Um sucesso nas paradas encontra um sistema de royalties indefinido
A indústria musical da Coreia do Sul enfrenta uma disputa de direitos autorais que agora vai do topo das paradas às cafeterias de bairro. Em 26 de outubro de 2026, o projeto musical Meomureu chegou ao segundo lugar no TOP100 do Melon com uma canção feita com o Suno. Dois meses antes, a Associação Coreana de Direitos Autorais Musicais havia retirado regras destinadas a decidir quais contribuições humanas para músicas feitas com IA poderiam entrar em seu sistema de gestão de royalties.
Conteúdo
- Um sucesso nas paradas encontra um sistema de royalties indefinido
- A produção musical se torna quase instantânea
- O que a associação retirou
- O que acontece com as solicitações e as filiações?
- Como a disputa se desenvolveu
- A disputa sobre treinamento começa antes de uma música ser criada
- O público está se abrindo à música com IA
- Cafeterias buscam música ambiente mais barata
- O rastreamento pode tornar os pagamentos mais justos?
- Principais pontos
A canção, cujo título em coreano significa Você se tornou o adulto que sonhava ser?, combina planejamento e letras feitos por humanos com música gerada por IA. A equipe de composição Glorywave cuidou do planejamento, das letras e da direção de produção, enquanto a IA produziu a melodia e os vocais. O sucesso coloca uma questão prática para o setor: quando pessoas e softwares dividem o trabalho, quem deve receber o dinheiro?
Uma investigação do Conselho de Auditoria e Inspeção constatou que mais de 60% das faixas musicais nacionais recém-encomendadas analisadas tinham suspeita de envolver IA. Esse percentual se refere a faixas recém-encomendadas, enquanto o debate mais amplo também abrange lançamentos comerciais, música ambiente e canções geradas por pessoas sem experiência em produção.
Artistas consagrados argumentam que geradores de música aprenderam com suas obras sem permissão e exigem que os pagamentos de royalties sejam retidos. Quem usa IA argumenta que seu planejamento, seus comandos e suas decisões criativas merecem reconhecimento. A retirada das regras pela associação deixou as solicitações pendentes em espera enquanto governo, parlamento e setor cultural discutem padrões comuns.
A produção musical se torna quase instantânea
Na Brightbell, funcionários sem experiência anterior em produção musical usaram IA para criar músicas animadas para apresentações de robôs dançarinos. Kim Il-yoo, diretor executivo da empresa, explicou por que ela escolheu essa abordagem:
Achamos que cantar e dançar ao som de música gerada por IA poderia ser uma forma apropriada de expressar a identidade deles como robôs com IA...
Uma demonstração baseada em um pedido de balada de outono gerou letra e melodia em menos de 30 segundos. A rapidez ajuda a explicar por que a música com IA atrai empresas e usuários ocasionais: uma tarefa que antes exigia várias habilidades criativas agora pode começar com uma breve instrução escrita.
Projetos profissionais podem envolver uma divisão de trabalho mais complexa. A Glorywave escreveu as letras e dirigiu a produção do sucesso do Meomureu, enquanto o Suno forneceu elementos musicais e a voz do canto. Outra canção feita com IA, GG.EZ, chamou atenção como música de fundo para vídeos curtos. Os dois exemplos mostram como a música feita com IA está chegando aos ouvintes por meio do entretenimento cotidiano, em vez de permanecer um experimento técnico.
O que a associação retirou
A Associação Coreana de Direitos Autorais Musicais, conhecida como KOMCA, anunciou os padrões propostos em 3 de agosto de 2026, após cerca de três anos de discussões em um comitê interno de IA. As regras abrangiam o Regulamento de Comunicação e Registro de Obras Musicais e o Contrato-Padrão de Gestão Fiduciária de Direitos Autorais Musicais.
A proposta permitiria registrar apenas as partes criadas com participação humana substancial e determinante na escrita das letras, na composição ou nos arranjos. Uma faixa gerada exclusivamente pela inserção de comandos, sem trabalho criativo humano significativo, ficaria de fora.
O registro fiduciário significa colocar direitos sob a gestão da associação para que ela possa administrá-los e distribuir royalties. Portanto, a proposta dizia respeito ao acesso a um sistema em funcionamento para arrecadar e repartir dinheiro, além da questão fundamental de que tipo de criatividade humana se qualifica para proteção.
Em 18 de agosto, o Ministério da Cultura, Esportes e Turismo enviou uma carta recomendando um debate público mais amplo em todo o setor artístico. O parlamento também pediu uma análise mais abrangente. Na oitava reunião do conselho, em 25 de agosto, a KOMCA retirou as emendas, 22 dias após anunciá-las.
Lee Siha, presidente da KOMCA, explicou o objetivo da proposta original:
O objetivo da alteração das regras era proteger os direitos e os sistemas de remuneração justa dos criadores humanos diante da ausência de padrões estabelecidos.
O que acontece com as solicitações e as filiações?
