Fabricante chinesa de chips Cambricon dispara em meio à proibição de exportações da Nvidia: uma nova era na corrida por hardware de IA?
Em uma reviravolta dramática para a indústria global de semicondutores, a Cambricon Technologies — fabricante de chips sediada em Pequim e parcialmente estatal — registrou um aumento impressionante de 4.300% na receita no primeiro semestre do ano, chegando a 2,88 bilhões de yuans (cerca de US$ 402,7 milhões). Esse crescimento explosivo ocorre enquanto a Nvidia, maior fabricante de chips de IA do mundo, informou não ter vendido nenhum chip H20 à China no mesmo período, devido às restrições de exportação dos EUA. Resultado: a Cambricon se tornou a ação mais cara da China, superando até mesmo a icônica fabricante de bebidas alcoólicas Kweichow Moutai, e agora está no centro de uma disputa tecnológica e geopolítica acirrada.
Conteúdo
- Fabricante chinesa de chips Cambricon dispara em meio à proibição de exportações da Nvidia: uma nova era na corrida por hardware de IA?
- Por que a receita da Cambricon disparou?
- Como os controles de exportação dos EUA mudaram o jogo?
- Como a Cambricon se compara à Nvidia?
- Reações de investidores e do mercado
- O que está em jogo para a Nvidia e o mercado global de IA?
- Política dos EUA: uma faca de dois gumes?
- A Cambricon e a China podem alcançar a Nvidia?
- Implicações mais amplas: a guerra global dos chips
- Em resumo
Por que a receita da Cambricon disparou?
A ascensão meteórica da Cambricon não é apenas uma história de números financeiros: reflete a busca urgente da China pela autossuficiência tecnológica e as consequências não intencionais da política comercial dos EUA. O governo americano, com o objetivo de frear o avanço da China em inteligência artificial (IA) e computação avançada, impôs controles rigorosos de exportação aos chips mais avançados da Nvidia, incluindo o modelo H20. Por anos, a Nvidia dominou o mercado global de aceleradores de IA — chips especializados essenciais para treinar e executar grandes modelos de IA. Mas, com os chips americanos repentinamente fora de alcance, gigantes da tecnologia e startups chinesas correram para encontrar alternativas nacionais.
Pequim incentivou ativamente essa mudança. O governo citou preocupações de segurança nacional e o risco de interrupções nas cadeias de suprimentos como motivos para priorizar a tecnologia desenvolvida no país. Com isso, a demanda por chips de IA fabricados na China disparou, e a Cambricon — fundada por dois irmãos e apoiada por capital estatal — ganhou os holofotes.
O lucro líquido da Cambricon no primeiro semestre do ano atingiu um recorde de 1,04 bilhão de yuans, e seu valor de mercado mais que dobrou em 2025, chegando agora a cerca de US$ 80 bilhões. As ações da empresa subiram 125% em apenas um mês e mais de 1.000% em dois anos, refletindo a confiança dos investidores nas ambições da China de desenvolver sua própria indústria de chips.
Como os controles de exportação dos EUA mudaram o jogo?
Os controles de exportação do governo americano, impostos inicialmente durante o governo Trump e mantidos por seus sucessores, tinham o objetivo de impedir que a China obtivesse o hardware de IA mais avançado. As restrições inicialmente proibiram até mesmo a venda à China dos chips H20 da Nvidia, de desempenho inferior. Embora a proibição tenha sido suspensa parcialmente mais tarde, uma nova regra agora exige que a Nvidia repasse ao governo dos EUA 15% de cada dólar obtido com a venda de chips H20 na China — um imposto de fato que complica os negócios e aumenta a incerteza jurídica.
Apesar desses obstáculos, autoridades chinesas teriam alertado empresas locais para evitar, sempre que possível, a dependência de componentes americanos. Isso levou a uma abordagem híbrida: as empresas estão usando os chips da Nvidia que estocaram antes da proibição e, ao mesmo tempo, adotando rapidamente alternativas nacionais, como os produtos da Cambricon. O governo chinês também orientou empresas de tecnologia a deixar de usar os chips H20 da Nvidia, depois que autoridades americanas disseram que apenas versões menos avançadas seriam disponibilizadas à China.
Com isso, a Cambricon e outras fabricantes locais de chips viram os pedidos disparar, enquanto startups de IA como a DeepSeek lançaram modelos otimizados especificamente para chips fabricados na China. Esse efeito de ecossistema é fundamental: embora o hardware da Nvidia ainda seja tecnicamente superior, seu domínio sempre dependeu de um ecossistema de software robusto, do qual os desenvolvedores dependem. A Cambricon agora investe pesado tanto em hardware de próxima geração quanto em ferramentas de software melhores para reduzir essa diferença.
Como a Cambricon se compara à Nvidia?
Apesar do crescimento impressionante, a receita da Cambricon ainda representa apenas uma fração da receita da Nvidia. No mesmo período, a Nvidia informou ter faturado US$ 46,7 bilhões — mais de 100 vezes a receita da Cambricon. O domínio global da Nvidia foi construído ao longo de anos de pesquisa, de uma vasta comunidade de desenvolvedores e de uma vantagem tanto em hardware quanto em software para aplicações de IA.
No entanto, o cenário está mudando. Gigantes chinesas da tecnologia, como Huawei e SMIC, estão se aproximando em qualidade de produtos e capacidade de fabricação. Alguns analistas afirmam que certos chips chineses já superam o modelo H20 da Nvidia, e o ritmo da inovação está acelerando como resultado direto das restrições americanas.
Ainda assim, a Cambricon e suas concorrentes enfrentam desafios importantes. Equipamentos de fabricação de chips de ponta — como as máquinas de litografia por ultravioleta extremo (EUV) — continuam inacessíveis devido aos controles de exportação ocidentais. Isso significa que, embora empresas chinesas consigam projetar chips competitivos, produzi-los com tecnologia de ponta é muito mais difícil. Como disse um analista do setor, o salto da Cambricon é “de minúscula para pequena”, mas o impulso é inegável.
Reações de investidores e do mercado
A disparada das ações da Cambricon atraiu a atenção não só de investidores chineses, mas também de fundos de hedge globais e analistas de tecnologia. Eric Jackson, da EMJ Capital, por exemplo, destacou o rápido crescimento da Cambricon e a importância estratégica dos lançamentos de seus novos produtos. O valor de mercado da empresa aumentou mais de US$ 40 bilhões apenas neste ano, sinalizando forte confiança em suas perspectivas futuras.
Enquanto isso, as ações da própria Nvidia continuam entre as favoritas do mercado, impulsionadas por sua liderança em IA e por resultados financeiros robustos. Mas a exposição da empresa a riscos geopolíticos está aumentando. Os controles de exportação dos EUA já custaram à Nvidia bilhões em receita perdida e estoques não vendidos, e o futuro da empresa na China — mercado que ela já dominou — agora é incerto.
O que está em jogo para a Nvidia e o mercado global de IA?
Para a Nvidia, a China representa uma oportunidade de US$ 50 bilhões somente em 2025, com potencial de crescimento anual de 50% caso o acesso seja garantido. O CEO Jensen Huang tem reiterado a importância do mercado chinês, argumentando que EUA e China são “complementares” na corrida global pela IA. Mesmo uma recuperação parcial das vendas perdidas poderia ajudar a Nvidia a compensar o impacto das proibições de exportação.
Mas os riscos estão aumentando. O acordo para compartilhar 15% da receita com o governo dos EUA acrescenta complexidade financeira e jurídica. Não há uma regulamentação formal nos EUA para esse imposto, o que deixa o acordo em uma zona cinzenta que pode mudar conforme o cenário político. Se as tensões aumentarem, a Nvidia poderá ser excluída de um mercado chinês de data centers avaliado em US$ 120 bilhões, prejudicando sua perspectiva de crescimento a longo prazo.
A Nvidia está respondendo com o desenvolvimento de novos chips voltados ao mercado chinês, como o B30A — uma versão de sua arquitetura Blackwell de próxima geração projetada para cumprir as regras de exportação dos EUA. A empresa espera que, com a aprovação regulatória, possa retomar as vendas do H20 e lançar o chip Blackwell na China, potencialmente recuperando seu domínio na infraestrutura de IA de alto desempenho.
Política dos EUA: uma faca de dois gumes?
Os formuladores de políticas dos EUA enfrentam um dilema. Por um lado, restringir as exportações de chips avançados é considerado essencial para a segurança nacional, para impedir que a China use tecnologia americana a fim de ampliar suas capacidades militares ou de vigilância. Por outro, essas restrições podem estar acelerando a busca chinesa por autossuficiência e estimulando a inovação entre concorrentes nacionais.
Jensen Huang, CEO da Nvidia, argumentou: “Os controles de exportação só incentivam os concorrentes chineses a inovar”.
De fato, a rápida ascensão da Cambricon e o impulso mais amplo em favor de alternativas nacionais sugerem que a estratégia dos EUA pode estar produzindo consequências não intencionais. Como observa Ed Yardeni, destacado analista macroeconômico: “A China planeja triplicar a produção de chips de IA até o próximo ano, com o apoio de políticas para incorporar a IA a setores econômicos e sociais e de um forte respaldo a empresas nacionais como a Cambricon”.
A Cambricon e a China podem alcançar a Nvidia?
Embora o crescimento da Cambricon seja impressionante, a empresa e o setor de chips chinês em geral ainda enfrentam obstáculos importantes. A falta de acesso às ferramentas de fabricação mais avançadas significa que os chips chineses, embora estejam melhorando rapidamente, ainda não se equiparam às ofertas mais recentes da Nvidia. Além disso, o domínio da Nvidia não se resume ao hardware: depende de todo um ecossistema de software, ferramentas para desenvolvedores e parcerias globais que fazem de seus chips a escolha padrão para pesquisa e implementação de IA.
No entanto, a diferença está diminuindo. Startups chinesas de IA como a DeepSeek estão lançando modelos otimizados para chips locais, e o esforço do governo em favor da autossuficiência está impulsionando investimentos maciços tanto em hardware quanto em software. A Cambricon trabalha em produtos de próxima geração e em ferramentas melhores para desenvolvedores, com o objetivo de reduzir a diferença no ecossistema que há muito favorece a Nvidia.
Por enquanto, o salto da Cambricon é um sinal do que está por vir. Como disse um analista: “A história maior é a busca da China pela autossuficiência”. Se as tendências atuais continuarem, fabricantes chinesas de chips poderão se tornar concorrentes globais na corrida por hardware de IA dentro de poucos anos.
Implicações mais amplas: a guerra global dos chips
A disputa entre Nvidia e Cambricon é apenas uma frente de um conflito muito maior envolvendo tecnologia, comércio e segurança nacional. A indústria de semicondutores é a espinha dorsal da economia digital, abastecendo desde smartphones até supercomputadores. O controle da tecnologia avançada de chips é considerado um fator determinante do poder econômico e militar no século 21.
Para os EUA, manter a liderança em hardware de IA é uma prioridade estratégica. Para a China, alcançar a autossuficiência em semicondutores é uma questão de sobrevivência nacional. O resultado é uma corrida de alto risco que está remodelando as cadeias globais de suprimentos, os fluxos de investimento e a própria natureza da inovação tecnológica.
Investidores e líderes do setor acompanham de perto. O resultado determinará não apenas o destino de empresas como Nvidia e Cambricon, mas também o futuro do desenvolvimento global da IA e do equilíbrio de poder entre as duas maiores economias do mundo.
Em resumo
- A Cambricon Technologies registrou um aumento de 4.300% na receita no primeiro semestre do ano, impulsionada pela busca da China por chips nacionais de IA em meio às proibições americanas de exportação de produtos da Nvidia.
- A Nvidia informou não ter vendido chips H20 à China no segundo trimestre de 2025, deixando de obter bilhões em receita potencial devido às restrições regulatórias e a uma nova regra que exige o repasse de 15% da receita ao governo dos EUA.
- O governo chinês está incentivando ativamente a adoção de chips locais, citando preocupações de segurança nacional e com as cadeias de suprimentos, e orientou empresas de tecnologia a evitar os chips H20 da Nvidia.
- A tecnologia da Cambricon está melhorando rapidamente, mas ainda fica atrás das ofertas mais avançadas da Nvidia devido ao acesso limitado a ferramentas de fabricação de ponta.
- A guerra dos chips entre EUA e China está acelerando a inovação dos dois lados, com grandes implicações para o futuro da IA, as cadeias globais de suprimentos e a liderança tecnológica.






