Ato em Tóquio impõe prazo humano à diplomacia
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, renovou a promessa de resolver, durante seu mandato, o caso do sequestro de cidadãos japoneses pela Coreia do Norte. Ela fez a declaração em um ato em Tóquio, em 8 de novembro de 2026, que reuniu cerca de 800 pessoas para exigir o retorno imediato de todas as vítimas. Entre elas estava Sakie Yokota, de 90 anos, a única mãe ainda viva entre as famílias dos sequestrados reconhecidos pelo governo que continuam à espera de seus entes queridos.
Conteúdo
- Ato em Tóquio impõe prazo humano à diplomacia
- O que Takaichi espera de uma reunião com Kim
- Washington é chamado a abrir caminho
- As 12 pessoas que o Japão ainda procura
- Uma mãe que espera desde 1977
- Os filhos também passaram a vida esperando
- Como a situação chegou a este ponto
- Governo promete uma última tentativa
- Principais pontos
O Japão reconhece que 17 cidadãos foram sequestrados pela Coreia do Norte nas décadas de 1970 e 1980. Cinco voltaram em 2002. Tóquio continua buscando o retorno dos outros 12, enquanto Pyongyang afirma que oito morreram e que quatro nunca entraram na Coreia do Norte.
Takaichi disse que gostaria de se reunir diretamente com o líder norte-coreano, Kim Jong Un, e conversar com franqueza. Também se declarou disposta a tomar medidas concretas para viabilizar uma cúpula e pediu esforços construtivos dos dois países.
As famílias reunidas em Tóquio buscavam algo mais imediato do que uma promessa de diálogo: ações do governo que trouxessem seus parentes de volta enquanto os pais que os esperam ainda estão vivos. O ato aprovou uma resolução que pede à Coreia do Norte que devolva todos os sequestrados enquanto ainda há tempo.
Takaichi, que assumiu o cargo em outubro de 2025, reconheceu a dor de completar um ano no governo sem garantir o retorno deles. Ao discursar no encontro, a primeira-ministra vinculou sua promessa diplomática às esperanças das famílias:
Sinto muito que os sequestrados ainda não tenham conseguido voltar para casa. Estou determinada a abrir caminho para uma solução durante meu mandato, e minha missão não terminará até o dia em que suas famílias possam abraçar novamente seus entes queridos.
O que Takaichi espera de uma reunião com Kim
Takaichi tem manifestado repetidamente disposição para realizar uma cúpula com Kim desde que se tornou primeira-ministra. Uma cúpula é um encontro direto entre líderes nacionais, que lhes dá a oportunidade de tomar decisões que autoridades responsáveis pelas negociações em níveis inferiores talvez não tenham poder para aprovar.
A proposta atribui aos líderes dos dois governos a responsabilidade pessoal por uma solução. Ela disse que sua determinação de resolver a questão durante o mandato continua a mesma e que seguirá trabalhando para obter resultados concretos.
O Japão tentou estabelecer contato com a Coreia do Norte por vários canais. Nas declarações mais recentes, Takaichi combinou essa iniciativa com um apelo para que os dois lados trabalhem de forma construtiva pelo futuro, mantendo o retorno dos cidadãos sequestrados no centro de sua mensagem.
Nenhuma data para a cúpula nem plano detalhado para iniciar as conversas foi anunciado. Takaichi também disse que não houve progresso significativo no diálogo desde seu encontro de setembro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Washington é chamado a abrir caminho
O Japão busca a ajuda dos Estados Unidos para iniciar um diálogo com Pyongyang. Takaichi disse que Trump voltou a lhe dar apoio total para uma solução imediata para a questão dos sequestros.
Durante uma cúpula em setembro, nos Estados Unidos, Takaichi teria pedido a Trump que ajudasse a organizar um encontro entre ela e Kim caso ocorra uma cúpula entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte. A estratégia aproveitaria uma possível abertura entre Washington e Pyongyang para criar uma oportunidade de o Japão tratar de seus próprios casos ainda sem solução.
