Os gigantes répteis de Bangkok: como os lagartos-monitores conquistaram a cidade

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Os gigantes répteis de Bangkok: como os lagartos-monitores conquistaram a cidade

Gigantes pré-históricos em uma metrópole moderna

Pouco antes do amanhecer, em uma das maiores áreas verdes da região central de Bangkok, uma calmaria pesada paira sobre os canais que cercam o Parque Lumphini. Quase nenhuma ondulação perturba a superfície dos grandes lagos. No entanto, quando o sol nasce sobre a capital tailandesa, o silêncio se rompe. Focinhos escamosos começam a emergir da água, seguidos por corpos longos e musculosos que se arrastam até as margens lamacentas. São os lagartos-monitores-asiáticos, a segunda maior espécie de lagarto do mundo, atrás apenas do dragão-de-komodo. Para os viajantes, os lagartos-monitores de Bangkok não são uma atração tradicional, mas servem como um lembrete marcante de como a natureza persiste na cidade mais visitada do mundo.

Conteúdo
  1. Gigantes pré-históricos em uma metrópole moderna
  2. Uma improvável história de sucesso urbano
  3. Decifrando a invasão urbana
  4. De símbolo de azar a estrela das redes sociais
  5. Como lidar com o conflito entre humanos e animais silvestres
  6. Controle da população de lagartos-monitores
  7. O essencial

Encontrar esses répteis antigos, uma espécie que existe há milhões de anos, oferece um vislumbre do passado ecológico da cidade. Antes de Bangkok se tornar uma metrópole extensa, repleta de vias expressas e arranha-céus, a região era uma rede de áreas alagadas e cursos d'água. Hoje, observar os lagartos tomando sol ao lado de corredores e pessoas fazendo piquenique proporciona uma experiência de viagem singular. Não é preciso ingresso, guia ou recinto planejado: basta caminhar cedo pela manhã no coração verde da cidade. Embora o Parque Lumphini seja o lugar mais acessível para avistá-los, os lagartos-monitores estão longe de se limitar a uma única área verde.

Antes empurrados para os limites da cidade, os répteis se adaptaram discretamente à vida na megacidade. Eles patrulham muitos dos quase 1.700 canais, conhecidos localmente como khlongs, que atravessam os bairros. Esses cursos d'água vão de ruas residenciais tranquilas a movimentadas zonas comerciais e formam uma rede de transporte para os répteis aquáticos. Acredita-se que várias centenas de lagartos-monitores vivam apenas dentro e nos arredores do Parque Lumphini, atraindo moradores, turistas e fotógrafos para uma proximidade tensa com um animal que há muito divide a opinião pública.

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Uma improvável história de sucesso urbano

A capacidade desses répteis gigantes de prosperar em uma selva de concreto é prova de sua resiliência biológica. Michael Cota, pesquisador associado aposentado do Museu Nacional de Ciências da Tailândia, estudou a espécie extensivamente. Em seu escritório no norte da Tailândia, ele explicou as razões por trás do sucesso urbano desses animais.

A população deles em Bangkok é muito, muito maior do que você encontraria na natureza. Quando se trata de comida, eles comem qualquer coisa que consigam pegar, viva ou morta. São extremamente generalistas.

Essa flexibilidade alimentar é um fator essencial para sua sobrevivência. O ambiente urbano oferece um fluxo constante de recursos, desde restos de comida descartados até carniça e animais menores. Na natureza, as fontes de alimento podem ser escassas e imprevisíveis. Em Bangkok, os lagartos encontram um banquete constante. Eles também são altamente adaptáveis na locomoção e usam a extensa rede de canais da cidade para se deslocar entre diferentes habitats sem precisar atravessar ruas movimentadas.

Outro fator crucial é a ausência de predadores naturais. Em seus habitats naturais, os lagartos-monitores jovens são caçados por predadores maiores, incluindo crocodilos e grandes aves de rapina. No coração de Bangkok, esses predadores de topo não existem. A falta de ameaças naturais garante aos lagartos uma alta taxa de sobrevivência e permite que a população cresça rapidamente. Com seu clima tropical e abundância de água, a cidade cria, na prática, um paraíso onde os lagartos podem atingir tamanhos impressionantes, muitas vezes chegando a quase dois metros de comprimento.

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Decifrando a invasão urbana

Pesquisas científicas sobre a colonização urbana pelo lagarto-monitor-asiático revelam padrões interessantes sobre como a espécie ocupa os espaços da cidade. Um estudo recente, que usou dados de ciência cidadã da Rede Global de Informações sobre Biodiversidade, analisou registros da espécie em grandes cidades do Sudeste Asiático. Os pesquisadores descobriram que, embora os lagartos colonizem sobretudo áreas verdes, como parques e jardins, Bangkok apresenta um caso singular.

Em cidades como Singapura e Jacarta, os avistamentos de lagartos-monitores se concentram principalmente em áreas designadas como parques. Já em Bangkok, uma parcela significativa dos registros ocorre fora dessas zonas verdes. O estudo sugere que o desenho urbano particular de Bangkok, em especial sua extensa rede de canais e até mesmo os sistemas de esgoto, permite que os lagartos se dispersem com mais liberdade pela malha urbana. Eles usam esses canais de água para conectar áreas de habitat isoladas e se deslocam dos arredores até o centro densamente povoado.

Essa estratégia de dispersão destaca a capacidade dos lagartos de aproveitar estruturas criadas pelos seres humanos. Embora a urbanização frequentemente leve ao declínio de muitas espécies de répteis por causa da perda de habitat e da poluição, o lagarto-monitor-asiático é uma exceção. O estudo observa que, apesar de ser o maior lagarto com populações estabelecidas em áreas urbanas, a espécie recebeu relativamente pouca atenção dos ecologistas. Os dados sugerem que a colonização dessas cidades provavelmente não ocorreu em um único evento de expansão, mas em episódios independentes de adaptação urbana em diferentes regiões geográficas.

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De símbolo de azar a estrela das redes sociais

Por gerações, os lagartos-monitores de Bangkok enfrentaram um grave problema de reputação. Na cultura tailandesa, os animais eram historicamente vistos com desprezo e medo. O nome comum do lagarto, hia, acabou se tornando um dos insultos mais ofensivos do idioma. Esse estigma provavelmente surgiu em uma época em que as famílias viviam em abrigos abertos à beira dos cursos d'água. Os lagartos vasculhavam o local em busca de comida e, às vezes, farejavam pessoas falecidas antes que suas famílias as encontrassem.

Essa visão histórica criou uma profunda aversão cultural aos répteis. No entanto, a ascensão das redes sociais provocou uma mudança marcante na percepção pública. As gerações mais jovens estão reavaliando o status do lagarto-monitor. Ice Russameesritrakul, dona de um restaurante na Chinatown de Bangkok, comenta a mudança de simbolismo.

Antigamente, as pessoas diziam que eles davam azar. Mas agora o simbolismo está mudando. Alguns jovens acham que eles são fofos e dão sorte. Conheço muita gente que largaria tudo para comprar um bilhete de loteria se um lagarto-monitor grande entrasse por acaso em casa.

O TikTok e o Instagram estão repletos de vídeos dos répteis atravessando centros comerciais, derrubando corredores ou simplesmente nadando pelos canais dos parques. Um vídeo viral de 2021, que mostrava um lagarto subindo em uma prateleira de uma loja de conveniência, tornou-se um marco cultural. Em vez de medo, a reação foi, em grande parte, de diversão e carinho. Hoje, turistas vão ao Parque Lumphini na esperança de tirar uma selfie com os "Godzillas" de Bangkok.

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Como lidar com o conflito entre humanos e animais silvestres

Apesar da popularidade recente, a convivência nem sempre é tranquila. À medida que a população cresce, também aumenta o potencial de conflito. No Quartel de Bombeiros Golden Mount, a poucos quilômetros do Parque Lumphini, a linha de emergência toca com frequência. Muitas vezes, não se trata de incêndios, mas de lagartos-monitores que se perderam e entraram em casas ou estabelecimentos comerciais.

"Em média, recebemos mais chamados para resgatar lagartos-monitores e retirar cobras do que para combater incêndios por aqui. Eles gostam de chuva, então circulam mais em público quando o tempo está chuvoso", disse S Ruengdach, bombeiro há 30 anos.

Embora os lagartos sejam, em geral, inofensivos para os seres humanos, sua presença pode assustar. Eles são conhecidos por atacar animais de criação, invadir pontos de pesca populares e, ocasionalmente, entrar em residências. Para quem corre no parque, podem causar tropeços. Moradores descrevem os adultos grandes como lentos e fáceis de evitar, mas observam que os juvenis, menores e mais rápidos, podem ser mais agressivos e difíceis de esquivar. As autoridades recomendam que as pessoas mantenham uma distância segura, nunca alimentem os animais e evitem se aproximar deles em terra, onde podem se sentir ameaçados.

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Controle da população de lagartos-monitores

O governo tailandês tentou controlar o crescimento da população de lagartos. Em 2016, foi lançada uma operação de grande escala para retirar animais do Parque Lumphini, diante da preocupação com a superlotação. Os resultados, porém, foram temporários. Uma fêmea de lagarto-monitor pode pôr cerca de 20 ovos de cada vez, e a população logo voltou a crescer. Hoje, os répteis estão mais visíveis do que nunca, o que levou a uma mudança de estratégia: da remoção para a convivência.

Reconhecendo que os lagartos atraem turistas, as autoridades do parque instalaram até uma estátua gigante de lagarto-monitor no centro do Parque Lumphini. O gesto simboliza a aceitação oficial dos animais como parte do ecossistema da cidade. Além disso, o governo começou a explorar oportunidades comerciais. Recentemente, foram emitidas licenças para permitir a criação controlada dos lagartos para fins comerciais, como a produção de artigos de couro. As autoridades acreditam que isso pode beneficiar comunidades que enfrentam conflitos com os animais e, ao mesmo tempo, reduzir a caça ilegal.

Essa abordagem pragmática reflete a compreensão mais ampla de que os lagartos-monitores vieram para ficar. Eles prestam serviços ecológicos ao controlar as populações de ratos e eliminar resíduos orgânicos. À medida que Bangkok continua a se transformar em uma cidade moderna, seus gigantescos moradores répteis permanecem como um elo vivo com o passado selvagem, perfeitamente adaptados ao presente de concreto.

O essencial

  • Os lagartos-monitores-asiáticos são a segunda maior espécie de lagarto do mundo e podem chegar a dois metros de comprimento.
  • Várias centenas vivem no Parque Lumphini, mas há milhares espalhados pela rede de canais de Bangkok.
  • São extremamente generalistas na alimentação e comem de tudo, de peixes e aves a restos de comida descartados.
  • Os lagartos não têm predadores naturais na cidade, o que favorece altas taxas de sobrevivência e o crescimento da população.
  • A percepção pública mudou: eles deixaram de ser vistos como animais de azar e passaram a ser considerados fofos, sortudos e estrelas das redes sociais.
  • As autoridades recebem chamados frequentes para retirar lagartos de residências, mas agora enfatizam o turismo e a convivência.
  • Recomenda-se que os visitantes mantenham uma distância segura e nunca alimentem os lagartos selvagens.
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