Investimentos em energia e turismo dão foco prático à reaproximação diplomática
Índia e Azerbaijão avançaram na reconstrução das relações em 23 de outubro de 2026, com conversas em Baku voltadas para uma relação econômica que já inclui mais de 1.000 empresas indianas, cerca de US$ 1,2 bilhão em investimentos indianos no setor de energia e 166.944 turistas indianos em 2025.
Conteúdo
- Investimentos em energia e turismo dão foco prático à reaproximação diplomática
- Por que as relações precisavam ser reparadas
- Uma sequência de encontros aproximou os ministros
- Comércio pode crescer para além do petróleo
- Rotas de transporte conectam a agenda empresarial
- Voos, estudantes e filmes ampliam a relação
- Esforços de paz entre Armênia e Azerbaijão estiveram na pauta
- Ajuda em evacuação foi um exemplo concreto de cooperação
- Próximos passos dos dois governos
- Pontos principais
O ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, reuniu-se com o presidente Ilham Aliyev e o ministro das Relações Exteriores Jeyhun Bayramov durante sua primeira visita ao Azerbaijão. Foi a primeira visita bilateral de um chanceler indiano ao país em oito anos, após um período de tensão devido ao apoio do Azerbaijão ao Paquistão durante o conflito com a Índia, em maio de 2025.
Os ministros concordaram em aprofundar as consultas políticas, trocar delegações comerciais, fortalecer a cooperação energética e coordenar mais estreitamente no Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul. Também discutiram o aumento dos voos diretos, a ampliação dos intercâmbios profissionais e o desenvolvimento de relações comerciais para além do petróleo.
Jaishankar classificou as conversas como produtivas e convidou Bayramov a visitar a Índia. Bayramov reconheceu que os países já tiveram posições diferentes sobre algumas questões e apontou turismo, produtos farmacêuticos, agricultura e transporte como áreas em que a cooperação pode crescer.
Os dados comerciais dão uma base concreta à reaproximação. O comércio bilateral somou US$ 401 milhões em 2025, segundo dados oficiais da Índia, enquanto Bayramov afirmou que o volume chegou a aproximadamente US$ 600 milhões em 2026. Para empresas, estudantes e viajantes, o foco imediato é facilitar o uso das conexões existentes e abrir mais oportunidades por meio de contatos diplomáticos regulares.
Por que as relações precisavam ser reparadas
A estreita parceria do Azerbaijão com o Paquistão e os laços da Índia com a Armênia complicaram as relações entre Baku e Nova Délhi. Armênia e Azerbaijão são países vizinhos no Cáucaso do Sul, com um longo histórico de conflitos, enquanto Índia e Paquistão continuam sendo rivais estratégicos.
Os quatro dias de combates entre Índia e Paquistão, em maio de 2025, colocaram essas relações em evidência. O Azerbaijão condenou os ataques militares da Índia contra o Paquistão durante a Operação Sindoor e pediu uma solução para a questão da Caxemira. A Índia reagiu com indignação a essa posição.
O atrito diplomático se estendeu mais tarde à Organização para Cooperação de Xangai, ou OCX, um grupo regional voltado à cooperação em segurança e economia. Segundo relatos, a Índia bloqueou a tentativa do Azerbaijão de ingressar no grupo em setembro de 2025, enquanto o Paquistão bloqueou a candidatura da Armênia. O Paquistão estabeleceu relações diplomáticas com a Armênia em 2025, acrescentando outra mudança às relações diplomáticas da região.
Durante a visita de Jaishankar, Bayramov reconheceu as divergências anteriores e disse que os países tiveram “pontos de vista diferentes sobre diferentes questões”. Em Baku, ele enfatizou a continuidade do diálogo e as áreas em que os interesses dos dois países convergem.
Jaishankar também apresentou a cooperação como compatível com políticas externas independentes. Em suas conversas com Aliyev, tratou de acontecimentos regionais e globais, além de questões práticas sobre o que os dois países poderiam fazer juntos. A reaproximação, portanto, busca restabelecer uma relação de trabalho, enquanto cada governo mantém suas próprias parcerias internacionais.
Uma sequência de encontros aproximou os ministros
A visita de Jaishankar foi precedida por vários contatos diplomáticos em 2026. As Consultas entre Ministérios das Relações Exteriores, reuniões formais em que autoridades diplomáticas analisam detalhadamente as relações, foram retomadas em Baku em abril, após um intervalo de quase quatro anos.
O primeiro-ministro Narendra Modi e Aliyev se reuniram em Bishkek em setembro. Jaishankar disse que sua viagem deu continuidade àquele encontro. Houve novos contatos durante uma cúpula regional em Baku e com a chegada do novo embaixador da Índia.
- Abril de 2026: Índia e Azerbaijão realizaram em Baku a sexta rodada de Consultas entre Ministérios das Relações Exteriores, com discussões sobre comércio, tecnologia, turismo, produtos farmacêuticos, energia e cultura.
- 1º de setembro de 2026: Modi e Aliyev se reuniram à margem da cúpula da OCX, em Bishkek.
- 15 de outubro de 2026: o ministro de Estado das Relações Exteriores da Índia, Kirti Vardhan Singh, discursou na sétima cúpula da Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia, em Baku.
- 16 de outubro de 2026: o embaixador indiano Abhay Kumar apresentou suas credenciais a Aliyev e discutiu a ampliação da cooperação bilateral.
- 23 de outubro de 2026: Jaishankar se reuniu com Aliyev e Bayramov em Baku.
O gabinete de Aliyev informou que o presidente valorizou a visita, realizada por determinação de Modi. A presidência defendeu mais contatos políticos e visitas mútuas, com cooperação em tecnologia, cultura, assuntos humanitários e organizações internacionais.
Comércio pode crescer para além do petróleo
A Índia exportou US$ 226 milhões em mercadorias para o Azerbaijão em 2025 e importou US$ 175 milhões, totalizando US$ 401 milhões em comércio, segundo dados oficiais indianos. Esses números resultaram em um superávit comercial de US$ 51 milhões para a Índia, ou seja, o país vendeu esse valor a mais ao Azerbaijão do que comprou.
Bayramov disse que o comércio chegou a aproximadamente US$ 600 milhões em 2026; também afirmou que o valor correspondia ao primeiro semestre do ano. Isso representa cerca de US$ 199 milhões, ou aproximadamente 50%, acima do total de todo o ano de 2025. Ainda assim, Bayramov afirmou que o comércio permanece abaixo do potencial das duas economias.
O setor de energia é o principal vínculo de investimento já estabelecido. A ONGC Videsh, braço de investimentos no exterior da estatal indiana Oil and Natural Gas Corporation, investiu cerca de US$ 1,2 bilhão nos campos de Azeri-Chirag-Gunashli e no oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, associado a eles. O oleoduto transporta petróleo do Azerbaijão, passando pela Geórgia, até a Turquia.
Bayramov disse que a ONGC aumentou sua participação em um importante projeto de petróleo e gás do Azerbaijão. Mais de 1.000 empresas indianas operam no país, oferecendo aos dois governos uma comunidade empresarial já estabelecida para buscar novos investimentos.
Produtos farmacêuticos, serviços digitais, mineração e agricultura foram apontados como possíveis áreas de expansão. Os ministros concordaram em trocar delegações comerciais para que as empresas possam explorar oportunidades diretamente. O desafio é ampliar uma relação em que o petróleo bruto já representa uma parcela substancial das importações indianas provenientes do Azerbaijão.
Rotas de transporte conectam a agenda empresarial
O Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul foi um dos temas centrais das conversas. Com uma extensão descrita como sendo de 7.200 quilômetros, a rede pretende transportar cargas entre Índia, Irã, região do Cáspio, Rússia e outros mercados, combinando navios, ferrovias e rodovias.
Um corredor de transporte é uma rota integrada, não uma única estrada ou ferrovia. Sua eficácia depende da fluidez do transporte de cargas entre diferentes modais e através das fronteiras. Índia e Azerbaijão têm interesse em coordenar sua participação.
Jaishankar, ministro das Relações Exteriores da Índia, disse que os dois governos concordaram em trabalhar mais estreitamente no corredor:
Nós dois investimos no Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul; ele é muito importante para nós. Concordamos hoje que vamos coordenar nossas ações mais de perto nesse sentido.
O Ministério das Relações Exteriores do Azerbaijão informou que as conversas também abordaram as conexões de transporte do país entre leste e oeste, a ferrovia Baku-Tbilisi-Kars, o Porto de Baku e a Zona Econômica Livre de Alat. Em conjunto, essas estruturas fazem parte da proposta de Baku de se tornar um ponto de conexão entre empresas e mercados em várias direções.
A discussão aproximou a demanda indiana por maior acesso a mercados das ambições do Azerbaijão de se consolidar como centro de trânsito. Os investimentos em energia dão à relação uma base comercial já estabelecida; a cooperação em transporte oferece um caminho para apoiar uma gama mais ampla de comércio.
Voos, estudantes e filmes ampliam a relação
O Azerbaijão recebeu 166.944 visitantes da Índia em 2025, tornando o país a quarta maior origem de turistas, atrás de Rússia, Turquia e Irã. O turismo dá às companhias aéreas, hotéis, restaurantes e empresas do setor um interesse direto na estabilidade das relações.
Jaishankar disse que já há voos diários e que os dois lados devem avaliar como ampliar as conexões aéreas. Bayramov mencionou duas rotas de voos diretos entre Baku e Nova Délhi. Os ministros discutiram voos adicionais como parte dos esforços mais amplos para ampliar as viagens e os intercâmbios comerciais.
Educação e produção cinematográfica são outros pontos de conexão. Bayramov disse que aproximadamente 500 estudantes indianos ingressaram em instituições de ensino superior do Azerbaijão em 2026. Também afirmou que mais de 30 produções cinematográficas indianas usaram locações no Azerbaijão nos últimos anos.
Jaishankar propôs retomar e ampliar a participação do Azerbaijão no programa indiano de Cooperação Técnica e Econômica. Conhecido como ITEC, o programa oferece treinamento e intercâmbios profissionais a participantes de países parceiros. A proposta acrescenta uma dimensão prática de capacitação às conversas, que também trataram de educação, ciência e cultura.
Durante a visita, Jaishankar foi ao histórico templo do fogo de Ateshgah, em Baku. Ele o descreveu como “um símbolo da conexão histórica e cultural entre nossos dois povos”. A visita relacionou a agenda diplomática a um local associado aos antigos vínculos culturais entre os países.
Esforços de paz entre Armênia e Azerbaijão estiveram na pauta
Jaishankar saudou o acordo de paz firmado entre Azerbaijão e Armênia em agosto de 2025 e expressou a esperança de que ele traga uma paz duradoura. Disse que a Índia acompanha de perto os acontecimentos no Cáucaso do Sul e apoia a resolução de disputas por meio do diálogo e da diplomacia.
A relação da Índia com a Armênia torna essa posição particularmente relevante para seu diálogo com o Azerbaijão. O avanço da paz entre os dois países vizinhos oferece a Nova Délhi e Baku um objetivo regional comum, além das diferentes parcerias de cada um.
Bayramov informou Jaishankar sobre o processo de normalização e as medidas destinadas a fortalecer a confiança entre Armênia e Azerbaijão. Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Azerbaijão, as conversas também abordaram a reconstrução dos territórios que voltaram ao controle azeri e a ameaça persistente das minas terrestres.
A reconstrução e a remoção de minas dão uma dimensão humana imediata ao processo de paz. Para as comunidades afetadas pelo conflito, segurança também significa poder viajar sem riscos, reconstruir casas e usar a terra sem encontrar explosivos deixados para trás.
