O aumento do ozônio em Seul: uma emergência de saúde pública cada vez maior
Seul, a movimentada capital da Coreia do Sul, enfrenta uma crise crescente de qualidade do ar, com a poluição por ozônio ao nível do solo atingindo recordes. Em 2024, a cidade emitiu 115 alertas de ozônio — quatro vezes mais do que os 29 registrados em 2019 —, o que gerou ampla preocupação com a saúde e avisos de emergência. Esse aumento expressivo da poluição por ozônio não é apenas um problema local: reflete tendências mais amplas observadas em todo o Leste Asiático e em outras regiões do mundo que se urbanizam rapidamente.
Conteúdo
- O aumento do ozônio em Seul: uma emergência de saúde pública cada vez maior
- O que é o ozônio ao nível do solo e como ele se forma?
- Por que os níveis de ozônio estão subindo em Seul?
- Impactos na saúde: por que o ozônio é mais perigoso do que você imagina
- Efeitos agudos na saúde
- Riscos à saúde no longo prazo
- Por que é tão difícil controlar a poluição por ozônio?
- Respostas em políticas públicas: o que Seul está fazendo para combater o ozônio?
- Como a poluição por ozônio afeta o cotidiano em Seul?
- Implicações mais amplas: Seul como estudo de caso sobre a qualidade do ar urbano
- O que cada pessoa pode fazer para se proteger?
- Em resumo
Enquanto o ozônio presente nas camadas altas da atmosfera protege a vida na Terra ao bloquear a radiação ultravioleta nociva, ao nível do solo ele é um poluente potente. O recente aumento dos níveis de ozônio em Seul superou até os episódios de partículas finas (PM2.5), pelos quais a cidade é notória, e especialistas alertam que o ozônio pode representar riscos ainda maiores à saúde. Entender as causas, os impactos na saúde e os desafios para a formulação de políticas diante dessa ameaça invisível é fundamental para os moradores, os responsáveis por políticas públicas e todos os que se preocupam com a qualidade do ar nas cidades.
O que é o ozônio ao nível do solo e como ele se forma?
O ozônio (O3) é uma molécula formada por três átomos de oxigênio. Na estratosfera, entre 10 e 50 quilômetros acima da Terra, ele forma uma camada protetora que absorve os raios ultravioleta (UV). No entanto, ao nível do solo — no ar que respiramos —, o ozônio é um poluente nocivo. Ele não é emitido diretamente: forma-se por meio de reações químicas complexas que envolvem óxidos de nitrogênio (NOx) e compostos orgânicos voláteis (COVs) na presença da luz solar.
Entre as principais fontes de NOx estão o escapamento de veículos, as usinas de energia e as atividades industriais. Os COVs são liberados pela evaporação de combustíveis, por solventes industriais e até por produtos de consumo, como produtos de limpeza e tintas. Quando esses precursores se misturam no ar e ficam expostos à luz solar intensa, especialmente durante períodos quentes e de ar parado, há grande produção de ozônio. Esse processo é conhecido como formação de smog fotoquímico.
O trânsito intenso, a atividade industrial e a alta densidade populacional de Seul são fontes abundantes de NOx e COVs. A geografia da cidade — cercada por montanhas e frequentemente sujeita a massas de ar estagnadas — agrava ainda mais o problema, pois retém os poluentes e permite que o ozônio se acumule.
Por que os níveis de ozônio estão subindo em Seul?
Apesar dos esforços para reduzir as emissões de poluentes primários, como NOx e material particulado, as concentrações de ozônio em Seul e em outras megacidades sul-coreanas apresentam uma tendência persistente de alta. Vários fatores interligados impulsionam esse aumento:
- Mudanças climáticas e ondas de calor: O aumento das temperaturas e a maior frequência de ondas de calor, associados ao aquecimento global, criam condições ideais para a formação de ozônio. Dias mais quentes e ensolarados aceleram as reações químicas que produzem o gás. Estudos mostram que, durante ondas de calor em Seul, as concentrações de ozônio podem aumentar mais de 17%, e que em mais de um terço desses dias os padrões nacionais de ozônio são ultrapassados.
- Ar estagnado e padrões meteorológicos sinóticos: O clima tem papel fundamental nos episódios de ozônio. Massas de ar secas, quentes e estagnadas — classificadas na meteorologia como “tropicais secas” — tornaram-se mais comuns na Coreia do Sul nos últimos 50 anos. Essas condições reduzem a dispersão dos poluentes e aumentam a eficiência da produção de ozônio. Pesquisas indicam que um aumento de 300% na frequência desses padrões meteorológicos poderia elevar em 63% o número de dias com altos níveis de ozônio.
- Alterações nas emissões e nos regimes químicos: Paradoxalmente, a redução das emissões de NOx — resultante de veículos mais limpos e controles industriais — pode, em alguns casos, levar a níveis mais altos de ozônio em áreas urbanas como Seul. Isso ocorre porque, nesses ambientes, a química do ozônio é “limitada por COVs”: reduzir apenas o NOx pode diminuir a destruição do ozônio, enquanto os COVs continuam abundantes. Para controlar o ozônio de forma eficaz, é necessário reduzir simultaneamente tanto o NOx quanto os COVs.
- Ozônio de origem transfronteiriça e de fundo: Nem todo o ozônio presente em Seul é produzido localmente. O ozônio de fundo regional — originado de fontes naturais, da entrada de ar da estratosfera e da poluição transportada da China e de outras regiões — estabelece uma concentração de base elevada. Mesmo que todas as emissões antropogênicas na Coreia do Sul fossem eliminadas, modelos indicam que o ozônio de fundo manteria os níveis acima de 56 partes por bilhão (ppb), perto ou acima dos padrões baseados em critérios de saúde.
Impactos na saúde: por que o ozônio é mais perigoso do que você imagina
O ozônio é um gás altamente reativo que pode causar danos imediatos e de longo prazo à saúde. Ao contrário das partículas finas, que são visíveis e costumam concentrar a preocupação do público, o ozônio é invisível e inodoro. Seus perigos, portanto, são menos evidentes, mas não menos graves.
Efeitos agudos na saúde
A exposição de curto prazo a níveis elevados de ozônio pode causar:
- Tosse, dor de garganta e desconforto no peito
- Irritação nos olhos e no nariz
- Dificuldade para respirar, especialmente durante exercícios ou atividades ao ar livre
- Agravamento da asma e de outros problemas respiratórios
Crianças, idosos e pessoas com doenças pulmonares ou cardíacas preexistentes são particularmente vulneráveis. Mesmo adultos saudáveis podem apresentar redução da função pulmonar e maior suscetibilidade a infecções respiratórias durante episódios de alta concentração de ozônio.
Riscos à saúde no longo prazo
A exposição crônica ao ozônio está associada a:
- Desenvolvimento e agravamento da asma
- Maior risco de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)
- Maior incidência de doenças cardiovasculares e morte prematura
- Possíveis impactos na saúde cerebral e nas funções cognitivas
As fortes propriedades oxidantes do ozônio podem danificar células e tecidos pulmonares, desencadear inflamações e até afetar os sistemas cardiovascular e nervoso. Estudos recentes encontraram associações entre a exposição prolongada ao ozônio e o aumento da mortalidade por causas respiratórias e cardiovasculares, além de mais internações por asma e outras doenças.
Por que é tão difícil controlar a poluição por ozônio?
Ao contrário dos poluentes primários, que podem ser controlados diretamente na fonte, o ozônio é um poluente “secundário”, formado na atmosfera a partir das emissões de seus precursores. Isso torna seu controle muito mais difícil, sobretudo em grandes áreas urbanas, com fontes variadas de NOx e COVs.
Entre os principais desafios estão:
- Química não linear: A relação entre o ozônio e seus precursores é complexa. Em regimes limitados por COVs, como o de Seul, reduzir apenas o NOx pode, na verdade, aumentar o ozônio. O controle eficaz exige reduções coordenadas tanto de NOx quanto de COVs, provenientes de uma ampla variedade de fontes.
- Múltiplas fontes: Os COVs são emitidos não apenas por veículos e pela indústria, mas também por produtos de consumo, solventes e até pela vegetação natural. Algumas fontes, como produtos químicos domésticos e emissões biogênicas, são difíceis de regular.
- Poluição transfronteiriça: O ozônio e seus precursores podem percorrer longas distâncias e cruzar fronteiras nacionais. A poluição da China e de outras regiões contribui para o ozônio de fundo em Seul, limitando a eficácia dos controles locais.
- Retroalimentação climática: Com o aquecimento do clima, as condições para a formação de ozônio se tornam mais favoráveis, criando um ciclo de retroalimentação que dificulta ainda mais as reduções futuras.
Respostas em políticas públicas: o que Seul está fazendo para combater o ozônio?
Reconhecendo a ameaça crescente, o Governo Metropolitano de Seul intensificou os esforços para reduzir o ozônio. Desde abril de 2025, a cidade realizou inspeções em mais de 1.000 estabelecimentos — entre eles postos de gasolina, lavanderias e oficinas de pintura automotiva — que emitem grandes quantidades de COVs. Estão sendo elaboradas políticas para combater as emissões de NOx e COVs, com foco em:
- Incentivar veículos mais limpos e o transporte público
- Estimular o uso de caldeiras e equipamentos industriais ecológicos
- Regulamentar o uso de solventes e a evaporação de combustíveis nos estabelecimentos
- Ampliar o monitoramento da qualidade do ar e a divulgação de alertas à população
Em nível nacional, a Lei Especial da Coreia do Sul para a Melhoria da Qualidade do Ar Metropolitano estabelece metas ambiciosas para reduzir o ozônio na superfície, sobretudo em Seul. Especialistas, porém, alertam que os esforços locais precisam ser complementados pela cooperação regional e por ações globais contra as mudanças climáticas para que haja melhorias duradouras.
Como a poluição por ozônio afeta o cotidiano em Seul?
Para os 10 milhões de moradores de Seul, a poluição por ozônio é mais do que uma questão científica abstrata: ela afeta a vida cotidiana. Em dias de alta concentração de ozônio, as autoridades de saúde emitem alertas recomendando que as pessoas, especialmente os grupos mais sensíveis, limitem as atividades ao ar livre, fechem as janelas e usem purificadores de ar. As escolas podem cancelar atividades esportivas ao ar livre, e os hospitais registram aumento de queixas respiratórias.
Apesar dos alertas, muitas pessoas continuam sem conhecer os riscos, já que o ozônio é invisível e seus efeitos podem demorar a aparecer. A educação da população e as informações em tempo real sobre a qualidade do ar são ferramentas essenciais para reduzir a exposição e proteger a saúde.
Implicações mais amplas: Seul como estudo de caso sobre a qualidade do ar urbano
A crise do ozônio em Seul não é um caso isolado. Cidades da Ásia, da América do Norte e da Europa têm enfrentado níveis crescentes de ozônio, mesmo com a queda de outros poluentes. A experiência de Seul destaca várias lições importantes para a gestão da qualidade do ar urbano:
- É necessária uma abordagem integrada: Controlar o ozônio exige ações coordenadas em várias frentes: reduzir tanto o NOx quanto os COVs, combater a poluição transfronteiriça e adaptar-se às mudanças nas condições climáticas.
- A importância da meteorologia: Os padrões meteorológicos e as mudanças climáticas têm papel fundamental na qualidade do ar. Os responsáveis por políticas públicas devem levar esses fatores em conta ao elaborar medidas eficazes.
- Foco na saúde pública: Os impactos do ozônio na saúde são graves e abrangentes: afetam não apenas os grupos vulneráveis, mas toda a população. Os padrões baseados em critérios de saúde e os alertas à população devem ser atualizados para refletir os avanços científicos mais recentes.
- Cooperação regional e global: A poluição por ozônio não respeita fronteiras. A colaboração internacional é essencial para enfrentar fontes transfronteiriças e compartilhar boas práticas.
O que cada pessoa pode fazer para se proteger?
Embora sejam necessárias soluções sistêmicas para enfrentar as causas fundamentais da poluição por ozônio, cada pessoa pode tomar medidas para reduzir a exposição e proteger a saúde:
- Acompanhar os boletins locais de qualidade do ar e seguir os alertas de ozônio
- Limitar as atividades ao ar livre, especialmente exercícios, nos períodos de alta concentração de ozônio (em geral, à tarde no verão)
- Manter as janelas fechadas e usar purificadores de ar em ambientes internos
- Apoiar políticas e práticas que reduzam o uso de veículos e incentivem a energia limpa
- Usar produtos ecológicos e reduzir o uso de solventes em casa
Para quem tem problemas respiratórios ou cardíacos, é especialmente importante seguir as orientações médicas e ter um plano para os dias de alta poluição.
Em resumo
- Seul registra um forte aumento da poluição por ozônio ao nível do solo, e o número de alertas quadruplicou nos últimos anos.
- O ozônio se forma por reações químicas entre NOx e COVs sob a luz solar; o calor, o ar estagnado e as mudanças climáticas aceleram sua produção.
- Os riscos à saúde incluem doenças respiratórias e cardiovasculares, com efeitos tanto de curto quanto de longo prazo.
- É difícil controlar o ozônio por causa de sua química complexa, de suas múltiplas fontes e da contribuição da poluição regional e global.
- O governo de Seul está intensificando os esforços para reduzir as emissões de COVs e NOx, mas também é necessária uma cooperação regional e internacional mais ampla.
- As pessoas podem se proteger acompanhando a qualidade do ar, limitando a exposição ao ar livre nos períodos de alta concentração de ozônio e apoiando iniciativas por ar mais limpo.






