China e Taiwan: a escalada do conflito em torno da história, da soberania e do risco de guerra

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How Taiwan Would Defend Against a Chinese Attack - USNI News

China e Taiwan: a escalada do conflito em torno da história, da soberania e do risco de guerra

A relação entre China e Taiwan chegou a um novo patamar de tensão, com os dois lados travando uma guerra de palavras sobre história, soberania e a ameaça de uma ação militar. Declarações recentes de líderes em Pequim e Taipé reacenderam os debates sobre o status da ilha, a legitimidade das reivindicações chinesas e a possibilidade de um conflito com repercussões globais. Entender as raízes dessa disputa e seus rumos atuais é essencial para compreender um dos focos geopolíticos mais voláteis do mundo.

Conteúdo
  1. China e Taiwan: a escalada do conflito em torno da história, da soberania e do risco de guerra
  2. Reivindicações históricas: narrativas concorrentes
  3. Dimensões jurídicas e internacionais
  4. Tensões militares e ameaça de invasão
  5. Dinâmica política em Taiwan e na China
  6. O papel dos Estados Unidos e da comunidade internacional
  7. Paralelos históricos e o “século de humilhação”
  8. Verificação da afirmação de que “não há invasões”
  9. Riscos de escalada e caminhos para o futuro
  10. Em resumo

Reivindicações históricas: narrativas concorrentes

No centro da disputa entre China e Taiwan está um desacordo fundamental sobre a história. O governo chinês, liderado pelo Partido Comunista da China (PCCh), insiste que Taiwan é parte inalienável de seu território, citando registros de séculos atrás e acordos internacionais firmados após a Segunda Guerra Mundial. Taiwan, oficialmente conhecida como República da China (ROC), afirma, por sua vez, ser um Estado soberano, com governo e Constituição próprios e uma trajetória histórica distinta.

A narrativa de Pequim se baseia em vários marcos históricos importantes:

  • Registros chineses que remontam a 239 d.C. mencionam expedições a Taiwan, usados por Pequim para sustentar sua reivindicação de soberania histórica sobre a ilha.
  • Após um período de domínio colonial holandês e espanhol, Taiwan foi administrada pela dinastia Qing, mas cedida ao Japão em 1895, após a Primeira Guerra Sino-Japonesa.
  • Após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, a Declaração do Cairo, de 1943, e a Declaração de Potsdam, de 1945, estipularam que os territórios tomados pelo Japão, incluindo Taiwan, deveriam ser devolvidos à China. A ROC, então reconhecida como governo da China, assumiu o controle da ilha em 1945.

No entanto, a Guerra Civil Chinesa (1945–1949) mudou o cenário político. O PCCh, liderado por Mao Zedong, derrotou o governo nacionalista do Kuomintang (KMT), que recuou para Taiwan e continuou a reivindicar legitimidade como governo de toda a China. O PCCh estabeleceu a República Popular da China (RPC) no continente, mas nunca governou Taiwan.

A atual liderança de Taiwan, especialmente sob o presidente Lai Ching-te, enfatiza a história e o desenvolvimento próprios da ilha. Lai aponta as raízes austronésias dos povos indígenas de Taiwan e a experiência da ilha sob o domínio japonês como evidências de sua identidade distinta. Ele argumenta que a ROC, hoje sediada em Taiwan, antecede a RPC e que o futuro da ilha deve ser decidido exclusivamente por seus 23 milhões de habitantes.

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Dimensões jurídicas e internacionais

O status jurídico de Taiwan é tema de intenso debate. O governo chinês aponta a resolução das Nações Unidas de 1971, que transferiu a representação da China de Taipé (ROC) para Pequim (RPC), como fundamento jurídico para sua reivindicação. Os líderes de Taiwan, porém, afirmam que a resolução tratou apenas da representação na ONU, e não da soberania sobre a ilha.

A maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, não reconhece formalmente Taiwan como Estado soberano e segue, em vez disso, a política de “Uma Só China”. Essa política reconhece a posição de Pequim de que existe apenas uma China, mas não reconhece explicitamente a soberania chinesa sobre Taiwan. Os EUA mantêm relações não oficiais com Taiwan, vendem armas defensivas à ilha e adotam uma política de “ambiguidade estratégica” quanto a uma eventual intervenção militar caso a China ataque a ilha.

A China tem usado sua crescente influência econômica e diplomática para pressionar outros países e organizações internacionais a excluir Taiwan. Hoje, apenas um pequeno grupo de países mantém relações diplomáticas oficiais com Taipé.

Tensões militares e ameaça de invasão

Nos últimos anos, a China intensificou drasticamente suas atividades militares ao redor de Taiwan. Grandes exercícios militares, incursões frequentes de aeronaves de combate na zona de identificação de defesa aérea de Taiwan e manobras navais tornaram-se rotineiros. Pequim apresenta essas ações como necessárias para dissuadir medidas “separatistas” do governo de Taiwan e demonstrar sua determinação em alcançar a reunificação, pela força se necessário.

Autoridades chinesas, incluindo porta-vozes do Escritório de Assuntos de Taiwan, afirmaram repetidamente que é impossível “invadir” o que consideram território chinês. Essa retórica busca deslegitimar qualquer ideia de independência de Taiwan e justificar a pressão militar como uma questão interna.

O governo de Taiwan, por sua vez, considera essas ações agressivas e desestabilizadoras. O ministro da Defesa, Wellington Koo, e outras autoridades alertaram que os exercícios militares da China aumentam o risco de confrontos acidentais que podem sair do controle. A estratégia de defesa da ilha se apoia em seu relevo montanhoso, armamentos avançados e apoio dos Estados Unidos e de outros parceiros.

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Apesar das demonstrações de força, a maioria dos analistas acredita que uma invasão em grande escala de Taiwan pela China é improvável no curto prazo. As dificuldades logísticas de um ataque anfíbio, o risco de intervenção dos EUA e a possibilidade de custos econômicos e humanos catastróficos funcionam como fatores de dissuasão. No entanto, o risco de erro de cálculo ou de escalada continua elevado, especialmente à medida que os dois lados endurecem suas posições.

Dinâmica política em Taiwan e na China

A política interna dos dois lados do estreito tem papel crucial na configuração do conflito. Em Taiwan, o Partido Democrático Progressista (DPP), que rejeita o modelo de “Uma Só China” e defende a soberania taiwanesa, venceu três eleições presidenciais consecutivas. O presidente Lai Ching-te, assim como sua antecessora Tsai Ing-wen, tem enfatizado os valores democráticos da ilha e o direito à autodeterminação.

A liderança chinesa, sob o presidente Xi Jinping, estabeleceu a “reunificação” com Taiwan como objetivo central, vinculando-a ao projeto mais amplo de superar o “século de humilhação” e restaurar a posição da China como potência global. Xi não descartou o uso da força e definiu 2049, centenário da fundação da RPC, como meta simbólica para realizar o “sonho chinês”, que inclui a reunificação com Taiwan.

Dentro de Taiwan, a opinião pública é complexa. A maioria apoia a manutenção do status quo: a independência de fato, sem declaração formal. Apenas uma minoria defende a reunificação imediata com a China ou uma declaração formal de independência, que poderia provocar uma resposta militar de Pequim.

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O papel dos Estados Unidos e da comunidade internacional

Os Estados Unidos são o principal ator externo no Estreito de Taiwan. Embora Washington reconheça a RPC como o único governo legal da China, o país é obrigado, pela Lei de Relações com Taiwan, a fornecer armas defensivas à ilha e a manter a capacidade de resistir a qualquer uso da força que ameace a segurança de Taiwan.

A política dos EUA evoluiu nos últimos anos. Os governos Trump e Biden aprofundaram os laços com Taipé, ampliaram as vendas de armas e realizaram visitas de alto nível. Essas medidas provocaram duras repreensões de Pequim, que acusa os EUA de “brincar com fogo” e interferir nos assuntos internos da China.

Outros países, incluindo o Japão e membros da União Europeia, manifestaram preocupação com o risco de conflito no Estreito de Taiwan, dada a localização estratégica da ilha e seu papel central nas cadeias globais de suprimentos, especialmente na fabricação de semicondutores.

Paralelos históricos e o “século de humilhação”

A determinação da China de afirmar o controle sobre Taiwan está profundamente enraizada em sua narrativa nacional. A perda de Taiwan para o Japão em 1895, durante o chamado “século de humilhação”, é vista como símbolo de fraqueza nacional e dominação estrangeira. A devolução de Taiwan é apresentada como uma etapa necessária para restaurar a dignidade e a integridade territorial da China.

O presidente Lai Ching-te contestou essa narrativa ao apontar que, se o objetivo da China fosse realmente restaurar as fronteiras históricas, ela também buscaria recuperar territórios cedidos à Rússia e a outras potências no século XIX. Em vez disso, argumenta Lai, o foco de Pequim em Taiwan tem a ver com alterar a ordem internacional e alcançar a hegemonia regional.

Verificação da afirmação de que “não há invasões”

Autoridades chinesas afirmam que a China nunca invadiu outro país e que suas ações são puramente defensivas. No entanto, registros históricos mostram que a RPC se envolveu em conflitos militares com o Vietnã, a Índia e outros países, além de ter usado a força para afirmar reivindicações territoriais no Mar da China Meridional. Esses precedentes põem em dúvida as garantias de Pequim de que busca apenas uma reunificação pacífica com Taiwan.

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Riscos de escalada e caminhos para o futuro

O rumo atual das relações entre os dois lados do estreito é repleto de perigos. O desmantelamento dos entendimentos políticos que preservaram a paz por décadas, o avanço de nacionalismos mais assertivos nos dois lados e a intensificação da rivalidade entre EUA e China contribuem para um cenário volátil.

Especialistas alertam que, embora uma invasão direta possa não ser iminente, aumentam os riscos de conflito acidental, de medidas coercitivas como bloqueios e de táticas de “zona cinzenta”, como ataques cibernéticos, pressão econômica e desinformação. A possibilidade de um confronto entre EUA e China por Taiwan é hoje considerada um dos maiores riscos geopolíticos do mundo, com implicações para a segurança e a economia globais.

Os esforços para administrar a crise se concentram em manter o status quo, fortalecer a dissuasão e incentivar o diálogo. Entre as recomendações estão:

  • A China reduzir a coerção militar, econômica e política contra Taiwan.
  • Os EUA esclarecerem seu compromisso com a política de “Uma Só China”, apoiando ao mesmo tempo a autodefesa de Taiwan.
  • Taiwan investir em capacidades de defesa assimétrica e resiliência civil.
  • Todas as partes buscarem restabelecer a confiança e evitar cruzar as “linhas vermelhas” umas das outras.

Em resumo

  • A disputa entre China e Taiwan tem raízes em narrativas históricas e reivindicações jurídicas concorrentes, e cada lado invoca marcos diferentes para justificar suas posições.
  • A China considera Taiwan uma província separatista e intensificou a pressão militar, enquanto Taiwan afirma sua soberania e identidade democrática.
  • O risco de conflito está aumentando devido às atividades militares, à retórica política e ao envolvimento dos Estados Unidos e de outras potências.
  • A maioria dos taiwaneses apoia a manutenção do status quo, mas a opinião pública desconfia tanto da reunificação quanto da independência formal.
  • Os esforços para evitar uma guerra se concentram na dissuasão, no diálogo e na manutenção do delicado equilíbrio que preservou a paz por décadas.
  • A situação continua sendo um dos focos de tensão mais perigosos do mundo, com implicações globais para a segurança, a economia e a ordem internacional.
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