Monges e encontros amorosos: o retiro budista de 30 horas que tenta salvar a natalidade na Coreia do Sul

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Temple Matchmaking Retreat Draws 1,600 Applicants for 24 Spots - Se…

Quando os templos substituem as cafeterias

Esqueça o primeiro encontro de sempre, tomando café ou drinques. Na Coreia do Sul, um número crescente de jovens solteiros está fazendo as malas para passar a noite em templos budistas, na esperança de encontrar o amor. O repórter da BBC Jake Kwon acompanhou um grupo de 24 homens e mulheres durante um retiro de 30 horas em Donghwasa, um templo do século 8 escondido nas florestas do monte Palgongsan, perto da cidade de Daegu. A pergunta que pairava sobre o fim de semana era simples: será que os monges poderiam mesmo ajudá-los a encontrar alguém?

Conteúdo
  1. Quando os templos substituem as cafeterias
  2. Por que os monges viraram casamenteiros
  3. Como é o fim de semana
  4. Quem são os participantes?
  5. Será que funciona mesmo?
  6. Dos templos à demografia: um debate nacional
  7. O que os participantes levam para casa?
  8. Principais pontos

O retiro faz parte de um movimento mais amplo. Os templos já não são apenas lugares de meditação e oração; agora, são locais de um experimento de formação de casais apoiado pelo Estado e voltado a enfrentar um dos problemas sociais mais urgentes da Coreia do Sul hoje. Com as taxas de natalidade em mínimas históricas, o país está tentando de tudo, de bônus em dinheiro a moradias subsidiadas, e agora os monges budistas entraram em cena para bancar o cupido.

A cena da sessão de abertura é incomum. Um monge com vestes laranja queimado diz aos solteiros reunidos que eles estão em uma missão para salvar o país: encontrar alguém e, eventualmente, formar uma família. Os participantes dão risadinhas e trocam olhares, divididos entre o constrangimento e a curiosidade. Parece mais o início de um reality show do que uma reunião religiosa, mas os riscos são reais.

Esses eventos atraem uma demanda extraordinária. Só o retiro de Donghwasa recebeu mais de 1.600 inscrições para cerca de duas dezenas de vagas, o que o torna tão concorrido quanto um vestibular. Os participantes passam por uma seleção com questionários e vídeos de selfie para confirmar que levam a sério a ideia de se casar e ter filhos. O programa é aberto a todos, independentemente da religião, o que ajuda a explicar por que tantos jovens sem religião estão dispostos a passar um fim de semana em um templo.

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Por que os monges viraram casamenteiros

O desafio demográfico enfrentado pela Coreia do Sul é bem documentado. Em 2023, a taxa de fecundidade total, ou seja, o número médio de filhos que uma mulher deve ter ao longo da vida, caiu para a mínima histórica de 0,72. O índice está muito abaixo do nível de reposição de 2,1, patamar em que a população se renova de uma geração para outra sem migração. O resultado é uma força de trabalho em retração, a crescente pressão sobre as aposentadorias e salas de aula que ficam vazias mais rápido do que os hospitais conseguem preencher enfermarias geriátricas.

Desde 2006, o governo gastou cerca de US$ 250 bilhões em programas destinados a incentivar o casamento e a natalidade. Entre os benefícios estão licença parental ampliada, bônus em dinheiro para recém-nascidos e apartamentos subsidiados para recém-casados. Autoridades locais também organizam eventos para aproximar solteiros desde o início dos anos 2000, com atividades que vão de oficinas de marcenaria a festas com DJs à beira do rio. Os resultados dos investimentos foram modestos, na melhor das hipóteses, e os nascimentos continuaram caindo até uma leve recuperação começar em 2024.

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Para a Ordem Jogye do Budismo Coreano, a maior seita budista do país, a crise não é apenas um problema de política pública. O anfitrião Yoo Cheol-ju, que ajuda a organizar o retiro de Donghwasa, descreve a situação em termos quase militares. Ele lembra a história do templo como acampamento de milícias de monges durante as invasões japonesas do século 16, quando budistas se mobilizaram para defender a nação.

Os budistas sempre foram os primeiros a agir quando nosso país enfrenta problemas. A baixa natalidade é uma crise nacional. Precisávamos fazer alguma coisa.

Esse senso de dever transformou os monges em alguns dos casamenteiros mais inesperados da Ásia.

Como é o fim de semana

O retiro de 30 horas é uma maratona cuidadosamente coreografada de conversas, atividades e vulnerabilidade. Os participantes são selecionados por meio de um processo de inscrição que inclui questionários e vídeos de selfie, elaborado para excluir quem não leva a sério a ideia de se casar e ter filhos. Só o evento de Donghwasa recebeu mais de 1.600 inscrições para cerca de duas dezenas de vagas, o que o torna tão concorrido quanto um vestibular.

Uma vez aceitos, os participantes deixam de lado as regras do namoro moderno. Homens e mulheres chegam ao complexo do templo, onde os possíveis pretendentes se apressam para ajudar a levar as malas até os quartos. A primeira atividade para quebrar o gelo é uma rodada de apresentações. Um dos participantes, Kwon Seung-oh, distribui doces franceses que ele mesmo preparou. O gesto conquista a admiração de imediato e dá um tom descontraído ao encontro.

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Depois, começam os encontros. Os participantes são pareados para caminhadas por trilhas arborizadas ao redor do templo, com a oportunidade de conversar em particular, longe do barulho de uma cafeteria na cidade. Mais tarde, os homens entregam uma rosa de plástico à mulher que gostariam de convidar para almoçar. No jantar, as mulheres retribuem o gesto e escolhem seu parceiro preferido. O formato é simples, mas obriga os participantes a serem diretos em uma cultura na qual é raro abordar um desconhecido em público.

O retiro não se resume a caminhadas tranquilas. Há um show de talentos, descrito por um observador como o clímax desajeitado e constrangedor do dia. Um homem dança ao som de um sucesso da boy band 2PM cujo refrão diz: “Quero levar você para minha casa”. Uma mulher dança ao som de uma música pop recém-lançada, outra canta uma balada, e uma designer chamada Ruby conquista a mesa com uma apresentação hesitante em espanhol. O clima mistura acampamento de verão e competição amorosa televisionada.

Quem são os participantes?

As pessoas que passam pelo processo de seleção não são necessariamente religiosas. Os retiros são abertos a todos, independentemente da religião. O que elas têm em comum é um problema prático: não conseguem encontrar um parceiro adequado no dia a dia.

Kim Ah-kyung, de 28 anos, que usa o nome budista Sunhyeji, mudou-se da região de Seul para trabalhar em um escritório nas províncias do sudeste. Ela explica como é difícil conhecer homens quando sua vida se resume a ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

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Realmente não tenho oportunidade de conhecer homens. Só vou do trabalho para casa. Não tenho um hobby. Tentei encontrar um, mas todas as atividades eram individuais.

No escritório, acrescenta ela, a maioria dos colegas é bem mais velha, o que reduz ainda mais as possibilidades.

Kwon Seung-oh, de 30 anos, trabalhador de fábrica conhecido como Enyo, enfrenta outro tipo de isolamento. Seu local de trabalho, uma grande fábrica de laticínios nos arredores de Daegu, tem 97% de homens. Ele já tentou encontros às cegas organizados por amigos, cerca de dez no total, mas achou que eram superficiais e pouco produtivos. Como muitos sul-coreanos, desconfia dos aplicativos de namoro, que nunca se popularizaram tanto quanto no Ocidente. Em 2015, o Tinder chegou a se reposicionar no país como um aplicativo para fazer amigos, para atrair usuários que se sentiam desconfortáveis em conhecer desconhecidos pela internet.

As experiências deles revelam uma mudança mais profunda na sociedade sul-coreana. Tradicionalmente, as pessoas conheciam seus parceiros na escola, no trabalho ou por meio do sogaeting, encontros às cegas organizados por amigos ou familiares. Com a redução dos círculos sociais e o aumento das jornadas de trabalho, esses caminhos estão se fechando. Os jovens saem menos, bebem menos e interagem menos com desconhecidos. O resultado é uma geração solitária e hesitante em relação ao romance.

Será que funciona mesmo?

Ao fim do retiro de Donghwasa, oito casais haviam se formado, incluindo dois pares de funcionários do evento com participantes. Entre os 24 presentes, isso significa que 16 saíram com um possível parceiro. Os demais não saíram de mãos abanando, embora não tenham formado pares românticos. Enyo, o trabalhador da fábrica, ficou decepcionado, mas disse que tentaria de novo se pudesse.

Se me deixarem participar de novo, eu toparia tentar mais uma vez.

Para ele, ainda assim, o fim de semana ajudou a aumentar sua confiança e foi uma pausa na rotina, que quase não lhe dava oportunidades de conhecer mulheres.

Outros retiros em templos tiveram resultados semelhantes. O programa da Ordem Jogye I am Solo at the Temple, conhecido em coreano como I am Jeollo, realizou um evento de dois dias no templo Naksansa, em Yangyang, na província de Gangwon. Vinte participantes foram escolhidos entre um recorde de 4.225 inscritos, uma concorrência de cerca de 211 para cada vaga. Ao fim do fim de semana, cinco pares saíram como casais. O programa já produziu até uma história de sucesso que virou notícia: um casal que se conheceu em um retiro anterior em Naksansa se casou depois e agora espera um filho.

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É difícil ignorar a popularidade desses eventos. O retiro de Naksansa recebeu 1.655 inscrições de homens e 2.570 de mulheres, refletindo tanto a enorme procura quanto um marcante desequilíbrio entre os gêneros, comum em eventos de namoro na Coreia do Sul. O venerável Doryun, chefe da Fundação de Bem-Estar Social da Ordem Jogye, disse que a resposta avassaladora levou a entidade a acrescentar um evento voltado aos moradores da região metropolitana de Seul. Choi Sung-hyun, presidente da Fundação de Turismo de Gangwon, manifestou a esperança de que as atividades resultassem em romances.

Espero que muitos casais se formem por meio deste evento.

Ainda não se sabe se esses encontros vão resultar em casamentos e filhos, mas o interesse, por si só, mostra como muitos jovens coreanos estão ansiosos por uma nova maneira de conhecer pessoas.

Dos templos à demografia: um debate nacional

Os retiros nos templos não acontecem isoladamente. Eles fazem parte de uma discussão mais ampla sobre os motivos pelos quais os sul-coreanos deixaram de ter filhos. Alguns analistas apontam os custos exorbitantes da moradia, o apoio insuficiente aos cuidados infantis e uma cultura de trabalho brutal, que deixa pouco tempo para a família. Outros argumentam que as mulheres simplesmente estão escolhendo a carreira e a liberdade pessoal em vez das normas tradicionais do casamento. A combinação de pressões econômicas e mudanças de valores tornou a maternidade e a paternidade inalcançáveis para muitas pessoas.

Há pequenos sinais de mudança. Em 2024, a taxa de fecundidade começou a subir ligeiramente, após anos de queda. Neste ano, espera-se que as mulheres tenham, em média, 1,0 filho, ante 0,8 no ano anterior. As autoridades têm sido cautelosas ao reivindicar o mérito pela alta. Elas atribuem parte da recuperação a casamentos e nascimentos adiados pela pandemia, além da chegada à idade fértil de uma grande geração de filhos dos baby boomers. Uma pesquisa publicada em março mostrou que pessoas solteiras estavam quase 10% mais favoráveis ao casamento e aos filhos do que dois anos antes. Alguns participantes do retiro disseram que têm visto mais publicações nas redes sociais de amigos se casando e formando famílias, o que fez a ideia parecer menos incomum.

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O governo, as ordens religiosas e os grupos cívicos estão lançando uma grande variedade de propostas. O serviço de encontros nos templos é uma das mais criativas. Ele combina a autoridade moral da religião com a necessidade prática de conexão social, ao mesmo tempo que oferece uma pausa do caráter transacional dos aplicativos de namoro.

O que os participantes levam para casa?

Nem todos saem do templo com um parceiro. Na verdade, a maioria dos participantes de Donghwasa não formou um casal. Ainda assim, quase todos saem com algo novo. Sunhyeji ficou acordada até as 3h da manhã conversando sobre os outros com as mulheres do quarto e foi embora com planos para um brunch em grupo.

Fiz muitas amigas. Já estamos planejando tomar um brunch juntas.

Ela descreveu o retiro como uma divertida noite do pijama que a fez se sentir adolescente de novo, sem medo de improvisar e fazer escolhas ousadas. Os homens solteiros concordaram; continuaram saindo juntos depois do retiro, embora planejassem trocar o chá do templo por bebidas alcoólicas e carne.

O impacto emocional importa porque o problema demográfico tem tanto a ver com o isolamento social quanto com as taxas de natalidade. Se os jovens estão cansados, tímidos ou desconectados demais para conhecer uns aos outros, nenhum bônus em dinheiro vai produzir mais bebês. Os templos estão trabalhando para ampliar as oportunidades de romance: criando um espaço seguro e estruturado onde desconhecidos podem se tornar amigos e, quem sabe, algo mais.

Principais pontos

  • Templos budistas sul-coreanos estão organizando retiros de fim de semana para ajudar jovens solteiros a se conhecerem e, eventualmente, se casarem e terem filhos.
  • O retiro de Donghwasa recebeu mais de 1.600 inscrições para 24 vagas; o programa I am Solo at the Temple, da Ordem Jogye, atraiu o número recorde de 4.225 inscritos para um evento em Naksansa.
  • Oito casais se formaram no retiro de Donghwasa, enquanto cinco pares saíram do evento de Naksansa como casais. Um dos pares formados em uma edição anterior se casou e espera um filho.
  • Os retiros são organizados pela Fundação de Bem-Estar Social da Ordem Jogye e têm o apoio do Ministério da Saúde e do Bem-Estar como parte dos esforços para enfrentar a taxa de fecundidade mínima histórica da Coreia do Sul.
  • A taxa de fecundidade da Coreia do Sul caiu para 0,72 em 2023, mas apresentou uma leve recuperação, com projeções de cerca de 1,0 filho por mulher no ano atual.
  • Os participantes dizem que o maior benefício costuma ser fazer novas amizades e recuperar a confiança, mesmo para quem não encontra um parceiro romântico.
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