Mandalika e a criação de um novo polo turístico da Indonésia

14 min de leitura
Mandalika e a criação de um novo polo turístico da Indonésia

Um novo polo a leste de Bali

Damar cresceu em Lombok desconfiado dos estrangeiros. Hoje, conduz visitantes por ondas de águas azul-turquesa como um guia de surfe muito requisitado. Sua história espelha a transformação das ilhas. Lombok, logo a leste de Bali, oferece praias extensas, recifes com ondas tranquilas e a subida ao Monte Rinjani, sem o trânsito caótico de Bali. As paisagens são amplas, as estradas menos movimentadas e o ritmo mais calmo — exatamente o que atrai surfistas, caminhantes e famílias em busca de espaço.

Conteúdo
  1. Um novo polo a leste de Bali
  2. O que impulsiona o rápido crescimento de Mandalika
  3. Quem ganha e quem fica de fora
  4. Direitos à terra, despejos e o custo humano
  5. Cultura e identidade em uma ilha em transformação
  6. A natureza em jogo, das ondas aos manguezais
  7. É possível dividir os ganhos de forma mais justa?
  8. O que os viajantes devem saber
  9. O que você precisa saber

Essa tranquilidade está dando lugar a uma onda de investimentos. O governo da Indonésia destacou Lombok como uma nova vitrine nacional, e a área costeira de Mandalika, no sul da ilha, está no centro dessa iniciativa. Resorts, clubes de praia, cafés e um circuito internacional de motociclismo agora ancoram uma zona planejada para atrair a atenção mundial. Às vezes, os moradores chamam esse processo de “balificação”, um termo que resume tanto a promessa quanto o temor que ele desperta. Muitos veem com bons olhos os empregos e o aumento da renda. Outros temem despejos, restrições ao acesso à costa e mudanças na cultura e no cotidiano.

O que está em jogo vai além de uma ilha. Bali ainda concentra uma grande parcela das chegadas de turistas estrangeiros, mas sua popularidade provoca trânsito, lixo e desgaste entre os visitantes. A experiência de Lombok é um teste em tempo real para saber se a Indonésia consegue distribuir melhor o turismo, proteger a natureza, respeitar a cultura e dividir os ganhos com quem vive há gerações nessas costas.

O que impulsiona o rápido crescimento de Mandalika

Dinheiro, planejamento e grandes eventos abriram caminho. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura aprovou um empréstimo soberano de cerca de 248 milhões de dólares para construir a infraestrutura básica de Mandalika. O projeto foi classificado na Categoria A, pois seus riscos ambientais e sociais são substanciais, e inclui instrumentos como avaliações de impacto ambiental, planejamento de reassentamento e um plano para os povos indígenas. A apresentação oficial do projeto descreve uma iniciativa em duas fases, com foco em serviços básicos, assistência técnica e fortalecimento da capacidade da incorporadora, a Corporação de Desenvolvimento do Turismo da Indonésia. O resumo no site do banco expõe claramente o objetivo:

O objetivo é fornecer infraestrutura básica sustentável para o desenvolvimento de um novo destino turístico na região de Mandalika, em Lombok.

Os eventos ampliaram o impulso. O Grande Prêmio internacional de motociclismo agora é disputado no circuito de Mandalika, atraindo visitantes de toda a Indonésia e do exterior. Autoridades estimaram que a corrida de 2025 gerou um impacto econômico de 4,8 trilhões de rupias, com voos extras e hotéis lotados em toda Lombok. O entusiasmo confirma por que esportes e entretenimento são centrais para a estratégia, mas a dimensão dos eventos também sobrecarrega estradas, aeroportos e vilarejos costeiros nos dias de pico.

A conectividade acabou sendo um fator decisivo. Um estudo que analisou dados aeroportuários e redes sociais entre 2017 e 2022 concluiu que as conexões aéreas pelo Aeroporto Internacional Zainuddin Abdul Madjid, em Lombok, combinadas com eventos de grande visibilidade e apoio fiscal, influenciaram fortemente a retomada do turismo após a pandemia. O número de passageiros caiu durante a COVID e depois voltou a crescer no período do novo normal. A pesquisa recomendou um melhor aproveitamento da infraestrutura existente, compartilhamento claro de dados para agilizar decisões e políticas para administrar conflitos fundiários que podem comprometer investimentos de longo prazo.

Uma iniciativa paralela se concentra em serviços públicos e capacitação comunitária. O Projeto de Desenvolvimento do Turismo da Indonésia (ITDP), apoiado pelo Banco Mundial, está melhorando o abastecimento de água, o saneamento, as ruas e a capacitação em Toba e Lombok. O programa informa que ampliou ou melhorou o acesso à água para centenas de milhares de pessoas, destinou grandes áreas à caminhada e ao ciclismo, modernizou o saneamento e certificou dezenas de milhares de trabalhadores do setor hoteleiro. Mais de 20 mil pequenos negócios fortaleceram sua presença on-line, 65 vilarejos turísticos receberam orientação e, segundo estimativas do programa, foram criadas oportunidades de emprego para centenas de milhares de pessoas em seis destinos, com aumento de mais de 15% nos salários médios. Em Lombok, a resiliência a desastres e a gestão de resíduos receberam atenção especial após o terremoto de 2018, incluindo um sistema comunitário de abastecimento de água em Sembalun e instalações que transformam resíduos em materiais úteis. O Banco Mundial resume sua missão assim:

Turismo sustentável que melhora a infraestrutura, amplia o acesso a recursos e fortalece empreendedores locais.

Para consultar informações oficiais sobre os projetos, os leitores podem acessar a apresentação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura neste link e a reportagem do Banco Mundial sobre os resultados do ITDP neste link.

Publicidade

Quem ganha e quem fica de fora

Estudos sobre o crescimento recente de Mandalika apontam um amplo efeito multiplicador. Pequenos negócios se multiplicaram perto do circuito e nas cidades vizinhas. Estabelecimentos de hospedagem, empresas de transporte, barracas de comida e lojas de souvenirs relatam faturamento maior quando os eventos acontecem. Parte desses ganhos também chega a vilarejos fora da área central. Nos fins de semana de pico, pousadas familiares ficam lotadas longe do autódromo, motoristas transportam visitantes entre as praias e o aeroporto, e cadeias de fornecedores locais abastecem hotéis e cafés.

Os resultados são desiguais. Algumas micro e pequenas empresas não conseguem atender aos padrões de qualidade e logística exigidos por grandes eventos. O acesso à orientação ainda é limitado, e alguns vendedores recorrem a empréstimos com juros altos, que reduzem suas margens. Vendedores ambulantes às vezes adotam abordagens insistentes quando o fluxo de visitantes é imprevisível, o que pode prejudicar a experiência e acabar afetando os negócios. Pesquisadores que conversaram com empreendedores apontam a necessidade de noções básicas de educação financeira, processos melhores de seleção de fornecedores e oportunidades justas para que empresas locais concorram a grandes contratos ligados aos eventos. Essas medidas ajudariam a distribuir os benefícios, reduzir empréstimos predatórios e melhorar o atendimento aos visitantes.

As histórias do dia a dia mostram a rapidez das mudanças. Guias de surfe e instrutores de mergulho agora ganham mais do que ganhavam com a pesca. Pousadas familiares reformaram os quartos e passaram a aceitar reservas on-line. Em Kuta, na costa sul, hostels e warungs simples deram lugar a acomodações de médio e alto padrão, estúdios de ioga e cafés voltados aos gostos internacionais. Essa mudança eleva os aluguéis. Alguns vendedores informais perdem acesso aos melhores pontos da praia, e algumas famílias dizem que seus caminhos tradicionais até a água agora passam por áreas controladas por resorts. Moradores que reconhecem as novas oportunidades também apontam a necessidade de regras para impedir que o crescimento os empurre para as margens.

Publicidade

Direitos à terra, despejos e o custo humano

Os conflitos mais dolorosos giram em torno da terra. Grupos da sociedade civil e especialistas em direitos humanos da ONU vêm alertando, desde 2019, para despejos forçados, ausência de consentimento livre, prévio e informado das comunidades indígenas sasak, intimidação durante a aquisição de terras e indenizações consideradas insuficientes pelos moradores. Pescadores dizem ter perdido o acesso à costa de onde antes lançavam seus barcos. Um local de reassentamento citado por críticos fica longe da praia e não conta com os serviços de que as pessoas precisam para reconstruir seu trabalho e sua vida familiar.

Especialistas da ONU estimaram que mais de duas mil pessoas perderam sua principal fonte de sustento. Eles pediram mediação independente, transparência por parte dos financiadores e participação efetiva das pessoas afetadas. Autoridades indonésias e a incorporadora estatal afirmam que as famílias afetadas foram consultadas e indenizadas, e ressaltam que o principal objetivo do projeto é criar empregos em uma província pobre. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura classificou o projeto no mais alto nível de risco ambiental e social e exigiu instrumentos como uma estrutura de reassentamento e um plano para os povos indígenas, concebidos para prevenir danos e oferecer soluções quando surgirem problemas.

A distância entre as salvaguardas no papel e a experiência vivida é o que alimenta a desconfiança. Para recuperar a confiança, são necessárias informações claras sobre quem é dono de cada terreno, um mecanismo de reclamações em que os moradores confiem e indenizações que levem em conta a perda de meios de subsistência, não apenas as estruturas físicas. Acordos futuros sobre terras precisarão de consulta prévia e condições justas, especialmente para quem depende da orla para trabalhar.

Publicidade

Cultura e identidade em uma ilha em transformação

O tecido social de Lombok é diferente do de sua vizinha famosa. A maioria sasak é predominantemente muçulmana. As mesquitas são pontos de referência da vida nos vilarejos, e os costumes influenciam a forma como as pessoas se cumprimentam, se vestem e comemoram. Muitos visitantes apreciam a vida noturna mais tranquila e o ambiente acolhedor para famílias, enquanto alguns turistas acostumados aos bares de Bali se surpreendem com as normas sobre álcool e música alta. Moradores que já viram o turismo se desenvolver em outros lugares defendem que Lombok preserve o que a torna diferente, em vez de copiar Bali.

Pesquisas sobre a preparação das comunidades de Lombok identificam forte coesão social, orgulho cultural e alto nível de liderança local. O capital econômico e social é sólido. O capital cultural é forte em conhecimento, mas mais limitado em habilidades específicas para o turismo. Isso indica que capacitações direcionadas podem preencher lacunas sem diluir a identidade local. O modelo penta-helix, que reúne governo, setor privado, universidades, ONGs e imprensa, pode ajudar a direcionar os investimentos e proteger o patrimônio cultural.

A natureza em jogo, das ondas aos manguezais

Os visitantes vêm pela água e pelas montanhas, então a natureza não pode ficar em segundo plano. Em algumas ocasiões, o Grande Prêmio deixou resíduos visíveis nas praias próximas. Os ecossistemas costeiros são sensíveis a pressões. Os recifes de coral podem ser danificados por âncoras, pelo mergulho com snorkel irresponsável e pelo escoamento de sedimentos. Os manguezais protegem o litoral, filtram a água e servem de berçário para peixes jovens. Pesquisas sobre ecoturismo na Indonésia ressaltam a importância da capacidade de carga. Isso significa estabelecer limites para o número de pessoas que um local pode receber por dia, a frequência dos eventos e a quantidade de resíduos que a região consegue absorver sem sofrer danos.

Programas públicos começam a lidar com essas questões. Nas terras altas de Lombok, sistemas comunitários de abastecimento de água agora atendem residências e pousadas familiares. Novas instalações transformam resíduos em recursos comercializáveis, ajudando a limpar as ruas e impedindo que plásticos cheguem ao mar. Na costa, estudos de lugares como a Praia de Cemara apontam necessidades práticas: saneamento melhor, mais lixeiras, iluminação mais segura e serviços básicos, como salas de oração. Essas melhorias não são vistosas, mas influenciam se uma praia continua limpa e acolhedora para famílias e visitantes que passam o dia por lá.

Manter intacto o que atrai as pessoas à ilha depende de regras simples e fiscalização constante. Protetores solares seguros para os recifes, boias de amarração para manter as âncoras longe dos corais, caminhos demarcados nas dunas e trilhas guiadas no Rinjani são algumas das medidas que ajudam. Operadores podem limitar o tamanho dos grupos e organizar horários. Visitantes podem escolher passeios que apoiem a restauração, como o plantio de manguezais e a limpeza de recifes. Pequenos hábitos, juntos, ajudam a manter a costa mais saudável.

Publicidade

É possível dividir os ganhos de forma mais justa?

A transformação de Lombok não diz respeito apenas à chegada de visitantes e à ocupação dos hotéis. Trata-se de saber quem tem a palavra final sobre a terra e quem participa dos ganhos. Medidas práticas estão ao alcance. É preciso esclarecer direitos e títulos de propriedade com mapas que as comunidades possam verificar. O reassentamento deve ser usado apenas como último recurso, com consentimento livre, prévio e informado e propostas justas, avaliadas pela recuperação dos meios de subsistência, não apenas pelo pagamento das estruturas. Quando a mudança for necessária, as novas moradias devem ficar perto do trabalho e das escolas, com água, saneamento e eletricidade desde o primeiro dia.

Eventos e resorts podem ampliar sua lista de fornecedores por meio de metas de compras locais, critérios transparentes e capacitação gratuita. Um sistema unificado para licenças e certificação de qualidade reduziria as barreiras para pequenos negócios. Microcrédito a taxas justas pode substituir empréstimos caros que prendem os vendedores em dívidas. Educação financeira, noções básicas de contabilidade e marketing digital ajudam pousadas e cafés a ir além das vendas feitas apenas em dinheiro. A certificação de guias turísticos mantém altos os padrões de segurança e, ao mesmo tempo, aumenta o orgulho profissional e os salários.

As decisões devem ser orientadas por dados. É preciso acompanhar o número de visitantes, os preços dos hotéis, a renda das pequenas e médias empresas e os indicadores ambientais em um painel acessível a lideranças locais e moradores. Incentivos fiscais direcionados podem atrair investimento privado para as áreas que precisam dele, e penalidades devem ser aplicadas quando houver poluição ou grilagem de terras. A abordagem penta-helix funciona melhor quando as informações circulam nos dois sentidos e as comunidades sentem que o plano também lhes pertence.

Publicidade

O que os viajantes devem saber

Os visitantes influenciam os resultados pela forma como gastam e se comportam. Escolher hospedagens de propriedade local, contratar guias certificados e comer em warungs familiares ajuda a manter o dinheiro na comunidade. Reabasteça a garrafa de água, leve uma sacolinha para o lixo e escolha passeios que respeitem as orientações para recifes e animais silvestres. Vista-se com discrição fora das áreas de praia, especialmente perto de mesquitas e vilarejos. Peça permissão antes de fotografar cerimônias ou pessoas.

Há muito para conhecer em Lombok além de Mandalika. Passar um dia nas encostas ao redor de Sembalun ajuda as comunidades que se reconstruíram após o terremoto de 2018. Fazer snorkel com um pequeno operador dedicado à proteção dos recifes apoia a conservação. Distribuir as viagens para além do calendário do autódromo alivia a pressão sobre as estradas e pode reduzir os preços. O futuro da ilha é moldado por essas escolhas tanto quanto pelos grandes investimentos e inaugurações.

O que você precisa saber

  • A infraestrutura básica de Mandalika é parcialmente financiada por um empréstimo soberano de 248,4 milhões de dólares do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. O projeto tem a classificação mais alta de risco ambiental e social do banco e inclui salvaguardas e planos formais.
  • Autoridades estimaram que o fim de semana da MotoGP de 2025 no circuito de Mandalika gerou um impacto econômico de 4,8 trilhões de rupias, com voos extras e ocupação hoteleira em toda a ilha próxima da capacidade máxima.
  • As iniciativas apoiadas pelo Banco Mundial em Lombok e Toba relatam grandes avanços no acesso à água e ao saneamento, amplas áreas destinadas à caminhada e ao ciclismo, dezenas de milhares de trabalhadores certificados e mais de 20 mil empresas fortalecendo sua presença on-line.
  • Estudos acadêmicos descrevem um efeito multiplicador positivo para pequenos negócios de hospedagem, transporte, alimentação e souvenirs, mas também apontam acesso desigual à orientação, ao crédito e às vagas de fornecedores dos eventos.
  • Especialistas em direitos humanos da ONU e grupos da sociedade civil levantaram preocupações sobre despejos, consentimento e indenizações em Mandalika. As autoridades e a incorporadora estatal afirmam que houve consultas e pagamentos, e destacam a criação de empregos.
  • A cultura de Lombok é marcada pelas tradições muçulmanas sasak, com normas sobre álcool e vestuário diferentes das de Bali. A preparação das comunidades para o turismo sustentável é alta, mas ainda são necessárias mais capacitações.
  • A gestão ambiental é um desafio central. Pesquisas destacam a capacidade de carga, o controle de resíduos e a proteção dos recifes e manguezais como fatores fundamentais para o sucesso a longo prazo.
  • A conectividade pelo aeroporto internacional de Lombok, combinada com grandes eventos e apoio público, influencia fortemente o fluxo de visitantes. Administrar os períodos de pico e distribuir melhor as viagens pode reduzir a pressão sobre estradas e praias.
  • Há novos empreendimentos de luxo planejados, incluindo marcas globais que pretendem adotar projetos sustentáveis e contratar moradores locais, sinalizando a continuidade dos investimentos e a necessidade de políticas que mantenham os benefícios na região.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar