Três anos após a retomada das deportações em massa, famílias ainda aguardam respostas
Muitos norte-coreanos deportados à força da China continuam sem paradeiro conhecido três anos após a retomada das repatriações em massa, alertaram especialistas independentes em direitos humanos das Nações Unidas em 21 de outubro de 2026. Eles instaram Pequim a parar de enviar pessoas para situações de perigo e cobraram de Pyongyang informações sobre o paradeiro dos deportados e medidas para protegê-los.
Conteúdo
- Três anos após a retomada das deportações em massa, famílias ainda aguardam respostas
- Como as deportações foram retomadas
- O que os números revelam
- Por que a China deve avaliar os riscos da deportação
- O caso de Kim Cheol-ok dá um rosto familiar aos números
- Relatos de execuções ampliam a preocupação
- Mulheres enfrentam perigos dos dois lados da fronteira
- Vigilância dificulta a fuga
- Um alerta repetido desde 2014
- Principais pontos
O alerta inclui o caso de Kim Cheol-ok, que viveu na China por cerca de 25 anos antes de ser detida pelas autoridades chinesas em abril de 2023, sem acesso a um advogado, e deportada à força naquele outubro. Seu destino e paradeiro continuam desconhecidos. O Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária concluiu que sua detenção pela China e pela Coreia do Norte foi arbitrária, ou seja, não tinha fundamento jurídico válido ou violou garantias fundamentais.
A declaração de outubro de 2026 dos especialistas, publicada pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU, descreve os obstáculos persistentes para localizar pessoas devolvidas à República Popular Democrática da Coreia, nome oficial da Coreia do Norte. A ausência de monitoramento independente nos dois países impede que as famílias obtenham informações confiáveis.
Entre os signatários estão Elizabeth Salmón, relatora especial sobre direitos humanos na Coreia do Norte, e Grażyna Baranowska, presidente do Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários. Junto com especialistas em tortura, execuções, tráfico de pessoas e discriminação contra mulheres, elas descreveram os riscos enfrentados por pessoas cujo paradeiro é mantido em segredo.
"Enquanto seu destino e paradeiro permanecerem desconhecidos, os deportados ficarão privados de garantias essenciais contra desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias, execuções, tortura, trabalho forçado, violência sexual e de gênero e outras graves violações dos direitos humanos", disseram os especialistas.
Como as deportações foram retomadas
A Coreia do Norte reabriu sua fronteira em agosto de 2023, após as restrições impostas durante a pandemia de COVID-19. Posteriormente, grandes grupos de norte-coreanos detidos na China foram enviados de volta, incluindo centenas de pessoas transportadas pela fronteira em 9 de outubro.
Stephen Kim, missionário clandestino sul-coreano com amplos contatos na China e na Coreia do Norte, descreveu comboios de veículos que passaram por cinco postos fronteiriços naquela noite. Segundo relatos, alguns detidos convenceram guardas chineses a telefonar para parentes na Coreia do Sul antes de serem removidos.
A sequência mostra como a reabertura mudou a situação das pessoas que já estavam sob custódia chinesa:
- Julho de 2021: quase 50 norte-coreanos foram deportados à força da China.
- 29 de agosto e 18 de setembro de 2023: novas deportações envolveram 80 e 40 pessoas, respectivamente.
- 9 de outubro de 2023: centenas de pessoas foram transportadas para a Coreia do Norte em uma operação em massa.
- 6 de novembro de 2024: sete especialistas da ONU pediram informações à Coreia do Norte sobre relatos de execuções e penas de prisão perpétua impostas a mulheres deportadas.
- 15 de outubro de 2025: a Human Rights Watch documentou pelo menos 406 deportações forçadas desde o início de 2024.
- 21 de outubro de 2026: especialistas da ONU renovaram o pedido de informações sobre os deportados desaparecidos e de proteção para quem ainda está em risco.
O que os números revelam
As conclusões de outubro de 2025 da Human Rights Watch estimam em pelo menos 1.076 o número de deportações forçadas desde 2020. A organização baseou sua contagem de 406 deportações desde 2024 em informações de uma fonte identificada pelo pseudônimo Stephen Kim, cuja rede, segundo a entidade, considera confiável há muito tempo. Não havia dados oficiais disponíveis sobre o total de detenções e deportações.
Entre os casos documentados estavam 108 trabalhadores no exterior devolvidos de Helong, na província de Jilin, em janeiro de 2024; 60 pessoas devolvidas das províncias de Jilin e Liaoning naquele abril; e 212 mulheres vítimas de tráfico devolvidas durante 2024. Essas mulheres haviam sido detidas em Kunming, em Yunnan; Nanning, em Guangxi; e Pinxiang, em Jiangxi.
As 212 mulheres vítimas de tráfico representam pouco mais da metade das 406 deportações documentadas desde 2024. Esse número mostra como a política de repatriação está estreitamente ligada ao tratamento dado às vítimas de tráfico.
A Comissão Executiva do Congresso dos Estados Unidos sobre a China, ou CECC, registrou até 600 deportações em outubro de 2023. Sua análise também citou mais de 200 pessoas devolvidas de um centro de detenção de Jilin em abril de 2024, além da estimativa da Human Rights Watch de cerca de 60 deportações de Jilin e Liaoning naquele mês. As estimativas se baseiam em relatos documentados diferentes, e não há um registro oficial público que permita conciliá-las.
Por que a China deve avaliar os riscos da deportação
A China classifica rotineiramente norte-coreanos sem documentos como migrantes econômicos ilegais e os devolve com base em acordos bilaterais de fronteira. Os especialistas da ONU afirmam que toda pessoa em risco precisa ter acesso a um procedimento justo que avalie se a devolução a exporia a graves abusos.
O artigo 33(1) da Convenção sobre Refugiados de 1951 estabelece o princípio da não devolução, ou non-refoulement: um refugiado não deve ser enviado a um território onde sua vida ou liberdade estejam ameaçadas por motivos específicos, entre eles opinião política ou religião. A Convenção contra a Tortura proíbe, separadamente, a devolução de qualquer pessoa quando houver razões substanciais para acreditar que ela seria submetida a tortura. A China é signatária dos dois tratados.
O motivo pelo qual alguém deixou a Coreia do Norte inicialmente é apenas parte dessa avaliação. Uma pessoa que saiu em busca de comida ou trabalho pode depois ser perseguida porque as autoridades consideram sua saída, suas atividades no exterior ou sua tentativa de chegar à Coreia do Sul uma infração política. A expressão refugiado sur place descreve alguém que se torna refugiado devido a circunstâncias surgidas após sua partida.
A declaração de outubro de 2026 aborda diretamente esse ponto. Salmón, Baranowska e os demais signatários afirmaram que a ausência de documentos de imigração não elimina a obrigação de proteção.
"A situação migratória irregular não reduz a obrigação de respeitar o princípio da não devolução", disseram os especialistas.
Uma pesquisa do Centro de Dados sobre Direitos Humanos da Coreia do Norte, ou NKDB, constatou que as autoridades chinesas classificam sistematicamente os fugitivos como migrantes econômicos ilegais, sem realizar procedimentos para determinar a condição de refugiado nem permitir a revisão dessa classificação. Esses procedimentos dariam às pessoas a oportunidade de explicar o perigo que enfrentam antes de serem removidas.
O caso de Kim Cheol-ok dá um rosto familiar aos números
Kim Cheol-ok fugiu da Coreia do Norte durante a fome da década de 1990 e, segundo relatos, foi vítima de tráfico para a China ainda criança. De acordo com os especialistas da ONU, ela foi obrigada a se casar aos 14 anos e submetida à violência sexual e a uma gravidez forçada.
Cerca de 25 anos na China lhe trouxeram vínculos familiares, mas nenhum status migratório seguro. Os especialistas disseram que ela sofreu assédio e restrições antes de ser detida em abril de 2023 e devolvida seis meses depois. O Grupo de Trabalho para a Justiça de Transição fez campanha por seus direitos por meio de uma petição ao Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária.
Sua irmã, Kim Kyu-li, que vive em Londres, pediu aos governos que ajudem a localizá-la e a encontrar outras pessoas. A análise das repatriações da CECC registra seu apelo por informações e por ação internacional.
Há centenas de norte-coreanos como minha irmã detidos em algumas prisões daquele país (China). Os Estados Unidos, o Reino Unido e outras nações deveriam se manifestar para pedir à Coreia do Norte e à China que os libertem e nos digam onde mantêm nossos entes queridos.
A necessidade imediata da família é concreta: confirmar onde Kim está, o que aconteceu com ela e se pode se comunicar com os parentes. O pedido dos especialistas para que a Coreia do Norte informe o destino e o paradeiro dos deportados atende a essa mesma necessidade de muitas famílias.
Relatos de execuções ampliam a preocupação
Em 6 de novembro de 2024, sete especialistas da ONU escreveram à Coreia do Norte pedindo informações sobre duas mulheres, de 43 e 39 anos, supostamente executadas após serem devolvidas da China em outubro de 2023. Outras nove mulheres teriam recebido penas de prisão perpétua e desaparecido posteriormente.
A comunicação descreveu um julgamento público em Chongjin em 31 de agosto de 2024, seguido de execuções naquele mesmo dia. A análise da CECC indica 31 de agosto de 2023 como a data das execuções, anterior à data de devolução informada para as mulheres; a comunicação da ONU situa os fatos em 2024.
As acusações relatadas incluíam ajudar fugitivos norte-coreanos a chegar à Coreia do Sul, administrar um estabelecimento de entretenimento adulto, prostituição e insultar a dignidade do povo. Os especialistas afirmaram que as supostas infrações não se enquadravam no padrão internacional que limita a pena capital aos crimes mais graves e que as mulheres não tiveram oportunidade de recorrer antes da execução.
A Human Rights Watch afirmou, em outubro de 2025, que nenhum dos dois governos havia respondido, segundo relatos, à comunicação de novembro de 2024. A CECC também registrou sete mortes relatadas entre pessoas devolvidas em outubro de 2023, associadas a graves abusos sob custódia norte-coreana, incluindo pelo menos um suposto suicídio.
Os especialistas pediram à Coreia do Norte que trate possíveis vítimas de tráfico como pessoas que precisam de proteção. Para mulheres que já sofreram coerção na China, interrogatórios e punições após a devolução podem prolongar uma cadeia de abusos para além da fronteira.
Mulheres enfrentam perigos dos dois lados da fronteira
Mulheres norte-coreanas na China podem ser vítimas de tráfico, casamento forçado e exploração sexual e, ao mesmo tempo, temer a deportação. A Human Rights Watch documentou que 20 das 22 mulheres detidas na Mongólia Interior foram devolvidas à força entre dezembro de 2024 e julho de 2025. As outras duas, ambas grávidas e vítimas de tráfico, foram enviadas para as casas dos homens chineses a quem haviam sido vendidas.
Mais de 100 mulheres norte-coreanas estavam detidas em centros no sul da China em julho de 2025. Elas tinham filhos, haviam sido vítimas de tráfico em casamentos forçados e tentavam chegar a um terceiro país seguro. A Human Rights Watch afirmou que pelo menos 28 foram posteriormente devolvidas aos homens na China.
A falta de documentos também restringe a sobrevivência cotidiana. A CECC documentou mulheres excluídas de serviços médicos e de vacinas contra a COVID-19. A comissão citou uma declaração escrita do pesquisador Lee Sang Yong sobre oito mulheres norte-coreanas que morreram durante as enchentes em Huludao, Liaoning, em agosto de 2024. Segundo a declaração, as mortes foram omitidas do balanço oficial porque elas não tinham status legal.
Mulheres devolvidas durante a gravidez enfrentam riscos específicos na Coreia do Norte. A Comissão de Inquérito da ONU de 2014 documentou abortos forçados e infanticídios envolvendo mulheres grávidas de homens chineses. As conclusões da Human Rights Watch de 2025 citaram ex-funcionários norte-coreanos que descreveram o tratamento especialmente severo dado a mulheres que engravidaram em condições coercitivas na China.
Vigilância dificulta a fuga
Uma pesquisa do NKDB descreve a cooperação entre órgãos chineses e norte-coreanos de segurança pública, assuntos internos, segurança estatal e forças militares por meio de sucessivos acordos bilaterais que remontam à década de 1950. Um estudo complementar descreve o cadastro biométrico e a vigilância digital usados para localizar e controlar norte-coreanos que permanecem na China.
Segundo a CECC, autorizações de residência temporária permitem que algumas mulheres tenham acesso limitado a empregos locais e ao transporte, mas exigem que se registrem na polícia. Depoimentos reunidos pelo NKDB descrevem a obrigação de se apresentar às autoridades locais de segurança pública uma ou duas vezes por mês, além da vigilância contínua com base nas informações pessoais registradas.
A CECC também registrou o depoimento de uma mulher identificada como Sra. B sobre uma amiga que, após se registrar para obter uma autorização, foi obrigada a usar um dispositivo de monitoramento semelhante a uma pulseira. Outras medidas incluíam câmeras, cercas adicionais e recompensas a informantes. Uma faixa fotografada em outubro de 2023 em Longjing, Jilin, oferecia de 2 mil a 20 mil yuans por denúncias sobre pessoas que atravessassem ilegalmente a fronteira.
Segundo o NKDB, antes da pandemia, os intermediários cobravam 20 milhões de won por pessoa para organizar uma fuga; no início de 2023, a taxa havia chegado a 50 milhões de won. Isso representa duas vezes e meia o preço anterior. Assim, quem busca segurança enfrenta tanto uma chance maior de ser detectado quanto um custo financeiro muito mais alto.
Um alerta repetido desde 2014
A Comissão de Inquérito da ONU divulgou suas conclusões em 17 de fevereiro de 2014. A comissão concluiu que a Coreia do Norte cometia violações sistemáticas, generalizadas e graves dos direitos humanos, muitas delas equivalentes a crimes contra a humanidade.
A análise de março de 2014 da CECC explica que a investigação também examinou as operações de detenção da China, as restrições ao acesso a embaixadas estrangeiras e ao Alto Comissariado da ONU para Refugiados, além de relatos de abusos físicos e sexuais. A investigação alertou que compartilhar informações sobre fugitivos com as autoridades norte-coreanas poderia configurar cumplicidade em crimes contra a humanidade.
A China rejeitou as críticas. Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, descreveu os norte-coreanos que entram ilegalmente na China como pessoas que cruzam a fronteira de forma ilegal, e não como refugiados. Pequim manteve sua oposição ao fim das deportações forçadas durante a Revisão Periódica Universal de 2024, processo da ONU no qual os governos avaliam os históricos de direitos humanos uns dos outros.
Os especialistas de 2026 pedem mudanças práticas: avaliações das necessidades de proteção antes da remoção, fim das deportações para situações de grave perigo e divulgação, pela Coreia do Norte, do paradeiro e das condições dos deportados. Lina Yoon, pesquisadora sênior sobre as Coreias na Human Rights Watch, também pediu acesso do Alto Comissariado da ONU para Refugiados e a publicação de dados sobre detenções e deportações.
Essas medidas dariam às pessoas a oportunidade de pedir proteção antes de cruzar a fronteira e permitiriam às famílias localizar parentes depois. Para a família de Kim Cheol-ok e outras que ainda aguardam, saber onde está um ente querido continua sendo a necessidade mais urgente.
Principais pontos
- Especialistas da ONU alertaram em 21 de outubro de 2026 que muitos norte-coreanos deportados à força da China continuam sem paradeiro conhecido.
- Kim Cheol-ok foi devolvida em outubro de 2023, após cerca de 25 anos na China; seu destino e paradeiro continuam desconhecidos.
- A Human Rights Watch documentou pelo menos 1.076 deportações forçadas desde 2020, incluindo 406 desde o início de 2024.
- Especialistas da ONU pediram respostas sobre duas execuções relatadas e nove penas de prisão perpétua envolvendo mulheres devolvidas.
- Tráfico de pessoas, casamento forçado, vigilância e falta de status legal deixam as mulheres norte-coreanas especialmente vulneráveis.
- Os especialistas pediram à China que avalie as necessidades de proteção e pare de devolver pessoas a situações de perigo, e à Coreia do Norte que localize e proteja os deportados.






