Nova agência enfrenta um teste precoce de independência
O presidente sul-coreano Lee Jae-myung afirmou em 22 de outubro de 2026 que abandonar a supervisão da Agência de Investigação de Crimes Graves violaria a Constituição e a Lei de Organização do Governo, o que daria margem a um impeachment e a punição criminal por negligência no cumprimento do dever. Suas declarações intensificaram uma disputa sobre a participação regular do chefe da agência nas reuniões do Gabinete presididas pelo presidente.
Conteúdo
- Nova agência enfrenta um teste precoce de independência
- O que Lee diz sobre a supervisão presidencial
- O que dizem as normas legais
- Como mudou a prática de participação
- Por que críticos veem pressão mesmo sem ordens diretas
- Coordenação de políticas e limites às instruções sobre casos
- Parlamentares divergem sobre casos envolvendo o presidente
- Gemini entra no debate político
- Também há cautela dentro do partido de Lee
- Principais pontos
Kim Ji-yong, primeiro chefe da agência, participou de sua primeira reunião do Gabinete em 20 de outubro, apenas 18 dias depois de a agência começar a funcionar, no âmbito de uma reforma da Justiça criminal que retirou dos promotores os poderes independentes de investigação. Seu antecessor interino, Jeon Jong-min, havia participado das reuniões de 6 e 13 de outubro, levando a três encontros consecutivos com a presença da chefia da agência.
O gabinete presidencial afirma que as reuniões permitem a coordenação de políticas entre órgãos do governo e que não haverá discussões sobre investigações específicas nem instruções sobre denúncias criminais. Juristas, organizações da sociedade civil e alguns integrantes do próprio partido de Lee dizem que o contato regular com o presidente ainda pode pressionar autoridades que talvez precisem investigar pessoas de seu governo.
A divergência gira em torno de como conciliar duas responsabilidades: manter os órgãos de investigação sujeitos à prestação de contas ao governo eleito e permitir que tomem decisões sem pressão política. Lee argumenta que as reuniões públicas tornam a supervisão transparente. Os críticos defendem que os chefes de agências participem apenas quando um assunto específico exigir sua presença.
A controvérsia também chegou a uma auditoria parlamentar, na qual parlamentares da oposição alegaram que a participação nas reuniões do Gabinete poderia incentivar promotores a retirar acusações contra Lee. O procurador-geral interino Lee Jung-hyun rejeitou a afirmação e disse que os encontros de que participou nunca trataram de casos específicos.
O que Lee diz sobre a supervisão presidencial
Lee apresentou a supervisão presidencial como um dever, além de um poder. Em uma publicação no X em 22 de outubro, afirmou que a agência de investigação faz parte da mesma estrutura governamental que órgãos como a Administração Meteorológica da Coreia e a Agência Nacional de Incêndios.
O presidente Lee explicou sua posição nestes termos:
O comando e a supervisão do presidente sobre os assuntos de Estado são, ao mesmo tempo, autoridade e responsabilidade.
Lee disse que excluir os chefes dos órgãos de investigação das reuniões públicas deixaria duas opções: abandonar a supervisão ou exercê-la em privado. Também questionou por que a participação dos chefes do Serviço Florestal da Coreia, da agência de incêndios e da Guarda Costeira da Coreia deveria ser aceita, enquanto os órgãos de investigação receberiam tratamento diferente.
Lee prometeu que a supervisão não chegaria ao ponto de orientar investigações específicas. Comparou esse limite à relação que mantém com os ministros e disse que também não lhes dá instruções sobre decisões específicas de licenciamento.
O gabinete presidencial também questionou o valor da convenção anterior. Autoridades perguntaram se os promotores haviam sido realmente independentes da política quando o procurador-geral não participava das reuniões do Gabinete. O argumento é que importa mais a maneira como o poder é exercido do que a presença do chefe de uma agência na sala.
O que dizem as normas legais
O artigo 66 da Constituição sul-coreana atribui o poder executivo ao governo chefiado pelo presidente. O artigo 11 da Lei de Organização do Governo autoriza o presidente a dirigir e supervisionar, conforme a lei, os chefes dos órgãos administrativos centrais. O artigo 18 descreve a função de supervisão do primeiro-ministro sob as ordens do presidente.
A participação nas reuniões do Gabinete é tratada separadamente. O artigo 88 da Constituição define a composição do Gabinete, enquanto o artigo 8 do Regulamento das Reuniões do Gabinete permite que o presidente da reunião convide chefes de órgãos e outras autoridades de alto escalão quando considerar necessária a presença deles. Assim, autoridades podem participar sem se tornar membros do Gabinete.
Kim Seung-dae, professor da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Pusan, disse que a estrutura do governo não exige legalmente a participação do chefe do órgão de investigação. Para ele, a presença regular é inadequada diante da necessidade de investigações independentes e imparciais.
Na prática, a escolha é entre convites pontuais para tratar de assuntos pertinentes e uma expectativa permanente de participação. A autoridade de supervisão presidencial permanece em qualquer uma das opções. O alerta de Lee sobre impeachment reflete sua interpretação do dever de supervisionar; não foi identificado nenhum parecer judicial sobre essa disputa em torno da participação.
Como mudou a prática de participação
Dados do governo fornecidos pelo Ministério do Interior e da Segurança ao deputado Shin Dong-wook, do Partido do Poder Popular, mostraram que nenhum procurador-geral participou de reuniões do Gabinete entre 2000 e 2025. Nesse período, apenas três comissários da Agência Nacional de Polícia participaram.
Lee ampliou a participação para incluir chefes de órgãos no início de 2026. Os chefes interinos do Ministério Público e da polícia começaram a comparecer, ampliando as discussões do Gabinete para além dos ministros e autoridades que tradicionalmente participavam. O comissário interino da polícia Kim Jong-chul também esteve presente.
A nova agência de investigação herdou essa política mais abrangente de participação ao começar a funcionar em outubro. Kim recebeu a carta de nomeação em 19 de outubro e participou da reunião na manhã seguinte, antes da cerimônia de posse prevista para aquela tarde. Antes de assumir o cargo, ele havia dito que analisaria as leis pertinentes e consultaria os órgãos envolvidos antes de decidir sobre a participação.
As principais etapas da disputa foram:
- Início de 2026: Lee ampliou a participação nas reuniões do Gabinete para incluir chefes de órgãos, entre eles os chefes interinos do Ministério Público e da polícia.
- 29 de setembro: O procurador-geral interino Lee Jung-hyun começou a participar das reuniões após assumir o cargo em 23 de setembro.
- 2 de outubro: A Agência de Investigação de Crimes Graves começou a funcionar como parte da reforma da Justiça criminal.
- 6 e 13 de outubro: O chefe interino da agência, Jeon Jong-min, participou de reuniões do Gabinete.
- 15 de outubro: A organização Solidariedade Popular pela Democracia Participativa se opôs publicamente à participação regular dos chefes dos órgãos de investigação e do Ministério Público.
- 20 de outubro: Kim Ji-yong participou de sua primeira reunião do Gabinete.
- 21 e 22 de outubro: O presidente Lee defendeu a prática no X, e a disputa chegou a uma auditoria parlamentar.
Por que críticos veem pressão mesmo sem ordens diretas
Os órgãos de investigação e do Ministério Público podem ter de tomar decisões que envolvam as mesmas autoridades de alto escalão com quem se reúnem no Gabinete. Investigadores coletam provas; promotores decidem se apresentam acusações criminais e se as levam adiante nos tribunais. Neutralidade política significa tomar essas decisões com base nas provas e na lei, independentemente de quem seja beneficiado.
Lee Hwang-hee, professor da Faculdade de Direito da Universidade Sungkyunkwan, reconheceu que a participação nas reuniões do Gabinete pode ajudar o chefe de uma agência a compreender os assuntos nacionais. Ainda assim, alertou que ela pode prejudicar a percepção pública de imparcialidade nas investigações, que governos anteriores procuraram proteger mantendo o procurador-geral afastado.
Lee Chang-hyun, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Estudos Estrangeiros de Hankuk, apontou as leis especiais que regem os novos órgãos de investigação e do Ministério Público. Segundo ele, os regimes legais próprios dessas instituições devem orientar a forma de respeitar sua independência. Kim Sung-soo, professor da Universidade Hanyang, destacou a convenção política mantida por governos conservadores e progressistas.
A preocupação também existe dentro da agência de investigação. Um funcionário afirmou que as preocupações com a participação regular haviam sido comunicadas ao gabinete presidencial. Ele descreveu um problema concreto: se os investigadores decidirem corretamente não encaminhar para denúncia um caso que envolva o governo, o público ainda poderá suspeitar que as reuniões repetidas com o presidente influenciaram a decisão.
Coordenação de políticas e limites às instruções sobre casos
O gabinete presidencial estabeleceu como limite declarado os casos individuais. Seong Ghi-hong, secretário sênior de Lee para a imprensa, afirmou que as reuniões do Gabinete tratariam das diretrizes de política do governo e de questões administrativas atuais, e não de decisões sobre investigações.
Seong descreveu o compromisso do governo com a neutralidade:
O governo está trabalhando intensamente para manter a imparcialidade e a neutralidade política nas investigações, bem como a independência nas denúncias criminais. Esse princípio continuará inabalável daqui em diante.
Alguns advogados apoiaram o direito do presidente de convidar chefes de órgãos para explicar assuntos de sua competência. Outros argumentam que a participação regular poderia enfraquecer a cadeia de comando estabelecida, na qual os ministros da Justiça e do Interior têm funções definidas na comunicação com as lideranças do Ministério Público e dos órgãos de investigação.
A preocupação é que um chefe de órgão possa interpretar até mesmo um comentário geral do presidente como uma instrução, já que o presidente tem poder de nomeação. Uma observação sobre tratar um assunto com firmeza ou cautela pode ter peso mesmo sem uma ordem explícita sobre um caso específico.
A Solidariedade Popular pela Democracia Participativa levantou essa preocupação em sua declaração de 15 de outubro. A organização afirmou que a promessa de não discutir casos individuais não era suficiente e pediu que o presidente convocasse os chefes dos órgãos apenas quando necessário. Yoo Seung-ik, que dirige o centro de monitoramento judicial da entidade, também pediu moderação nos convites e proteção da imparcialidade e da neutralidade política.
Parlamentares divergem sobre casos envolvendo o presidente
A auditoria parlamentar de 22 de outubro aproximou a disputa da própria exposição jurídica de Lee. Parlamentares do Partido do Poder Popular argumentaram que as reuniões repetidas poderiam pressionar autoridades do Ministério Público a retirar acusações contra o presidente. Retirar acusações significa encerrar a atuação do Ministério Público em um caso já levado aos tribunais.
O deputado Kwak Gyu-taek, do Partido do Poder Popular, citou uma reunião do Gabinete em junho e alegou que uma declaração do presidente sobre pedir desculpas e retirar questões equivalia a pressionar os promotores. O procurador-geral interino Lee Jung-hyun disse que os encontros de que participou nunca trataram de casos específicos e prometeu apostar o cargo na neutralidade política.
Questionado pelo deputado Kim Han-kyu, do Partido Democrático, se havia ordenado ou discutido a análise da retirada de acusações, o procurador-geral interino respondeu:
Nunca pronunciei nem a primeira sílaba de 'retirar acusações'.
A auditoria também retomou o pedido de desculpas feito em abril pelo procurador interino em relação aos métodos de investigação no caso das remessas da Ssangbangwool para a Coreia do Norte. Parlamentares da oposição questionaram sua neutralidade, enquanto ele defendeu o pedido de desculpas como uma crítica a investigações que humilham suspeitos ou procuram irregularidades de forma ampla, sem uma base devidamente definida.
Lee Jung-hyun também alegou que o ex-procurador-geral Yoon Suk Yeol defendia apresentar acusações contra pessoas em casos ambíguos e submetê-las a julgamentos demorados. Essa acusação acrescentou outra disputa sobre a conduta dos promotores a uma audiência já dividida quanto à relação entre o governo e os órgãos da Justiça criminal.
Gemini entra no debate político
O presidente Lee trouxe outra controvérsia em 21 de outubro ao publicar uma defesa da participação sob o título "Perguntei ao Gemini". Ele citou uma resposta do assistente de inteligência artificial do Google que apoiava seu argumento sobre a supervisão presidencial e a estrutura de comando do governo.
A deputada Na Kyung-won, do Partido do Poder Popular, acusou Lee de fazer perguntas tendenciosas para obter uma resposta favorável. Ela também disse que pediu ao Gemini ajuda para formular o argumento oposto, concentrando-se na neutralidade política e nas responsabilidades judiciais dos órgãos de investigação.
O deputado independente Han Dong-hoon argumentou que a autoridade presidencial não se estende a dirigir investigações ou processos criminais. A controvérsia em torno do Gemini passou então a fazer parte de uma crítica mais ampla da oposição à maneira como Lee explicou sua posição constitucional.
Lee respondeu em 22 de outubro que já entendia a questão e havia compartilhado a resposta para ilustrar o que considerava falhas no argumento da oposição. O gabinete presidencial rejeitou as sugestões de que ele estaria recorrendo à inteligência artificial para governar o país.
A decisão em si continua sendo sobre como o governo exerce sua autoridade legal: quem participa, com que frequência, o que é discutido e como os líderes dos órgãos mantêm o controle sobre as decisões relativas aos casos.
Também há cautela dentro do partido de Lee
Kim Yong-nam, vice-presidente interino do comitê de políticas do Partido Democrático, sugeriu uma abordagem mais restrita. Ele afirmou que seria razoável o novo chefe do órgão de investigação, recém-nomeado, participar uma ou duas vezes para se apresentar, mas que provavelmente deveria evitar comparecer a todas as reuniões do Gabinete.
Jung Ji-woong, presidente do comitê legislativo cívico da Coalizão dos Cidadãos pela Justiça Econômica, relacionou a questão ao objetivo da reforma da Justiça criminal. Separar a investigação do processo criminal deveria distribuir o poder e criar mecanismos de controle entre as instituições. Ele pediu cautela para que a participação não se torne uma rotina semanal.
O contexto político torna esse argumento especialmente delicado. Lee venceu a eleição presidencial após a tentativa fracassada de lei marcial de Yoon e sua destituição, com o mandato de restaurar o governo democrático. Sua vitória em uma eleição antecipada também o deixou diante de processos judiciais pendentes e de um ambiente político profundamente dividido.
O gabinete presidencial afirma que a participação continua sendo a regra geral, embora a presença de cada pessoa possa ser avaliada conforme as circunstâncias. Ainda não foi definido publicamente se o chefe da nova agência participará de todas as reuniões semanais ou apenas de encontros específicos.
Para a agência, o desafio imediato é concreto: estabelecer relações de trabalho com os diversos setores do governo e, ao mesmo tempo, convencer denunciantes, suspeitos e o público em geral de que as decisões sobre investigações serão tomadas com base nas provas, inclusive quando afetarem o governo.
Principais pontos
- Kim Ji-yong participou de sua primeira reunião do Gabinete em 20 de outubro, depois de duas reuniões com a presença do chefe interino da agência de investigação.
- O presidente Lee afirma que a supervisão é um dever constitucional e argumenta que abandoná-la poderia justificar impeachment e punição criminal.
- O regulamento das reuniões do Gabinete permite convites quando o presidente da reunião considera necessária a presença; não exige a participação regular do chefe do órgão de investigação.
- O gabinete presidencial promete que investigações individuais e instruções sobre denúncias criminais ficarão fora das discussões do Gabinete.
- Juristas, grupos da sociedade civil e alguns integrantes do partido governista defendem limitar a participação por preocupações com pressão política e confiança pública.
- Parlamentares da oposição alegaram que houve pressão para retirar acusações contra Lee. O procurador-geral interino disse que os encontros de que participou nunca trataram de casos específicos.
- O gabinete presidencial mantém a participação como política geral, mas prevê avaliar a presença conforme as circunstâncias.






