Proibição de livros na Caxemira: censura, memória e a disputa pela narrativa
Em agosto de 2025, autoridades da Caxemira administrada pela Índia proibiram 25 livros de acadêmicos, jornalistas e escritores renomados, provocando um intenso debate sobre censura, memória histórica e o futuro da liberdade de expressão na região. A proibição, aplicada por meio de batidas policiais em livrarias e da ameaça de penas criminais para quem possuir ou vender as obras, foi condenada por autores, organizações de direitos humanos e partidos políticos tanto na Índia quanto no exterior. No centro da controvérsia está a disputa sobre quem pode contar a história da Caxemira — e quais histórias podem ser contadas.
Conteúdo
- Proibição de livros na Caxemira: censura, memória e a disputa pela narrativa
- O que motivou a proibição?
- Aplicação da proibição: batidas e apreensões
- Por que esses livros? A justificativa do Estado
- Questões jurídicas e constitucionais
- Quem são os autores e o que dizem seus livros?
- Autores e acadêmicos se manifestam
- Contexto mais amplo: censura e a história da Caxemira
- Dimensões religiosas e políticas
- Consequências: liberdade de pensamento, memória histórica e democracia
- Repercussões internacionais e acadêmicas
- É possível apagar a memória proibindo livros?
- Em resumo
O que motivou a proibição?
O Departamento do Interior de Jammu e Caxemira anunciou a proibição em 5 de agosto de 2025, data que coincidiu com o sexto aniversário da revogação do status semiautônomo da região, previsto no Artigo 370 da Constituição indiana. A notificação oficial, S.O. 203 de 2025, declarou os 25 títulos “confiscados” com base na Seção 98 do Bharatiya Nagarik Suraksha Sanhita de 2023 (BNSS), um novo código penal que autoriza as autoridades a proibir publicações consideradas passíveis de punição nos termos de determinadas seções do Bharatiya Nyaya Sanhita de 2023 (BNS).
O governo alega que os livros “propagam narrativas falsas e separatismo”, “desorientam os jovens” e “promovem a violência” ao fomentar ressentimento, vitimização e até mesmo o “heroísmo terrorista”. Entre as obras proibidas estão análises históricas, memórias, reportagens investigativas e comentários políticos de autores como Arundhati Roy, Hafsa Kanjwal, A.G. Noorani, Sumantra Bose, Anuradha Bhasin, Victoria Schofield, Christopher Snedden e outros. Os temas abordados vão das origens da disputa da Caxemira e da Partição da Índia às violações dos direitos humanos e às experiências cotidianas dos caxemires sob o domínio indiano.
Aplicação da proibição: batidas e apreensões
Após a proibição, a polícia realizou batidas em livrarias em todo o Vale da Caxemira, inclusive em Srinagar, Anantnag, Ganderbal e Handwara. Os agentes procuraram os títulos proibidos, interrogaram os livreiros e apreenderam exemplares. A repressão chegou ao Festival do Livro Chinar, em Srinagar, onde a polícia inspecionou os estandes em busca das obras proibidas. A ordem também prevê penas criminais para quem for flagrado vendendo ou possuindo os livros, tornando até mesmo a posse privada uma possível infração.
Em uma ironia notável, a proibição foi anunciada justamente quando autoridades indianas inauguravam um festival do livro na região, evidenciando a tensão entre a celebração literária promovida pelo Estado e a repressão a vozes dissidentes.
Por que esses livros? A justificativa do Estado
A justificativa do governo se concentra na segurança nacional e na ordem pública. A ordem oficial afirma que os livros “distorcem fatos históricos”, “glorificam terroristas” e “estimulam o separatismo”, colocando assim em risco a soberania e a unidade da Índia. As autoridades argumentam que esse tipo de literatura poderia radicalizar os jovens, promover a inimizade entre comunidades e prejudicar a integração nacional.
Críticos, porém, apontam que a ordem apresenta apenas conclusões genéricas, sem citar trechos específicos ou provas de violência iminente. Muitas das obras proibidas foram publicadas por editoras respeitadas e são reconhecidas como estudos acadêmicos sérios ou reportagens bem apuradas. A própria notificação admite que os livros estão “disfarçados de comentários históricos ou políticos”, reconhecendo, na prática, que se apresentam como análises ou opiniões, e não como incitações explícitas à violência.