O pedido insere a diplomacia americana nos esforços de Tóquio para chegar à liderança norte-coreana. O Japão quer que Washington ajude a garantir acesso, enquanto Takaichi se dispõe a conduzir pessoalmente a conversa central com Kim.
A questão dos sequestros também esteve em pauta nas conversas de outubro entre os três países, Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão. Na ocasião, Tóquio saudou o apoio contínuo de Washington e Seul à resolução dos casos, junto com compromissos sobre as armas nucleares da Coreia do Norte e a aplicação de sanções.
Essas conversas mostram o contexto em que Takaichi conduz sua iniciativa. A exigência japonesa de que seus cidadãos retornem está inserida em negociações mais amplas sobre a segurança na Península Coreana. Para as famílias, porém, o que realmente importa é saber se seus parentes voltarão para casa.
As 12 pessoas que o Japão ainda procura
A Coreia do Norte admitiu pela primeira vez ter sequestrado cidadãos japoneses quando o então primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, visitou Pyongyang, em setembro de 2002. Kim Jong Il, líder norte-coreano na época e pai de Kim Jong Un, reconheceu os sequestros e pediu desculpas.
As cinco vítimas voltaram ao Japão no mês seguinte. Elas representam cinco das 17 pessoas reconhecidas pelo governo japonês, cerca de 29%. As 12 restantes correspondem a aproximadamente 71%, o que significa que mais de dois terços dos casos reconhecidos continuam sem o retorno que o Japão busca.
Pyongyang sustenta que oito dessas 12 pessoas morreram e que as outras quatro nunca entraram na Coreia do Norte. Considera o caso encerrado. Tóquio continua exigindo o retorno delas, e os dois governos permanecem muito distantes quanto à questão central: o que aconteceu com essas pessoas.
Japão e Coreia do Norte concordaram em 2014 em reabrir a investigação sobre o caso. A Coreia do Norte suspendeu a investigação dois anos depois. Takaichi busca, portanto, uma nova abertura após um acordo anterior para analisar os casos terminar sem os retornos desejados pelas famílias.
Uma mãe que espera desde 1977
Megumi Yokota tinha 13 anos quando foi sequestrada, em 1977. Sua mãe, Sakie, espera por seu retorno há quase cinco décadas. Aos 90 anos, ela representa a urgência por trás do pedido feito no ato: que os sequestrados voltem enquanto os pais ainda estão vivos.
Sakie Yokota descreveu a dor de perder uma filha que criou e a longa luta para trazê-la de volta:
Sinto uma dor e uma tristeza indescritíveis porque um membro da família, que criei com tanto carinho, foi levado de nós.
Seu apelo também pediu que as famílias continuem unidas, após décadas sem o reencontro que desejam:
Há quase 50 anos, não conseguimos salvá-la. Precisamos continuar mostrando, com união, que nunca permitiremos que a questão dos sequestros fique sem resposta.
Takuya Yokota, irmão mais novo de Megumi, tem 58 anos, preside a Associação de Famílias das Vítimas Sequestradas pela Coreia do Norte e foi um dos organizadores do ato. Ele falou da pressão sobre os pais idosos e pediu aos apoiadores que mantenham sua determinação:
Os pais dos sequestrados vivem cada dia no limite,
Quero que todos continuem lutando conosco, com a firme determinação de não desistir até que todos os sequestrados voltem para casa.
Os filhos também passaram a vida esperando
Koichiro Iizuka, de 49 anos, participou do ato como filho mais velho de Yaeko Taguchi, sequestrada em 1978, aos 22 anos. A experiência de sua família mostra como os sequestros marcaram a vida não só dos pais, mas também dos filhos e irmãos.
Iizuka disse aos presentes que não podia aceitar que a espera chegasse a 50 anos. Sua mãe foi levada ainda jovem; agora, o filho se aproxima da idade que marca meio século de vida.
As famílias e seus apoiadores pediram medidas concretas do governo para garantir o retorno de todas as vítimas o mais rápido possível. A exigência de que todas voltem juntas e imediatamente significa trazer todos os sequestrados para casa, em vez de aceitar um processo que deixe algumas famílias esperando indefinidamente.
A resolução do ato estabeleceu um prazo humano direto para essa exigência: os pais que ainda estão vivos devem poder rever seus filhos. Para Sakie Yokota e os outros parentes, cada ano a mais tem um custo pessoal que nenhum cronograma diplomático pode reverter.
Como a situação chegou a este ponto
A atual iniciativa vem após décadas de sequestros, confissões, retornos limitados e negociações interrompidas. As principais datas ajudam a entender por que as famílias pressionam por ações, e não por mais um processo sem prazo definido.
- Décadas de 1970 e 1980: período em que, segundo o Japão, as 17 vítimas reconhecidas foram sequestradas pela Coreia do Norte.
- 1977: Megumi Yokota foi sequestrada aos 13 anos.
- 1978: Yaeko Taguchi foi sequestrada aos 22 anos.
- Setembro de 2002: Kim Jong Il reconheceu os sequestros e pediu desculpas durante a visita de Junichiro Koizumi a Pyongyang.
- Outubro de 2002: Cinco sequestrados voltaram ao Japão.
- 2014: Japão e Coreia do Norte concordaram em reabrir a investigação sobre o caso.
- 2016: A Coreia do Norte suspendeu a investigação.
- Outubro de 2025: Takaichi se tornou primeira-ministra.
- Setembro de 2026: Takaichi pediu ajuda a Trump para iniciar um diálogo com a Coreia do Norte.
- 8 de novembro de 2026: Cerca de 800 pessoas se reuniram em Tóquio para exigir o retorno imediato de todos os sequestrados.
Os cinco retornos de 2002 continuam sendo o resultado concreto usado como parâmetro para avaliar os esforços atuais. Vinte e quatro anos depois, Takaichi busca novamente um contato direto com o líder da Coreia do Norte, enquanto as famílias insistem que qualquer nova abertura diplomática resulte em reencontros.
Governo promete uma última tentativa
O secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara, que também supervisiona a questão dos sequestros, disse no ato que não há tempo a perder. Ele afirmou que o governo trabalha todos os dias com a determinação de ser o último a precisar lidar com o caso e prometeu empenho total.
Os compromissos de Takaichi e Kihara colocam sobre o atual governo a responsabilidade por apresentar resultados. O objetivo declarado é encerrar a espera das famílias durante o mandato, em vez de deixar os casos sem solução para o próximo governo.
A tarefa diplomática imediata é transformar o pedido de ajuda aos Estados Unidos e a oferta de conversas diretas em diálogo com Pyongyang. A exigência das famílias é ainda mais concreta: o retorno de todos os sequestrados, a tempo de que aqueles que esperam há mais tempo possam recebê-los em casa.
Principais pontos
- Takaichi renovou a promessa de resolver a questão dos sequestros durante seu mandato e buscou conversas diretas com Kim Jong Un.
- Cerca de 800 pessoas participaram do ato de 8 de novembro em Tóquio, exigindo o retorno imediato de todos os sequestrados.
- O Japão reconhece 17 cidadãos sequestrados. Cinco voltaram em 2002, e Tóquio busca o retorno dos 12 restantes.
- A Coreia do Norte afirma que oito dessas 12 pessoas morreram e que quatro nunca entraram no país.
- Takaichi busca ajuda dos Estados Unidos para organizar um diálogo e diz que Trump lhe deu apoio total.
- Sakie Yokota, de 90 anos, é a única mãe ainda viva entre as famílias dos sequestrados reconhecidos que continuam à espera do retorno deles.
- O ato pediu à Coreia do Norte que devolva todos os sequestrados enquanto os pais ainda estão vivos.