Ajuda em evacuação foi um exemplo concreto de cooperação
Jaishankar agradeceu ao Azerbaijão pela ajuda na evacuação de cidadãos indianos, especialmente estudantes, do Irã durante um conflito ocorrido no início de 2026. A assistência foi prestada em meio a tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
O ministro indiano também agradeceu ao Azerbaijão por acolher estudantes indianos que estudam no país. Suas declarações destacaram uma forma de cooperação com consequências diretas para famílias: ajudar cidadãos a deixar um país vizinho durante uma crise e dar apoio a quem vive no exterior.
A segurança também foi discutida em termos mais amplos. Randhir Jaiswal, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, confirmou que terrorismo e ameaças comuns foram temas das reuniões. Em resposta a uma pergunta sobre terrorismo transfronteiriço, Jaiswal disse:
Foram discutidos temas de segurança, terrorismo e as ameaças comuns que enfrentamos.
Jaiswal disse que os dois governos concordaram em cooperar em prol da paz, da prosperidade, da segurança e do enfrentamento de desafios comuns. As declarações colocaram esses temas ao lado da agenda econômica, refletindo o esforço para manter divergências de segurança dentro de uma relação diplomática ativa.
Próximos passos dos dois governos
Jaishankar convidou Bayramov a visitar a Índia, e os dois lados concordaram em aprofundar as consultas políticas, organizar visitas empresariais e buscar cooperação em energia e transporte. Não foi anunciada uma data para a visita de Bayramov nem para voos adicionais e delegações comerciais.
Os ministros também discutiram a cooperação por meio das Nações Unidas, da OCX e da Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia, conhecida como CICA. Jaishankar saudou a liderança do Azerbaijão na CICA, cuja recente cúpula em Baku contou com a presença de Kirti Vardhan Singh.
O gabinete de Aliyev descreveu Índia e Azerbaijão como membros do Sul Global, expressão ampla comumente usada para economias em desenvolvimento e emergentes. Segundo o gabinete, os países compartilham posições sobre diversas questões internacionais que afetam essas nações.
Jaishankar relacionou essa discussão aos custos cotidianos dos conflitos. Os ministros analisaram acontecimentos no Oriente Médio, na Europa e na Eurásia, incluindo a guerra entre Rússia e Ucrânia, e avaliaram as pressões sobre alimentos, combustíveis, fertilizantes e financiamento. Esses fatores afetam desde as contas domésticas de supermercado e energia até os custos dos agricultores e as necessidades de financiamento dos governos.
O teste prático da reaproximação será saber se a retomada dos contatos resulta nos intercâmbios anunciados pelos ministros: consultas mais regulares, visitas empresariais, coordenação mais estreita em transporte e cooperação mais ampla para além do petróleo. Os investimentos existentes e os vínculos com turistas e estudantes dão aos dois governos interesses concretos para desenvolver.
Pontos principais
- Jaishankar se reuniu com Aliyev e Bayramov em Baku em 23 de outubro de 2026, na primeira visita bilateral de um chanceler indiano ao país em oito anos.
- A visita ocorreu após tensões relacionadas ao apoio do Azerbaijão ao Paquistão durante o conflito com a Índia, em maio de 2025.
- Mais de 1.000 empresas indianas operam no Azerbaijão, e a ONGC Videsh investiu cerca de US$ 1,2 bilhão em ativos de energia.
- O comércio totalizou US$ 401 milhões em 2025; Bayramov estimou o valor de 2026 em aproximadamente US$ 600 milhões.
- Os ministros concordaram em intensificar a coordenação em transporte, organizar delegações comerciais e ampliar as consultas políticas, além de discutir mais voos.
- A Índia saudou os esforços de paz entre Armênia e Azerbaijão e agradeceu a Baku pela ajuda na evacuação de cidadãos indianos do Irã.
- Bayramov foi convidado a visitar a Índia, mas a data ainda não foi anunciada.






