Sobreviventes de violência sexual durante a guerra no Nepal ainda lutam por reconhecimento e assistência médica

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Nepal's Wartime Sexual Violence Survivors Still Struggle for Recognition and Medical Relief

Sem um documento de identidade, sobreviventes não conseguem tratamento

Geeta, uma mulher de 45 anos de Dang, no oeste do Nepal, foi ao escritório distrital de administração pedir uma recomendação para receber tratamento médico gratuito por meio de um programa da província de Lumbini. Os funcionários pediram que ela comprovasse ser vítima do conflito. Ela não tinha carteira de identificação de vítima nem constava na lista oficial e voltou para casa sem o documento de que precisava.

Conteúdo
  1. Sem um documento de identidade, sobreviventes não conseguem tratamento
  2. Outras vítimas receberam assistência enquanto sobreviventes esperavam
  3. A exclusão foi documentada em 2010
  4. Por que comprovar a condição de vítima virou mais um obstáculo
  5. Havia um cadastro, mas muitas sobreviventes ficaram de fora
  6. Programa de tratamento de Lumbini evidencia a lacuna prática
  7. Silêncio, lesões e o custo de se manifestar
  8. Decisões internacionais indicam o que a reparação deve incluir
  9. Um processo longo diante de necessidades imediatas
  10. Principais pontos

Geeta conta que policiais à procura de seu marido, que havia passado à clandestinidade durante a insurgência maoista, a estupraram por volta de 2002 ou 2003. Ela havia dado à luz apenas 17 dias antes. Relata lesões permanentes no útero e anos mantendo o estupro em segredo, até finalmente contar ao marido.

O apoio dele a ajudou a falar sobre o que aconteceu. Cerca de uma década após o início do processo de paz, ela apresentou seu nome ao comitê local de paz. Mais tarde, buscou ajuda em órgãos municipais, distritais e de bairros, na esperança de conseguir tratamento e reconhecimento.

Geeta descreveu a resposta a essas tentativas:

Fui a muitos lugares em busca de justiça como vítima da guerra. Pedi tratamento para o meu útero. Em troca, recebi apenas humilhação.

A experiência dela expõe uma lacuna na resposta do Nepal ao conflito armado de 1996 a 2006: sobreviventes de violência sexual buscaram ajuda em instituições cujas categorias de assistência e registros muitas vezes as deixaram de fora. O reconhecimento tem consequências práticas. Sem um documento aceito que comprove sua condição, sobreviventes podem ter dificuldade para obter tratamento, mesmo quando o governo criou um programa para vítimas do conflito.

Uma análise oficial documentou essa exclusão em dezembro de 2010. Um informe institucional posterior identificou o mesmo problema em 2018. Os relatos de sobreviventes de Lumbini mostram como as consequências podem durar anos, somando lesões sem tratamento a repetidas exigências de comprovação de elegibilidade.

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Outras vítimas receberam assistência enquanto sobreviventes esperavam

Harimaya, do leste de Rukum, conta que três policiais a estupraram em uma floresta enquanto ela pastoreava cabras, em 2004 ou 2005. Ela tinha 17 anos. Manteve o ataque em segredo e diz que levou anos para entender que também era vítima do conflito e tinha direito de pedir ajuda.

Harimaya acabou apresentando uma denúncia à Comissão da Verdade e Reconciliação. Outras pessoas de seu vilarejo, feridas ou com deficiência em decorrência da guerra, receberam assistência e tratamento. Ela esperou e, depois que autoridades distritais a encaminharam para lá, viajou até a comissão, em Katmandu.

Harimaya diz que questionou funcionários da comissão sobre por que algumas vítimas recebiam auxílio e outras não. Eles disseram que não podiam fazer nada, e ela foi embora chorando. Ela afirma que não voltou a buscar justiça.

O Nepal ofereceu assistência em etapas a várias categorias de vítimas do conflito. As famílias de pessoas mortas ou desaparecidas acabaram recebendo 1 milhão de rúpias nepalesas, enquanto algumas pessoas feridas ou com deficiência receberam tratamento ou subsídios de subsistência. Sobreviventes de violência sexual contam que foram excluídas de apoio comparável.

Maina Karki, ex-parlamentar e presidente da Plataforma Comum de Vítimas do Conflito, disse que a falha começou com a falta de reconhecimento oficial:

Elas não foram consideradas vítimas oficiais da guerra. Por isso, as sobreviventes de violência sexual ficaram de fora do auxílio provisório e do processo de justiça. Foi um erro grave do Estado.

A exclusão foi documentada em 2010

A Organização Internacional para as Migrações e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos analisaram o Programa Provisório de Auxílio e Reabilitação do Nepal em sua análise de mapeamento e lacunas de dezembro de 2010. Constataram que vítimas de tortura e violência sexual estavam excluídas das categorias de assistência.

O programa, em funcionamento desde 2008 sob o Ministério da Paz e Reconstrução, havia distribuído mais de US$ 28 milhões até a data da análise. Entre os benefícios estavam pagamentos de 100 mil rúpias nepalesas às famílias de pessoas mortas ou desaparecidas, bolsas de estudo de 10 mil a 16 mil rúpias nepalesas, reembolsos de despesas médicas por ferimentos relacionados ao conflito e pagamentos de até 200 mil rúpias nepalesas a pessoas com deficiência.

Esses valores descrevem uma etapa anterior da assistência, em comparação com os pagamentos posteriores de 1 milhão de rúpias nepalesas às famílias enlutadas. Em conjunto, mostram que o auxílio foi ampliado ao longo do tempo, enquanto sobreviventes de violência sexual continuaram excluídas.

A análise também constatou poucas evidências de que a concepção ou a execução do programa levassem em conta as circunstâncias específicas das mulheres. A consulta às vítimas, às mulheres e a grupos vulneráveis havia sido limitada. O dinheiro era distribuído, mas as categorias usadas para isso deixavam algumas formas de violência de guerra fora do sistema.

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Por que comprovar a condição de vítima virou mais um obstáculo

Os escritórios distritais de administração eram fundamentais para os pedidos de auxílio, mas a análise de 2010 constatou formulários inconsistentes, exigências documentais pouco claras e práticas diferentes entre os distritos. As responsabilidades estavam distribuídas entre comitês locais, chefes de administração distrital, ministérios e outras instituições.

Os chefes de administração distrital podiam decidir quais órgãos locais participariam da coleta de pedidos. Comitês locais e autoridades distritais também podiam determinar quais solicitações seriam encaminhadas para processamento. A análise descreveu um processo altamente politizado, no qual a participação das vítimas não era garantida nem pelas diretrizes de política pública nem por instruções oficiais.

A documentação médica criava outros obstáculos. As diretrizes exigiam recibos de instituições de saúde públicas ou comunitárias. Pessoas tratadas em clínicas privadas ou fora do Nepal podiam ser excluídas porque seus registros não atendiam a esses requisitos.

A análise dizia que, naquele momento, ainda era possível apresentar pedidos individuais aos escritórios distritais de administração ou às agências competentes. Também constatou que o Ministério da Saúde não mantinha um banco de dados adequado sobre pessoas feridas que haviam recebido benefícios e que não estava claro como essas informações eram compartilhadas com o Ministério da Paz.

A busca frustrada de Geeta por uma recomendação se encaixa nesse problema administrativo: quem procura atendimento precisa comprovar que foi reconhecida como vítima, mas obter esse reconhecimento exige percorrer órgãos e registros que talvez nunca a tenham incluído.

Havia um cadastro, mas muitas sobreviventes ficaram de fora

O Centro Internacional para a Justiça de Transição voltou a examinar esses obstáculos em seu informe de fevereiro de 2018, Em busca da verdade, da justiça e de reparação. O documento afirmou que vítimas de violência sexual e tortura não puderam participar do programa de auxílio provisório e que a falta de um mecanismo governamental para verificar a condição de vítima impedia o acesso à ajuda.

Um grupo de trabalho ministerial havia criado um cadastro de beneficiários de auxílio entre 2008 e 2012. O Centro recomendou ampliar esse cadastro para incluir as pessoas anteriormente excluídas, usando informações coletadas pelas duas comissões de justiça de transição e comparando-as com os registros de auxílio existentes.

Representantes da Plataforma Comum de Vítimas do Conflito defenderam que confirmar a condição de vítima de alguém deveria ser responsabilidade da agência que oferece o serviço ou benefício. Isso transferiria o trabalho administrativo para a instituição que guarda ou consulta os registros, em vez de obrigar sobreviventes a reunir provas repetidamente.

Mulheres que participaram das oficinas do Centro pediram atendimento de saúde, documentos de identificação de vítima, acesso à educação, apoio para conseguir emprego e reconhecimento público. O Centro também constatou que os registros já apresentados para receber auxílio não eram compartilhados em formato pesquisável, obrigando as pessoas a fornecer documentação novamente às comissões e aos órgãos locais.

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Programa de tratamento de Lumbini evidencia a lacuna prática

Lumbini oferece às pessoas elegíveis feridas durante o conflito tratamento gratuito no valor de até 50 mil rúpias nepalesas por ano. Suresh Chandra Acharya, subsecretário do ministério provincial responsável por assuntos internos e legislação, disse que pacientes feridos no conflito vinham obtendo tratamento por meio dos escritórios distritais de administração e do ministério provincial.

No caso de Geeta, o acesso foi interrompido na etapa da recomendação. O relato dela mostra por que um orçamento para a saúde, por si só, não atende às necessidades das sobreviventes quando a elegibilidade depende de uma lista ou documento que elas não têm.

O antigo comitê local de paz de Rolpa registrou 946 mortes, 33 desaparecimentos e 505 pessoas feridas ou com deficiência. Cerca de 225 denúncias de violência sexual do distrito foram apresentadas à comissão. O jornalista Dinesh Subedi, que trabalha com as experiências de sobreviventes de violência sexual relacionada ao conflito, disse que mais de 200 pessoas de Rolpa apresentaram pedidos publicamente.

Subedi afirmou que vítimas de outras categorias receberam assistência por meio da comissão ou de canais provinciais ou locais, enquanto sobreviventes de violência sexual continuaram sem auxílio comparável. O total de denúncias representa as pessoas que se manifestaram; o estigma e o medo mantiveram outras em silêncio.

Man Dhakal, ex-integrante da Comissão da Verdade e Reconciliação, disse que a comissão havia encaminhado alguns casos de violência sexual ao Ministério das Finanças para obter auxílio provisório. As recomendações não foram implementadas. O relato dela aponta outro momento em que o processo parou: nem mesmo um encaminhamento da comissão necessariamente resultava em assistência.

Silêncio, lesões e o custo de se manifestar

Geeta conta que viveu durante anos com lesões no aparelho reprodutor. Harimaya descreve quanto tempo levou até conseguir identificar sua experiência como violência sofrida por ser vítima do conflito. Os relatos mostram por que as denúncias podem ser feitas muito tempo depois da própria violência.

A REDRESS, em seu guia para obter reparações, aponta a vergonha, a exclusão social e a rejeição por parentes ou comunidades como obstáculos a denúncias e pedidos de reparação no Nepal. O documento se baseia em um estudo realizado no Nepal em 2021 pelo Fundo Global de Sobreviventes, pelo Centro Internacional para a Justiça de Transição, pela Nagarik Aawaz e pela Rede Nacional de Mulheres Vítimas de Conflitos.

O informe do Centro de 2018 descreveu mulheres que sofreram graves danos físicos e psicológicos e, às vezes, também foram rejeitadas por suas famílias e comunidades. O documento recomendou um número suficiente de funcionárias para que as sobreviventes pudessem optar por conversar com uma mulher, treinamento para os integrantes das comissões e participação feminina na elaboração de medidas de justiça.

Para as sobreviventes, essas medidas influenciam se um órgão parece seguro o bastante para ser procurado. Um processo confidencial e respeitoso pode permitir que alguém relate uma agressão e busque tratamento sem acrescentar exposição pública a uma experiência já dolorosa.

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Decisões internacionais indicam o que a reparação deve incluir

Reparações são medidas destinadas a enfrentar os danos causados por uma violação de direitos. Podem incluir indenização, atendimento de saúde, apoio psicológico, reconhecimento e ações para evitar que a violação se repita. O auxílio provisório oferece apoio enquanto um processo mais amplo de justiça ou reparação ainda está pendente.

A REDRESS descreve dois casos do Nepal apresentados ao Comitê de Direitos Humanos da ONU que ilustram a variedade de medidas envolvidas. No caso Purna Maya contra o Nepal, decidido em 23 de junho de 2017, o comitê concluiu que as forças armadas nepalesas usaram violência sexual como tortura e que as autoridades não investigaram, responsabilizaram os autores nem ofereceram reparações.

Purna Maya foi presa em novembro de 2004 e submetida a estupros repetidos e outros abusos enquanto estava detida por militares. As tentativas de buscar a responsabilização criminal foram obstruídas, inclusive pelo prazo para apresentar uma denúncia de estupro. O Fórum de Defesa do Nepal ofereceu assistência médica e psicossocial antes do envio da denúncia internacional.

No caso RR, KR e SR contra o Nepal, decidido em 20 de maio de 2022, o comitê analisou o estupro e assassinato de uma menina de 16 anos em 2004. A família denunciou o caso à polícia no dia seguinte, mas a polícia não investigou. Em 2005, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Nepal concluiu que as forças de segurança haviam matado a menina, e a Suprema Corte ordenou uma investigação imediata em 2009.

O comitê pediu investigação e processo criminal, indenização adequada, reabilitação médica e psicológica gratuita, um pedido público de desculpas e medidas em memória de RR. Também pediu reformas legais, inclusive a eliminação do prazo de prescrição para denúncias de estupro. A REDRESS aponta a fragilidade dos mecanismos nacionais para implementar decisões internacionais e a falta de compromisso político como obstáculos persistentes.

Um processo longo diante de necessidades imediatas

O processo de paz e justiça do Nepal produziu acordos, leis, registros de denúncias e decisões internacionais ao longo de muitos anos. Os principais marcos relevantes para o acesso das sobreviventes ao auxílio incluem:

  • 1996–2006: Conflito armado entre o governo e os insurgentes maoistas.
  • 21 de novembro de 2006: O Acordo de Paz Abrangente encerrou o conflito e comprometeu as partes com um processo de paz.
  • 2008: O governo começou a oferecer assistência por meio do Programa Provisório de Auxílio e Reabilitação.
  • Dezembro de 2010: A Organização Internacional para as Migrações e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos documentaram a exclusão de vítimas de violência sexual e tortura das categorias de assistência.
  • 2014: O Nepal promulgou a lei que estabeleceu as bases para suas comissões da verdade e dos desaparecimentos.
  • 2017 e 2022: O Comitê de Direitos Humanos da ONU emitiu decisões nos casos de Purna Maya e RR.
  • 2018: O Centro Internacional para a Justiça de Transição recomendou ampliar o cadastro de beneficiários de auxílio e melhorar a verificação da condição de vítima.

As necessidades imediatas das sobreviventes continuam concretas: tratamento para lesões físicas, atendimento psicológico, apoio financeiro e reconhecimento que permita acessar serviços. Nem Geeta nem Harimaya receberam uma data para a chegada da assistência.

As recomendações institucionais indicam medidas práticas que podem avançar paralelamente às investigações: incluir sobreviventes excluídas nos cadastros de beneficiários, responsabilizar as agências pela verificação da condição de vítima, compartilhar informações com segurança e envolver mulheres nas decisões sobre os serviços. Essas medidas enfrentam obstáculos descritos tanto nos guichês distritais quanto nas análises nacionais.

Geeta diz que anos buscando ajuda a deixaram sem vontade de procurar outro órgão. Para ela, o custo da demora inclui tanto uma lesão sem tratamento quanto a perda da confiança de que perguntar novamente trará uma resposta diferente.

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Principais pontos

  • Sobreviventes de violência sexual no oeste do Nepal contam que tiveram reconhecimento, assistência médica e auxílio negados, apesar de buscarem ajuda por canais oficiais.
  • A Organização Internacional para as Migrações e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos documentaram sua exclusão das categorias de auxílio provisório em dezembro de 2010.
  • O Centro Internacional para a Justiça de Transição recomendou ampliar o cadastro de vítimas existente e responsabilizar os prestadores de serviços pela verificação da condição de vítima.
  • Lumbini oferece a pacientes elegíveis feridos no conflito tratamento no valor de até 50 mil rúpias nepalesas por ano, mas obstáculos documentais podem impedir o acesso.
  • Decisões do Comitê de Direitos Humanos da ONU pedem investigação, indenização, reabilitação e outras medidas para enfrentar a violência sexual durante a guerra.
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