Serviço essencial ou risco à saúde? Debate sobre as entregas ao amanhecer na Coreia do Sul chega ao Parlamento

12 min de leitura
Serviço essencial ou risco à saúde? Debate sobre as entregas ao amanhecer na Coreia do Sul chega ao Parlamento

Por que o serviço noturno está em evidência

As entregas na porta de casa durante a noite na Coreia do Sul, conhecidas como entregas ao amanhecer, enfrentam o debate público mais intenso desde que se popularizaram nas grandes cidades. Uma petição que cresce rapidamente na plataforma pública da Assembleia Nacional mobilizou consumidores que dizem depender das entregas antes do amanhecer para receber alimentos, material escolar e itens essenciais do dia a dia. O abaixo-assinado começou em 13 de novembro e, em poucos dias, reuniu mais de 5.000 assinaturas. O movimento ganhou força e ultrapassou 25.000 no fim de novembro, chegou perto de 29.000 em 28 de novembro e superou 50.000 em 7 de dezembro, número que, pelas regras da plataforma, encaminha automaticamente a petição a uma comissão permanente.

Conteúdo
  1. Por que o serviço noturno está em evidência
  2. Como funcionam as entregas ao amanhecer na Coreia do Sul
  3. Pais que trabalham dizem que o serviço mantém a rotina da casa
  4. Entregadores e especialistas em saúde alertam para os riscos do trabalho noturno
  5. O que dizem os pesquisadores sobre o trabalho noturno
  6. Setor, motoristas e pequenos negócios temem perda de renda
  7. Política, processo de petição e próximos passos
  8. O papel central da Coupang e as turbulências recentes
  9. Como poderia ser um acordo
  10. Principais pontos

A discussão começou com uma proposta debatida no fim de outubro em um fórum de diálogo social organizado pelo governo. Na ocasião, um sindicato de entregadores pediu que as partes envolvidas considerassem limitar as operações entre meia-noite e 5h para proteger o sono e a saúde dos motoristas que trabalham à noite. Dirigentes sindicais ressaltaram que não estavam pedindo a proibição do serviço. Ainda assim, notícias e comentários na internet despertaram o temor de que ele pudesse ser eliminado gradualmente, provocando reação negativa entre consumidores e empresas. O governo afirma que nenhuma decisão foi tomada e que as conversas continuarão em um processo que reúne sindicatos, empresas de logística, representantes dos consumidores e ministérios pertinentes.

Como funcionam as entregas ao amanhecer na Coreia do Sul

As entregas ao amanhecer prometem que os pedidos feitos tarde da noite cheguem antes do nascer do sol, muitas vezes antes das 7h. O modelo se encaixa no ritmo da vida urbana na Coreia do Sul, onde longas jornadas de trabalho e agendas escolares lotadas deixam pouco tempo para fazer compras. As famílias podem fazer pedidos depois do jantar e acordar com produtos frescos, leite e outros itens à porta de casa. O serviço se tornou comum durante a pandemia e continua incorporado à rotina de Seul e de outras grandes cidades.

As grandes plataformas lideraram essa expansão. A Coupang, maior empresa de comércio eletrônico do país, construiu uma rede de centros de distribuição e motoristas para oferecer entregas rápidas e durante a noite aos assinantes do programa Rocket Wow. A assinatura custa cerca de 7.900 won por mês e tem mais de 14 milhões de usuários, quase um terço da população do país. Para muitos clientes, a promessa de entregas confiáveis antes do amanhecer é o principal motivo para continuar assinando, especialmente quando se trata de alimentos frescos e itens necessários antes da escola ou do trabalho.

Publicidade

Pais que trabalham dizem que o serviço mantém a rotina da casa

A petição que reacendeu o debate foi publicada por uma mãe de dois filhos que trabalha e descreveu o serviço como uma ajuda indispensável no dia a dia. O apelo encontrou eco entre famílias com duas fontes de renda que chegam tarde em casa e dependem dos pedidos noturnos para manter a rotina da manhã em ordem. Ela argumentou que restringir as entregas antes do amanhecer atrapalharia a rotina e aumentaria o estresse de famílias que já conciliam trabalho, cuidados com os filhos e deslocamentos matinais.

Ao explicar por que o serviço é importante, a autora da petição descreveu uma situação familiar a muitos pais. Ela disse que os supermercados estão fechados quando as famílias chegam em casa e que sobra pouco tempo antes do horário de pico da manhã. Depois de apresentar sua situação na plataforma da Assembleia Nacional, ela foi direta ao explicar o que o serviço permite fazer.

Quando os supermercados estão fechados, muitas vezes essa é a única forma de conseguir material escolar e o café da manhã das crianças antes de elas saírem para a escola.

Ela também pediu aos parlamentares e ao Ministério dos Transportes que trabalhem com o setor em soluções capazes de melhorar a segurança dos trabalhadores sem eliminar um serviço que muitas famílias já consideram essencial. Como escreveu na petição, espera que as autoridades encontrem uma alternativa que leve em conta as necessidades reais das pessoas.

Espero que a Assembleia Nacional e o Ministério da Terra, da Infraestrutura e dos Transportes encontrem uma alternativa melhor, que leve em conta as necessidades reais das pessoas.

Pesquisas indicam que a maioria da população prefere a continuidade do serviço. Em uma pesquisa online com 1.000 consumidores, realizada por organizações da sociedade civil, 64% disseram que enfrentariam dificuldades se as entregas no início da manhã fossem interrompidas. Entre as pessoas que já usaram o serviço, 99% disseram que pretendem continuar usando. Esses números acompanham a expansão visível das entregas antes do amanhecer em bairros densamente povoados, onde os consumidores já organizam a rotina semanal em função das encomendas noturnas.

Publicidade

Entregadores e especialistas em saúde alertam para os riscos do trabalho noturno

Motoristas e representantes dos trabalhadores contrapõem que o trabalho noturno tem custos reais para a saúde. Os turnos noturnos desregulam o ritmo circadiano, o relógio interno que regula o sono, os hormônios e o metabolismo. A agência de pesquisa sobre câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o trabalho em turnos noturnos como provavelmente cancerígeno (Grupo 2A), e estudos médicos associam a interrupção crônica do sono a maiores riscos de doenças cardiovasculares, diabetes, depressão e acidentes. Para os entregadores, que carregam volumes pesados, dirigem por longos trajetos e enfrentam prazos apertados, a fadiga agrava esses riscos.

O que dizem os pesquisadores sobre o trabalho noturno

Vários estudos mostram que turnos noturnos rotativos ou jornadas noturnas prolongadas aumentam a probabilidade de distúrbios do sono e problemas metabólicos. A fadiga também reduz o tempo de reação, algo importante ao volante e nos armazéns. Na logística, pequenos descuidos podem provocar colisões ou ferimentos. Na Coreia do Sul, segue em curso o debate sobre mortes relacionadas ao excesso de trabalho, e os sindicatos dizem que os turnos noturnos nas entregas de encomendas contribuem para jornadas longas e fadiga acumulada. Eles reivindicam períodos de descanso garantidos, equipes maiores e investimentos em tecnologia para reduzir a sobrecarga durante a noite.

O sindicato que apresentou a ideia de limitar as rotas entre meia-noite e 5h a descreveu como um ponto de partida para medidas de proteção mais amplas. Representantes afirmam que melhores escalas, intervalos maiores entre os turnos e monitoramento da saúde ajudariam. Eles também ressaltam que os limites para o trabalho noturno devem ser avaliados com base em dados, incluindo quantos motoristas escolhem as rotas noturnas pela remuneração maior e quantos trabalham nesse horário por não terem outra opção.

Setor, motoristas e pequenos negócios temem perda de renda

As empresas argumentam que reduzir a janela entre meia-noite e o amanhecer teria efeitos em toda a cadeia de abastecimento. As rotas noturnas distribuem o volume de entregas e evitam os horários de pico diurnos, o que reduz o congestionamento nos armazéns e nas ruas e ajuda a manter a pontualidade das entregas matinais. Se esses pedidos passarem para o dia, dizem os varejistas, os consumidores enfrentarão falta de produtos, atrasos e taxas mais altas. Executivos do setor de logística também apontam para possíveis cortes de empregos nos centros de triagem e nas frotas de entrega caso as plataformas reduzam o serviço.

Alguns motoristas compartilham essas preocupações. As rotas noturnas podem pagar mais e ser uma boa opção para quem prefere ruas mais tranquilas e terminar o expediente mais cedo. Uma redução repentina poderia diminuir a renda líquida de motoristas que organizaram a jornada em torno dos ganhos noturnos. Entidades do setor alertam que a redução do horário de funcionamento também afetaria restaurantes, cafés e pequenos mercados que dependem do reabastecimento noturno. A Federação Coreana de Pequenas Empresas classificou as entregas ao amanhecer como parte da infraestrutura cotidiana de vendedores online e estabelecimentos que se preparam para o movimento da manhã. Uma projeção da Associação Coreana de Logística estimou que as vendas de pequenos negócios poderiam cair cerca de 18,3 trilhões de won se os pedidos de entrega diminuíssem 40% após a suspensão das entregas ao amanhecer e das operações nos sete dias da semana.

Publicidade

Política, processo de petição e próximos passos

As petições públicas são uma forma visível de os cidadãos levarem temas à pauta parlamentar. Na plataforma da Assembleia Nacional, uma petição que alcança 50.000 assinaturas dentro do prazo estabelecido é encaminhada a uma comissão permanente, onde os parlamentares analisam o assunto e convidam ministérios e especialistas pertinentes. A petição atual superou esse limite antes do prazo final, em 13 de dezembro. Isso não significa que uma lei será alterada, mas exige uma análise formal e uma resposta.

O governo afirmou que não há nenhum plano para restringir as entregas ao amanhecer e que continuará trabalhando no âmbito do diálogo social, que reúne trabalhadores, empresas e governo. Esse fórum tem se reunido com empresas de entrega, sindicatos e grupos de consumidores para definir quais dados são necessários e identificar medidas práticas. Atores políticos também se manifestaram, enquadrando o debate de acordo com suas posições mais amplas sobre direitos trabalhistas e regulação do mercado. Partidos dos dois lados usaram o crescimento da petição para mobilizar apoiadores, aumentando a urgência das deliberações da comissão.

No contexto regional, o mercado de logística da Coreia do Sul se destaca pela rapidez e confiabilidade. As entregas durante a noite se tornaram um padrão competitivo nas áreas metropolitanas. Qualquer mudança nos horários de chegada afetará a rotina de milhões de pessoas, por isso os parlamentares estão sob pressão para encontrar uma solução que melhore a segurança sem comprometer um serviço que muitas famílias já esperam ter à disposição.

Publicidade

O papel central da Coupang e as turbulências recentes

Como a Coupang é a maior empresa do setor de entregas noturnas, os acontecimentos na companhia são relevantes para o debate sobre políticas públicas. A assinatura Rocket Wow responde por uma grande parcela dos pedidos feitos para entrega antes do amanhecer, e a empresa opera uma rede densa de centros de distribuição próximos aos centros urbanos. No último ano, autoridades reguladoras e a companhia lidaram com questões distintas que podem afetar a confiança do público e a fiscalização. A Comissão de Comércio Justo multou a empresa por favorecer produtos de marca própria nos resultados de busca, decisão que a companhia está contestando. A empresa também informou ter sofrido um vazamento de dados em larga escala. As autoridades abriram investigações, e parlamentares convocaram executivos para prestar esclarecimentos sobre o caso. Dirigentes da empresa afirmaram que dados de pagamento e de acesso às contas não foram expostos e anunciaram mudanças na liderança da unidade local enquanto tentavam conter os efeitos do episódio.

