Sri Lanka aprova controverso acordo da dívida sob pressão do FMI, provocando debate sobre austeridade e o Sul Global

13 min de leitura
Sri Lanka aprova controverso acordo da dívida sob pressão do FMI, provocando debate sobre austeridade e o Sul Global

Sri Lanka aprova controverso acordo da dívida sob pressão do FMI, provocando debate sobre austeridade e o Sul Global

O novo governo de Colombo aprova uma reestruturação de US$ 14,7 bilhões da dívida, destacando o custo humano da austeridade liderada pelo FMI e a crise mais ampla enfrentada por países em desenvolvimento.

Em 19 de setembro de 2024, o novo governo do Sri Lanka, liderado pelo presidente Anura Kumara Dissanayake, aprovou um controverso acordo de reestruturação de US$ 14,7 bilhões da dívida externa, negociado originalmente por seu antecessor. O acordo, uma das principais exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), ocorre enquanto o Sri Lanka continua a se recuperar do colapso econômico de 2022, que provocou protestos em massa, a renúncia do presidente e uma mudança histórica no poder político. Embora o FMI e os credores internacionais tenham elogiado o acordo como um passo rumo à estabilidade, críticos alertam que as medidas de austeridade resultantes estão agravando as dificuldades de milhões de cingaleses e refletem uma emergência da dívida mais ampla em todo o Sul Global.

Conteúdo
  1. Sri Lanka aprova controverso acordo da dívida sob pressão do FMI, provocando debate sobre austeridade e o Sul Global
  2. O novo governo de Colombo aprova uma reestruturação de US$ 14,7 bilhões da dívida, destacando o custo humano da austeridade liderada pelo FMI e a crise mais ampla enfrentada por países em desenvolvimento.
  3. Como se desenrolou a crise da dívida do Sri Lanka?
  4. O que prevê o acordo de reestruturação da dívida?
  5. Como o FMI influenciou a recuperação do Sri Lanka?
  6. Quem está pagando o preço?
  7. Por que a crise do Sri Lanka faz parte de um padrão global?
  8. Como o Sul Global chegou a essa situação?
  9. Quais são as consequências políticas e sociais?
  10. Há alternativas ao sistema atual?
  11. O que vem pela frente para o Sri Lanka e o Sul Global?
  12. Principais pontos

Como se desenrolou a crise da dívida do Sri Lanka?

A crise econômica do Sri Lanka eclodiu em 2022, após anos de endividamento insustentável, má gestão fiscal e uma série de choques externos. O país deixou de pagar sua dívida externa pela primeira vez na história e ficou sem divisas para pagar importações essenciais, como alimentos e combustíveis. A crise foi agravada pela pandemia de Covid-19, pelos atentados da Páscoa de 2019 e pelos efeitos globais da guerra entre Rússia e Ucrânia, que prejudicaram o turismo e as receitas de exportação.

A indignação popular transbordou no movimento Aragalaya, uma ampla mobilização de cidadãos que exigia prestação de contas e o fim da corrupção política. O movimento forçou a renúncia do presidente Gotabaya Rajapaksa. No entanto, o governo seguinte, de Ranil Wickremesinghe, adiou novas eleições e, em vez disso, negociou um resgate de US$ 3 bilhões do FMI, o 17º programa desse tipo no Sri Lanka, em troca de amplas reformas econômicas e austeridade.

Em setembro de 2024, os eleitores deram uma vitória esmagadora à coalizão de esquerda Poder Popular Nacional (NPP), liderada por Anura Kumara Dissanayake, com promessas de justiça econômica e de ruptura com o passado. Ainda assim, o novo governo logo se viu limitado pelo acordo com o FMI e pelas condições impostas pelos credores internacionais.

O que prevê o acordo de reestruturação da dívida?

A reestruturação abrange US$ 14,7 bilhões em crédito comercial externo, incluindo US$ 12,5 bilhões em títulos soberanos internacionais e US$ 2,2 bilhões devidos ao Banco de Desenvolvimento da China. Pelo acordo, os credores privados concordaram com uma redução de 27% (“deságio”) de seus empréstimos e um corte adicional de 11% nos juros devidos. O acordo também inclui “Títulos Vinculados à Macroeconomia”, que aumentam os pagamentos aos credores se a economia do Sri Lanka crescer mais do que as projeções do FMI, penalizando, na prática, a recuperação econômica.

Apesar dos pedidos iniciais por condições melhores, o governo do presidente Dissanayake decidiu honrar o acordo após conversas com uma delegação do FMI em Colombo. O Ministério das Finanças confirmou a aprovação, embora o acordo ainda dependa de ratificação parlamentar. O governo dissolveu o Parlamento e convocou eleições antecipadas para 14 de novembro de 2024; a nova legislatura deve se reunir uma semana depois.

Os pagamentos de juros consumirão 41% dos gastos do governo em 2025, tornando o Sri Lanka um dos países mais endividados do mundo em relação ao PIB. Mesmo após a reestruturação, a relação entre a dívida pública e o PIB deverá permanecer em torno de 95% até 2032.

Como o FMI influenciou a recuperação do Sri Lanka?

O programa de Mecanismo Ampliado do Fundo (EFF, na sigla em inglês) do FMI para o Sri Lanka exige um superávit primário de 2,3% do orçamento até 2025, o que obriga o governo a aumentar impostos, cortar gastos e privatizar empresas estatais. Entre as principais reformas estão:

  • Privatização de empresas estatais e serviços públicos
  • Congelamento das contratações no setor público
  • Adiamento ou cancelamento de projetos de infraestrutura rural
  • Redução de subsídios para combustíveis, agricultura e pesca
  • Aumento dos preços da energia e eliminação dos controles de preços
  • Desvinculação do Banco Central do controle do Estado

Essas medidas pretendem restaurar a estabilidade macroeconômica e tranquilizar os credores. No entanto, também provocaram uma forte contração do investimento público, estagnação dos orçamentos de saúde e educação e um pesado ônus sobre as economias previdenciárias dos trabalhadores, especialmente o Fundo de Previdência dos Trabalhadores (EPF, na sigla em inglês).

Em seu primeiro discurso orçamentário, em fevereiro de 2025, o presidente Dissanayake reconheceu as limitações e admitiu que o Sri Lanka não tem independência econômica e continua sob monitoramento do FMI. O governo se comprometeu a elevar o investimento público de 13% para 18% das despesas, mas economistas alertam que, se as metas de arrecadação do FMI forem impostas, o investimento provavelmente será o primeiro a sofrer cortes.

Quem está pagando o preço?

O custo humano da “recuperação” do Sri Lanka é evidente. Organizações da sociedade civil estimam que 6,3 milhões de pessoas estão deixando de fazer refeições e que pelo menos 65.600 enfrentam grave escassez de alimentos. A inflação e os impostos mais altos reduziram a renda real, enquanto os custos de combustível e insumos dispararam para pescadores e agricultores. Os gastos públicos com saúde em 2025 representam apenas 1,5% do PIB, cinco vezes menos do que o valor destinado ao serviço da dívida pública.

Pescadores relatam que os custos de combustível continuam elevados e comprometem sua renda, enquanto agricultores enfrentam o aumento dos preços dos insumos, choques climáticos e a redução do apoio estatal. O governo restabeleceu alguns subsídios para a agricultura e a pesca, mas muitos dizem que isso não basta para compensar os efeitos da austeridade.

Os servidores públicos enfrentam um congelamento de contratações, e grandes projetos de infraestrutura de transporte e irrigação foram adiados ou cancelados. O financiamento para saúde e educação estagnou enquanto os custos aumentam, e as reformas previdenciárias reduziram a segurança na aposentadoria de milhões de pessoas.

Publicidade

Mulheres e comunidades marginalizadas são afetadas de forma desproporcional. As medidas de austeridade provocaram perdas de empregos em setores com forte presença de mulheres, aumentaram o trabalho de cuidado não remunerado e intensificaram a insegurança econômica. Segundo críticos, as políticas do FMI agravaram a desigualdade e a pobreza, minando as próprias bases da estabilidade social.

Por que a crise do Sri Lanka faz parte de um padrão global?

A situação do Sri Lanka não é única. Em todo o Sul Global, países enfrentam uma crise crescente da dívida que ameaça o desenvolvimento e a soberania. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), metade da população mundial, cerca de 3,3 bilhões de pessoas, vive atualmente em países que gastam mais com juros do que com saúde ou educação. Só em 2024, os países em desenvolvimento pagaram US$ 921 bilhões em juros, e as nações africanas estão entre as mais afetadas.

Em muitos casos, os pagamentos da dívida nos países em desenvolvimento já superam as receitas nacionais. Ao todo, 118 países enfrentam dificuldades relacionadas à dívida, e 31 entraram em inadimplência ou perderam acesso a financiamento externo. O Banco Mundial informa que os pagamentos de juros dos países de baixa renda quadruplicaram na última década. Credores privados, como bancos, fundos de investimento e fundos de pensão, detêm atualmente quase metade da dívida pública externa dos países em desenvolvimento e costumam relutar em participar de reduções ou reestruturações da dívida.

Os mecanismos atuais de alívio da dívida são amplamente considerados inadequados: ad hoc, fragmentados e favoráveis aos credores. O Marco Comum do G20 para o Tratamento da Dívida está paralisado, e os próprios programas do FMI muitas vezes priorizam os interesses dos credores em detrimento dos países que contraem empréstimos.

Como o Sul Global chegou a essa situação?

As raízes da crise remontam a décadas. Após a descolonização, muitos países em desenvolvimento recorreram ao Banco Mundial e ao FMI para obter empréstimos, muitas vezes em troca de políticas que reduziam os gastos sociais, privatizavam ativos estatais e abriam suas economias aos mercados globais. Esses programas de “ajuste estrutural”, impostos pela primeira vez na década de 1980, pretendiam reduzir a dívida, mas acabaram perpetuando ciclos de dependência, austeridade e subdesenvolvimento.

Desde 1980, a dívida externa dos países em desenvolvimento dobrou a cada dez anos, multiplicando-se por 19 entre 1980 e 2023. Governos e agentes privados do Sul Global, excluída a China, pagaram mais de US$ 971 bilhões a credores estrangeiros somente em 2023. Em muitos casos, o serviço da dívida já supera os gastos com educação ou saúde.

Os credores privados ganharam cada vez mais protagonismo, e sua recusa em participar de um alívio efetivo da dívida tornou as reestruturações lentas e dolorosas. A moratória da Zâmbia em 2020, por exemplo, levou quatro anos para ser resolvida, e os credores privados negociaram condições melhores para si do que as obtidas pelos credores públicos.

Publicidade

Choques globais recentes, como a alta das taxas de juros nos Estados Unidos e na União Europeia, a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia, pressionaram ainda mais as economias em desenvolvimento. Com a retração do financiamento privado, instituições multilaterais como o FMI e o Banco Mundial intervieram com empréstimos emergenciais, mas condicionados a exigências rigorosas: mais austeridade, privatizações e liberalização econômica.

Quais são as consequências políticas e sociais?

A intervenção do FMI no Sri Lanka faz parte de um padrão mais amplo, no qual instituições financeiras internacionais e credores privados exercem influência significativa sobre as políticas nacionais. Críticos argumentam que isso enfraquece a democracia e a soberania, obrigando os governos a priorizar o pagamento da dívida em detrimento das necessidades sociais.

Ahilan Kadirgamar, economista político cingalês, explica:

O programa do FMI para o Sri Lanka exige um superávit primário elevado, levando ao aumento de impostos e à austeridade, e prioriza o pagamento da dívida em detrimento dos gastos sociais. Isso provocou uma forte contração econômica, com alimentos mais caros, menor acesso a itens essenciais e cortes nos serviços públicos.

Muitos no Sri Lanka e em outros lugares veem a crise como uma questão de direitos humanos. Uma recente mesa-redonda do Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que a crise da dívida é, fundamentalmente, uma crise de direitos humanos e defendeu reformas na arquitetura financeira internacional para proteger os direitos à alimentação, à saúde e à educação.

Movimentos de base estão reagindo. Em setembro de 2025, mais de 500 delegados de todo o mundo se reunirão em Kandy, no Sri Lanka, para o 3º Fórum Global Nyéléni pela soberania alimentar. O fórum reunirá pequenos produtores de alimentos, povos indígenas, sindicatos e pesquisadores para elaborar alternativas ao atual modelo baseado na dívida. Entre os principais temas estarão o cancelamento da dívida, as reparações climáticas e a democratização da governança da dívida.

Há alternativas ao sistema atual?

Muitos especialistas e ativistas argumentam que a abordagem atual da dívida e do desenvolvimento é insustentável. Eles defendem um mecanismo permanente e transparente de resolução da dívida, centrado na justiça, no desenvolvimento e na soberania nacional. As propostas incluem:

  • Cancelamento incondicional da dívida de países em situação de crise
  • Reparações por injustiças históricas e danos climáticos
  • Reformas do sistema financeiro global, incluindo uma Convenção-Quadro da ONU sobre Dívida Soberana
  • Princípios de concessão responsável de empréstimos e suspensão automática dos pagamentos da dívida durante choques
  • Novos Direitos Especiais de Saque (DES) e redirecionamento de DES não utilizados por meio de bancos multilaterais de desenvolvimento
  • Trocas de dívida por ações climáticas, como as realizadas em Barbados, para vincular o alívio da dívida a investimentos verdes

O Fundo Fiduciário para Resiliência e Sustentabilidade (RST, na sigla em inglês) do FMI, criado em 2022, pretende oferecer financiamento de longo prazo e em condições favoráveis para ajudar os países a enfrentar desafios estruturais, como a mudança climática. As primeiras experiências em Barbados e na Jamaica sugerem que vincular o alívio da dívida à ação climática pode criar espaço fiscal para o desenvolvimento sustentável. No entanto, críticos argumentam que os valores envolvidos ainda são muito baixos e que são necessárias reformas mais amplas.

Publicidade

Os países que contraem empréstimos começam a se coordenar com mais eficácia, formando grupos como a União Comum de Mutuários para Alavancagem, a fim de fortalecer sua posição nas negociações. Perspectivas feministas também vêm ganhando espaço, destacando os efeitos da dívida e da austeridade sobre as mulheres.

O que vem pela frente para o Sri Lanka e o Sul Global?

A experiência do Sri Lanka oferece lições valiosas para outros países de renda média que enfrentam dificuldades com a dívida no período pós-pandemia. Embora a economia mostre sinais de estabilização, como crescimento positivo, inflação baixa, boom do turismo e um mercado de ações forte, desafios importantes permanecem. A saída de profissionais qualificados, com mais de 300 mil pessoas emigrando somente em 2024, ameaça o desenvolvimento de longo prazo.

O novo governo precisa traçar um caminho rumo a um crescimento inclusivo e transformador, que garanta a sustentabilidade da dívida e evite crises futuras. Isso inclui priorizar setores com alto potencial de crescimento, como manufatura, tecnologias da informação e comunicação (TIC) e turismo sustentável, além de fortalecer os laços econômicos com parceiros regionais. A sustentabilidade fiscal é fundamental, e o governo talvez precise reestruturar ou privatizar empresas estatais deficitárias.

A implementação será um desafio, dada a baixa capacidade do Estado e a inexperiência do Parlamento. Será essencial desenvolver competências de governança e melhorar a prestação de serviços pelo setor público. O apoio internacional, tanto financeiro quanto técnico, terá papel fundamental.

Para o Sul Global como um todo, a crise reacendeu os apelos por uma nova arquitetura financeira internacional que priorize a dignidade das pessoas, e não os lucros dos credores. Com a aproximação da 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento (FfD4), na Espanha, aumenta a pressão por medidas ousadas para reformar o sistema da dívida e abrir espaço para um crescimento sustentável e equitativo.

Publicidade

Principais pontos

  • O novo governo do Sri Lanka aprovou um acordo de reestruturação da dívida de US$ 14,7 bilhões, honrando um compromisso assumido por seu antecessor sob pressão do FMI.
  • O programa do FMI exige medidas de austeridade, incluindo aumento de impostos, cortes de gastos e privatizações, que causam dificuldades generalizadas à população cingalesa.
  • Os pagamentos de juros consumirão 41% dos gastos do governo em 2025, e a dívida pública deverá continuar elevada por muitos anos.
  • A crise do Sri Lanka faz parte de uma emergência mais ampla da dívida que afeta o Sul Global, onde muitos países gastam mais com o serviço da dívida do que com saúde ou educação.
  • Críticos argumentam que as reformas lideradas pelo FMI enfraquecem a soberania, aprofundam a desigualdade e priorizam os interesses dos credores em detrimento das necessidades sociais.
  • Movimentos de base e especialistas defendem o cancelamento da dívida, reparações climáticas e a reforma do sistema financeiro global.
  • O próximo Fórum Global Nyéléni, no Sri Lanka, se concentrará na construção de alternativas ao atual modelo baseado na dívida.
  • A recuperação de longo prazo depende de crescimento inclusivo, investimentos em setores de alto potencial e cooperação internacional para encontrar soluções mais justas para a dívida.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar