A crise dos crocodilos na Indonésia: como a mineração de estanho para smartphones alimenta conflitos mortais entre humanos e animais selvagens

12 min de leitura
A crise dos crocodilos na Indonésia: como a mineração de estanho para smartphones alimenta conflitos mortais entre humanos e animais selvagens

A morte de uma criança nas minas abandonadas

Chaca tinha apenas cinco anos quando acompanhou os pais para tomar banho em uma lagoa de mineração abandonada perto de casa, na província das Ilhas Bangka Belitung. A água parecia tranquila naquela tarde de sábado, em janeiro de 2025, e oferecia alívio do calor tropical. De repente, um crocodilo-de-água-salgada agarrou a criança na margem e a arrastou para debaixo d'água. Apesar dos extensos esforços de busca, que envolveram equipes de resgate do Exército, da polícia e da comunidade, o corpo da menina foi encontrado na manhã seguinte, boiando não muito longe do local onde ela havia sido levada.

Conteúdo
  1. A morte de uma criança nas minas abandonadas
  2. O réptil mais mortal do mundo e a extração industrial
  3. Cadeias globais de fornecimento e sangue local
  4. A corrupção por trás da carnificina
  5. Quando humanos e crocodilos se encontram
  6. Centro de resgate no limite
  7. Em busca de soluções em meio à falha institucional
  8. O essencial

A morte de Chaca ocorreu poucos meses depois de Jauhari, pescador de 40 anos, se tornar a mais recente vítima na vila de Menduk, no oeste de Bangka, provavelmente a 21ª pessoa morta por crocodilos-de-estuário naquela região nos últimos cinco anos. Essas tragédias são registros de uma crescente base de dados de horror que fez da Indonésia o epicentro mundial de ataques de crocodilos. Na década que terminou em 2023, ocorreram mais de 1.000 ataques no arquipélago, que resultaram em 486 mortes, segundo o CrocAttack, banco de dados internacional que acompanha conflitos entre humanos e crocodilos. As Ilhas Bangka Belitung, província rica em estanho na costa sudeste de Sumatra, respondem por quase 90 desses incidentes, e o total real provavelmente é maior devido à subnotificação em áreas remotas.

Publicidade

O réptil mais mortal do mundo e a extração industrial

O crocodilo-de-água-salgada (Crocodylus porosus) é o maior réptil vivo da Terra. Os machos adultos podem ultrapassar 7 metros de comprimento e pesar quase 1.000 quilos. Esses predadores de topo podem viver mais de 70 anos e têm uma notável fidelidade territorial e um forte instinto de retorno, que os leva de volta aos habitats de origem mesmo depois de serem transferidos para locais a centenas de quilômetros de distância.

Na ilha de Bangka, essas criaturas ancestrais antes dominavam estuários e manguezais, relativamente isoladas de assentamentos humanos. A ilha, menor que Porto Rico, tem cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais aproximadamente 80% dependem da mineração de estanho para sobreviver. Essa realidade econômica transformou a paisagem no que pesquisadores descrevem como algo semelhante à superfície lunar, marcada por milhares de cavas de mineração abandonadas, conhecidas localmente como kulongs.

Os moradores locais chamam os animais de puaka, nome que reflete antigas crenças de que esses gigantes protegiam todos os pântanos e estuários, dominando os peixes e camarões de seus territórios. O respeito tradicional mantinha humanos e crocodilos separados: os moradores evitavam os rios habitados pelos animais, e os crocodilos raramente entravam nas áreas povoadas, exceto quando se perdiam. Essa evitação mútua entrou em colapso à medida que a atividade industrial transformou a paisagem.

Essas lagoas artificiais se formam quando mineradores ilegais escavam o minério de estanho à mão ou com maquinário básico e depois abandonam as crateras. A água da chuva e do lençol freático preenche gradualmente os buracos, criando novos habitats aquáticos que se estendem para longe dos cursos d'água naturais. Peixes e caranguejos ficam presos nos kulongs após as enchentes, atraindo crocodilos famintos expulsos de seus manguezais tradicionais pelo desmatamento e pelas operações de mineração em andamento.

Publicidade

Cadeias globais de fornecimento e sangue local

A ligação entre os eletrônicos de consumo produzidos para mercados distantes e esses encontros mortais nas áreas úmidas da Indonésia é direta e mensurável. O estanho é um componente essencial da solda que une placas de circuito e componentes eletrônicos. A Indonésia é o segundo maior produtor mundial de estanho, depois da China, e aproximadamente 90% da produção nacional vem das Ilhas Bangka Belitung. Marcas importantes de tecnologia têm comprado estanho dessa região para fabricar smartphones e outros dispositivos.

Grandes marcas, entre elas Apple e Samsung, foram questionadas sobre a origem do estanho de Bangka, depois que investigações das cadeias de fornecimento rastrearam o caminho do metal das margens lamacentas dos rios até as placas de circuito. A demanda por eletrônicos de consumo gera preços que tornam a mineração ilegal economicamente irresistível, apesar dos riscos letais.

Após a democratização da Indonésia, em 1998, e a descentralização da gestão de recursos, as autoridades provinciais passaram a controlar as operações de mineração. Em 2001, uma lei concedeu aos cidadãos o direito de minerar estanho, desencadeando uma explosão de operações ilegais. Em apenas três anos, o número de locais de mineração ilegal quadruplicou, avançando sobre florestas protegidas, reservas de manguezais e até concessões de empresas estatais.

A devastação ambiental vai além das cicatrizes deixadas diretamente pela mineração. Mais de 60% da área de Bangka foi convertida em áreas de mineração, enquanto mais de um terço das antigas florestas da ilha desapareceu em pouco mais de duas décadas. Plantações de palma-de-óleo substituíram cultivos tradicionais e florestas úmidas em toda a parte alta da bacia do rio Menduk, degradando ainda mais as áreas úmidas com canais de drenagem que criam novos caminhos para os crocodilos se aproximarem de assentamentos humanos.

Publicidade

A corrupção por trás da carnificina

Em 2024, promotores indonésios revelaram o que pode ser a maior investigação de corrupção da história do país. A gigante estatal de mineração de estanho PT Timah teria facilitado a mineração ilegal em larga escala em Bangka entre 2015 e 2022, causando danos ambientais estimados em US$ 18 bilhões. Os investigadores afirmam que a empresa alugou fundições e comprou materiais extraídos ilegalmente, enquanto canalizava lucros para altos funcionários por meio de transações fraudulentas.

Essa corrupção institucional se estende por toda a cadeia de fiscalização. Em 2014, descobriram-se quatro policiais indonésios a bordo de uma embarcação que transportava 134 contêineres de estanho extraído ilegalmente com destino a Singapura. O esquema permitiu que operações de mineração avançassem sobre florestas de mangue protegidas e parques nacionais, justamente os habitats que abrigam populações de crocodilos.

O maquinário pesado e os explosivos usados na mineração a céu aberto geram enormes pilhas de resíduos que alteram as propriedades do solo e a hidrologia. O assoreamento provocado pelas operações de mineração reduziu drasticamente o fluxo dos rios, afetando os recifes de coral que servem de berçário para os peixes e impedindo o desenvolvimento de ovos de caranguejos e camarões. Isso reduz ainda mais as fontes naturais de alimento dos crocodilos e os leva a se aproximar de assentamentos humanos.

Asari, chefe da vila de Jada Bahrin, em Bangka, renunciou em março, alegando pressão para aprovar a mineração ilegal de estanho que avança ao longo do rio Menduk. Moradores relatam que florestas estão sendo desmatadas para o cultivo de palma-de-óleo, degradando as áreas úmidas e reduzindo os estoques de peixes que antes alimentavam tanto as comunidades humanas quanto as populações de crocodilos. O resultado é uma panela de pressão ecológica, em que predadores e presas disputam recursos cada vez mais escassos em águas cada vez mais tóxicas, poluídas pelo escoamento da mineração.

Publicidade

Quando humanos e crocodilos se encontram

A transformação ecológica alterou fundamentalmente o comportamento dos crocodilos. O metabolismo desses répteis é sensível a mudanças de temperatura, o que significa que as mudanças climáticas podem aumentar seu nível de atividade à medida que as águas esquentam. Ao mesmo tempo, secas prolongadas, como a que secou o poço de Sariah, obrigam os moradores a entrar com mais frequência em águas ocupadas por crocodilos. O estudo de 2023 publicado na revista Biological Conservation documentou 665 casos de ataques de crocodilos na Indonésia, apenas em notícias publicadas entre 2017 e 2019, consolidando o país como líder mundial nesse tipo de incidente.

Mais significativamente, a destruição dos habitats força os crocodilos a entrar nos kulongs, onde encontram pessoas tomando banho, lavando minério de estanho ou pescando. Pesquisas indicam que quase um terço dos ataques de crocodilos em Bangka Belitung ocorre em minas de estanho atuais ou desativadas, e outros 16,5% atingem pessoas que estavam minerando.

O custo humano vai além das mortes imediatas. Rozi, professor de religião de 54 anos da vila de Telak, tomava banho no rio Antan depois de um dia de mineração, em novembro de 2020, quando foi atacado por um crocodilo. O animal torceu seu corpo e arrancou carne da panturrilha esquerda, deixando-o incapaz de andar normalmente quase três anos depois. Fico traumatizado até de olhar para uma foto de crocodilo ou passar por uma vala cheia de água, explicou. Rozi agora manca e não pode voltar à mineração, mas não tem outra fonte de renda em uma economia onde o cultivo de pimenta deixou de ser viável e a palma-de-óleo exige um capital de que ele não dispõe.

Sariah, moradora de 54 anos atacada em setembro de 2023, só sobreviveu porque reagiu quando um crocodilo de 3 metros a arrastou para uma cava de mineração onde ela havia ido buscar água, depois que seu poço secou durante uma seca prolongada. Às vezes, quando durmo, revivo o ataque nos meus sonhos, contou. Cinco dias depois do ataque, outro minerador sofreu ferimentos na cabeça e no ombro enquanto lavava minério de estanho em uma cava semelhante.

Publicidade

Centro de resgate no limite

A Fundação Alobi opera o único centro de resgate e reabilitação de animais selvagens da ilha de Bangka. Fundada em 2014 e instalada em um terreno recuperado pela PT Timah, a unidade abriga atualmente 34 crocodilos-de-água-salgada em um recinto com área equivalente a aproximadamente metade de uma quadra de tênis. Os animais chegam feridos por facões, anzóis ou tiros disparados por comunidades em busca de vingança após ataques.

Langka Sani, fundador da instituição, recebe até sete ligações por dia sobre avistamentos de crocodilos ou conflitos. No passado, talvez nem ficássemos sabendo de um ataque de crocodilo durante um ano inteiro; agora, nas últimas duas semanas, houve dezenas de relatos de casos envolvendo crocodilos, observou Sani. A organização chegou ao limite da capacidade e não consegue receber mais animais nem soltar os que já estão sob seus cuidados com segurança.

A transferência dos animais também apresenta desafios. O instinto de retorno dos crocodilos os leva de volta aos locais onde foram capturados, independentemente da distância. Em 2021, as autoridades transportaram alguns animais para Sumatra do Sul, mas a própria Bangka não oferece estuários livres de conflitos para soltá-los. Não é possível soltar crocodilos na própria ilha de Bangka porque o habitat dos crocodilos está muito degradado [como resultado do avanço humano sobre a área estuarina] e já não é bonito, explicou Sani.

Endi R. Yusuf, responsável pelo centro de resgate, afirma que a unidade não recebe recursos diretos do governo e depende de doações e, ocasionalmente, de bovinos mortos fornecidos por criadores locais para alimentar os predadores. Lutamos todos os dias para salvar [os animais] ou removê-los, declarou Yusuf, acrescentando que o santuário tem dificuldade para encontrar locais seguros para soltura, apesar de ter identificado áreas úmidas preservadas no distrito de Bangka Central como possíveis zonas de conservação.

Publicidade

Em busca de soluções em meio à falha institucional

O governo indonésio respondeu com medidas contraditórias. Agora, as autoridades locais permitem que mineradores obtenham licenças para operações antes ilegais, com a restauração dos habitats como condição. No entanto, a fiscalização fraca faz com que a restauração permaneça, em grande parte, apenas na teoria. Amir Syahbana, funcionário local responsável pela área de energia e recursos minerais, reconhece que as obrigações de recuperação vão do plantio de árvores à gestão de resíduos, mas menos de 10% das terras degradadas foram efetivamente recuperadas em 2023.

Em fevereiro de 2024, após reportagens investigativas dos jornalistas Finlan Adhitya Aldan e Bayu Asya Isminanda, autoridades provinciais anunciaram planos para revisar um grupo de trabalho inativo, criado em 2020 para administrar conflitos entre humanos e crocodilos. O decreto revisado incluiria a PT Timah, empresas privadas de mineração e a agência estatal de pesquisa BRIN no grupo, além de destinar recursos a iniciativas de conservação. Em abril de 2025, o decreto ainda aguardava a assinatura do governador.

Pesquisadores ressaltam que a conservação eficaz exige preservar os habitats in situ, em vez de continuar transferindo os animais. Brandon Sideleau, biólogo de vida selvagem que fundou o banco de dados CrocAttack, observa que imagens de satélite revelam possíveis áreas de conservação ao redor do rio Baturusa e da barragem de Pice. No entanto, para estabelecer essas zonas, seria necessário proibir totalmente a atividade humana, uma proposta que entra em conflito com a dependência econômica das comunidades locais da mineração e da pesca.

Jessix Amundian, diretor da organização local sem fins lucrativos Tumbek for Earth, argumenta que criar áreas protegidas, por si só, não basta. O que é necessário não é apenas criar ou designar uma área de conservação para os crocodilos-de-estuário, mas também recuperar as condições dos rios, pântanos e manguezais, afirmou Amundian. Sem uma restauração abrangente, os 1.000 hectares de plantações de palma-de-óleo e os 250 locais de mineração ilegal que ocupam as áreas úmidas de Menduk continuarão gerando as condições que levam crocodilos e humanos a encontros mortais.

Publicidade

O essencial

  • A Indonésia registrou mais de 1.000 ataques de crocodilos entre 2013 e 2023, com 486 mortes, tornando-se o epicentro mundial dos conflitos entre humanos e crocodilos.
  • As Ilhas Bangka Belitung respondem por quase 90 ataques documentados, com os principais focos diretamente associados a áreas de intensa atividade de mineração ilegal de estanho.
  • Cavas de mineração abandonadas, chamadas kulongs, criam habitats artificiais que atraem crocodilos-de-água-salgada para o interior da ilha, onde encontram pessoas tomando banho, pescando ou lavando minério de estanho.
  • A gigante estatal de mineração PT Timah enfrenta acusações de corrupção relacionadas a US$ 18 bilhões em danos ambientais e à facilitação da mineração ilegal entre 2015 e 2022.
  • O centro de resgate da Fundação Alobi chegou ao limite da capacidade, com 34 crocodilos, e não pode soltar os animais por falta de habitats seguros. Além disso, não recebe recursos diretos do governo.
  • Especialistas em conservação recomendam criar zonas protegidas de conservação in situ e restaurar as áreas úmidas de forma abrangente, em vez de continuar transferindo os animais.
  • Um decreto revisado do governador para reativar o grupo de trabalho sobre conflitos entre humanos e crocodilos ainda não havia sido assinado em abril de 2025, e quatro mortes já tinham ocorrido em 2025.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar