A surpreendente ascensão da Coreia do Norte como grande importadora de vinho chinês

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A surpreendente ascensão da Coreia do Norte como grande importadora de vinho chinês

A surpreendente ascensão da Coreia do Norte como grande importadora de vinho chinês

Em um mundo no qual a Coreia do Norte é frequentemente sinônimo de isolamento e escassez, surgiu uma tendência surpreendente: o país se tornou um dos maiores importadores de vinho chinês. Dados comerciais recentes revelam que, apesar das sanções internacionais e das dificuldades econômicas crônicas, a procura norte-coreana por vinho importado — especialmente da China — disparou e atingiu níveis recordes. Esse fenômeno oferece um raro vislumbre dos hábitos de consumo da elite do país, da resiliência de suas redes comerciais e da complexa interação entre diplomacia e sanções no Leste Asiático.

Conteúdo
  1. A surpreendente ascensão da Coreia do Norte como grande importadora de vinho chinês
  2. Quanto vinho a Coreia do Norte importa da China?
  3. Por que a Coreia do Norte compra tanto vinho chinês?
  4. Quem bebe vinho importado na Coreia do Norte?
  5. Luxo e poder: o papel do vinho na sociedade norte-coreana
  6. Como o vinho chega à Coreia do Norte apesar das sanções?
  7. O papel da China no comércio de bebidas alcoólicas com a Coreia do Norte
  8. O vinho importado chega aos norte-coreanos comuns?
  9. O comércio de bebidas alcoólicas da Coreia do Norte além do vinho
  10. Diplomacia, sanções e o futuro do comércio de vinho da Coreia do Norte
  11. Em resumo

Quanto vinho a Coreia do Norte importa da China?

Segundo dados da alfândega chinesa, a Coreia do Norte importou 157.393 litros de vinho da China nos primeiros sete meses de 2025 — mais que o dobro do volume importado no mesmo período de 2024. Com esse aumento, o país se tornou o segundo maior comprador de vinho chinês engarrafado em volume, atrás apenas de Hong Kong. Em valor, a Coreia do Norte ficou em quinto lugar, com compras que totalizaram aproximadamente US$ 545 mil, atrás de Hong Kong, Singapura, Macau e França. A tendência não é recente: a Coreia do Norte também foi o segundo maior importador de vinho chinês em volume em 2023 e 2024, além de figurar constantemente entre os cinco maiores em valor.

Para contextualizar, em 2024 a Coreia do Norte importou 233.245 litros de vinho da China, avaliados em mais de US$ 710 mil. No ano anterior, houve um salto ainda mais expressivo: as importações chegaram a quase 460 mil litros e US$ 2,15 milhões, aumentos anuais de 217% e 170%, respectivamente. Esses números chamam a atenção em um país onde a maioria da população enfrenta escassez crônica de alimentos e dificuldades econômicas.

Em comparação, Hong Kong continua sendo o principal destino das exportações chinesas de vinho, e França, Macau e Austrália também aparecem entre os principais mercados. Ainda assim, a posição da Coreia do Norte como grande importadora chama a atenção, considerando sua população pequena e as severas restrições ao comércio internacional que enfrenta.

Por que a Coreia do Norte compra tanto vinho chinês?

A resposta está na combinação de geopolítica, sanções e preferências da elite do país. Ao contrário dos Estados Unidos, do Japão e da Coreia do Sul — que proibiram a exportação de artigos de luxo para a Coreia do Norte, incluindo bebidas alcoólicas —, a China não impôs restrições semelhantes. Como resultado, tornou-se uma fornecedora crucial de vinhos e destilados para a classe dirigente norte-coreana, mesmo com o endurecimento das sanções em outros países.

As Nações Unidas proíbem a exportação de artigos de luxo para a Coreia do Norte desde 2006, mas as bebidas alcoólicas não constam da lista oficial. A União Europeia, porém, ampliou suas sanções em 2017 para incluir vinho, champanhe, cerveja e saquê entre os artigos de luxo proibidos, dificultando a compra direta de vinhos finos de fornecedores europeus pela Coreia do Norte. A disposição contínua da China de exportar vinho para o país ressalta os laços estreitos entre os dois países e o interesse estratégico de Pequim em manter influência sobre seu vizinho.

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Quem bebe vinho importado na Coreia do Norte?

Apesar dos grandes volumes de vinho importados, é improvável que o norte-coreano comum tenha acesso a esses produtos. A Coreia do Norte continua sendo uma das economias mais pobres e isoladas do mundo, e grande parte da população depende de ajuda internacional para sobreviver. Analistas do setor e desertores concordam que o vinho importado é consumido principalmente pela elite política do país e seus círculos próximos.

Kim Jong-un, líder supremo da Coreia do Norte, é conhecido por apreciar comidas e bebidas luxuosas. Relatos de ex-chefs pessoais e diplomatas estrangeiros descrevem banquetes suntuosos com vinhos premium de Bordeaux, conhaque e até champanhe. Kenji Fujimoto, ex-chef pessoal de Kim, contou que ele herdou do pai o gosto pelos vinhos de Bordeaux e costumava servir rótulos caros em eventos oficiais. Durante a cúpula entre Estados Unidos e Coreia do Norte, em Hanói, em 2019, Kim teria demonstrado grande interesse pela qualidade e pelo preparo das comidas e dos vinhos servidos no evento.

O comportamento na internet também dá pistas sobre as preferências da elite norte-coreana. O Wine-Searcher, plataforma global de informações sobre vinhos, relatou buscas frequentes de usuários da Coreia do Norte por vinhos de Bordeaux de preço intermediário, além de rótulos sofisticados como Pétrus e Château Margaux. Dadas as severas restrições ao acesso à internet no país, acredita-se que essas buscas sejam feitas por integrantes do círculo próximo de Kim Jong-un ou por altos funcionários do governo.

Luxo e poder: o papel do vinho na sociedade norte-coreana

Vinhos e outros artigos de luxo importados são símbolos de status entre a classe dirigente da Coreia do Norte. Segundo relatos, lojas de departamento em Pyongyang começaram a contratar sommeliers profissionais para selecionar vinhos premium para seus clientes. Varejistas também estão fechando parcerias com produtores estrangeiros para importar vinhos sofisticados exclusivamente para o mercado interno. Essas tendências se parecem com os hábitos de consumo das elites de outros países, mas, na Coreia do Norte, ocorrem em meio a uma desigualdade extrema e ao controle político.

O acadêmico Choi Jinwook, que trabalha em Seul, descreveu como profunda a predileção de Kim Jong-un por destilados e vinhos finos e sugeriu que esses prazeres talvez sirvam de consolo para um líder sobrecarregado pelas pressões do poder. A tradição de consumo de luxo remonta ao pai de Kim, Kim Jong-il, conhecido por seus gostos extravagantes e por viajar com caixas de vinho francês e conhaque.

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Como o vinho chega à Coreia do Norte apesar das sanções?

A capacidade da Coreia do Norte de importar grandes quantidades de vinho da China evidencia a resiliência e a engenhosidade de suas redes comerciais. Corretores e intermediários chineses desempenham um papel fundamental na facilitação da entrada de mercadorias no país, muitas vezes recorrendo a zonas alfandegárias e canais de reexportação para contornar as restrições. A Associação da Indústria de Bebidas Alcoólicas de Guangdong observou que muitos vinhos estrangeiros, especialmente da América do Sul e da Europa, chegam à Coreia do Norte por meio das províncias do nordeste da China, sobretudo Liaoning.

Também há indícios de que algumas mercadorias exportadas de outros países para a China são redirecionadas posteriormente à Coreia do Norte. Uma análise da NK Pro concluiu que exportações de pelo menos 20 países que venderam produtos à China nos últimos anos provavelmente foram enviadas depois à Coreia do Norte, incluindo milhares de garrafas de vinho da Europa. Essa prática explora brechas no regime global de sanções e evidencia os desafios para fazer cumprir as restrições internacionais impostas à Coreia do Norte.

O papel da China no comércio de bebidas alcoólicas com a Coreia do Norte

A decisão da China de não restringir as exportações de vinho para a Coreia do Norte está ligada à aliança de longa data entre os dois países e a seus interesses mútuos. Comunicações diplomáticas entre o presidente chinês, Xi Jinping, e Kim Jong-un destacaram a importância dos laços bilaterais e da estabilidade regional. Principal parceira comercial e aliada política da Coreia do Norte, a China oferece a Pyongyang uma tábua de salvação econômica, sobretudo enquanto outros países ampliam as sanções.