No debate sobre as entregas ao amanhecer, esses episódios corporativos não alteram a questão central: como proteger a saúde dos trabalhadores e manter um serviço conveniente. Ainda assim, eles influenciam o ambiente em torno da regulação e da responsabilidade corporativa. Ao avaliar regras para as operações noturnas, os parlamentares levam em conta como os incentivos das plataformas, os controles internos e a concorrência no mercado de entregas determinam o ritmo e a pressão enfrentados pelos motoristas.

Como poderia ser um acordo

As negociações provavelmente se concentrarão em medidas práticas de proteção, e não no encerramento total das entregas antes do amanhecer. Várias opções já estão sendo discutidas pelas partes envolvidas. As ideias mais comuns dizem respeito à organização das jornadas e ao descanso. Um intervalo mínimo entre os turnos poderia evitar que os motoristas fizessem rotas noturnas e diurnas em sequência. Limites para o total de horas trabalhadas por semana reduziriam o esgotamento durante as temporadas de pico. As plataformas poderiam oferecer adicional para o trabalho noturno, proporcional ao impacto na saúde e à dificuldade da atividade, e também criar uma forma de transferir os motoristas que preferem rotas mais cedo sem que percam renda.

Ajustes operacionais poderiam reduzir a carga de trabalho dos motoristas sem eliminar as entregas noturnas. Mais centros de distribuição de bairro e microcentros de atendimento reduziriam a extensão das rotas e o tempo ao volante. Um planejamento de rotas mais eficiente e a triagem automatizada poderiam agilizar as coletas e reduzir o esforço para carregar volumes. As empresas poderiam ampliar os exames de saúde dos trabalhadores do turno noturno e facilitar o acesso a aconselhamento e clínicas especializadas em sono. Mudanças do lado dos consumidores também poderiam ajudar, como incentivar pedidos até um horário limite à noite e enviar atualizações em tempo real para reduzir a pressão por entregas em horários exatos antes do amanhecer quando as condições climáticas ou o trânsito tornarem isso inseguro.

Autoridades reguladoras e empresas também defendem mais transparência. Relatórios melhores sobre a média de horas trabalhadas, índices de acidentes, horas extras e períodos de descanso facilitariam o acompanhamento dos resultados das mudanças. Multas por violações das regras de descanso, combinadas a incentivos para as empresas que atingirem metas de segurança, podem mudar comportamentos. Nenhuma dessas medidas exige o fim das entregas ao amanhecer, mas, em conjunto, elas poderiam reduzir os riscos para os motoristas e manter o serviço do qual muitas famílias dependem.

Principais pontos

  • A petição contra a restrição das entregas ao amanhecer superou 50.000 assinaturas em 7 de dezembro, encaminhando o tema a uma comissão permanente da Assembleia Nacional.
  • Um sindicato propôs limitar as entregas entre meia-noite e 5h para reduzir a fadiga e proteger a saúde, mas não pediu a proibição do serviço.
  • O governo afirma que não planeja mudar a política e que as discussões continuam em um fórum de diálogo social com trabalhadores, empresas, consumidores e ministérios.
  • Pais dizem que as entregas ao amanhecer são essenciais para receber alimentos e material escolar, especialmente em famílias com duas fontes de renda e horários apertados.
  • Dados de pesquisa mostram que 64% dos consumidores esperam enfrentar dificuldades se as entregas no início da manhã forem interrompidas, e 99% dos usuários pretendem continuar usando o serviço.
  • Especialistas em saúde associam o trabalho noturno a maiores riscos de distúrbios do sono e doenças cardiovasculares e o classificam como provavelmente cancerígeno.
  • Empresas do setor e motoristas alertam que a redução das horas de operação noturna poderia diminuir os rendimentos, sobrecarregar as operações diurnas e prejudicar as vendas de pequenos negócios.
  • Possíveis acordos incluem períodos de descanso garantidos, adicional para o trabalho noturno, rotas mais eficientes, exames de saúde e relatórios mais transparentes.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar