Uma maneira diferente de medir o impulso tecnológico da China
O crescente protagonismo da China em veículos elétricos, energia renovável e inteligência artificial convive com um enigma empresarial: as empresas podem ampliar a produção e suas capacidades técnicas sem ganhar muito dinheiro. Angela Huyue Zhang, professora de direito na University of Southern California, e S. Alex Yang, professor de ciência da gestão e operações na London Business School, propõem uma explicação. Pequim governa a inovação menos como gestora de uma única empresa e mais como dona de uma vasta plataforma.
Conteúdo
- Uma maneira diferente de medir o impulso tecnológico da China
- O que faz um Estado se parecer com uma plataforma?
- Por que a força industrial pode coexistir com lucros fracos
- Direção central e um sistema fragmentado
- O difícil percurso do laboratório à fábrica
- Por que as fábricas continuam no centro
- Direito, IA e distribuição dos benefícios
- Como o argumento se desenvolveu
- O que o modelo muda para os leitores
- Pontos principais
O projeto conjunto dos dois, The Platform State, coloca no centro da análise a rede de empresas, pesquisadores e instituições. As empresas competem entre si, às vezes ferozmente, enquanto o Estado molda as condições em que operam. Os ganhos nacionais podem incluir cadeias de suprimentos mais robustas, tecnologias mais baratas e maior capacidade de manufatura, mesmo quando as empresas enfrentam dificuldades para obter lucro.
Zhang e Yang devem discutir esse modelo na University of Hong Kong em 18 de junho de 2026, das 11h ao meio-dia. O anúncio do evento do CCL da universidade descreve um Estado que controla o acesso ao ecossistema de inovação, define regras para os participantes e protege sua posição controlando a saída.
O argumento surge em um momento em que a tecnologia ocupa um lugar central no planejamento econômico da China. Em um comentário publicado em 27 de março de 2026, Zhang e Yang interpretaram as recém-concluídas Duas Sessões, reuniões anuais do Legislativo nacional da China e de seu órgão consultivo político, como um sinal de que a tecnologia seria o principal motor do futuro econômico do país.
Para empresas, trabalhadores e concorrentes estrangeiros, a questão central é como essas ambições nacionais se traduzem em decisões sobre investimentos, concorrência e distribuição dos ganhos.
O que faz um Estado se parecer com uma plataforma?
Uma plataforma comercial reúne diferentes participantes e define as condições de interação entre eles. Um mercado on-line, por exemplo, pode decidir quem vende, quais regras os vendedores devem seguir e como as transações funcionam. Zhang e Yang aplicam uma ideia organizacional semelhante à economia de inovação da China.
O modelo tem três princípios principais: coordenar o ecossistema em vez de se concentrar apenas na escolha de empresas vencedoras; exercer controle em conexões importantes entre os participantes e, ao mesmo tempo, usar a propriedade de forma seletiva; e expandir primeiro, capturando valor depois.
As empresas mantêm espaço para criar produtos, conquistar clientes e competir. Essa liberdade opera dentro de um sistema cujos pontos de acesso e regras continuam sujeitos à autoridade estatal. Portanto, o controle pode ir além das empresas que o governo possui diretamente.
Os pesquisadores descrevem como combinação particular da China uma forte capacidade estatal, um grande mercado interno e ampla margem para decidir como os benefícios da inovação serão distribuídos e utilizados. Um mercado amplo dá às empresas espaço para crescer, enquanto o poder administrativo oferece ao governo meios de orientar a rede como um todo.
O projeto muda a pergunta fundamental: em vez de saber se determinada empresa tem sucesso, importa saber se o ecossistema desenvolve capacidades que atendem aos objetivos nacionais. Isso altera a maneira de interpretar prejuízos, preços baixos e concorrência intensa.
Por que a força industrial pode coexistir com lucros fracos
Veículos elétricos e energia renovável têm destaque no resumo do evento em Hong Kong porque ilustram a tensão entre a expansão da força industrial e a difícil economia dos negócios. A China se tornou uma potência nesses setores, enquanto as empresas lutam para obter lucro.
O retorno financeiro de uma empresa e o retorno industrial de um país medem coisas diferentes. Uma empresa precisa de receita suficiente para cobrir custos e remunerar os investimentos. O governo também pode valorizar uma rede mais ampla de fornecedores, uma força de trabalho qualificada, maior capacidade produtiva e menor dependência de tecnologias estrangeiras.
No modelo de Zhang e Yang, a concorrência intensa pode ajudar a desenvolver essas capacidades e, ao mesmo tempo, manter estreitas as margens de lucro das empresas. Os ganhos se espalham entre clientes, fornecedores e o sistema industrial mais amplo, em vez de se concentrarem integralmente na empresa que desenvolve ou vende um produto.
O princípio de expandir antes de capturar valor ajuda a explicar a disposição de priorizar a escala. Também pressiona as empresas responsáveis por essa expansão: a produção e o avanço técnico podem crescer mais rápido do que os lucros. O modelo coloca essa tensão no centro da compreensão do sistema de inovação da China.
Direção central e um sistema fragmentado
O Instituto Mercator de Estudos sobre a China, ou MERICS, oferece uma comparação institucional útil. Seu relatório sobre inovação em todo o país, publicado em 5 de março de 2024, analisa o esforço da China para organizar pesquisa e indústria em torno de necessidades tecnológicas estratégicas.
O presidente Xi Jinping criou a Comissão Central de Ciência e Tecnologia em março de 2023 para supervisionar essa abordagem, e o Ministério da Ciência e Tecnologia foi reformulado como órgão de apoio. A iniciativa retoma esforços anteriores de mobilização nacional, mas opera em uma economia com um grande setor privado.
O MERICS descreve um sistema composto por iniciativas e plataformas que se sobrepõem parcialmente. Sua avaliação aponta falta de clareza pública sobre as prioridades tecnológicas e sobre quem é responsável por articular os esforços nacionais. Na época da publicação, o Plano de Médio e Longo Prazo para Ciência e Tecnologia, que abrangia o período de 2021 a 2035, ainda não havia sido divulgado.
O modelo de plataforma ajuda a explicar como a autoridade central pode coexistir com essa fragmentação. O Estado pode orientar as condições da concorrência e deixar muitas organizações buscarem projetos diferentes. O MERICS também aponta um limite prático: coordenar numerosas empresas, universidades, laboratórios e órgãos governamentais é difícil, mesmo com uma forte orientação política.
Os empreendedores privados da China continuam sendo centrais nessa análise. O MERICS destaca plataformas digitais, painéis solares, veículos elétricos e telecomunicações como áreas em que o empreendedorismo teve papel importante ao lado das políticas estatais.
O difícil percurso do laboratório à fábrica
Universidades e institutos de pesquisa podem fazer descobertas sem oferecer aos fabricantes algo que seja economicamente viável. O MERICS identifica essa separação entre o trabalho acadêmico e as necessidades industriais como o problema das "duas camadas".
Uma forma útil de entender essa lacuna é imaginar três etapas: descobrir uma ideia, transformá-la em um produto viável e produzi-lo de maneira confiável em grande escala. A China tem uma forte produção científica e considerável capacidade de ampliar a produção. Conectar uma invenção nacional a um processo industrial continua sendo um grande desafio.
Segundo o MERICS, as empresas chinesas muitas vezes evitam pesquisas básicas arriscadas, sobretudo em setores estratégicos, por considerarem que essa é uma responsabilidade do Estado. Enquanto isso, pesquisadores podem trabalhar em objetivos que não correspondem de perto às necessidades imediatas de fábricas e clientes.
Pequim criou diversos mecanismos para conectar os dois lados. O governo e a indústria podem divulgar desafios tecnológicos para que instituições de pesquisa encontrem soluções. Autoridades locais organizam associações de inovação que conectam empresas a universidades e laboratórios. Novos institutos de pesquisa mais voltados ao mercado buscam levar descobertas ao uso comercial, enquanto reformas nas regras de propriedade de patentes pretendem incentivar pesquisadores a se tornarem empreendedores.
O Congresso Nacional do Povo reconheceu a persistência dessa lacuna ao analisar a Lei de Progresso Científico e Tecnológico em outubro de 2023. A questão mostra por que governar um ecossistema de inovação envolve mais do que financiar empresas promissoras: as conexões entre as instituições precisam funcionar bem o bastante para levar uma invenção à produção.
Por que as fábricas continuam no centro
A estratégia industrial da China vai além das tecnologias mais recentes. O MERICS descreve como prioridade política a manutenção de uma base manufatureira completa, avançada e segura, que inclui setores tradicionais como siderurgia, carvão e construção naval.
Zheng Shanjie, diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, explicou a importância da manufatura tradicional em um trecho reproduzido no relatório do MERICS:
As indústrias tradicionais representam a maior parte da capacidade manufatureira da China.
O argumento de Zheng era que os setores consolidados deveriam ser modernizados, e não simplesmente deixados de lado. Essa abordagem conecta a pesquisa avançada a uma rede já existente de fábricas, fornecedores e trabalhadores industriais.
O MERICS cita cálculos de Cui Fan, professor da University of International Business and Economics, segundo os quais a participação da manufatura no produto interno bruto foi de 26,3% em 2020, após anos de queda. O relatório registra aumentos de 1,1% em 2021 e de 0,3% em 2022, acompanhados por uma elevação do endividamento.
O valor econômico dessa base industrial vai além de qualquer invenção específica. Segundo o MERICS, substituir a capacidade da China em produtos como painéis solares, insumos farmacêuticos ativos e equipamentos de telecomunicações representaria um grande desafio econômico para outros países. A China pode ganhar peso estratégico por meio do volume, do custo e da velocidade de produção.
Manter essa posição envolve concessões. Segundo o MERICS, o foco na produção industrial pode deixar outros objetivos em segundo plano, entre eles o aumento do consumo das famílias, a redução das emissões de carbono e a menor dependência dos mercados de exportação.
Direito, IA e distribuição dos benefícios
Zhang e Yang colocam o direito no centro do Estado-plataforma. As regras abrem espaço para experimentação e expansão, preservando a capacidade do governo de manter a ordem em todo o ecossistema de inovação.
O resumo do evento em Hong Kong aponta várias tensões que os pesquisadores pretendem analisar. A China restringe a internet doméstica enquanto promove a disseminação internacional de modelos de IA com componentes disponíveis publicamente. O país criou algumas das primeiras regulamentações para IA, mas sua aplicação tem sido limitada. Suas empresas de IA estão atrás dos principais laboratórios de fronteira, e suas avaliações de mercado são uma pequena fração das de suas equivalentes americanas.
O resumo não apresenta avaliações de empresas nem números comparáveis sobre a aplicação das regras. Portanto, esses exemplos permanecem como elementos qualitativos do argumento dos pesquisadores sobre o funcionamento do sistema.
A IA de código aberto pode permitir que outros desenvolvedores inspecionem, adaptem ou usem um modelo como base, dependendo de sua licença e dos componentes disponibilizados. Disseminar amplamente um modelo pode atender a um propósito diferente de cobrar de cada usuário pelo acesso. No modelo de plataforma, a difusão pode ampliar a rede de desenvolvedores e aplicativos ao redor.
Os trabalhadores também fazem parte dessa questão distributiva. O resumo do evento destaca a atenção do governo às pessoas deslocadas pela automação, ao mesmo tempo que aponta resistência a um Estado de bem-estar social. Se a inovação amplia a capacidade industrial enquanto as empresas lucram pouco e alguns trabalhadores perdem seus empregos, a forma como os benefícios chegam às famílias se torna uma escolha política central.
Como o argumento se desenvolveu
As mudanças institucionais e as pesquisas se estendem por vários anos. A sequência ajuda a distinguir os desdobramentos das políticas chinesas da tentativa posterior de explicá-los:
- Março de 2023: Xi cria a Comissão Central de Ciência e Tecnologia para supervisionar a nova abordagem à inovação nacional.
- 5 e 6 de setembro de 2023: A análise posteriormente publicada pelo MERICS é apresentada em uma conferência em Berlim sobre os ecossistemas de inovação e industriais da China.
- Outubro de 2023: Uma análise do Congresso Nacional do Povo sobre a Lei de Progresso Científico e Tecnológico identifica lacunas persistentes entre as instituições de produção de conhecimento e a indústria.
- 5 de março de 2024: O MERICS publica sua análise da coordenação da inovação nacional e da política industrial.
- 27 de março de 2026: Zhang e Yang publicam um comentário que relaciona o argumento do Estado-plataforma às prioridades econômicas sinalizadas pelas Duas Sessões.
- 18 de junho de 2026: A University of Hong Kong agenda uma discussão de Zhang e Yang sobre o modelo.
O evento de junho está previsto para ocorrer em inglês, mediante inscrição antecipada, na sala 824 da Cheng Yu Tung Tower. Sida Liu, professor e vice-reitor da Faculdade de Direito da HKU, é o moderador anunciado.
O que o modelo muda para os leitores
O projeto de Zhang e Yang reúne duas perspectivas que muitas vezes são tratadas separadamente: o controle jurídico da atividade econômica e a organização da produção entre empresas conectadas. A pesquisa sobre o Estado-plataforma é o quinto projeto conjunto dos dois; duas colaborações anteriores foram publicadas na Management Science.
Para uma empresa que avalia o mercado chinês, o modelo direciona a atenção para a rede mais ampla: quem pode participar, quais conexões o Estado controla, como a concorrência é organizada e onde se concentram os benefícios da expansão. Os lucros das empresas continuam sendo fundamentais para os investidores, enquanto a capacidade industrial tem valor próprio para os formuladores de políticas públicas.
Para governos estrangeiros, o MERICS identifica uma tensão relacionada. A busca da China por independência tecnológica e por uma base industrial completa pode dificultar a cooperação internacional, enquanto sua escala manufatureira a mantém profundamente conectada ao comércio global. O desempenho das exportações também oferece a Pequim uma medida externa da capacidade de suas empresas domésticas para competir.
O quadro combinado é o de um sistema de inovação com considerável capacidade de ampliar a produção, dificuldade persistente para conectar parte da pesquisa à indústria e escolhas contínuas sobre quem recebe os ganhos. O argumento do Estado-plataforma explica por que esses resultados podem coexistir, em vez de pressupor que o avanço tecnológico precise gerar rapidamente grandes lucros para todas as empresas líderes.
Pontos principais
- Angela Huyue Zhang e S. Alex Yang descrevem a China como um Estado-plataforma que governa uma rede de empresas concorrentes e conectadas.
- O modelo prioriza a coordenação do ecossistema, o controle de conexões importantes e a expansão antes da captura de valor.
- O MERICS identifica iniciativas de inovação fragmentadas e uma lacuna persistente entre a pesquisa acadêmica e a produção industrial.
- A estratégia manufatureira da China valoriza a capacidade produtiva e as cadeias de suprimentos, além dos lucros de empresas individuais.
- A University of Hong Kong agendou a discussão dos pesquisadores para 18 de junho de 2026.






