelo Brunei, por Singapura e por partes das Filipinas. Em algumas áreas, os índices de qualidade do ar chegaram a níveis prejudiciais à saúde. Nos casos mais graves descritos no material fornecido, a poluição foi quase 75 vezes superior ao nível recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

O Ministério da Saúde da Indonésia registrou mais de 50 mil casos de infecção respiratória ligados a incêndios florestais e em terras entre julho e agosto. Mais de 12 mil desses casos envolveram crianças menores de cinco anos.

Em Banjarbaru, uma das cidades indonésias mais afetadas, as escolas foram fechadas após a piora da visibilidade. Uma assistente de ensino descreveu condições em que as pessoas mal conseguiam enxergar os próprios pés. Moradores relataram tosse, dor de garganta, coriza, dor de cabeça e ardência nos olhos.

No estado malaio de Sarawak, quase 600 escolas foram fechadas durante um período de poluição intensa, afetando cerca de 200 mil estudantes. Singapura se preparou para a piora da qualidade do ar, formando estoques de máscaras N95 e planejando reduzir as atividades ao ar livre nas escolas. Moradores da província filipina de Palawan relataram cheiro de queimado e irritação nos olhos e na garganta.

A névoa também prejudica o transporte. A fumaça reduz a visibilidade para motoristas e pode afetar aeroportos, rotas marítimas e o trânsito nas estradas. Ela gera custos econômicos para comunidades distantes dos incêndios originais, enquanto as pessoas que vivem mais perto das chamas enfrentam os maiores riscos à saúde.

Por que os incêndios continuam voltando

A crise das turfeiras indonésias tem raízes em décadas de mudanças no uso da terra. Durante o governo de Suharto, grandes áreas de floresta tropical e pântanos em Kalimantan foram abertas para exploração madeireira, plantações e grandes projetos de desenvolvimento. Canais drenaram turfeiras que permaneceram úmidas por séculos.

A agricultura de plantação costuma estar associada ao dendê e a outras culturas cultivadas em grandes áreas uniformes. Esses projetos podem gerar empregos e investimentos, mas o desmatamento e a drenagem podem deixar a paisagem ao redor vulnerável ao fogo. Ventos fortes, vegetação seca e o baixo nível do lençol freático permitem, então, que as chamas se espalhem rapidamente.

Às vezes, comunidades indígenas são responsabilizadas pelos incêndios porque alguns métodos tradicionais de cultivo usam queimadas controladas para limpar pequenas áreas. Tono, representante do povo dayak kanayatn em Kalimantan Ocidental, afirma que essas comunidades muitas vezes são tratadas como bodes expiatórios.

A agricultura nas colinas se baseia na ideia de manter o equilíbrio com a natureza. A prática tradicional envolve planejamento, cautela e conhecimentos transmitidos entre gerações.

Queimadas pequenas e controladas são diferentes do desmatamento industrial em escala e em risco. Agricultores tradicionais podem trabalhar dentro de períodos curtos e seguindo regras locais, enquanto grandes concessões de terra podem cobrir milhares de hectares e alterar os sistemas hídricos de paisagens inteiras de turfeiras. Ainda são necessárias investigações para determinar a causa de cada incêndio, mas o quadro mais amplo aponta para uma combinação de drenagem da terra, fiscalização insuficiente, tempo seco e práticas de desmatamento inseguras.

Kalimantan perdeu quase 160 mil hectares de floresta em 2025, mais de um terço de toda a perda florestal da Indonésia nos dados fornecidos para esta reportagem. Grande parte da terra desmatada foi convertida em plantações e outras formas de agricultura de monocultura.

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Bombeiros enfrentam exaustão e perigos ocultos

Equipes de voluntários trabalham em condições que podem prejudicar a saúde mesmo quando evitam o contato direto com as chamas. A exposição à fumaça é contínua, os equipamentos de proteção são limitados em algumas áreas e o calor pode subir repentinamente pelas rachaduras no solo.

Dois voluntários em Kalimantan Central teriam morrido após seu estado de saúde piorar durante o combate aos incêndios. Outras equipes dormiram perto da linha de fogo para poder agir quando as chamas subterrâneas irrompessem na superfície.

A água é um dos maiores desafios. Os bombeiros cavam lagoas e poços, abrem ou consertam canais e introduzem tubos na turfa para levar água ao subsolo. Veículos não conseguem chegar a áreas remotas, deixando as equipes dependentes de bombas pequenas e de suprimentos transportados à mão.

Sujatmoko diz que as equipes estão cansadas e sentem falta das famílias, mas continuam trabalhando porque se sentem responsáveis por proteger suas comunidades.

Estamos, sem dúvida, cansados. Ficamos exaustos e sentimos falta das nossas famílias, dos nossos filhos e das nossas esposas. Mas, por enquanto, todos estamos deixando essas coisas de lado. Fazemos tudo o que podemos para ajudar a enfrentar essa tragédia da névoa, porque é nosso dever.

A chegada da chuva ajudaria, mas chuvas fortes, por si só, não recuperam uma turfeira drenada. É preciso restaurar e manter os níveis de água. Talvez seja necessário bloquear canais, replantar a vegetação danificada e monitorar o uso futuro da terra para evitar que o solo volte a secar.

Indonésia amplia resposta à emergência

As autoridades ampliaram as operações terrestres e o combate aéreo aos incêndios. Mais de 24 mil bombeiros em terra foram mobilizados em Sumatra e Bornéu, embora alguns focos continuem inacessíveis.

