A disputa de Hong Kong para se tornar a capital científica da China e atrair talentos ocidentais

13 min de leitura
A disputa de Hong Kong para se tornar a capital científica da China e atrair talentos ocidentais

Uma cidade que se reinventa por meio da ciência

De torres de vidro a mercados de rua, Hong Kong construiu sua reputação como encruzilhada financeira da Ásia. Agora, a cidade busca acrescentar uma identidade diferente: a de polo global de pesquisa, capaz de conectar talentos internacionais à imensa máquina científica da China. No Hong Kong Laureate Forum, evento ligado ao Prêmio Shaw, laureados e jovens cientistas de vários países se reuniram para trocar ideias e visitar laboratórios. Criado pelo empresário da mídia Run Run Shaw, o Prêmio Shaw é frequentemente descrito como o Nobel da Ásia. Líderes da cidade aproveitaram a ocasião para apresentar uma proposta simples de entender. Hong Kong pode ser uma porta de entrada descomplicada para equipamentos de ponta, grandes verbas e projetos ambiciosos na China, preservando ao mesmo tempo a abertura e a praticidade que pesquisadores ocidentais esperam.

Conteúdo
  1. Uma cidade que se reinventa por meio da ciência
  2. Por que os cientistas estão prestando atenção
  3. Geopolítica e novas regras de visto moldam a mobilidade
  4. Por dentro dos novos laboratórios e programas de Hong Kong
  5. Astronomia e espaço como cartão de visita
  6. Do fundo do mar à IA, colaboração com gigantes da China continental
  7. Qualidade, cultura e confiança
  8. Riscos, custos e o que pode frear o impulso
  9. Destaques

A proposta de Hong Kong se apoia em vantagens conhecidas. Os salários de professores seniores podem chegar a cerca de 14 mil dólares por mês, os melhores laboratórios estão se expandindo e viajar é simples para muitos portadores de passaporte. Pesquisadores estrangeiros responsáveis por grupos de pesquisa relatam menos limites administrativos do que em instituições da China continental, inclusive a ausência de idade formal de aposentadoria em muitos contratos. O processamento de vistos é previsível. O espaço para laboratórios está aumentando em novos parques científicos e nos campi universitários. O status da cidade como região administrativa especial oferece um ambiente jurídico e um cotidiano diferentes dos da China continental. Para pesquisadores que ponderam uma mudança, essa combinação da escala chinesa com hábitos internacionais é o principal atrativo.

O momento também é favorável. A China se tornou uma potência em várias áreas. O Telescópio Esférico de Abertura de Quinhentos Metros (FAST) lidera a radioastronomia em área de coleta. A sonda Einstein está fornecendo dados de alto valor em astrofísica no domínio temporal. Na biologia e na ciência dos materiais, plataformas caras estão se disseminando num ritmo raro no Ocidente. O país já publica mais artigos do que os Estados Unidos, e a diferença de qualidade diminuiu em muitas áreas. As colaborações ainda esbarram em diferenças culturais na hierarquia e na gestão dos laboratórios. Mesmo assim, pesquisadores visitantes costumam constatar que um artigo de Pequim ou Xangai pode ser indistinguível de um escrito em Boston ou Berlim.

Publicidade

Por que os cientistas estão prestando atenção

Dinheiro, rapidez e escala estão no centro do apelo. Biólogos seniores que trabalham com tomografia crioeletrônica falam de uma densidade de equipamentos difícil de igualar em outros lugares, desde instalações compartilhadas até laboratórios exclusivos. A possibilidade de encomendar um microscópio de vários milhões de dólares após uma breve reunião de aprovação é em parte uma anedota, em parte um sinal de que as compras podem ser mais simples quando um projeto está alinhado às prioridades nacionais. Vários laboratórios de ponta permitem que cientistas estrangeiros mais velhos continuem liderando grupos sem limite de idade, prolongando carreiras que estariam chegando ao fim na Europa ou nos Estados Unidos. Para pesquisadores mais jovens, o prêmio é outro: a chance de liderar equipes desde cedo e definir o rumo de um novo instituto.

O contingente de talentos em Hong Kong também está crescendo. As universidades locais incluem cada vez mais nomes na lista de Pesquisadores Altamente Citados, reconhecimento global compilado pela Clarivate que acompanha o 1% mais citado ao longo de uma década. Entre os pesquisadores da lista estão docentes da Universidade Batista de Hong Kong, da Universidade Politécnica de Hong Kong e da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong. O indicador é imperfeito, mas mostra que há impulso. Também demonstra que a cidade consegue atrair acadêmicos seniores com grande volume de publicações e, depois, formar pós-doutorandos e estudantes que mantêm padrões elevados. Uma consulta rápida ao painel da Clarivate dá uma ideia de como essa concentração evolui ao longo do tempo. Os leitores podem consultar a metodologia em Clarivate.

Publicidade

Geopolítica e novas regras de visto moldam a mobilidade

O mercado de talentos não se move no vácuo. Agências de pesquisa nos Estados Unidos endureceram as análises de segurança, e as universidades agora examinam colaborações com a China com rigor incomum. Vários programas de financiamento restringem trabalhos com parceiros chineses em áreas sensíveis, e as regras de controle de exportação complicam o compartilhamento de equipamentos, dados ou código. Cientistas seniores relatam que, às vezes, deixam laptops e dispositivos de armazenamento em casa quando viajam à China para conferências, a fim de evitar problemas de conformidade. Na Europa, regras de imigração mais rígidas dificultam estadias longas de pesquisa e reduzem o fluxo de estudantes e pós-doutorandos. O resultado é uma rede de entraves administrativos que leva alguns profissionais a buscar novos destinos.

A China respondeu abrindo ainda mais as portas. Um novo visto K para trabalhadores de ciência e tecnologia oferece um caminho mais fácil do que as categorias anteriores e, em alguns casos, não exige uma oferta de emprego prévia. Os incentivos se somam a verbas governamentais em áreas como inteligência artificial, informação quântica, semicondutores e biotecnologia. O país registrou cerca de 711 mil trabalhadores estrangeiros em 2023, ainda uma parcela pequena da população, mas um indicador do interesse crescente. Hong Kong oferece vantagens que as cidades da China continental não conseguem igualar. O inglês é amplamente usado em laboratórios e salas de aula, a internet é mais aberta, os processos jurídicos são familiares para os ocidentais e as conexões de transporte pela Ásia são excelentes. Para muitos, a cidade se torna uma porta de entrada gradual para o sistema de pesquisa chinês.

Publicidade

Por dentro dos novos laboratórios e programas de Hong Kong

Desde 2020, o governo de Hong Kong destinou mais de 1 bilhão de dólares a uma rede de novos centros de pesquisa. O portfólio é amplo e vai de doenças neurodegenerativas à engenharia médica. Um dos programas está montando um grande biobanco para identificar os primeiros sinais da doença de Alzheimer anos antes do surgimento dos sintomas. A expectativa é que biomarcadores melhores antecipem o diagnóstico e ampliem a janela para a prevenção. Esse tipo de projeto de alto risco e longo prazo exige financiamento contínuo, e os líderes de Hong Kong querem ser avaliados por resultados mensuráveis no atendimento aos pacientes, não apenas pela produção de artigos.

A robótica recebe um impulso semelhante. Equipes estão desenvolvendo robôs cirúrgicos para procedimentos minimamente invasivos e colaboração remota, de modo que um especialista em Hong Kong possa trabalhar em tempo real com colegas em Xangai ou Londres. Materiais e sistemas de controle estão sendo aprimorados com a expectativa de que a medicina transfronteiriça cresça. Outro grupo testa pequenos dispositivos que agem como nanorrobôs para dissolver coágulos arteriais. Os estudos em animais já foram concluídos, e a próxima etapa avaliará a segurança. A medicina tradicional chinesa também integra um processo de desenvolvimento moderno, no qual químicos e médicos submetem compostos purificados à validação pré-clínica e os encaminham para aprovação por órgãos reguladores globais.

Os líderes dos programas começaram a apresentar a proposta em termos diretos. Cheng Shuk Han, que dirige um importante centro de pesquisa e desenvolvimento da cidade, descreveu o convite desta forma.