A KOMCA informou que reprocessaria as obras enviadas enquanto as regras revisadas estavam em vigor. Os filiados cujas obras já haviam entrado no sistema de gestão fiduciária receberiam um aviso explicando a retirada, e os procedimentos de desregistro poderiam ser solicitados. As obras recebidas, mas ainda não registradas, permaneceriam suspensas até o estabelecimento de novas políticas.
As solicitações de filiação baseadas em música feita com IA também foram afetadas. As que ainda estavam em análise serão adiadas. Para as filiações já concluídas com base nesse critério, a associação afirmou que explicaria a retirada e iniciaria os procedimentos de rescisão contratual.
A KOMCA manteve sua posição de que obras produzidas inteiramente por IA, sem contribuição criativa humana substancial, não seriam registradas. Também informou que análises, monitoramento e investigações sobre declarações imprecisas e distribuição distorcida de royalties continuariam de acordo com as leis e regras vigentes.
A associação relatou correções voluntárias de declarações de direitos e devoluções de royalties relacionados a obras geradas inteiramente por IA. Não informou uma data para a nova política nem números sobre solicitações, filiações ou pagamentos devolvidos afetados.
Como a disputa se desenvolveu
O debate passou de uma tentativa de regulamentação interna para uma discussão mais ampla sobre políticas à medida que a música com IA ganhou atenção comercial. Os principais acontecimentos de 2026 foram:
- 3 de agosto: a KOMCA anunciou padrões que permitiriam registrar contribuições humanas qualificadas em músicas feitas com IA.
- 18 de agosto: o Ministério da Cultura pediu um debate em todo o setor artístico.
- 25 de agosto: o conselho da KOMCA retirou as emendas.
- Setembro: gravadoras ligadas à Universal e à Sony entraram com uma ação adicional contra o Suno em um tribunal federal de Massachusetts.
- 26 de outubro: a canção do Meomureu chegou ao segundo lugar no TOP100 do Melon.
- 3 de novembro: contas de cafeterias e academias relataram que os estabelecimentos estavam migrando para músicas geradas por IA.
- 7 de novembro: uma demonstração mostrou uma balada de outono sendo gerada em menos de 30 segundos.
Dois debates na Assembleia Nacional também trataram dos direitos autorais e dos padrões de distribuição para músicas com IA. A KOMCA se comprometeu a trabalhar com o parlamento, o governo, os criadores e o setor cultural na elaboração de padrões jurídicos e políticas.
A disputa sobre treinamento começa antes de uma música ser criada
Gravadoras ligadas à Universal e à Sony alegaram, em uma ação de setembro, que o Suno copiou 60.202 gravações sem permissão para desenvolver sua tecnologia. Entre as gravações citadas na disputa estão Gangnam Style, de Psy, e Bad Decisions, que conta com integrantes do BTS.
O Suno sustenta que a cópia para treinamento está amparada pelo uso legítimo previsto na legislação de direitos autorais dos Estados Unidos. O uso legítimo permite certas utilizações de material protegido sem autorização, dependendo da finalidade e das circunstâncias. As gravadoras e o Suno discordam sobre se o treinamento de um gerador comercial de música se enquadra nessa proteção.
Jung Yeon-deok, professor da Faculdade de Direito da Universidade Konkuk, apontou a autorização para usar material de treinamento como uma questão central. Ele também descreveu a dificuldade de reunir provas sobre quais músicas, trechos e métodos foram usados quando um sistema aprendeu com uma grande coleção de gravações.
Há, portanto, duas decisões em etapas distintas do processo de criação musical. Os detentores de direitos querem receber pagamento ou manter o controle quando suas gravações são usadas para treinar um modelo. Quem cria novas canções quer reconhecimento pelas letras, composição ou outros trabalhos criativos que contribui para o resultado. Um sistema de royalties precisa abordar tanto o uso anterior de músicas existentes quanto a criação posterior de algo que os ouvintes possam reproduzir.
O público está se abrindo à música com IA
A Pesquisa de Usuários de Música de 2025 da Agência de Conteúdo Criativo da Coreia constatou que 33,7% dos entrevistados estavam dispostos a ouvir músicas com IA, ante 26,5% no ano anterior. Isso representa um aumento de 7,2 pontos percentuais, levando a disposição declarada de cerca de um em cada quatro entrevistados para cerca de um em cada três.
A canção do Meomureu ganhou popularidade por meio de vídeos curtos, com letras sobre a distância entre os sonhos da infância e a vida adulta. Sua ascensão continuou mesmo depois que o uso de IA se tornou conhecido. A reação sugere que, para alguns ouvintes, o apelo emocional importa mais do que saber se uma pessoa forneceu a voz do canto.
Kim Seong-su, crítico de cultura popular, disse que vocais polidos gerados por IA podem soar familiares para o público acostumado à correção de afinação e a outros processamentos de voz. Ele vê espaço especialmente para a IA em músicas de fácil audição, nas quais o público pode estar buscando um som agradável, e não a interpretação característica de um cantor ou instrumentista específico.
Na época retratada, Melon, FLO e Bugs não operavam sistemas separados de identificação para músicas geradas por IA. Assim, os ouvintes encontram essas faixas pelos mesmos sistemas de distribuição e recomendação usados para outras músicas.
