Um ícone dos anos 1970 ganha nova vida com a Geração Z
Quando a influenciadora australiana Sam Todd viajou a Tóquio no início de 2025 para garimpar lojas de moda vintage da cidade, ela tinha uma segunda missão: encontrar um chaveiro felpudo do Monchhichi para suas bolsas de grife. A busca terminou em Harajuku, onde uma loja de brinquedos limitava as compras para dar conta da procura. O vídeo que ela publicou no TikTok mostrando o momento teve mais de 300 mil visualizações. Aquele pequeno enfeite revelou uma história maior. Um personagem japonês de 51 anos, há muito associado à infância, voltou aos holofotes globais como acessório de moda para adultos e item de coleção realmente disputado.
Conteúdo
- Um ícone dos anos 1970 ganha nova vida com a Geração Z
- Como as redes sociais transformaram bichos de pelúcia em acessórios de moda
- Salto nas vendas e aposta no mercado externo
- O papel do iene, das tarifas e das cadeias de suprimentos
- Mudança de estratégia em direção aos fãs adultos
- Cultura, comunidade e um parque em Tóquio
- Novas produções e acordos de licenciamento
- Concorrentes e a febre dos enfeites para bolsas
- O que vem pela frente para o Monchhichi
- Em resumo
Consumidores como Todd ajudam a impulsionar uma alta que rivaliza com a primeira era de ouro do brinquedo. A Sekiguchi, criadora e detentora da licença sediada em Tóquio, afirma que as vendas do Monchhichi mais que dobraram no ano fiscal encerrado em fevereiro de 2025, chegando a 4,6 bilhões de ienes. Atualmente, compradores internacionais respondem por cerca de 40 por cento da receita. A empresa ampliou a capacidade de produção na China e estuda novas parcerias de licenciamento. A fraqueza do iene, as tendências nas redes sociais e uma onda de personagens de pelúcia colecionáveis, como Labubu, Sonny Angel, Smiski e Jellycat, que estão redefinindo a forma como os adultos complementam o visual, ajudaram a impulsionar o movimento.
Todd, influenciadora australiana que registra seus achados de moda no TikTok, resumiu a experiência depois de comparar os preços e a variedade no Japão com o que encontra em seu país.
Foi muito bom finalmente conseguir encontrar um. A popularidade só tem crescido, então todo mundo quer um.
O Monchhichi chegou ao mercado em 1974 e se tornou um raro sucesso global anterior à internet. Houve acordos de licenciamento com a Mattel e até um desenho animado. O auge passou em meados dos anos 1980, e a marca recuou de muitos mercados. O interesse voltou mais tarde, inclusive com uma retomada nos anos 1990 liderada por varejistas alemães e uma grande onda na China há cerca de 12 anos. A atual volta ganhou força nos últimos dois anos, com Tailândia e Coreia do Sul como primeiros focos. Em junho, Lisa, do Blackpink, publicou uma foto em que aparece comprando produtos do Monchhichi, dando destaque de estrela a uma tendência que já inundava os feeds do Instagram e do TikTok.
Como as redes sociais transformaram bichos de pelúcia em acessórios de moda
O Monchhichi está no centro de uma mudança mais ampla na forma como os adultos usam brinquedos. A moda ficou mais descontraída. De Labubu a Crybaby e Sonny Angel, pequenos personagens e enfeites de pelúcia estão se transformando em adornos para bolsas, detalhes de looks e motivos de conversa. De butiques de moda urbana a livrarias, varejistas agora expõem esses itens perto do caixa, sinal de que funcionam tanto como compras por impulso quanto como peças de coleção. Editores de moda descrevem a ascensão de referências à infância como parte de uma tendência maior de busca por conforto. Psicólogos destacam o apelo de objetos fofos e táteis, que oferecem um momento de alívio em períodos estressantes e permitem que adultos expressem ternura sem abrir mão do estilo.
A tendência também tem críticos. Nas redes sociais, algumas pessoas zombam de adultos, sobretudo mulheres, por adotarem uma estética fofa. Outras veem nisso uma forma de ampliar as possibilidades do que significa ser adulto. De todo modo, as marcas estão apostando nessa tendência. O resultado é um mercado em rápida expansão: a Spherical Insights projeta que o segmento global de pingentes para chaveiros ultrapasse US$ 28 bilhões até 2033, ante menos de US$ 18 bilhões em 2023. O Monchhichi, antes companheiro de infância, agora também funciona como sinal de identidade nas alças de bolsas e mochilas.
Em Tóquio, o criador de conteúdo Yuma Kardasian personifica essa mudança. Ele raramente sai de casa sem dois chaveiros do Monchhichi e estima ter gastado cerca de 300 mil ienes com a marca em dois anos.
É um item de moda essencial. Sair sem o Monchhichi é como ir trabalhar sem meias.
Esse tipo de apego vai além da nostalgia. O Monchhichi oferece uma expressão estável, um toque macio e um rosto familiar que fica bem em fotos. Também sinaliza bom gosto para quem reconhece o personagem, tornando-se uma declaração de estilo pequena, mas eficaz, em um metrô lotado ou numa rua movimentada.
Salto nas vendas e aposta no mercado externo
O presidente e diretor-executivo da Sekiguchi, Toshitaka Yoshino, afirma que a empresa pretende atender à demanda sem perder de vista o caráter cíclico das tendências. Enquanto amplia a produção na China, a companhia intensifica parcerias de licenciamento e varejo no exterior. O Monchhichi chegou recentemente a redes americanas como Urban Outfitters e Barnes & Noble. No Japão, os chaveiros clássicos costumam ser vendidos por cerca de 2.200 ienes, enquanto nos Estados Unidos alguns itens, como os enfeites de pelúcia com gorro de frutas da Urban Outfitters, custam cerca de US$ 24. A empresa também está ampliando as colaborações, incluindo uma parceria com a Hello Kitty e uma coleção conjunta com o Paris Saint Germain, que ajudou a apresentar o Monchhichi a novos fãs de esportes e da cultura urbana.
A meta de Yoshino para este ciclo é ambiciosa, mas ele a apresenta com cautela.
Queremos simplesmente inundar o mundo com o Monchhichi.
A Europa continua sendo importante. Décadas depois do primeiro sucesso da marca na feira comercial de Nuremberg, Alemanha, França e Países Baixos seguem como mercados ativos. Hoje, a Sekiguchi trabalha diretamente com diversos varejistas e agentes de licenciamento da região, refletindo uma abordagem mais diversificada do que nos anos 1970 ou 1980. O crescimento na China também acelerou, dando à marca uma ampla base de consumidores na Ásia, além do interesse renovado no Sudeste Asiático e na Coreia do Sul.
O papel do iene, das tarifas e das cadeias de suprimentos
As oscilações cambiais e as políticas comerciais estão moldando essa retomada. O iene mais fraco tornou o Japão atraente para turistas da Europa e da América do Norte, que chegam dispostos a comprar personagens difíceis de encontrar e modelos limitados. Ao mesmo tempo, a produção do Monchhichi continua concentrada na China, onde são fabricados cerca de 95 por cento dos itens. Isso deixa a empresa exposta a mudanças nas tarifas sobre brinquedos importados para os Estados Unidos, seu maior mercado externo em receita.
Yoshino descreveu uma forte queda no início deste ano, quando as tensões comerciais aumentaram.
Os pedidos dos varejistas dos Estados Unidos estavam indo bem no início deste ano, mas, em maio, tudo parou completamente.
Ele acrescenta que os pedidos se recuperaram parcialmente, embora ainda não tenham voltado aos níveis anteriores às tarifas. Essa realidade ajuda a explicar a postura cautelosa da Sekiguchi. A empresa está aumentando a produção, mas evita uma onda de contratações. A gestão trabalha com a ideia de que produtos que vendem muito acabam perdendo força, uma filosofia moldada por mais de um século de fabricação de brinquedos sob controle familiar. A expectativa é manter a empresa ágil o suficiente para atender aos fãs e, ao mesmo tempo, absorver impactos nos custos de transporte, mão de obra ou comércio.
Mudança de estratégia em direção aos fãs adultos
A Sekiguchi ajustou sua estratégia. As iniciativas anteriores voltadas às crianças enfrentaram forte concorrência de franquias de super-heróis como Homem-Aranha e sucessos protagonizados por princesas, como Frozen. Agora, o foco está nos adultos, que têm poder aquisitivo e costumam manter o interesse por marcas de personagens por mais tempo. A abordagem parece estar dando resultado nas redes sociais, onde um Monchhichi na alça de uma bolsa pode dizer tanto sobre o gosto pessoal quanto a escolha de um tênis ou de uma camiseta estampada.
Yoshino afirma que a percepção desses produtos mudou com esse novo público.
As pessoas estão entendendo cada vez mais que adultos comprem esses brinquedos para si mesmos. Finalmente, começam a reconhecer o Monchhichi como personagem, e não como brinquedo.
A distribuição no varejo acompanha essa mudança. Além das lojas especializadas em brinquedos, o Monchhichi agora aparece em redes de produtos para o dia a dia e livrarias que atraem jovens adultos. Colaborações com marcas de forte apelo cultural, como a Hello Kitty, mantêm o personagem diante de consumidores que talvez nem passem pela seção de brinquedos. Os preços também posicionam os principais modelos como presentes acessíveis, incentivando novas compras e a troca por versões mais raras.
Cultura, comunidade e um parque em Tóquio
O Monchhichi também se tornou uma experiência ligada a um lugar no Japão. No bairro de Shin Koiwa, em Tóquio, um parque dedicado ao Monchhichi, perto da sede da Sekiguchi, atrai pais, adultos nostálgicos e adolescentes curiosos. A estátua com asas de anjo virou parada frequente para fotos, o pequeno museu conta a história da origem do personagem e elementos interativos instalados nos últimos anos incentivam novas visitas. Estátuas e vitrais na estação próxima transformam o personagem em um marco local e dão ao bairro uma identidade própria.
A presença do parque estimula o compartilhamento de conteúdo digital. Fotos e vídeos curtos circulam rapidamente pelo TikTok e pelo Instagram, ajudando a apresentar o personagem a quem não cresceu com ele. Essa combinação de espaço físico e descoberta on-line amplia a base de fãs e transforma uma visita de meia hora em uma pista cultural que leva a lojas e colaborações.
Novas produções e acordos de licenciamento
Novos conteúdos ajudaram a manter o Monchhichi no radar de famílias e colecionadores. Uma série animada infantil recente foi desenvolvida com a OuiDO Productions, enquanto a PGS cuida da distribuição internacional. Os episódios têm cerca de 11 minutos e apresentam o universo Monchhichi como um lugar onde os personagens ajudam a criar e proteger sonhos doces. O projeto reaproximou a marca de emissoras e serviços de streaming, enquanto programas de licenciamento separados levaram o Monchhichi a quebra-cabeças, roupas e campanhas promocionais na Europa e no Oriente Médio. A Silverlit, parceira de longa data, desenvolveu brinquedos que acompanharam as transmissões em vários mercados.
Essas iniciativas fazem parte de uma estratégia mais ampla: manter o personagem presente no cotidiano e, ao mesmo tempo, colaborar em projetos que pareçam novos. A parceria com a Hello Kitty criou uma ponte entre dois dos rostos mais reconhecidos do Japão. A colaboração com o Paris Saint Germain aproximou o Monchhichi do esporte e da estética urbana. Varejistas como a Urban Outfitters selecionaram enfeites de pelúcia para jovens adultos nos lugares onde costumam fazer compras. Essa combinação provoca surpresa, algo valioso em um mercado concorrido, onde a atenção muda rapidamente.
Concorrentes e a febre dos enfeites para bolsas
O mercado mais amplo de colecionáveis está aquecido. O Labubu, personagem travesso criado para um livro ilustrado da Pop Mart, tornou-se presença constante em capas de celular e alças de bolsas pelo mundo. Jellycat, Sonny Angel, Smiski, Crybaby, Skullpanda, Noodoll e o relançado Tamagotchi alimentam uma categoria que combina fofura, raridade e aprovação social. Veículos de estilo de vida e moda publicam cada vez mais guias de enfeites para bolsas como alternativas ao Labubu, e o Monchhichi costuma aparecer entre os primeiros, como um ícone com história e um rosto mais simpático.
A escassez dá impulso à tendência. Lojas em Tóquio e Bangcoc às vezes limitam a compra de modelos disputados. Consumidores internacionais muitas vezes pagam mais caro em seus países, o que mantém aquecido o turismo de compras. Uma consulta rápida a plataformas de revenda mostra anúncios constantes de modelos novos e relançados, incluindo conjuntos fabricados em 2025 e enviados do Japão. Essa movimentação é outro sinal de que, em alguns segmentos, a demanda supera a oferta, mesmo com a Sekiguchi ampliando a capacidade de produção.
O que vem pela frente para o Monchhichi
A empresa está se preparando para administrar a marca no longo prazo, sem correr atrás de cada pico passageiro. Como parte das comemorações de 50 anos da marca, a Sekiguchi criou uma entidade dedicada ao Monchhichi para reforçar a gestão da propriedade intelectual e aprofundar parcerias. A liderança familiar que conduziu a marca por períodos de alta e baixa continua priorizando o crescimento sustentável. Isso significa ampliar a fabricação na China sem exagerar na expansão, aumentar o licenciamento quando isso valorizar o personagem e manter um controle rigoroso da qualidade para que o Monchhichi seja consistente para os fãs em diferentes países.
As próximas colaborações provavelmente vão combinar nomes tradicionais com parceiros de nicho que se conectam a comunidades específicas, da moda urbana aos esportes e aos brinquedos artísticos. Projetos de mídia continuarão a despertar o interesse das crianças, mesmo com a estratégia de varejo centrada em colecionadores adultos. A presença global da marca, especialmente na Europa e na Ásia, favorece a continuidade das compras de turistas e do comércio eletrônico internacional, desde que tarifas e custos de envio não eliminem as vantagens de preço. Se o último ano serve de indicação, a simplicidade do personagem, suas texturas macias e seu rosto imediatamente reconhecível dão a ele um lugar distinto em um mercado concorrido.
Em resumo
- As vendas do Monchhichi mais que dobraram, chegando a 4,6 bilhões de ienes no ano fiscal encerrado em fevereiro de 2025, com cerca de 40 por cento provenientes de compradores estrangeiros.
- A Geração Z e os jovens adultos transformaram o Monchhichi em um enfeite de bolsa que combina com a moda, impulsionado por tendências no TikTok e no Instagram.
- A produção está concentrada na China, onde são fabricados cerca de 95 por cento dos itens, o que aumenta a exposição às tarifas nos Estados Unidos.
- Os pedidos dos varejistas americanos diminuíram após o aumento das tarifas e depois se recuperaram parcialmente, mas continuam abaixo dos níveis anteriores.
- Entre os parceiros de varejo estão agora a Urban Outfitters e a Barnes & Noble, e os preços posicionam os principais chaveiros como presentes acessíveis.
- As colaborações com a Hello Kitty e o Paris Saint Germain, além de uma série animada, ampliaram o alcance da marca e a mantiveram atual.
- O Parque Monchhichi em Tóquio, junto com instalações em espaços públicos, dá ao personagem presença local e estimula o compartilhamento nas redes sociais.
- A previsão é que o mercado global de pingentes para chaveiros ultrapasse US$ 28 bilhões até 2033, oferecendo amplo espaço para crescimento.
- A concorrência de Labubu, Sonny Angel, Jellycat e outros é intensa, mas o apelo nostálgico do Monchhichi o diferencia.
- A Sekiguchi está ampliando a produção com cautela, mantendo os adultos como clientes centrais e investindo em licenciamento e crescimento gradual da fabricação.






