Os 'filhos do nepotismo' do Nepal se calam às vésperas das eleições após revolta da Geração Z

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Os 'filhos do nepotismo' do Nepal se calam às vésperas das eleições após revolta da Geração Z

O desaparecimento dos poucos privilegiados

Há poucos meses, os feeds do Instagram da elite política do Nepal exibiam vidas de opulência extraordinária, aparentemente intocáveis. Shrinkhala Khatiwada, ex-Miss Nepal e filha de um ex-ministro da Saúde, tinha mais de um milhão de seguidores e publicava imagens cuidadosamente selecionadas de uma vida privilegiada. Smita Dahal, neta de um primeiro-ministro que ocupou o cargo três vezes e ex-líder guerrilheiro maoista, exibia regularmente coleções de bolsas caras que custariam o equivalente a anos de salários de um nepalês médio. Esses diários digitais de grifes, resorts cinco estrelas e destinos exóticos serviram de combustível para uma revolta que acabaria forçando um primeiro-ministro a deixar o cargo e levando o Estado à beira do colapso.

Conteúdo
  1. O desaparecimento dos poucos privilegiados
  2. Das árvores de Natal de luxo às chamas na capital
  3. Como o Discord elegeu um primeiro-ministro
  4. O silêncio relutante da elite
  5. Promessas na campanha, ceticismo nas ruas
  6. O êxodo que as eleições não conseguem deter
  7. Uma onda regional de revolta juvenil
  8. O essencial

Hoje, essas contas contam outra história: a de uma retirada estratégica diante da fúria pública. Khatiwada encerrou completamente sua conta no Instagram, desaparecendo da plataforma onde antes exercia influência. Seu último vídeo no YouTube continua sendo uma gravação de 34 minutos em que se defende do rótulo de "filhinha de papai", publicada meses antes de a tempestade começar. Dahal se refugiou nas configurações de privacidade; sua última publicação pública no Facebook data do fim de agosto. O silêncio é ensurdecedor e calculado. Até os símbolos mais proeminentes do privilégio político parecem reconhecer que se expor se tornou perigoso.

O contraste entre essas demonstrações de riqueza que desapareceram e a realidade da vida cotidiana no Nepal não poderia ser mais gritante. Em um país onde o desemprego entre os jovens chega a 20,6% e três milhões de cidadãos trabalham no exterior, muitas vezes em empregos perigosos na construção civil nos países do Golfo, a ostentação descarada de luxo herdado havia se tornado politicamente tóxica. Satish Kumar Yadav, técnico de laboratório de 25 anos, resumiu o sentimento que acabaria levando milhares às ruas, tomados pela fúria.

Os filhos dos grandes políticos comemoram ocasiões especiais em lugares como Tailândia e Suíça", observou ele nos meses que antecederam a explosão. "Mas os filhos das pessoas comuns são obrigados a ir para os países do Golfo em busca de emprego.

Essa disparidade, visível na tela de qualquer celular, criou uma pressão que a classe política não percebeu até ser tarde demais.

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Das árvores de Natal de luxo às chamas na capital

Talvez o símbolo que melhor retratou essa disparidade fosse também o mais absurdo. Saugat Thapa, filho de um ex-ministro, posou ao lado de caixas da Louis Vuitton, Cartier e Gucci empilhadas no formato de uma árvore de Natal, imagem que circulou amplamente entre os jovens indignados. Enquanto Thapa continua publicando fotos de Hong Kong, Londres, Istambul e Marrakech para seus 14 mil seguidores, defendendo que a riqueza do pai "retornou à comunidade", o ressentimento já havia se cristalizado em algo volátil.

A faísca que incendiou essa fúria acumulada surgiu em 4 de setembro de 2025, quando o governo proibiu 26 plataformas de mídia social, incluindo Facebook, WhatsApp, YouTube e Instagram. Oficialmente, a proibição tinha como alvo plataformas não registradas que violavam as novas regras de tributação sobre serviços digitais. Na realidade, alegam críticos, foi uma tentativa de silenciar a campanha viral #NepoBaby, que vinha expondo a desigualdade entre dinastias políticas e cidadãos comuns.

A resposta foi imediata e catastrófica. Em 8 de setembro, milhares de manifestantes da Geração Z, muitos uniformizados, se reuniram em Katmandu. O que começou como manifestações pacíficas organizadas por coletivos juvenis como o Hami Nepal se tornou violento quando as forças de segurança abriram fogo. Ao anoitecer, 19 manifestantes estavam mortos, muitos atingidos por munição real. A violência se intensificou nos dias seguintes, quando multidões incendiaram o prédio do Parlamento, a Suprema Corte, o gabinete do primeiro-ministro e as casas de ex-ministros. O ex-primeiro-ministro Sher Bahadur Deuba e sua esposa, ex-ministra das Relações Exteriores, foram espancados dentro de sua residência em chamas. Ao todo, pelo menos 76 pessoas morreram, incluindo 22 manifestantes, três policiais e 10 presos baleados durante fugas da prisão.

Em 48 horas, o primeiro-ministro KP Sharma Oli renunciou e fugiu para um quartel do Exército, escapando depois de helicóptero. O Estado havia desmoronado sob o peso da revolta de uma geração.

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Como o Discord elegeu um primeiro-ministro

Em meio às ruínas fumegantes dos prédios do governo nepalês, surgiu uma experiência inédita de democracia digital. Enquanto o Exército patrulhava as ruas sob toque de recolher, mais de 100 mil jovens nepaleses se reuniram em servidores do Discord, a plataforma de bate-papo voltada a jogos que havia se tornado seu centro de coordenação. Eles não estavam apenas organizando protestos: estavam escolhendo um novo governo.

O servidor "Jovens contra a corrupção", criado pelo ativista Sudan Gurung, do Hami Nepal, transformou-se em um parlamento virtual. Após debates e votações, os jovens escolheram Sushila Karki, ex-presidente da Suprema Corte conhecida por sua postura anticorrupção, para liderar o governo interino. Talvez tenha sido a primeira vez na história moderna que um chefe de governo foi escolhido por meio de uma votação on-line conduzida por cidadãos, e não por partidos políticos.

Sem credibilidade junto aos manifestantes, o presidente Ram Chandra Poudel invocou a "doutrina da necessidade" para nomear Karki em 12 de setembro. Aos 73 anos, ela se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Nepal, encarregada de conduzir o país até as eleições previstas para 5 de março de 2026. Seu gabinete interino é formado por especialistas, não políticos: ex-secretários da Fazenda e dirigentes de empresas de energia foram nomeados para ministérios importantes.

"Não cheguei a este cargo porque o busquei, mas porque as vozes nas ruas exigiam que Sushila Karki recebesse essa responsabilidade", declarou ela ao assumir o posto.

Karki agiu imediatamente para responder à violência, anunciando uma indenização de 1 milhão de rúpias (aproximadamente US$ 7 mil a US$ 11.330, dependendo da cotação) às famílias dos manifestantes mortos e atendimento médico aos feridos. Ela prometeu que seu governo duraria no máximo seis meses, tempo suficiente apenas para realizar as eleições.

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O silêncio relutante da elite

À medida que as eleições se aproximam, o comportamento das famílias políticas do Nepal sugere que elas compreendem a dimensão da indignação pública, ainda que não saibam ao certo como enfrentá-la. O apagão nas redes sociais entre os "filhos do nepotismo" é apenas o sintoma mais visível desse acerto de contas. O casamento luxuoso de Jaiveer Singh Deuba, filho do ex-primeiro-ministro Sher Bahadur Deuba, que ocupou o cargo cinco vezes, com a cantora Shivana Shrestha já havia exemplificado os excessos que alimentaram o ressentimento. As fotos de roupas de grife e férias em destinos exóticos publicadas pelo casal desapareceram junto com suas contas.

Os próprios partidos políticos se apressaram em demonstrar credenciais reformistas. O Congresso Nepalês afastou Sher Bahadur Deuba da presidência do partido e o substituiu por Gagan Thapa, de 49 anos, visto como uma nova liderança em uma organização envelhecida. O partido propôs investigar o patrimônio de ocupantes de cargos públicos desde 1991 e estabelecer limites de mandato para os cargos de primeiro-ministro e presidente do partido. O Partido Comunista do Nepal UML, que estava no poder durante o massacre, prometeu mobilizar jovens para uma "transformação política". O Partido Rastriya Swatantra, criado há apenas alguns anos, prometeu tornar os órgãos constitucionais mais responsáveis.

Para Rakshya Bam, uma das principais lideranças da Geração Z no Nepal, porém, essas medidas continuam insuficientes. Ela reconhece as mudanças, mas ressalta os limites dessas reformas.

Eles foram pressionados e fizeram reformas dentro do partido", diz ela a observadores. "Também estabeleceram um prazo para o período em que qualquer candidato pode atuar como primeiro-ministro ou presidente do partido. Também definiram quantas vezes uma pessoa pode ser ministra. Acho que essa é uma boa prática e pode ajudar a desmantelar a corrupção nas políticas públicas.

Ela afirma, no entanto, que isso não basta, um sentimento compartilhado por outros jovens que testemunharam a violência de setembro.

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Promessas na campanha, ceticismo nas ruas

As eleições de 5 de março apresentam três visões distintas para o futuro do Nepal, embora os eleitores duvidem que alguma delas consiga romper o ciclo de disfunção. Balendra Shah, rapper que se tornou engenheiro, de 35 anos, e ganhou fama como prefeito independente de Katmandu, aparece como favorito. Candidato pelo Partido Rastriya Swatantra, prometeu criar 1,2 milhão de empregos e "dar voz firme contra irregularidades e corrupção". Suas roupas pretas e seus óculos escuros se tornaram símbolos de resistência à classe política tradicional.

Gagan Thapa, do Congresso Nepalês, promete gerar 1,5 milhão de empregos, reduzir pela metade a saída de trabalhadores do país em cinco anos e livrar o Nepal da corrupção no mesmo período. Já Khadga Prasad Oli, o próprio primeiro-ministro forçado a deixar o cargo pelos protestos, busca um improvável retorno e promete "tolerância zero" à corrupção desta vez, apesar de ter comandado a violenta repressão que matou dezenas de pessoas.

O ceticismo entre os jovens é palpável. Rakesh Kumar Mahato, baleado na coluna durante os protestos e ainda paralisado, expressa a dúvida de muitos que pagaram o preço mais alto pela mudança.

"Eles dizem que vão investigar a corrupção, mas não temos certeza de que vão implementar isso de fato", disse ele a jornalistas.

Dipika Saru Mugar, que viajou 16 horas para votar pela primeira vez, reconhece que o cenário está mudando.

Acho que muita gente esqueceu a onda dos filhos do nepotismo", admite. "Essa onda passou e o foco mudou. Hoje em dia, nossa capacidade de atenção é muito curta.

Ainda assim, ela insiste que as queixas que deram origem ao movimento continuam presentes.

A revolta foi resultado de um sofrimento, e acho que as pessoas devem se lembrar disso na hora de votar.

A Transparência Internacional Nepal faz uma avaliação preocupante. "Como se trata de um problema estrutural, a solução não será rápida nem fácil", observou um representante. A organização aponta que, embora os partidos prometam investigações, duas dúzias de comissões criadas ao longo de 70 anos engavetaram seus relatórios sem tomar providências.

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O êxodo que as eleições não conseguem deter

Independentemente de quem vencer as eleições de março, uma crise parece incontornável. Os jovens nepaleses continuam deixando o país a uma taxa de aproximadamente 1.500 por dia. Em centros de treinamento em Katmandu, jovens como Rahul Pariyar, de 21 anos, praticam habilidades de construção civil não para conseguir emprego no país, mas para trabalhar em contratos nos Emirados Árabes Unidos. "Não fico feliz em deixar minha família para trás e ir trabalhar em um país estrangeiro. Mas o que posso fazer?", pergunta. Os salários em Dubai são aproximadamente quatro vezes maiores do que os disponíveis no país.

Os números revelam uma economia doméstica que não funciona. As remessas enviadas pelos três milhões de trabalhadores no exterior representam quase 25% a 33% do PIB do Nepal, uma das proporções mais altas do mundo. Ainda assim, essa entrada de recursos não se traduziu na criação de empregos. O setor manufatureiro, historicamente um motor de desenvolvimento em outros lugares, continua pouco desenvolvido devido à instabilidade das políticas públicas, às deficiências de infraestrutura e à governança fraca. A agricultura ainda emprega mais de 60% da força de trabalho, embora responda por uma pequena parcela da produção econômica.

As promessas eleitorais de milhões de novos empregos soam vazias para quem está fazendo as malas. "Essa eleição vai me dar um emprego? Não, né?", pergunta Ramesh Bahadur B.K. Nimaile, que se prepara para ir à Romênia para pagar dívidas da família superiores a US$ 17 mil. "A inflação está disparando, tudo está caro. Que opção eu realmente tenho além de migrar para trabalhar?"

Essa realidade econômica enfraquece o momento político. Embora os protestos da Geração Z tenham conseguido derrubar um governo e instalar uma mulher na liderança interina, ainda não alteraram as condições materiais que levam os jovens nepaleses a buscar trabalho no exterior. Os "filhos do nepotismo" podem ter se calado nas redes, mas as desigualdades estruturais que permitiram a seus pais acumular tanta riqueza ostensiva enquanto o país exporta seus jovens continuam firmemente instaladas.

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Uma onda regional de revolta juvenil

A revolta do Nepal não ocorreu isoladamente. Ela faz parte de um padrão mais amplo de movimentos liderados por jovens que estão remodelando a política do Sul da Ásia. Em Bangladesh, protestos estudantis em julho de 2024 contra as cotas para empregos no governo se transformaram em um movimento de massa que obrigou a primeira-ministra Sheikh Hasina a fugir do país. No Sri Lanka, os protestos Aragalaya de 2022 contra o colapso econômico derrubaram o presidente Gotabaya Rajapaksa. No início deste ano, jovens indonésios também se mobilizaram contra a corrupção e a falta de oportunidades, usando a mesma bandeira dos Piratas do Chapéu de Palha, do mangá One Piece, que apareceu em Katmandu.

Esses movimentos têm características em comum. São nativos do ambiente digital e se organizam por plataformas como Discord, TikTok e Instagram, em vez de estruturas políticas tradicionais. Não têm líderes ou são liderados coletivamente, resistindo à cooptação por partidos já estabelecidos. Seu alvo não são apenas políticas específicas, mas a relação fundamental entre cidadãos e um Estado que consideram capturado por elites corruptas.

Richard Bownas, professor da Universidade do Norte do Colorado, observa as consequências preocupantes para a governança democrática. Ao contrário da Primavera Árabe, que tinha como alvo regimes autoritários, esses protestos no Sul da Ásia desafiam governos eleitos em países democráticos.

"O que está acontecendo com a democracia quando as pessoas protestam contra nepotismo e corrupção, em estilo revolucionário, de líderes eleitos em eleições provavelmente livres e justas?", pergunta ele.

A pergunta assombra a próxima votação no Nepal. Se as eleições de 5 de março simplesmente devolverem ao poder os mesmos partidos com rostos mais jovens, as ruas podem voltar a explodir.

O essencial

  • O Nepal realiza eleições gerais em 5 de março de 2026, após a renúncia do primeiro-ministro KP Sharma Oli, em meio aos protestos mortais da Geração Z em setembro de 2025
  • Os protestos, que deixaram pelo menos 76 mortos, foram desencadeados pela proibição das redes sociais, mas alimentados por uma longa insatisfação com a corrupção e o fenômeno dos "filhos do nepotismo"
  • Os filhos das elites políticas que antes ostentavam vidas luxuosas no Instagram desapareceram em grande parte das redes ou tornaram suas contas privadas antes da votação
  • A ex-presidente da Suprema Corte Sushila Karki é a primeira mulher a ocupar interinamente o cargo de primeira-ministra e foi escolhida em uma votação on-line liderada por jovens no Discord
  • Os três principais candidatos a primeiro-ministro são o rapper que se tornou prefeito Balendra Shah, o líder do Congresso Nepalês Gagan Thapa e o ex-primeiro-ministro Khadga Prasad Oli
  • Apesar das promessas anticorrupção de todos os principais partidos, aproximadamente 1.500 jovens nepaleses continuam deixando o país diariamente para trabalhar no exterior devido ao desemprego interno
  • O desemprego entre os jovens chega a 20,6%, enquanto as remessas dos trabalhadores no exterior representam cerca de 25% a 33% do PIB do Nepal
  • O movimento faz parte de uma tendência regional mais ampla de protestos da Geração Z em Bangladesh, Sri Lanka e Indonésia, que exigem que elites arraigadas prestem contas
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