A retomada do transporte ferroviário de cargas transfronteiriço e das viagens aéreas após o fim do bloqueio de fronteiras que a Coreia do Norte impôs a si mesma facilitou ainda mais a circulação de mercadorias. Os voos regulares entre Pyongyang e Pequim foram retomados, e o comércio de bebidas alcoólicas e outros produtos voltou aos níveis pré-pandemia.

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O vinho importado chega aos norte-coreanos comuns?

Embora o crescimento das importações de vinho seja expressivo, é importante reconhecer que o acesso a esses produtos continua altamente restrito. A grande maioria dos norte-coreanos ainda enfrenta dificuldades econômicas, insegurança alimentar e acesso limitado a bens de consumo. O vinho importado fica, em grande parte, restrito à capital, Pyongyang, e está disponível sobretudo em lojas de departamento sofisticadas, hotéis e restaurantes frequentados pela elite.

No entanto, há sinais de que uma classe média está crescendo nos centros urbanos da Coreia do Norte. Relatos não confirmados e galerias de fotos de Pyongyang sugerem que produtos estrangeiros — incluindo vinhos, chocolates suíços e iguarias italianas — estão cada vez mais disponíveis em pequenas lojas e restaurantes. Corretores chineses atuam como intermediários e garantem um fluxo constante de mercadorias para o país, apesar das restrições oficiais. Essa cultura de consumo emergente ainda é limitada, mas representa uma mudança significativa em relação à época em que produtos estrangeiros eram praticamente impossíveis de obter.

O comércio de bebidas alcoólicas da Coreia do Norte além do vinho

O vinho não é a única bebida alcoólica importada em grandes quantidades. Dados da alfândega chinesa mostram que a Coreia do Norte também importou volumes recordes de uísque, vodca e outros destilados nos últimos anos. Somente nos primeiros nove meses de 2023, o país importou, via China, US$ 2,31 milhões em vinho e US$ 2,87 milhões em uísque. O custo total dos destilados importados — incluindo conhaque, rum, vodca e tequila — chegou a aproximadamente US$ 5,28 milhões no mesmo período.

A Coreia do Norte também começou a exportar bebidas alcoólicas próprias, como cerveja, para países vizinhos. Em 2025, garrafas de cerveja norte-coreana começaram a aparecer em prateleiras russas, após a assinatura de um Tratado de Parceria Estratégica Abrangente entre Pyongyang e Moscou. O episódio destaca os esforços da Coreia do Norte para diversificar seus parceiros comerciais e obter divisas de que tanto precisa.

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Diplomacia, sanções e o futuro do comércio de vinho da Coreia do Norte

O aumento das importações de vinho chinês pela Coreia do Norte é um exemplo dos desafios mais amplos enfrentados pelo regime internacional de sanções. Embora as Nações Unidas e muitos países ocidentais tenham buscado restringir o acesso norte-coreano a artigos de luxo, brechas e aplicação desigual das medidas permitiram que a elite do país mantivesse seu estilo de vida privilegiado. A disposição contínua da China de exportar vinho e outros produtos para a Coreia do Norte reflete suas prioridades estratégicas e a força duradoura da relação bilateral.

Com a evolução das sanções e as mudanças na dinâmica diplomática, ainda não se sabe se a Coreia do Norte continuará tendo acesso a vinhos importados. Por enquanto, a classe dirigente do país segue desfrutando dos frutos do comércio global, enquanto a maioria da população luta para atender às necessidades básicas.

Em resumo

  • A Coreia do Norte se tornou a segunda maior importadora de vinho chinês em volume, com importações mais que dobrando em 2025 em relação ao ano anterior.
  • O vinho importado é consumido principalmente pela elite política norte-coreana, e os cidadãos comuns têm pouco acesso a ele.
  • A China continua sendo uma fornecedora crucial de vinhos e destilados para a Coreia do Norte, pois não impôs as mesmas restrições que outros países.
  • Redes comerciais que envolvem corretores chineses e canais de reexportação ajudam a Coreia do Norte a contornar as sanções internacionais.
  • O aumento das importações de vinho evidencia a resiliência da elite norte-coreana e os desafios para fazer cumprir as sanções globais.
  • O comércio norte-coreano de bebidas alcoólicas vai além do vinho: inclui importações significativas de uísque, vodca e outros destilados, além de esforços recentes para exportar cerveja para a Rússia.
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