As plataformas apontaram a necessidade de diretrizes comuns para o setor. Uma canção com letras humanas e voz gerada por IA envolve uma divisão de trabalho diferente da de uma interpretação humana que usa IA apenas como auxílio. Identificação, recomendações e administração de royalties exigem uma forma consistente de descrever essas contribuições.
Cafeterias buscam música ambiente mais barata
Em Guwol-dong, no distrito de Namdong, em Incheon, o dono de uma cafeteria trocou a música ambiente do estabelecimento por playlists com letras e composições geradas por IA depois de receber uma cobrança de aproximadamente 15 mil won por mês em taxas de uso de música. O dono citou a alta dos preços e as difíceis condições comerciais.
Cafeterias e bares comuns sujeitos à tabela de royalties por execução pertinente pagam entre 4 mil e 20 mil won por mês, dependendo da área do estabelecimento. Academias têm uma tabela própria. As empresas podem pagar diretamente às organizações de gestão de direitos ou usar um serviço comercial de música ambiente que se encarrega do pagamento.
Os royalties por execução remuneram os detentores de direitos quando músicas protegidas são tocadas para clientes. De acordo com as regras descritas, estabelecimentos abrangidos, como cafeterias com pelo menos 50 metros quadrados, devem pagar quando reproduzem músicas sujeitas a esses direitos. O artigo 136 da Lei de Direitos Autorais da Coreia do Sul prevê penas de até cinco anos de prisão ou multa de até 50 milhões de won por violação de direitos autorais patrimoniais.
A KOMCA informou que recebia consultas ocasionais sobre a substituição de música ambiente por faixas de IA, enquanto a arrecadação das taxas por execução não apresentava mudanças claras. As inspeções também identificaram empresas que declaravam usar exclusivamente música com IA, mas ainda reproduziam canções administradas pela associação.
Para os donos de estabelecimentos, a questão prática é a música efetivamente reproduzida e as autorizações associadas a ela. Uma playlist pode conter uma mistura de faixas com diferentes direitos, por isso manter registros precisos é útil tanto para as empresas quanto para as organizações que arrecadam as taxas.
O rastreamento pode tornar os pagamentos mais justos?
Desenvolvedores de tecnologia estão trabalhando em formas de analisar as contribuições dos criadores originais para músicas geradas por IA. Lee Jong-pil, diretor executivo da Neutune, descreveu o possível valor de um registro mais claro do uso de música:
Quando o uso de música pela IA começar a ser registrado e rastreado com clareza, isso poderá resolver todos os problemas de direitos autorais...
O rastreamento poderia ajudar a conectar a etapa de treinamento, a criação de uma nova canção e seu eventual uso comercial. Um sistema que registrasse essas etapas daria a criadores, empresas de IA e administradores de royalties mais informações para negociar autorizações ou decidir como dividir os pagamentos.
Kim Seong-su alertou que os efeitos econômicos também atingem músicos remunerados para tocar em gravações. Um produtor capaz de gerar instrumentos de acompanhamento pode contratar menos músicos de estúdio. Ele também questionou se os pagamentos pelo treinamento corresponderiam à renda que os criadores recebiam anteriormente por meio dos royalties tradicionais de direitos autorais.
Estrelas conhecidas e intérpretes com estilos reconhecíveis podem ter mais condições de negociar pagamentos do que músicos menos visíveis. Isso deixa uma questão concreta de distribuição para o debate sobre políticas: como remunerar os muitos colaboradores cujo trabalho ajuda a viabilizar a música comercial, inclusive aqueles cujos nomes raramente são conhecidos pelos ouvintes.
Os próximos padrões da Coreia do Sul precisam abordar várias decisões interligadas: como identificar o trabalho criativo humano, como documentar o envolvimento da IA, como as plataformas devem informar os ouvintes e como remunerar os atuais detentores de direitos. A proposta retirada da KOMCA oferecia uma abordagem para registrar contribuições humanas. Sua substituta exigirá acordo entre um grupo mais amplo à medida que a música com IA continuar circulando.
Principais pontos
- O Meomureu chegou ao segundo lugar no TOP100 do Melon em 26 de outubro de 2026, com letras e direção de produção humanas, além de melodia e vocais gerados por IA.
- A KOMCA retirou suas emendas para o registro de obras com IA em 25 de agosto, após pedidos de discussões mais amplas com o governo e o setor cultural.
- Solicitações pendentes e pedidos de filiação baseados em obras feitas com IA estão sujeitos a suspensão ou a procedimentos adicionais.
- Gravadoras ligadas à Universal e à Sony alegam que o Suno usou 60.202 gravações sem autorização; o Suno invoca o uso legítimo.
- A disposição para ouvir músicas com IA subiu de 26,5% para 33,7% na pesquisa da Agência de Conteúdo Criativo da Coreia.
- As principais plataformas coreanas não têm identificação específica para músicas com IA, enquanto algumas empresas estão adotando música ambiente gerada por IA.