Além de finanças e dim sum, fazemos ciência de excelência. Nossa mensagem é para todos, independentemente da nacionalidade: se você é bom, venha.

A mensagem é dirigida a pesquisadores seniores com um histórico sólido e a cientistas mais jovens que querem conduzir ensaios, usar equipamentos e publicar sem longas demoras. Também sinaliza a disposição de recrutar talentos no mundo todo, em vez de competir apenas dentro da Grande Área da Baía. Vários institutos são agora liderados por especialistas nascidos no exterior, que dividem o tempo entre Hong Kong e laboratórios parceiros em outros países.

Publicidade

Astronomia e espaço como cartão de visita

A ciência espacial ocupa um lugar de destaque na narrativa da cidade. A Universidade de Hong Kong lançou recentemente o Instituto de Astronomia e Astrofísica de Hong Kong, liderado pelo astrônomo Bing Zhang, que se mudou dos Estados Unidos para assumir o cargo. O instituto contratará docentes, inaugurará uma instalação construída para esse fim em 2026 e conectará grupos locais a grandes missões. Pesquisadores de Hong Kong têm acesso a todos os telescópios chineses, inclusive os envolvidos em acordos internacionais. Alguns já estão elaborando contribuições de projeto para missões futuras.

A construção de instrumentos está avançando. Uma equipe da Universidade Chinesa de Hong Kong construiu uma câmera polarimétrica submilimétrica para estudar a formação de estrelas e trabalha com o telescópio da Groenlândia em observações conjuntas. O mesmo grupo está desenvolvendo um projeto conhecido como AMASE D para criar instrumentos de espectroscopia de baixo custo, capazes de mapear o meio interestelar da Via Láctea e de galáxias próximas. A filantropia do Jockey Club de Hong Kong apoia a educação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) e ajuda a financiar esses instrumentos. O objetivo é criar áreas de especialização que complementem as grandes plataformas chinesas, como o FAST, e ao mesmo tempo ofereçam a estudantes e engenheiros locais uma porta de entrada para a ciência espacial.

Publicidade

Do fundo do mar à IA, colaboração com gigantes da China continental

As parcerias vão além do espaço. Em 2024, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong recebeu a visita do navio de pesquisa Shenhai Yihao e do submersível tripulado Jiaolong, após uma expedição pelo Pacífico Ocidental. A viagem fez parte do programa de metaciência marinha profunda chamado Digital Deep sea Typical Habitats (DEPTH), alinhado à Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Pela primeira vez, o submersível levou cientistas internacionais, que coletaram amostras biológicas e ecológicas para estudos posteriores. A visita incluiu aulas abertas que conectaram estudantes de Hong Kong e Qingdao a pesquisadores no mar, além de fóruns públicos sobre conservação marinha. A universidade apresentou o programa em um comunicado da HKUST.

A HKUST também está ampliando a colaboração com universidades de ponta da China continental. Novos acordos com a Universidade Tsinghua criam um programa integrado de mestrado e doutorado em engenharia eletrônica e da computação, com início no ano letivo de 2025 a 2026. Cada instituição contribuirá com 1 milhão por ano, em moeda local, para um fundo conjunto de pesquisa entre instituições durante quatro anos. Os programas apoiarão pesquisas em inteligência artificial, materiais avançados, robótica, energia e ciência ambiental, ciências biomédicas, ciência de dados e tecnologia financeira. Um programa de educação executiva que combina tecnologia, gestão e finanças dará continuidade a iniciativas anteriores. Esses acordos dão estrutura a um fluxo de longa data de seminários, estágios e publicações conjuntas.

Publicidade

Qualidade, cultura e confiança

A questão da qualidade surge em todas as conversas sobre essa mudança. A China agora produz mais artigos científicos do que os Estados Unidos, e os melhores trabalhos competem no mais alto nível. Em muitas áreas, a revisão por pares e a transparência dos dados são semelhantes em diferentes continentes, ainda que a cultura dos laboratórios possa variar. As hierarquias costumam ser mais fortes nas instituições chinesas, com o pesquisador principal no centro das decisões, enquanto os laboratórios ocidentais podem ser mais horizontais. Hong Kong fica entre esses modelos. As universidades da cidade estão constantemente entre as cem melhores do mundo. Elas contratam profissionais de vários países, oferecem programas de pós-graduação em inglês e publicam trabalhos que se sustentam nas principais revistas científicas.

O apoio público também importa. Uma ampla pesquisa multinacional publicada em 2025 constatou que a confiança nos cientistas é relativamente alta em vários países e que a maioria das pessoas apoia a participação deles em debates sobre políticas públicas. Os autores defenderam maior abertura e diálogo com o público para preservar essa confiança. A comunidade científica de Hong Kong incorporou essa ideia, promovendo dias de portas abertas nos laboratórios, atividades de divulgação bilíngues e fóruns pela cidade ligados a grandes eventos. Essa abordagem ajuda a explicar por que as autoridades destacam a visibilidade e a educação, além dos resultados de pesquisa.

Riscos, custos e o que pode frear o impulso

Nenhum desses esforços está livre de riscos. A lei de segurança nacional imposta após 2019 mudou o clima político da cidade. Líderes universitários afirmam que a pesquisa acadêmica continua protegida, mas alguns pesquisadores visitantes temem limites que nem sempre são claros. Regras de controle de exportação de governos ocidentais restringem o compartilhamento de softwares, instrumentos e dados com parceiros chineses. Alguns financiadores exigem aprovações formais antes de permitir que seus bolsistas colaborem com a China. Até viagens para conferências podem envolver verificações extras de conformidade. Laboratórios que conseguem avançar nesse ambiente dedicam tempo à análise jurídica e estabelecem políticas para o tratamento de dados, o acesso a equipamentos e o trabalho remoto.

O custo de vida em Hong Kong é outro ponto de pressão. A moradia é cara, técnicos de laboratório disputam vagas com o setor privado e as famílias enfrentam mensalidades escolares elevadas. As instituições começaram a ajustar os pacotes de contratação com auxílio-moradia e serviços de relocação. Os responsáveis pelas contratações também enfrentam o delicado equilíbrio entre trazer especialistas estrangeiros e criar oportunidades para formados locais. O desemprego entre jovens é elevado na China continental, mas muitos setores ainda enfrentam escassez de competências específicas, um dos motivos pelos quais a busca por talentos se concentra em inteligência artificial, semicondutores e biomedicina avançada. A estratégia será avaliada pela capacidade de formar equipes que perdurem entre ciclos de financiamento e de manter na cidade pesquisadores promissores.

Destaques

  • Hong Kong se apresenta como porta de entrada para pesquisadores ocidentais acessarem grandes projetos, financiamento e equipamentos da China.
  • Desde 2020, a cidade destinou mais de 1 bilhão de dólares a novos centros voltados para neurodegeneração, robótica cirúrgica e medicina translacional.
  • A China lidera em plataformas como o FAST, e a qualidade da produção científica de grupos chineses muitas vezes se equipara à de trabalhos ocidentais.
  • A Universidade de Hong Kong lançou um novo instituto de astronomia liderado por Bing Zhang, com uma instalação prevista para 2026 e acesso a grandes telescópios.
  • A HKUST recebeu o navio de pesquisa de águas profundas Shenhai Yihao e o submersível Jiaolong, parte de um programa internacional alinhado à Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica.
  • A HKUST e a Tsinghua assinaram acordos para um programa conjunto de mestrado e doutorado, um fundo de pesquisa e um programa de educação executiva em IA e outras áreas.
  • Os novos vistos K chineses têm como alvo talentos globais de ciência e tecnologia, enquanto as restrições dos Estados Unidos e da União Europeia aumentam os entraves à colaboração transfronteiriça.
  • Os programas de pesquisa em Hong Kong incluem detecção precoce da doença de Alzheimer, robótica cirúrgica remota e nanodispositivos para dissolver coágulos arteriais.
  • Uma pesquisa global aponta confiança estável do público nos cientistas, reforçando o valor da divulgação e da transparência na pesquisa.
  • Entre os riscos estão as preocupações com a lei de segurança nacional, os controles de exportação e o alto custo de vida, que afetam a contratação e a retenção de talentos.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar