Exportações aceleram enquanto o mercado automotivo chinês desacelera
A China exportou 8,63 milhões de veículos nos primeiros nove meses de 2026, alta de 52% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados divulgados em 23 de outubro por Cui Dongshu, secretário-geral da Associação Chinesa de Automóveis de Passeio. As exportações de veículos renderam US$ 149,8 bilhões, um aumento de 54%, à medida que as montadoras venderam mais carros no exterior enquanto enfrentavam a queda da demanda interna.
Conteúdo
- Exportações aceleram enquanto o mercado automotivo chinês desacelera
- Por que os números de exportação precisam vir identificados
- Veículos elétricos e híbridos impulsionam a mudança
- Mais veículos geram mais receita, mas o lucro continua apertado
- Crescimento no exterior amortece a fraqueza do mercado interno
- Brasil e mercados asiáticos ampliam a base de clientes
- O salto das exportações chega às empresas de transporte marítimo
- Impostos e restrições comerciais moldam a próxima etapa
- O que as projeções para o fim do ano exigem
- Principais pontos
As exportações de setembro chegaram a 1,182 milhão de veículos, alta de 55% em relação a setembro de 2025 e de 13% ante agosto. O valor subiu 62%, para US$ 20,8 bilhões. Cui projetou exportações de 12 milhões de veículos no ano, com receitas de exportação de veículos acima de US$ 200 bilhões e receitas de veículos de nova energia acima de US$ 110 bilhões.
A análise do mercado de setembro da associação, publicada em 12 de outubro pelo ramo de veículos de passeio da Associação Chinesa de Concessionárias de Automóveis, identifica três principais fatores: preços elevados do petróleo, produtos chineses mais competitivos e crescimento contínuo nos mercados do Sul Global. O termo descreve, de modo amplo, economias em desenvolvimento, incluindo importantes destinos na América Latina, na Ásia e na África.
O salto das exportações está mudando a forma como as montadoras sustentam seus negócios. As exportações de veículos de passeio representaram 36% das vendas das fabricantes em setembro, ante 19% um ano antes, segundo a análise oficial. Agora, clientes no exterior respondem por mais de um em cada três veículos vendidos pelas fabricantes nessa série.
No mercado interno, as vendas no varejo de veículos de passeio caíram 28%, para 1,618 milhão em setembro. As montadoras estão buscando cada vez mais no exterior as vendas e a renda que o mercado doméstico chinês tem dificuldade para proporcionar.
Por que os números de exportação precisam vir identificados
O total de 8,63 milhões de veículos de Cui de janeiro a setembro, alta de 52%, é acompanhado por uma medida diferente do setor: a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, ou CAAM, registrou 8,205 milhões de exportações, alta de 65,8%. Em setembro, o número de Cui foi de 1,182 milhão, alta de 55%, enquanto a CAAM contabilizou 1,053 milhão, alta de 61,4%.
Os números de veículos de passeio também vêm de séries estatísticas distintas. A análise oficial da associação de veículos de passeio contabilizou 917 mil exportações em setembro, alta de 73,7%, incluindo veículos completos e kits completamente desmontados, conhecidos como CKD. Esses kits contêm peças de veículos enviadas ao exterior para montagem. A série de veículos de passeio da CAAM registrou cerca de 919 mil exportações, alta de 64%, e mais de 7,1 milhões nos primeiros nove meses, alta superior a 70%.
As associações medem diferentes segmentos do setor, e a associação de veículos de passeio inclui explicitamente os embarques CKD. Não foi apresentada uma conciliação completa dos totais mais amplos. Manter cada número associado à sua organização e categoria de veículo oferece aos leitores um panorama útil: todas as séries mostram forte crescimento das exportações, embora os totais e as taxas de crescimento variem.
As principais datas mostram a rapidez com que a expansão ocorreu:
- Janeiro a agosto de 2026: a análise oficial da associação de veículos de passeio registrou exportações totais de 7,45 milhões de veículos, alta de 51%.
- Setembro de 2026: a série de Cui chegou a 1,182 milhão de exportações no mês, enquanto a CAAM informou que as exportações mensais haviam superado 1 milhão por quatro meses consecutivos.
- 12 de outubro de 2026: a associação de veículos de passeio publicou sua análise do mercado de setembro; as autoridades fiscais e financeiras também anunciaram uma futura redução do incentivo fiscal às exportações.
- 23 de outubro de 2026: Cui divulgou os números de exportação dos nove meses e projetou 12 milhões de exportações no ano.
- 1º de abril de 2027: está prevista a entrada em vigor da redução do incentivo de IVA à exportação de veículos de nova energia.
Veículos elétricos e híbridos impulsionam a mudança
Os veículos de nova energia, ou NEVs, estão crescendo mais rápido do que as exportações totais de veículos. A categoria inclui veículos totalmente elétricos e híbridos que podem ser conectados à tomada para recarga. Os híbridos convencionais, que não podem ser recarregados por uma fonte externa de energia, são contabilizados separadamente.
Os números de Cui apontam 612 mil exportações de NEVs em setembro, alta de 104% em relação ao ano anterior e de 23% ante agosto. O total de janeiro a setembro chegou a 4,07 milhões, alta de 75%. Os números correspondentes da CAAM foram 571 mil em setembro, alta de 160%, e 4,006 milhões em nove meses.
A série oficial de veículos de passeio oferece uma visão mais detalhada da mudança na composição dos produtos. As fabricantes exportaram 558 mil veículos de passeio de nova energia em setembro, alta de 163,5%, e 3,887 milhões nos primeiros nove meses, alta de 138,8%. Os NEVs responderam por 60,8% das exportações de veículos de passeio em setembro, aumento de 21 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Os veículos a bateria representaram 60,5% das exportações de NEVs em setembro. Os híbridos plug-in corresponderam a 34,2%, enquanto os veículos com extensor de autonomia responderam por 5,3%. Um extensor de autonomia usa um motor a combustão para gerar eletricidade, enquanto um motor elétrico move as rodas.
Marcas chinesas exportaram 812 mil veículos de passeio em setembro, alta de 75%, ante 105 mil de marcas de joint ventures e de luxo, alta de 62%. A BYD liderou as exportadoras de NEVs listadas, com 175.877 veículos, seguida pela Chery, com 85.990, e pela Geely, com 72.893. A Tesla China exportou 30.529.
Mais veículos geram mais receita, mas o lucro continua apertado
As receitas de exportação de veículos cresceram um pouco mais rápido do que o número de unidades embarcadas nos primeiros nove meses: 54% contra 52%. Dividir US$ 149,8 bilhões por 8,63 milhões de veículos resulta em um valor médio de exportação de cerca de US$ 17.358 por veículo. Com base nas taxas de crescimento informadas, essa média subiu aproximadamente 1,3% em relação ao ano anterior.
Em setembro, a diferença foi maior. O valor das exportações aumentou 62%, enquanto o volume cresceu 55%, o que sugere uma alta de cerca de 4,5% no valor médio por veículo. Mudanças na composição dos modelos, incluindo mais NEVs e veículos mais caros, ajudaram a elevar as receitas.
Os fornecedores de peças também se beneficiaram. As exportações de componentes automotivos chegaram a US$ 79,6 bilhões de janeiro a setembro, alta de 10%. As exportações de componentes em setembro somaram US$ 9,77 bilhões, alta de 24% em relação ao ano anterior e de 7% ante agosto, após uma retração em julho e agosto.
Mesmo assim, as fabricantes chinesas enfrentam margens de lucro estreitas. A análise oficial estima a receita do setor automotivo entre janeiro e agosto em 7,0062 trilhões de yuans e o lucro em 253,4 bilhões de yuans, queda de 16%. A margem operacional foi de 3,6%, ante 4,1% em 2025 e 4,3% em 2024. Uma margem de 3,6% significa cerca de 3,6 yuans de lucro operacional para cada 100 yuans de receita.
Os custos mais altos de materiais e componentes eletrônicos pressionam as fabricantes ao mesmo tempo que a fraca demanda doméstica limita seu poder de definir preços. A receita de exportação cresce rapidamente, mas as empresas ainda têm pouca margem para absorver custos adicionais.
Crescimento no exterior amortece a fraqueza do mercado interno
A CAAM registrou vendas totais de veículos de 2,956 milhões em setembro, queda de 8,4% em relação ao ano anterior, e produção de 2,99 milhões, baixa de 8,7%. Nos primeiros nove meses, as vendas chegaram a 23,271 milhões e a produção, a 23,246 milhões, ambas com queda de 4,5%.
Chen Shihua, secretário-geral adjunto da CAAM, afirmou que as vendas internas continuavam fracas e esperava que o cenário desfavorável persistisse nos próximos meses. A medida mais restrita de vendas no varejo da associação de veículos de passeio mostrou uma contração ainda mais acentuada: as vendas caíram 21,7%, para 13,334 milhões em nove meses.
A análise oficial associa a fraqueza de setembro a várias pressões específicas. Os prazos finais dos subsídios haviam estimulado compras em setembro de 2025, criando uma base de comparação elevada. O feriado do Festival do Meio do Outono reduziu a atividade de vendas no fim de setembro de 2026. Os preços mais altos da gasolina também pesaram sobre as compras de veículos com motor a combustão.
Os veículos de nova energia ganharam participação de mercado mesmo com a queda das vendas no varejo de veículos de passeio desse segmento no mercado interno. As vendas de NEVs no varejo em setembro caíram 16,7%, para 1,084 milhão, enquanto as vendas de veículos de passeio convencionais a combustão recuaram 43%, para 530 mil. Com isso, os NEVs chegaram a 67% das vendas no varejo de veículos de passeio, alta de 9,1 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
As exportações estão amortecendo essa contração. As vendas no atacado das fabricantes de veículos de passeio caíram 8,9% em setembro, bem menos do que a retração de 28% no varejo. As vendas no atacado medem as vendas das fabricantes a concessionárias e outros compradores, incluindo clientes no exterior; as vendas no varejo medem as compras dos consumidores.
Brasil e mercados asiáticos ampliam a base de clientes
A Rússia foi o maior destino de exportação de veículos da China de janeiro a agosto, recebendo 638.224 veículos, segundo a análise oficial. O Brasil veio em seguida, com 480.403, à frente do Reino Unido, com 365.672, da Austrália, com 326.938, da Bélgica, com 322.562, e do México, com 320.844.
O Brasil ficou em primeiro lugar nas exportações de NEVs nesses oito meses, recebendo 337.104 veículos, aumento de 207.158 em relação ao ano anterior. A Bélgica recebeu 307.357, o Reino Unido, 270.090, a Austrália, 237.140, as Filipinas, 188.170, e a Tailândia, 175.741.
Esses destinos mostram a amplitude da demanda. Os mercados em desenvolvimento estão proporcionando crescimento expressivo, enquanto destinos europeus e a Austrália continuam sendo grandes clientes. A análise oficial também registrou crescimento de apenas 2% nas vendas globais de veículos entre janeiro e agosto, ante 20% na Índia, 16% na Tailândia e 28% no Vietnã.
As fabricantes estão construindo redes de montagem, além de vender carros completos. Os embarques CKD representaram 41,9% das exportações da Great Wall Motor, 42,1% das da SAIC-GM-Wuling e 34,6% das da Leapmotor, segundo a análise oficial. Enviar kits para montagem no exterior oferece às empresas outra forma de atender clientes internacionais.
O salto das exportações chega às empresas de transporte marítimo
As empresas de transporte marítimo estão vendo uma demanda maior por navios projetados para transportar carros e caminhões. Viagens mais longas da China para a Europa e a América Latina mantêm os navios ocupados por mais dias, sobretudo quando as operadoras contornam o Cabo da Boa Esperança em vez de passar pelo Canal de Suez.
Uma avaliação do mercado de transporte marítimo de setembro estimou em cerca de US$ 95 mil a diária de afretamento de um navio com capacidade equivalente a 6.500 carros. Algumas operadoras chinesas haviam retomado a travessia pelo Canal de Suez, enquanto as principais operadoras europeias e japonesas continuavam preferindo a rota mais longa pelo Cabo.
Os exportadores também estão usando contêineres. Suportes especiais podem acomodar de dois a quatro carros de passeio dentro de um contêiner padrão de 40 pés, dependendo do tamanho dos veículos. A COSCO organizou três embarques desse tipo, transportando um total combinado de 13.052 veículos da China para a Europa durante 2026.
Os armadores encomendaram 82 novos navios para transporte de carros nos primeiros nove meses, ante nove durante todo o ano de 2025 e uma média anual de 35 na década anterior. Cerca de 64% da tonelagem encomendada tem entrega prevista a partir de 2028. Os exportadores enfrentam uma oferta limitada de navios agora, enquanto uma frota muito maior está prevista para chegar mais tarde.
Impostos e restrições comerciais moldam a próxima etapa
O Ministério das Finanças da China e a Administração Estatal de Tributação anunciaram em 12 de outubro que o incentivo de IVA à exportação de NEVs cairia de 13% para 9% em 1º de abril de 2027. IVA é o imposto sobre valor agregado, e o incentivo à exportação devolve parte dos impostos associados a produtos vendidos no exterior. Um incentivo menor altera o cálculo financeiro por trás dos preços de exportação e das margens.
O anúncio dá às fabricantes mais de seis meses para ajustar contratos, preços e acordos de fornecimento. Para empresas que já operam com margens estreitas, a mudança aumenta a importância de marcas mais fortes, custos controlados e produção mais próxima dos clientes no exterior.
As negociações comerciais com a Europa acrescentam outra incerteza. O comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, afirmou que as partes haviam chegado a um entendimento provisório em outubro. As descrições da proposta de limite anual concordam em 350 mil veículos, mas divergem quanto à abrangência: uma menciona veículos elétricos ou híbridos, enquanto outra especifica veículos convencionais e híbridos plug-in, com os veículos a bateria sujeitos a tarifas separadas.
O acordo proposto pode começar em dezembro de 2026, sujeito à implementação. Uma das descrições prevê aumentos anuais de 6% na cota durante quatro anos. A abrangência final e a data de início continuam indefinidas. A análise oficial da associação de veículos de passeio já prevê que a pressão no mercado da União Europeia desacelere o crescimento das exportações.
Xiao Feng, chefe de pesquisa de indústria e bens de capital da CITIC CLSA para Hong Kong e China, descreveu os limites políticos que as fabricantes enfrentam:
"Não dá para esperar que a BYD ou outras fabricantes exportem carros demais sem enfrentar tarifas ou reações dos governos estrangeiros",
A vice-presidente executiva da BYD, Stella Li, apontou a geopolítica como o maior desafio à expansão da empresa no exterior. Ela descreveu planos de produção na Tailândia, na Indonésia, no Brasil e na Hungria. Fabricar no exterior permite que as empresas abasteçam clientes a partir de fábricas locais, em vez de depender inteiramente de embarques da China.
O que as projeções para o fim do ano exigem
A projeção de Cui de 12 milhões de veículos exportados exigiria mais 3,37 milhões de embarques de outubro a dezembro. Isso equivale a cerca de 1,123 milhão por mês, um pouco abaixo do ritmo de 1,182 milhão de setembro. A CAAM espera que as exportações superem 10 milhões, enquanto a AlixPartners e alguns outros analistas também projetaram cerca de 10 milhões.
A projeção de receitas exige a continuidade de um ritmo semelhante ao recente. Para chegar a US$ 200 bilhões após os US$ 149,8 bilhões de nove meses, seriam necessários US$ 50,2 bilhões no último trimestre, ou cerca de US$ 16,7 bilhões por mês. O valor das exportações em setembro foi de US$ 20,8 bilhões.
Assim, as fabricantes chinesas chegam ao último trimestre com um forte ritmo de exportação, mas com a fraqueza do mercado interno, os custos de transporte marítimo e as restrições comerciais influenciando suas decisões. O aumento das vendas no exterior dá sustentação às fábricas e aos fornecedores. A próxima etapa envolve decidir quanto enviar da China, quanto montar no exterior e como proteger as margens diante da mudança nos incentivos fiscais.
Principais pontos
- Cui Dongshu estimou as exportações de veículos de janeiro a setembro de 2026 em 8,63 milhões, alta de 52%, com valor de exportação de US$ 149,8 bilhões.
- A CAAM registrou 8,205 milhões de exportações, alta de 65,8%, em uma série setorial separada.
- Os NEVs responderam por 60,8% das exportações de veículos de passeio em setembro, segundo a análise oficial da associação de veículos de passeio.
- As vendas no varejo de veículos de passeio no mercado interno caíram 28% em setembro, aumentando a dependência das fabricantes em relação aos clientes no exterior.
- Cui projetou 12 milhões de exportações em 2026; a CAAM espera mais de 10 milhões.
- Está prevista para 1º de abril de 2027 a redução do incentivo de IVA à exportação de NEVs, de 13% para 9%.






