O boom populacional da Ásia Central contrasta com o declínio demográfico da Europa

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O boom populacional da Ásia Central contrasta com o declínio demográfico da Europa

Duas histórias demográficas

A Ásia Central está entrando em uma fase demográfica decisiva, marcada pelo rápido crescimento populacional e pela expansão acelerada da força de trabalho, enquanto a Europa enfrenta o envelhecimento da sociedade e a escassez de mão de obra. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a população da Ásia Central deve ultrapassar 114 milhões até 2050, em uma trajetória que diverge significativamente das tendências na Europa e no Leste Asiático, onde a queda das taxas de natalidade e o envelhecimento populacional se tornaram preocupações predominantes. Para as famílias de toda a Ásia Central, essas tendências demográficas são realidades cotidianas, moldadas por tradições culturais, condições econômicas e escolhas pessoais que diferem bastante daquelas que influenciam as famílias europeias.

Conteúdo
  1. Duas histórias demográficas
  2. Entenda a janela demográfica
  3. Uzbequistão no centro do crescimento
  4. A transição demográfica do Cazaquistão
  5. As histórias por trás dos números
  6. O desafio demográfico da Europa
  7. Impactos econômicos e respostas de políticas públicas
  8. Pressões ambientais e sobre a infraestrutura
  9. O que esperar do futuro
  10. Pontos principais

O contraste vai além dos números da população e envolve diferenças fundamentais na estrutura etária, no potencial econômico e na dinâmica social. Enquanto os países europeus lidam com a redução da força de trabalho e o aumento da razão de dependência, os países da Ásia Central vivem o que demógrafos descrevem como uma rara janela demográfica — um período temporário em que uma grande população jovem cria oportunidades para acelerar o crescimento econômico, desde que sejam feitos os investimentos adequados em educação, saúde e geração de empregos. Essa divergência traz desafios e oportunidades para os formuladores de políticas em todo o continente euroasiático, com consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais.

Entenda a janela demográfica

A Ásia Central vive um fenômeno demográfico acompanhado de perto por economistas e especialistas em desenvolvimento. Segundo o relatório do UNFPA, o número de adultos em idade ativa, entre 15 e 64 anos, em toda a região deve passar de aproximadamente 50 milhões atualmente para cerca de 71 milhões até 2050. Isso representa mais de 20 milhões de mulheres e homens a mais ingressando no mercado de trabalho no próximo quarto de século, criando um potencial significativo para o crescimento econômico e a inovação, se esse contingente for bem aproveitado.

Quase um terço da população da Ásia Central tem menos de 15 anos, o que significa que os sistemas de ensino, os mercados de trabalho e as instituições sociais enfrentarão pressão contínua nas próximas décadas. Nigina Abbaszade, representante do UNFPA no Uzbequistão, ressaltou que esse impulso demográfico cria uma oportunidade limitada, mas crucial, para a região.

A transformação desse crescimento em ganhos econômicos e sociais depende do quanto os países se prepararem agora", afirmou Abbaszade. "Investir em educação, saúde e trabalho digno, especialmente para mulheres e jovens, é essencial para garantir que o crescimento populacional contribua de forma produtiva para a sociedade.
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Ampliar o acesso das mulheres à educação e ao trabalho é fundamental para moldar os resultados demográficos e econômicos de longo prazo, segundo Abbaszade. O dividendo demográfico — o potencial de crescimento econômico que pode decorrer de mudanças na estrutura etária da população — não é automático. Ele exige escolhas deliberadas de políticas públicas e investimentos significativos em capital humano. Sem esses investimentos, os países correm o risco de enfrentar desemprego, dependência da migração, pressão ambiental e fragmentação social.

Uzbequistão no centro do crescimento

O Uzbequistão é o país mais populoso da Ásia Central e exemplifica a trajetória demográfica da região. Com 37,4 milhões de habitantes em 2024, concentra quase metade da população regional. Até 2050, esse número deve chegar a 52 milhões, um crescimento expressivo que moldará o cenário econômico e social do país por décadas. O crescimento populacional se reflete nos números do dia a dia: só nas primeiras 24 horas de 2026, nasceram 1.815 crianças no Uzbequistão, sendo 894 meninas e 921 meninos. A maior quantidade de nascimentos foi registrada na região de Surcã Dária, com 243 recém-nascidos.

Uma característica marcante do perfil demográfico do Uzbequistão é a juventude da população. Cerca de 60% dos habitantes têm menos de 30 anos, o que dá forte impulso ao crescimento econômico, à inovação e à expansão do mercado de trabalho. A população cresce cerca de 2% ao ano, quase o dobro da média mundial. Segundo o Comitê Nacional de Estatística do Uzbequistão, o país ganha aproximadamente 740 mil habitantes por ano, e as maiores taxas de natalidade são registradas na região de Surcã Dária, no sul do país. Esse crescimento reforça a importância de investimentos contínuos em educação, desenvolvimento de competências e geração de empregos, já que o número de cidadãos em idade ativa aumenta em cerca de 350 mil por ano.

A transição demográfica do Cazaquistão

O Cazaquistão apresenta um quadro demográfico diferente dentro da Ásia Central e oferece uma visão do futuro da região à medida que avança na transição demográfica. Com 20,3 milhões de habitantes em 2025, sua população cresceu 23% desde 1992 e deve chegar a aproximadamente 26 milhões até 2050. Uma parcela significativa da população cazaque ainda é jovem: cerca de 29% a 30% têm entre 0 e 14 anos, indicando uma forte presença de crianças e adolescentes na estrutura etária. Essa proporção ajuda a manter o impulso demográfico, mesmo com o avanço gradual do país na transição demográfica.

Embora a fecundidade continue relativamente alta, em torno de três filhos por mulher, o Cazaquistão está em uma etapa mais avançada da transição demográfica do que seus vizinhos da Ásia Central. Até 2050, a proporção de pessoas com 65 anos ou mais deve quase dobrar, passando de 8% para quase 15%. As tendências populacionais variam pelo país: o crescimento se concentra no sul e no oeste, enquanto as regiões do norte enfrentam redução populacional e atividade econômica mais lenta. Essas diferenças regionais mostram a complexidade das mudanças demográficas dentro dos países e exigem políticas públicas adaptadas às condições e necessidades locais.

As histórias por trás dos números

Por trás dos dados regionais estão famílias que tomam decisões profundamente pessoais sobre o tamanho e a estrutura da família. Para Sayyora Mamaraimova, dona de casa de 59 anos do Uzbequistão, crescer em uma família numerosa influenciou seu desejo de ter filhos.

Na minha família, éramos oito. Sempre apoiamos uns aos outros", contou Mamaraimova. "Por isso, queria que meus filhos tivessem irmãos, para nunca se sentirem sozinhos.
Mamaraimova teve cinco filhas, sempre levando em conta os limites de saúde e financeiros.
"Não importa quantos filhos você tenha, ainda é preciso pensar na educação, na alimentação e no futuro", acrescentou.
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Feruza Saidhadjaeva, também do Uzbequistão, conciliou a maternidade com uma longa carreira profissional. Ela trabalhou continuamente enquanto criava quatro filhos e acredita que o planejamento e a independência das mulheres são essenciais.

A responsabilidade financeira é importante. Nunca quis depender de ninguém", afirmou Saidhadjaeva. "Famílias grandes têm muitos aspectos positivos, mas exigem disciplina, planejamento e responsabilidade compartilhada.
No Cazaquistão, Azhara Kabitova, mãe de seis filhos, entre eles gêmeos e trigêmeos, conta como o tamanho da família é moldado tanto por valores culturais quanto pela realidade cotidiana.
Culturalmente, ter muitos filhos é incentivado", disse Kabitova. "Mas as famílias ainda precisam pensar com cuidado nas finanças e no planejamento de longo prazo.
Esses relatos pessoais mostram que, embora as normas culturais influenciem as decisões sobre o tamanho da família, as condições econômicas e as aspirações pessoais têm a mesma importância.

O desafio demográfico da Europa

A trajetória demográfica da Ásia Central contrasta fortemente com as tendências europeias. Dados do Eurostat indicam que a taxa de fecundidade total da União Europeia é de aproximadamente 1,38 nascimento por mulher, bem abaixo do nível de reposição de 2,1, enquanto a expectativa de vida continua aumentando. Juntas, essas tendências estão transformando os mercados de trabalho, os sistemas de bem-estar social e as políticas sociais em todo o continente. As consequências são profundas: sem imigração significativa ou mudanças nas políticas públicas, muitos países europeus enfrentam a redução da força de trabalho e o aumento da razão de dependência, fatores que ameaçam a sustentabilidade econômica e os sistemas de seguridade social.

Para as famílias que vivem na Europa, o contraste com a Ásia Central é marcante. Ilkhom Khalimzoda, cidadão uzbeque que mora na Finlândia, afirmou que o estilo de vida mais individualizado na Europa torna mais difícil criar famílias numerosas.

Cada criança exige mais tempo, energia e dinheiro, e os pais fazem praticamente tudo por conta própria", explicou Khalimzoda. "Não existe o apoio da família extensa que há no Uzbequistão.
Jonas Astrup, pai dinamarquês de três filhos, observa que, no norte da Europa, ter um ou dois filhos é o padrão, enquanto famílias maiores costumam ser vistas como exceção. Na Europa, as decisões das mulheres sobre ter filhos estão mais estreitamente ligadas ao planejamento de carreira, aos custos de moradia e ao equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Na Ásia Central, o tamanho da família ainda é mais influenciado por normas culturais e pelo apoio entre gerações, embora isso esteja mudando gradualmente com a evolução das condições econômicas.

Impactos econômicos e respostas de políticas públicas

A divergência demográfica entre a Ásia Central e a Europa tem consequências econômicas significativas que os formuladores de políticas precisam enfrentar. Segundo a Atualização Econômica da Europa e Ásia Central do Banco Mundial, o crescimento das economias em desenvolvimento da Europa e da Ásia Central deve desacelerar de 3,7% em 2024 para 2,4% em 2025, principalmente devido ao ritmo mais fraco de expansão da Federação Russa. A região também enfrenta um sério desafio na geração de empregos: a maioria das vagas criadas nos últimos 15 anos foi em funções que exigem relativamente pouca qualificação e oferecem potencial limitado de renda.

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Investir em infraestrutura, melhorar o ambiente de negócios e mobilizar capital privado será fundamental para impulsionar a produtividade, criar empregos e construir um mercado de trabalho mais resiliente diante das mudanças demográficas da região. O relatório ressalta que os obstáculos demográficos — incluindo o envelhecimento e as taxas de fecundidade mais baixas — e a desaceleração do crescimento da produtividade ameaçam a resiliência do mercado de trabalho regional e agravam o desafio da geração de empregos. Mudar esse quadro exigirá reformas ambiciosas, sobretudo ampliar os investimentos em infraestrutura, melhorar o ambiente de negócios e mobilizar capital privado.

A diversidade da região significa que os países não podem adotar uma única abordagem para enfrentar o desafio da geração de empregos. As pressões demográficas, por exemplo, são diferentes na Ásia Central e na Turquia em comparação com o restante da região: criar empregos para a crescente população jovem é uma prioridade urgente. Nos Bálcãs Ocidentais e na Europa Central, onde a força de trabalho está diminuindo, será essencial melhorar a qualidade e a produtividade dos empregos. O sucesso dependerá do compromisso de cada país, de abordagens adaptadas às suas necessidades e do aproveitamento de recursos como o talento humano e os recursos naturais.

Pressões ambientais e sobre a infraestrutura

Até meados do século, o crescimento populacional da Ásia Central aumentará a pressão sobre os recursos hídricos, o solo e a infraestrutura urbana, especialmente em áreas vulneráveis como a região do mar de Aral e o vale de Fergana. Esses desafios ambientais se cruzam de maneiras complexas com as tendências demográficas. Pesquisas publicadas na revista Nature indicam que áreas urbanas em todo o mundo enfrentam pressões ambientais crescentes causadas pela poluição do ar e pelas emissões de carbono. Nas regiões de crescimento acelerado, os níveis gerais de poluentes continuam aumentando, apesar dos esforços para melhorar a qualidade do ar em países de alta renda.

Sem a criação de empregos, a educação e a proteção social necessárias, os riscos incluem desemprego, dependência da migração, pressão ambiental e fragmentação social. O desafio é particularmente grave porque a região é vulnerável às mudanças climáticas, e as projeções indicam maior exposição a eventos climáticos extremos, que podem afetar de forma desproporcional as populações mais vulneráveis. Os governos da Ásia Central precisarão equilibrar o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade ambiental, investindo em infraestrutura resiliente ao clima e em planejamento urbano sustentável para acomodar o crescimento populacional sem agravar a degradação ambiental.

O que esperar do futuro

As projeções demográficas indicam que o contraste entre a Ásia Central e a Europa provavelmente se intensificará nas próximas décadas. Segundo um importante estudo publicado na revista The Lancet, a população mundial deve atingir o pico em 2064, com 9,73 bilhões de pessoas, antes de cair para 8,79 bilhões até 2100. Essa tendência global esconde diferenças regionais significativas: a Ásia Central continuará crescendo, enquanto grande parte da Europa enfrentará redução populacional. O estudo observa que a continuidade das tendências de aumento da escolaridade feminina e de acesso à contracepção acelerará a queda da fecundidade e desacelerará o crescimento populacional, criando desafios distintos em cada região.

As projeções do UNICEF para as crianças em 2050 indicam que a África Subsaariana e o Sul da Ásia terão as maiores populações infantis, enquanto a Europa e a Ásia Central terão populações mais envelhecidas e uma proporção menor de crianças. Essas mudanças demográficas trazem desafios: alguns países terão de ampliar os serviços para atender grandes populações infantis, enquanto outros precisarão equilibrar as necessidades de uma população idosa crescente. O relatório ressalta que as decisões que os líderes mundiais tomarem hoje — ou deixarem de tomar — definirão o mundo que as crianças herdarão em 2050 e além.

Para a Ásia Central, as próximas décadas serão um período decisivo. Com investimentos contínuos em capital humano e nos mercados de trabalho, a região poderá estar mais bem preparada para integrar sua crescente população jovem, justamente quando muitos países europeus enfrentam escassez de mão de obra. Isso pode abrir novas oportunidades de cooperação regional e parceria econômica, transformando potencialmente a relação entre a Ásia Central e a Europa de maneiras que beneficiem ambas as regiões. Mas concretizar esse potencial exigirá visão de longo prazo, investimentos estratégicos e escolhas de políticas públicas que priorizem o bem-estar e as oportunidades futuras de todos os cidadãos.

Pontos principais

  • A população da Ásia Central deve ultrapassar 114 milhões até 2050, enquanto o número de adultos em idade ativa crescerá de 50 milhões para 71 milhões
  • Quase um terço da população da Ásia Central tem menos de 15 anos, o que pressiona significativamente os sistemas de ensino e os mercados de trabalho
  • O Uzbequistão, país mais populoso da região, com 37,4 milhões de habitantes, cresce 2% ao ano e tem 60% da população com menos de 30 anos
  • O Cazaquistão está em uma etapa mais avançada da transição demográfica, e a proporção de pessoas com 65 anos ou mais deve quase dobrar, chegando a 15% até 2050
  • A taxa de fecundidade da Europa, de 1,38 nascimento por mulher, continua bem abaixo do nível de reposição de 2,1
  • O Banco Mundial projeta desaceleração do crescimento econômico na Europa e na Ásia Central, de 3,7% em 2024 para 2,4% em 2025
  • As pressões ambientais, incluindo a escassez de água e os desafios da infraestrutura urbana, se intensificarão com o crescimento populacional
  • Investir em educação, saúde e trabalho digno é essencial para transformar o crescimento demográfico em ganhos econômicos
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