Um novo capítulo nas ambições tecnológicas do Vietnã
O Vietnã iniciou oficialmente as obras de sua primeira fábrica de chips semicondutores, um marco significativo na busca do país por desenvolver capacidades próprias de fabricação de alta tecnologia. A cerimônia ocorreu no Parque de Alta Tecnologia de Hoa Lac, em Hanói, em 16 de janeiro, com a presença de altas autoridades do governo, entre elas o secretário-geral do Partido, To Lam, e o primeiro-ministro Pham Minh Chinh. O projeto marca a primeira incursão do Vietnã na fabricação de chips, considerada a etapa mais complexa e intensiva em capital da produção de semicondutores.
Conteúdo
- Um novo capítulo nas ambições tecnológicas do Vietnã
- Entenda a cadeia de valor dos semicondutores
- Cronograma e especificações técnicas
- Estratégia nacional e apoio do governo
- Desenvolvimento da força de trabalho e iniciativas de formação
- Avanços paralelos no ecossistema de semicondutores do Vietnã
- Contexto e comparações internacionais
- Desafios e considerações para o futuro
- Principais pontos
A instalação, desenvolvida pelo grupo militar Viettel por determinação do Ministério da Defesa Nacional, ocupa 27 hectares e tem como objetivo iniciar a produção-piloto de chips de 32 nanômetros até o fim de 2027. O primeiro-ministro Pham Minh Chinh destacou a importância estratégica do empreendimento durante a cerimônia de início das obras.
Isso ajuda a completar um elo essencial da cadeia global de valor dos semicondutores, marcando a passagem da participação à propriedade e da montagem à inovação, além de fortalecer as capacidades e a posição do Vietnã na era digital.
A fábrica foi projetada para funcionar como infraestrutura nacional de pesquisa, projeto, testes e fabricação de semicondutores. Quando estiver plenamente operacional, fornecerá chips para setores estratégicos, como aeroespacial, telecomunicações, Internet das Coisas (IoT), fabricação automotiva, dispositivos médicos e sistemas de automação.
Entenda a cadeia de valor dos semicondutores
Para compreender a importância desse avanço, é útil conhecer o processo de produção de semicondutores. Um chip semicondutor completo costuma passar por seis etapas principais: definição do produto, projeto do sistema, projeto detalhado, fabricação do chip, encapsulamento e testes, e integração e verificação. Nos últimos anos, o Vietnã desenvolveu gradualmente capacidades em cinco dessas etapas, mas a fabricação de chips continuava fora do alcance do país até agora.
A fabricação de chips, ou "manufatura de front-end", é o processo de transformação de wafers de silício em circuitos integrados por meio de dezenas de operações de precisão. Essa etapa envolve fotolitografia, corrosão, dopagem e outros processos sofisticados que exigem instalações que custam bilhões de dólares e conhecimentos altamente especializados. A complexidade ajuda a explicar por que o Vietnã se concentrou em outras áreas da cadeia de fornecimento de semicondutores, principalmente no projeto de chips e na manufatura de back-end, que inclui montagem, encapsulamento e testes.
A nova fábrica da Viettel preencherá essa lacuna, permitindo ao Vietnã completar todo o ciclo de produção de semicondutores dentro de suas fronteiras. Essa capacidade é essencial para construir um ecossistema tecnológico autossuficiente e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros de componentes críticos.
Especialistas do setor observam que construir e operar uma fábrica de semicondutores pode custar de US$ 10 bilhões a US$ 50 bilhões, dependendo da escala e do nó tecnológico. O retorno do investimento demora, e a concorrência global é intensa, dominada por empresas como a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) e a Samsung Electronics.
Nguyen Thanh Yen, diretor-geral da filial de Hanói da CoAsia Semi, empresa sul-coreana de projeto de chips, e fundador da Comunidade de Microchips do Vietnã, contextualizou os desafios financeiros.
Uma fábrica construída hoje quase certamente dará prejuízo: vai consumir muito dinheiro. Mas uma fábrica também cumpre o papel de uma infraestrutura, como a construção de estradas. Se o Vietnã quiser seguir o caminho dos semicondutores, terá de fazê-lo mais cedo ou mais tarde.
Cronograma e especificações técnicas
O grupo Viettel definiu um cronograma claro para o desenvolvimento do projeto. O tenente-general Tao Duc Thang, presidente do conselho e diretor-executivo do grupo, detalhou o plano durante a cerimônia de início das obras. A empresa pretende concluir a construção, receber a transferência de tecnologia e iniciar a produção-piloto até o fim de 2027. O foco inicial será em chips de 32 nanômetros. Embora essa tecnologia seja madura em comparação com os processos de 3 e 5 nanômetros usados atualmente nos processadores mais avançados, ela continua adequada a muitas aplicações industriais e comerciais.
De 2028 a 2030, o projeto se concentrará no aperfeiçoamento e na otimização dos processos de fabricação, no aumento da eficiência da linha de produção de acordo com os padrões do setor e na preparação para pesquisas sobre tecnologias mais avançadas de fabricação de chips. A visão de longo prazo inclui ampliar a escala da instalação para criar uma base que permita ao Vietnã acessar gradualmente tecnologias de semicondutores mais avançadas.
O nó de 32 nanômetros é um ponto de partida estratégico. Embora não esteja na fronteira absoluta da tecnologia de semicondutores, é amplamente usado em eletrônica automotiva, dispositivos de IoT, sistemas de controle industrial e várias aplicações embarcadas. Isso permite ao Vietnã atender aos mercados doméstico e regional enquanto desenvolve conhecimentos que poderão ser aplicados, futuramente, a nós de processo mais avançados.
A Viettel vem se preparando para esse empreendimento por meio de formação aprofundada de recursos humanos, cooperação internacional e transferência de tecnologia. O grupo também vem acumulando experiência em pesquisa, projeto e aplicação de chips em seus próprios sistemas e produtos tecnológicos, incluindo chips projetados pela empresa para estações rádio-base 5G.
Estratégia nacional e apoio do governo
O projeto da Viettel está alinhado à estratégia nacional do Vietnã para a indústria de semicondutores, que estabelece metas ambiciosas para o desenvolvimento do setor. Até 2030, o país pretende contar com pelo menos 100 empresas de projeto de semicondutores e uma fábrica de chips, além de 10 instalações de montagem e testes. O Vietnã planeja formar mais de 50 mil engenheiros e graduados até 2030, preparando uma força de trabalho altamente qualificada para o período de 2030 a 2050.
As metas econômicas são igualmente ambiciosas. Até 2030, a indústria de semicondutores pretende alcançar receitas anuais superiores a US$ 25 bilhões, com valor agregado no Vietnã entre 10% e 15%. Espera-se que a receita anual do setor eletrônico, mais amplo, ultrapasse US$ 225 bilhões até esse período.
O primeiro-ministro Pham Minh Chinh detalhou o compromisso do governo em apoiar esse setor estratégico. Ele ressaltou que os chips semicondutores, apesar do tamanho reduzido, têm papel decisivo no poder nacional nas dimensões econômica, industrial e de defesa e segurança. Hoje, a indústria global de semicondutores está avaliada em aproximadamente US$ 2,3 trilhões e deixou de ser apenas uma questão econômica para se tornar também um tema de geopolítica, segurança nacional e poder tecnológico.
"Os países que não têm capacidade doméstica de produzir semicondutores enfrentam vulnerabilidades estratégicas significativas, que limitam seu desenvolvimento econômico e sua segurança nacional", observou o primeiro-ministro.
O governo ofereceu vários incentivos para apoiar o setor, incluindo um programa nacional de formação de engenheiros de semicondutores e o Fundo de Apoio ao Investimento, que concede subvenções em dinheiro para cobrir custos operacionais e investimentos iniciais em projetos de alta tecnologia, sobretudo nas áreas de semicondutores e inteligência artificial.
Desenvolvimento da força de trabalho e iniciativas de formação
Um componente fundamental da estratégia do Vietnã para os semicondutores é o desenvolvimento de recursos humanos. Espera-se que a nova fábrica sirva como centro de formação prática, conectando a educação a ambientes reais de produção. O Vietnã pretende formar 50 mil engenheiros de projeto de chips até 2030, em seu programa de desenvolvimento de mão de obra para o setor, e projeta que a força de trabalho total na área de chips ultrapasse 100 mil pessoas até 2040.
Esse desenvolvimento da força de trabalho é essencial porque a fabricação de semicondutores exige competências especializadas que são escassas no mundo todo. A complexidade dos processos modernos de fabricação significa que engenheiros e técnicos precisam de formação extensa e experiência prática para operar com eficiência. Ao instalar uma fábrica em funcionamento, o Vietnã cria um ambiente em que sua força de trabalho pode desenvolver essas competências essenciais no próprio país, em vez de depender inteiramente de formação no exterior.
A iniciativa de formação busca resolver um obstáculo comum ao desenvolvimento da indústria de semicondutores. Muitos países descobriram que ter instalações de fabricação não basta sem uma força de trabalho qualificada para operá-las. A abordagem integrada do Vietnã, que combina a construção da fábrica com o desenvolvimento de profissionais, busca evitar esse problema recorrente.
A localização da fábrica no Parque de Alta Tecnologia de Hoa Lac a coloca perto de instituições de ensino e centros de pesquisa, facilitando a colaboração entre a academia e o setor industrial. Espera-se que essa proximidade aumente a eficácia dos programas de formação e acelere o desenvolvimento de uma força de trabalho qualificada em semicondutores.
Avanços paralelos no ecossistema de semicondutores do Vietnã
Embora a fábrica da Viettel seja o projeto de semicondutores mais ambicioso do Vietnã, não é o único avanço no crescente ecossistema de chips do país. A CT Semiconductor, subsidiária do CT Group, começou a construir o que deverá se tornar a primeira fábrica de semicondutores inteiramente pertencente a uma empresa nacional, com foco em operações terceirizadas de montagem e testes de semicondutores (OSAT).
Localizada na província de Binh Duong, a instalação da CT Semiconductor ocupa 30 mil metros quadrados e deve começar a operar no quarto trimestre de 2025. A fábrica tem como meta alcançar uma capacidade de produção de 100 milhões de chips por ano até 2027, com um investimento de aproximadamente US$ 100 milhões apenas na segunda fase. A empresa trabalha com consultores internacionais com experiência em grandes projetos de semicondutores, incluindo instalações da taiwanesa TSMC.
Azmi Bin Hussin Wan, diretor de operações da CT Semiconductor, apresentou a ambiciosa visão para o projeto.
Hoje anunciamos uma visão audaciosa: até setembro de 2025, o primeiro chip totalmente montado, encapsulado e testado no Vietnã por uma empresa OSAT 100% vietnamita sairá desta linha de produção. Essa conquista será um símbolo da inteligência e do potencial ilimitado do povo vietnamita.
A CT Semiconductor também pesquisa tecnologias emergentes, como GaN (nitreto de gálio), fotônica e encapsulamento avançado, com aplicações em inteligência artificial, comunicações 6G e sistemas de drones. A fábrica integra a iniciativa mais ampla do CT Group para atuar em setores de alta tecnologia, que também inclui veículos aéreos não tripulados e transporte inteligente.
Empresas estrangeiras também vêm investindo nas capacidades de semicondutores do Vietnã. A Hana Micron Vina, fabricante sul-coreana, opera uma instalação de semicondutores na província de Bac Giang especializada em placas de circuitos integrados para celulares e produtos eletrônicos avançados. A empresa investiu quase US$ 600 milhões e pretende elevar o investimento total para mais de US$ 1 bilhão até 2025, com receita prevista de aproximadamente US$ 800 milhões.
Contexto e comparações internacionais
As ambições do Vietnã no setor de semicondutores surgem em meio a uma reconfiguração global das cadeias de fornecimento, impulsionada por tensões geopolíticas e pelo reconhecimento da importância estratégica da fabricação de chips. Países de todo o mundo correm para desenvolver capacidades próprias, com Estados Unidos, União Europeia, Japão e outros oferecendo subsídios substanciais para atrair instalações de fabricação de semicondutores.
O Vietnã pode buscar referências em outros países asiáticos que desenvolveram com sucesso suas indústrias de semicondutores. A Malásia, por exemplo, responde atualmente por 13% do mercado global de OSAT, um número notável para um país de seu porte. Muitos altos executivos de grandes empresas globais de tecnologia, incluindo os CEOs da Intel e da Qualcomm, são malaios, demonstrando como um país pode desenvolver tanto capacidades de fabricação quanto talentos executivos no setor de semicondutores.
Tran Kim Chung, presidente do CT Group, pediu ao governo vietnamita que considere políticas de apoio de longo prazo à indústria de semicondutores, citando modelos adotados na Coreia do Sul, na China continental e em Taiwan.
Esperamos que o governo considere as lições aprendidas em países como Coreia do Sul, China e Taiwan (China), onde a indústria de semicondutores recebeu apoio financeiro substancial por uma década, até se consolidar. Nosso país deve aprender com esses exemplos e adotar políticas semelhantes.
Esses países financiaram generosamente empresas de semicondutores por mais de uma década, até que se tornassem competitivas globalmente. Esse compromisso de longo prazo é frequentemente apontado como um fator essencial para o sucesso, já que a fabricação de semicondutores exige paciência e investimento contínuo antes de se tornar lucrativa.
O interesse internacional nas ambições do Vietnã no setor é evidente. Eduard Stiphout, vice-presidente sênior de compras estratégicas e aquisição da gigante holandesa de equipamentos para chips ASML, visitou Hanói recentemente para explorar oportunidades de expansão da cadeia de fornecimento da empresa no Vietnã. A ASML, maior fabricante mundial de sistemas de fotolitografia para a produção de chips de computador, estaria buscando colaborar na criação de centros de formação e de pesquisa e desenvolvimento no país.
Desafios e considerações para o futuro
Embora o início das obras da primeira fábrica de semicondutores do Vietnã represente uma conquista significativa, ainda há desafios substanciais. A indústria é marcada por mudanças tecnológicas rápidas, concorrência global intensa e enormes exigências de capital. Manter a competitividade requer investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento, atualizações regulares dos equipamentos de fabricação e capacidade de atrair e reter profissionais especializados.
A tecnologia de 32 nanômetros que a Viettel planeja produzir está várias gerações atrás do estado da arte. Os principais fabricantes de semicondutores já produzem chips nos nós de 3 e 5 nanômetros, enquanto processos ainda menores estão em desenvolvimento. Embora os chips de 32 nanômetros tenham muitas aplicações práticas, eles não alcançam os preços mais altos dos chips de ponta. Isso afetará a viabilidade econômica da instalação e poderá limitar seu potencial de receita no curto prazo.
Outro desafio é o caráter global da cadeia de fornecimento de semicondutores. Mesmo com capacidade doméstica de fabricação, o Vietnã continuará precisando importar matérias-primas, equipamentos de produção e possivelmente alguns componentes especializados. A capacidade do país de garantir o fornecimento confiável desses insumos será crucial para a operação da fábrica.
A fabricação de semicondutores também traz preocupações ambientais. As fábricas consomem grandes quantidades de água e eletricidade e usam vários produtos químicos que exigem manuseio e descarte cuidadosos. Gerenciar esses impactos ambientais sem perder competitividade em custos será um desafio contínuo.
Apesar desses desafios, estabelecer capacidades domésticas de fabricação de semicondutores representa um avanço significativo para o desenvolvimento tecnológico do Vietnã. O sucesso da iniciativa dependerá do apoio contínuo do governo, da gestão eficaz da fábrica, da formação bem-sucedida de profissionais e da capacidade do país de encontrar nichos competitivos no mercado global de semicondutores.
Principais pontos
- O Vietnã iniciou as obras de sua primeira fábrica de chips semicondutores em 16 de janeiro de 2026, no Parque de Alta Tecnologia de Hoa Lac, em Hanói.
- A instalação é desenvolvida pelo grupo Viettel por determinação do Ministério da Defesa Nacional e ocupa 27 hectares.
- A produção-piloto de chips de 32 nanômetros deve começar até o fim de 2027, com otimização dos processos prevista para 2028 a 2030.
- A fábrica fornecerá chips para os setores aeroespacial, de telecomunicações, IoT, automotivo, de dispositivos médicos e de automação.
- O Vietnã pretende formar 50 mil engenheiros de projeto de chips até 2030 e criar uma força de trabalho de 100 mil profissionais no setor até 2040.
- A CT Semiconductor está construindo uma instalação OSAT separada na província de Binh Duong, com previsão de produzir 100 milhões de chips por ano até 2027.
- A indústria de semicondutores tem como meta superar US$ 25 bilhões em receita anual até 2030, enquanto o setor eletrônico busca alcançar US$ 225 bilhões.
- As exportações de chips do Vietnã chegaram a US$ 32,4 bilhões em 2023, colocando o país na oitava posição mundial.