Questões jurídicas e constitucionais
A Seção 98 do BNSS permite o confisco de publicações que aparentemente contenham material passível de punição nos termos de determinadas seções do BNS, inclusive as relativas a colocar a soberania em risco, promover a inimizade ou fazer afirmações prejudiciais à integração nacional. No entanto, a Constituição da Índia garante a liberdade de expressão no Artigo 19(1)(a), admitindo restrições apenas em circunstâncias limitadas, como para proteger a ordem pública ou impedir a incitação à violência.
Especialistas em direito e organizações de defesa dos direitos humanos, entre elas a Internet Freedom Foundation (IFF), argumentam que a proibição generalizada não se sustenta juridicamente. A Suprema Corte da Índia reiterou diversas vezes que a mera discussão ou defesa de um ponto de vista, por mais impopular que seja, é protegida pela liberdade de expressão, a menos que constitua incitação direta. No caso histórico Shreya Singhal v. Union of India (2015), a Corte alertou contra a repressão ampla ou preventiva da expressão, especialmente no debate político ou acadêmico.
Quem são os autores e o que dizem seus livros?
A lista de livros proibidos reúne alguns dos principais nomes da pesquisa sobre a Caxemira e do comentário crítico sobre a região:
- Arundhati Roy – Autora vencedora do Booker Prize, cujo livro Azadi reúne ensaios sobre violência estatal e desaparecimentos na Caxemira.
- Hafsa Kanjwal – Acadêmica radicada nos Estados Unidos, autora de Colonizing Kashmir: State-Building Under Indian Occupation, que examina como a Índia consolidou seu controle sobre a região.
- A.G. Noorani – Especialista em direito constitucional, autor de The Kashmir Dispute 1947–2012, um relato abrangente da história jurídica e política do conflito.
- Sumantra Bose – Professor da London School of Economics, autor de Contested Lands e Kashmir at the Crossroads, que exploram a complexa geopolítica da região.
- Anuradha Bhasin – Jornalista, autora de The Dismantled State, que documenta as consequências da revogação do Artigo 370.
- Victoria Schofield – Historiadora, autora de Kashmir in Conflict.
- Christopher Snedden – Cientista político australiano, autor de Independent Kashmir.
Entre as outras obras proibidas estão relatos feministas, registros de violações dos direitos humanos e análises da evolução política da região. A diversidade de perspectivas — indianas, caxemires e internacionais — reflete a complexidade da questão da Caxemira.
Autores e acadêmicos se manifestam
Autores e intelectuais expressaram choque e indignação com a proibição. Angana Chatterji, coautora de Kashmir: The Case for Freedom, agora proibido, afirmou:
A ordem evidencia a intenção do Estado de criminalizar a produção acadêmica e tratá-la como sediciosa. O impacto simbólico e concreto dessa proibição tende a ser amplo. Ela reativa operações psicológicas destinadas a aterrorizar e isolar os caxemires, além de silenciar sua dor e sua resistência.
O historiador Sumantra Bose, cuja família enfrenta censura desde os tempos coloniais, rejeitou as acusações do governo e afirmou que seu trabalho busca identificar caminhos para a paz. Anuradha Bhasin defendeu seu livro como uma obra bem apurada e desafiou as autoridades a provar que ele glorifica o terrorismo.
Mirwaiz Umar Farooq, líder religioso e separatista, comentou:
Proibir livros de acadêmicos e historiadores não apagará fatos históricos nem memórias vividas e expõe as inseguranças de quem está por trás dessas ações.
Contexto mais amplo: censura e a história da Caxemira
A censura não é novidade na Caxemira. Há muito tempo, a região enfrenta bloqueios de comunicação, proibições de jornais e detenções de jornalistas. Desde o levante armado de 1989, e especialmente após a revogação do Artigo 370 em 2019, as autoridades têm voltado cada vez mais a atenção não apenas contra a imprensa, mas também contra a academia e a sociedade civil. A atual proibição de livros é vista como parte de um esforço mais amplo para controlar a narrativa sobre a Caxemira e reprimir vozes dissidentes.
Dimensões religiosas e políticas
A repressão também alcançou a literatura religiosa. No início de 2025, a polícia fez buscas em livrarias de Srinagar para apreender obras do estudioso islâmico Syed Abul A'la Maududi, ligado à organização Jamaat-e-Islami, que é proibida. Críticos afirmam que ações desse tipo levantam preocupações sobre liberdade religiosa e aplicação seletiva da lei, já que livros semelhantes continuam disponíveis em outras partes da Índia.
A abordagem do governo foi comparada à de regimes coloniais e autoritários que tentaram controlar o pensamento proibindo livros. Ghazala Wahab, comentarista sobre segurança e sociedade, observou que, embora as autoridades possam tentar impedir que os jovens caxemires tenham acesso à própria história, a memória coletiva persiste além dos livros.
Consequências: liberdade de pensamento, memória histórica e democracia
As consequências da proibição vão muito além da retirada imediata dos livros das prateleiras. Críticos alertam que ela estabelece um precedente perigoso para a repressão à dissidência e à liberdade acadêmica em toda a Índia. O mecanismo jurídico utilizado — a Seção 98 do BNSS — permite apreender os livros proibidos não apenas na Caxemira, mas potencialmente em todo o país. Editoras, livreiros e plataformas on-line podem retirar os títulos de circulação para evitar riscos legais, resultando, na prática, em uma proibição nacional.
Grupos de direitos digitais, como a IFF, ressaltam que a resposta a narrativas controversas deve ser mais diálogo e transparência, não proibições generalizadas. Eles alertam que restringir o acesso a estudos acadêmicos e comentários prejudica o debate democrático e o direito à informação.
Líderes e partidos de oposição condenaram a medida como um ataque à liberdade de expressão e à democracia. A ex-ministra-chefe Mehbooba Mufti argumentou que a censura amplifica as ideias em vez de silenciá-las e aprofunda o sentimento de alienação na Caxemira. M.Y. Tarigami, líder do CPI(M), classificou a proibição como um ato flagrante de censura e exigiu sua revogação.
Repercussões internacionais e acadêmicas
A proibição atraiu atenção internacional, com veículos de comunicação e organizações de defesa dos direitos humanos destacando a ameaça à reputação da Índia como uma democracia tolerante à diversidade de opiniões. Acadêmicos temem que a medida desencoraje editoras a publicar obras críticas sobre a Caxemira, inibindo a pesquisa e o debate. Estudantes e pesquisadores da região veem a proibição como uma tentativa de impor amnésia coletiva, dificultando o estudo e a preservação da memória histórica da Caxemira.
Nilanjana Roy, escritora indiana de destaque, observou:
A proibição funciona como uma lista de leitura selecionada sobre a Caxemira. A história mostra que proibições desse tipo raramente dão certo e muitas vezes tornam o material proibido ainda mais procurado.
É possível apagar a memória proibindo livros?
Apesar dos esforços do governo, muitos acreditam que proibir livros não apaga as realidades que eles descrevem nem as memórias que preservam. Como Mirwaiz Umar Farooq e outros apontaram, as experiências vividas e as histórias orais perduram mesmo quando os relatos escritos são reprimidos. A tentativa de controlar quais histórias e relatos circulam é vista como um esforço para moldar o que as futuras gerações saberão sobre a Caxemira — mas também pode aprofundar a desconfiança e a alienação.
A história está repleta de exemplos de livros proibidos que se tornaram símbolos de resistência e objetos de curiosidade. Na era digital, é mais difícil suprimir informações, e tentativas de censura muitas vezes produzem o efeito contrário, atraindo ainda mais atenção para as obras vetadas.
Em resumo
- Em agosto de 2025, autoridades da Caxemira administrada pela Índia proibiram 25 livros de acadêmicos, jornalistas e escritores renomados, alegando preocupações com a segurança nacional e a ordem pública.
- A proibição, aplicada por meio de batidas policiais e da ameaça de penas criminais, atinge obras sobre a história, a política e os direitos humanos na Caxemira, incluindo livros de Arundhati Roy, Hafsa Kanjwal e A.G. Noorani.
- Críticos afirmam que a proibição é um ato abrangente de censura que prejudica a liberdade de expressão, a pesquisa acadêmica e os valores democráticos, com possíveis efeitos em todo o país.
- Especialistas em direito e organizações de defesa dos direitos humanos consideram a proibição questionável do ponto de vista constitucional e jurídico, por não apresentar provas específicas de incitação ou violência iminente.
- A medida é vista como parte de um padrão mais amplo de repressão à dissidência e de controle da narrativa sobre a Caxemira, com consequências para a memória histórica e o direito à informação.
- Autores, acadêmicos e líderes políticos alertam que proibir livros não apaga experiências vividas nem fatos históricos e pode, em vez disso, amplificar justamente as ideias que o Estado pretende reprimir.






