Paris busca uma forma de devolver afegãos sem residência legal
A França mantém conversas técnicas com as autoridades talibãs do Afeganistão para organizar o retorno de alguns cidadãos afegãos sem residência legal, disse o ministro do Interior, Laurent Nuñez, ao Parlamento na segunda-feira, 3 de novembro. O anúncio coloca as prioridades de segurança da França ao lado de uma questão delicada: como organizar deportações para um país cujos governantes Paris não reconhece formalmente.
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Nuñez confirmou os contatos ao responder a perguntas de parlamentares. Disse que algumas das pessoas envolvidas poderiam ameaçar a ordem pública e classificou a remoção delas como uma prioridade do governo. A Alemanha, acrescentou, está adotando medidas semelhantes.
O ministro do Interior descreveu assim o objetivo das conversas:
Estamos tentando obter a possibilidade de devolver um determinado número de afegãos que estão em situação irregular. São conversas técnicas.
O Ministério das Relações Exteriores da França afirmou que qualquer retorno respeitaria as obrigações internacionais do país. Também declarou que solicitantes de asilo e mulheres não seriam devolvidos ao Afeganistão em nenhuma circunstância, uma restrição que estabelece um limite importante para a política proposta.
A Human Rights Watch pediu que a França abandone os planos, alertando que a cooperação com as autoridades talibãs poderia expor as pessoas devolvidas à perseguição, à tortura e a outras violações graves. A deputada do Partido Verde Léa Balage El Mariky questionou o custo político dos contatos e acusou o governo de se aproximar de relações normais com o Talibã.
A França não anunciou um calendário para as deportações nem o número de pessoas que pretende devolver. Por ora, confirmou-se a existência de negociações; os detalhes práticos e as decisões sobre a proteção de cada pessoa ainda precisam ser explicados.
Quem seria afetado?
Nuñez referiu-se a afegãos em situação irregular, ou seja, pessoas sem autorização legal para permanecer na França. Também mencionou preocupações relacionadas à ordem pública. Essas descrições dizem respeito a questões distintas: o direito de uma pessoa de permanecer no país e a avaliação do governo sobre sua conduta ou o risco que representa para a segurança.
O Ministério das Relações Exteriores descreveu as conversas como relativas a afegãos sem documentos válidos de residência e a pessoas consideradas uma ameaça à segurança pública. Na declaração citada no alerta sobre as deportações francesas, o ministério descreveu o grupo visado como formado por pessoas que estavam no país sem autorização e eram consideradas um risco à segurança nacional.
Os esforços europeus para acelerar o retorno de afegãos têm dado atenção especial a pessoas condenadas pelos tribunais. No entanto, uma condenação criminal, a avaliação de que alguém representa uma ameaça à segurança e a falta de residência legal são questões distintas, e cada uma afeta o caso de uma pessoa de maneira diferente.
Para quem enfrenta a remoção, o compromisso do ministério de excluir mulheres e solicitantes de asilo é significativo. Solicitante de asilo é alguém que pede proteção a outro país porque voltar para casa poderia colocá-lo em perigo. A França afirma que essas pessoas ficarão fora dos acordos de retorno propostos.
Contatos técnicos têm peso político
A França não reconhece formalmente o governo talibã nem mantém relações diplomáticas com ele. O Talibã voltou ao poder no Afeganistão em 2021, deixando os governos europeus diante da decisão de como tratar de questões práticas com autoridades que não aceitam como governo reconhecido.
Paris chama as conversas de técnicas porque elas dizem respeito aos procedimentos necessários para devolver pessoas. Esses procedimentos podem incluir a confirmação da identidade, a obtenção de documentos de viagem e a aceitação pelo país de destino.
O Ministério das Relações Exteriores afirmou que o diálogo técnico não altera a posição da França sobre o Afeganistão. Paris também reafirmou seu apoio à população afegã, em particular às mulheres afegãs, e disse que não considera permitir a entrada de representantes talibãs na França para facilitar as deportações.
Balage El Mariky, representante do Partido Verde no Parlamento francês, argumenta que uma cooperação desse tipo aproxima a França da normalização diplomática. Ela acusou o Talibã de impor o que chamou de "apartheid de gênero", em referência às restrições que excluem mulheres e meninas de grande parte da vida pública.
O governo apresenta os contatos como uma forma de realizar remoções e proteger os cidadãos franceses. Seus críticos no Parlamento se concentram na relação criada quando as autoridades francesas precisam da cooperação do Talibã para aplicar essa política.
Como as conversas avançaram
Os contatos diplomáticos franceses vieram a público antes de Nuñez se pronunciar no Parlamento. Eles foram divulgados em 7 de outubro e confirmados na entrevista coletiva do Ministério das Relações Exteriores em 8 de outubro. Uma fonte diplomática francesa afirmou que Paris havia iniciado um diálogo técnico com representantes talibãs para facilitar a remoção direta para o Afeganistão de cidadãos afegãos que estavam no país sem autorização e representavam uma ameaça à ordem pública. A fonte descreveu as conversas como uma "medida necessária para garantir a segurança dos cidadãos franceses".
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Pascal Confavreux, descreveu o diálogo como "estritamente técnico" e destinado a facilitar a remoção de cidadãos afegãos que estavam ilegalmente na França e representavam um risco à segurança nacional. Ele afirmou que os contatos não significavam que a França reconheceria o governo talibã. A fonte diplomática não informou o número de possíveis retornados e disse que os procedimentos práticos ainda estavam sendo estudados. Uma fonte separada próxima ao assunto estimou que centenas de pessoas poderiam ser afetadas.
A sequência insere o anúncio francês em um esforço europeu mais amplo:
- Em 2021, o Talibã voltou ao poder no Afeganistão.
- Em junho, uma delegação talibã se reuniu em Bruxelas com autoridades de 15 países da União Europeia para discutir migração irregular e a aceleração das deportações.
- Em setembro, o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, condenou o silêncio internacional diante do agravamento da crise humanitária e de direitos humanos no Afeganistão e pediu o fim dos retornos forçados.
- Em 7 de outubro, os contatos diplomáticos entre autoridades francesas e talibãs vieram a público; o Ministério das Relações Exteriores os confirmou em 8 de outubro.
- Na segunda-feira, 3 de novembro, Nuñez confirmou as conversas técnicas no Parlamento.
A França se juntou a cerca de 20 países da União Europeia, entre eles Alemanha, Bélgica e Suécia, nos esforços para acelerar o retorno de afegãos. A reunião de junho envolveu autoridades de 15 Estados-membros, enquanto a iniciativa mais ampla reúne um grupo maior de países.
Organizações de defesa dos direitos humanos e parlamentares da esquerda no Parlamento Europeu criticaram a reunião de Bruxelas. Suas objeções dizem respeito tanto aos perigos enfrentados pelas pessoas devolvidas quanto à aceitação política que o Talibã pode obter por meio de contatos reiterados com governos europeus.
Por que o destino importa
As condições no Afeganistão estão no centro da controvérsia. O Talibã proibiu meninas com mais de 12 anos de continuar os estudos e excluiu as mulheres do ensino superior. Essas restrições afetam o acesso à educação, às qualificações e a empregos futuros, além de limitar drasticamente as opções disponíveis para mulheres e meninas.
O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o líder supremo do Talibã, Haibatullah Akhundzada, e o chefe de Justiça do movimento, por supostos crimes contra a humanidade relacionados à perseguição de mulheres e meninas. As acusações colocam a conduta dos governantes do Afeganistão no centro do escrutínio jurídico internacional.
O apelo de Türk em setembro relacionou a deterioração da situação dos direitos humanos à pressão sobre os afegãos forçados a retornar. O alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos pediu o fim dos retornos forçados e também criticou a resposta internacional à crise humanitária no país.