Autoridades solicitaram mais aeronaves de combate a incêndios por lançamento de água para áreas que as equipes não conseguem alcançar. A Indonésia também autorizou 35 aeronaves registradas no exterior a apoiar operações de lançamento de água e patrulhas aéreas, desde que cumpram as regras nacionais de segurança da aviação.

Segundo dados citados pelas autoridades indonésias, Sumatra do Sul registrou 1.429 focos, Kalimantan Ocidental, 1.226, e Kalimantan Central, 811. Kalimantan Oriental registrou 576, enquanto Riau teve 503. Dados florestais indicaram que quase 94 mil hectares queimaram somente em julho.

O presidente Prabowo Subianto visitou áreas afetadas pelo fogo em Kalimantan Central, Riau e Sumatra do Sul. O governo prometeu mais helicópteros para o lançamento de água e suprimentos de oxigênio para os bombeiros. A Indonésia também está mobilizando militares e policiais para ajudar autoridades regionais com ações de conscientização pública e prevenção de incêndios.

Indonésia e Malásia iniciaram operações de semeadura de nuvens, dispersando partículas de sal em nuvens adequadas na tentativa de provocar chuva. A Malásia recebeu autorização para enviar aeronaves ao espaço aéreo indonésio para semear nuvens perto da fronteira compartilhada e ofereceu ajuda adicional, caso seja solicitada.

Essas medidas podem reduzir o perigo imediato, mas aeronaves e equipes de emergência não substituem a gestão da paisagem. Lançamentos de água por via aérea podem resfriar um incêndio sem alcançar as camadas mais profundas da turfa. A semeadura de nuvens também depende da presença de nuvens adequadas e não pode pôr fim à estação seca.

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Prevenir exige manter as turfeiras úmidas

A maneira mais confiável de reduzir os incêndios em turfeiras é evitar que a turfa seque. Isso significa restaurar os níveis naturais de água, bloquear canais de drenagem, proteger as florestas restantes e limitar o desenvolvimento sobre depósitos profundos de turfa.

Sistemas de alerta precoce podem ajudar as comunidades a agir antes que um pequeno incêndio se espalhe. O monitoramento por satélite identifica focos, enquanto equipes locais podem inspecionar o solo em busca de calor que os satélites nem sempre conseguem detectar por causa da fumaça ou da vegetação. Treinamento e equipamentos de prevenção de incêndios para as aldeias também podem reduzir a necessidade de respostas emergenciais perigosas.

A responsabilização também faz parte da resposta. A polícia indonésia prendeu 72 pessoas suspeitas de iniciar alguns incêndios, enquanto quatro empresas estão sob investigação por supostamente usar fogo para desmatar a terra a baixo custo. As investigações precisam distinguir entre desmatamento intencional, ignição acidental e práticas tradicionais, além de verificar se as empresas mantiveram a gestão hídrica e os controles contra incêndios exigidos por lei.

As comunidades indígenas devem ser incluídas nos planos de prevenção, em vez de serem tratadas como suspeitas por definição. Seus conhecimentos sobre o clima sazonal, as condições do solo e os cursos d’água locais podem ajudar a monitorar os incêndios. Ao mesmo tempo, são necessárias regras claras para qualquer queimada em condições secas, especialmente perto de turfeiras drenadas.

A dimensão regional da névoa exige cooperação entre Indonésia, Malásia, Brunei, Singapura e Filipinas. A fumaça não respeita fronteiras nacionais; por isso, são necessários compartilhamento de informações, acesso para aeronaves, alertas de saúde e planejamento de emergências coordenado quando os incêndios se espalham por regiões insulares.

O custo humano por trás da fumaça

A expressão bomba de carbono resume o perigo climático dos incêndios em turfeiras na Indonésia, mas a crise também tem consequências imediatas e pessoais. Crianças estão perdendo aulas, famílias respiram ar poluído e voluntários passam semanas longe de casa. Alguns bombeiros morreram tentando proteger comunidades de uma catástrofe que começou muito abaixo da superfície.

A fumaça é um alerta sobre o que acontece quando antigas áreas alagadas são tratadas como terras vazias. As turfeiras armazenam carbono porque permanecem úmidas. Quando a drenagem e a seca eliminam essa proteção, o material armazenado vira combustível, o ar se torna perigoso e os efeitos se espalham para muito além do incêndio original.

A chuva pode trazer alívio temporário para Bornéu, mas uma proteção duradoura exigirá gestão da água, fiscalização mais rigorosa do desmatamento, apoio aos bombeiros locais e atenção constante entre as estações de incêndios. As pessoas que enfrentam as chamas agora realizam um trabalho que não pode ser resolvido apenas com ações emergenciais.

Principais pontos

  • Cerca de 200 mil hectares de florestas e terras agrícolas no Bornéu indonésio foram afetados desde o início de julho.
  • A turfa pode armazenar carbono por milhares de anos, mas a drenagem a torna muito vulnerável a incêndios subterrâneos.
  • A fumaça se espalhou pela Indonésia, Malásia, Brunei, Singapura e Filipinas.
  • A Indonésia registrou mais de 50 mil casos de infecção respiratória ligados aos incêndios entre julho e agosto.
  • Voluntários usam bombas, poços, canais e tubulações para combater incêndios sob o solo.
  • As autoridades ampliaram as operações terrestres, os lançamentos de água, a semeadura de nuvens e as investigações.
  • A prevenção de longo prazo depende de manter as turfeiras úmidas e controlar o desmatamento.
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