O alerta da Human Rights Watch à França se concentra no que pode acontecer após a chegada. A organização afirma que pessoas deportadas com a cooperação das autoridades talibãs podem enfrentar perseguição, tortura ou outras violações graves. O perigo que cada pessoa pode encontrar, portanto, é uma questão central para decidir se a remoção pode prosseguir.
O que significa o compromisso de proteção da França
O Ministério das Relações Exteriores afirma que os retornos cumpririam as obrigações internacionais da França. Uma proteção central nessa área é a regra que proíbe enviar alguém para um lugar onde possa sofrer perseguição, tortura ou outros danos graves. Em termos simples, o governo deve considerar os perigos no destino ao decidir se remove uma pessoa.
A exclusão declarada pela França de mulheres e solicitantes de asilo oferece uma garantia direta a dois grupos. Para os demais afegãos que enfrentarem a remoção, ainda será necessário tomar decisões que levem em conta suas circunstâncias particulares e os riscos que poderiam enfrentar no Afeganistão.
A pesquisadora da Human Rights Watch Farashta Abbasi contestou a política justamente nesse ponto. Sua crítica, descrita no alerta anterior sobre os planos franceses, foi que as autoridades não haviam oferecido garantias específicas sobre como protegeriam as pessoas em situação de maior risco após o retorno.
O argumento de segurança do governo e o argumento de proteção da organização de direitos humanos dizem respeito a etapas diferentes do mesmo processo. As autoridades francesas estão preocupadas com as pessoas que permanecem na França; a organização de direitos humanos, com o tratamento que essas pessoas podem receber depois de serem transferidas para o Afeganistão.
A Suíça mostra as exigências práticas dos retornos
Os registros de deportações da Suíça ilustram o tipo de cooperação administrativa que pode estar por trás de conversas descritas como técnicas. A Suíça forneceu às autoridades talibãs informações pessoais sobre afegãos que enfrentavam remoção e recebeu uma delegação em Genebra para trabalhos de identificação entre 19 e 21 de agosto de 2025.
A visita dizia respeito a 13 cidadãos afegãos. Nove acabaram identificados, as autoridades concordaram em emitir documentos de viagem para seis e, mais tarde, a Secretaria de Estado para Migração da Suíça confirmou três deportações. A sequência mostra quantas decisões podem separar a identificação de uma pessoa da realização de seu retorno.
As autoridades suíças disseram que Cabul aceita, para esses retornos, apenas documentos de viagem emitidos por suas próprias autoridades. Assim, uma pessoa sem passaporte adequado pode precisar de um laissez-passer, um documento que permite uma viagem específica, antes que a remoção se torne possível.
Os registros suíços também mostram por que as informações pessoais são uma parte sensível do processo. As autoridades compartilharam fichas informativas com a administração talibã, e algumas pessoas que enfrentavam remoção se recusaram posteriormente a fornecer dados de contato de parentes no Afeganistão. As conversas da França agora envolvem as mesmas questões práticas sobre verificação de identidade, documentação e tratamento de dados pessoais.
Em resumo
- A França confirmou conversas estritamente técnicas com as autoridades talibãs sobre o retorno de afegãos que estão no país sem autorização e são considerados um risco à segurança nacional.
- O ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirma que a remoção de pessoas que ameaçam a ordem pública é uma prioridade.
- O Ministério das Relações Exteriores afirma que mulheres e solicitantes de asilo não seriam devolvidos e que as obrigações internacionais da França seriam respeitadas.
- A França não reconhece formalmente o governo talibã nem mantém relações diplomáticas com ele, e afirma que as conversas não alteram sua posição sobre o Afeganistão.
- A Human Rights Watch e o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, alertaram contra os retornos forçados em meio a graves violações de direitos humanos no Afeganistão.
- Não foi anunciado um calendário de deportações francesas nem o número de pessoas que se pretende devolver.






