Queda de 20% põe à prova o apoio ao mercado chinês
O índice CSI 300 da China caiu 20% em relação ao pico de junho nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, atingindo o patamar comumente usado para definir um mercado de baixa, enquanto resultados decepcionantes e o enfraquecimento das expectativas de grandes estímulos econômicos prolongavam uma retração histórica.
Conteúdo
- Queda de 20% põe à prova o apoio ao mercado chinês
- Como a queda chegou a esse ponto
- Ações de tecnologia sofrem as maiores perdas
- CATL expõe pressão por trás da força industrial
- Lucros oficiais mostram uma economia dividida
- Contas não pagas e estoques aumentam a pressão
- Investidores estatais têm recursos, mas enfrentam uma tarefa prolongada
- Desacelerar a queda é mais fácil do que recuperar a confiança
- Famílias avaliam segurança diante de uma possível recuperação
- Principais pontos
O índice de referência, que acompanha 300 das maiores ações listadas em Xangai e Shenzhen, caiu até 1,6% durante as negociações de quinta-feira. Ele havia registrado 10 semanas consecutivas de queda e recuava cerca de 2,6% até agora nesta semana. Um indicador das principais empresas chinesas listadas em Hong Kong caiu até 2,9% na quinta-feira.
As perdas continuaram apesar dos sinais de compras por investidores estatais e da melhora no crescimento econômico. O produto interno bruto do terceiro trimestre subiu 4,5% em relação ao ano anterior, ante 4,3% no segundo trimestre. Ainda assim, os investidores continuaram focados na fraca demanda das famílias, na pressão sobre os lucros das empresas e na retirada global de ações de inteligência artificial.
A Central Huijin Investment, investidora estatal que lidera os esforços de estabilização do mercado, ainda pode ter cerca de US$ 188 bilhões disponíveis para compras, segundo estimativas de analistas. O desafio imediato é saber se o uso desse dinheiro pode estabilizar um mercado em que as famílias preferem cada vez mais os depósitos bancários e as empresas de tecnologia enfrentam expectativas mais exigentes após uma alta anterior.
Um mercado de baixa descreve a dimensão de uma queda em relação a uma máxima recente. Para um investidor cujos ativos acompanhassem exatamente o CSI 300, a queda reduziria um investimento de 100 yuans no pico de junho para cerca de 80 yuans, antes de taxas ou dividendos.
Como a queda chegou a esse ponto
A retração do CSI 300 começou após o pico de junho e se aprofundou ao longo de sucessivas semanas de vendas. No início da semana, o índice estava cerca de 17% abaixo daquela máxima, após uma perda de aproximadamente 3,4% nas cinco sessões anteriores. Uma breve alta de 0,3% na segunda-feira, após dados mais fortes de crescimento econômico, não conseguiu interromper a queda mais ampla.
A sequência mostra como as repetidas tentativas de sustentar a confiança foram seguidas por novas vendas:
- Abril de 2025: investidores estatais compraram ações durante o choque das tarifas, com apoio estimado em cerca de US$ 27 bilhões a US$ 28 bilhões.
- Junho de 2026: o CSI 300 atingiu o pico usado como referência para medir a queda subsequente de 20%.
- Julho e agosto de 2026: uma ampla iniciativa de estabilização, envolvendo reguladores, investidores estatais, seguradoras e gestoras de ativos, mobilizou cerca de US$ 27 bilhões a US$ 28 bilhões, segundo estimativas.
- De 9 a 20 de outubro: investidores estatais aplicaram cerca de US$ 15 bilhões em fundos que acompanham índices amplos de mercado, segundo estimativas.
- 22 de outubro: o CSI 300 entrou em território de mercado de baixa durante as negociações de quinta-feira.
As 10 semanas completas de perdas representaram uma sequência recorde de quedas para o índice de referência. Na quinta-feira, o mercado caminhava para mais uma semana de baixa, com a possibilidade de uma 11ª queda consecutiva.
Ações de tecnologia sofrem as maiores perdas
Os índices de tecnologia da China caíram muito mais do que o CSI 300. O STAR 50, que acompanha as principais empresas da bolsa de tecnologia de Xangai, perdeu quase 40% no semestre atual. O índice ChiNext, de Shenzhen, caiu cerca de 36%. As fabricantes de chips MetaX e Moore Threads perderam, cada uma, cerca de metade de seu valor de mercado.
Ações de inteligência artificial e semicondutores lideraram a retração após uma forte alta no início do ano. Os investidores ficaram mais preocupados com os preços que pagavam pelo crescimento futuro, enquanto uma onda global de vendas de investimentos em IA aumentou a pressão.
A avaliação de uma empresa reflete quanto os investidores estão dispostos a pagar por seus lucros atuais ou esperados. Quando as expectativas sobem rapidamente, os preços das ações podem avançar mais do que os lucros atuais. Uma mudança na confiança pode então provocar perdas acentuadas, mesmo enquanto a empresa continua a crescer.
O avanço das capacidades chinesas em IA continua sendo parte da visão otimista para as ações do país. Daniel Gerard, estrategista sênior de múltiplos ativos da State Street Markets, disse que essas capacidades poderiam atrair investidores globais de volta antes da recuperação dos lucros das empresas. Por enquanto, o mesmo setor que pode sustentar um novo interesse acumula algumas das maiores perdas.
CATL expõe pressão por trás da força industrial
A Contemporary Amperex Technology, mais conhecida como CATL, aumentou as preocupações dos investidores quando suas ações caíram 12% na quarta-feira, após o crescimento do lucro trimestral ficar abaixo das expectativas, com a redução do apoio das políticas públicas. A fabricante de baterias é uma importante fornecedora para a indústria global de veículos elétricos.
Jordan Cvetanovski, presidente e diretor de investimentos da Pella Funds, disse que anos de investimento em capacidade de produção estavam criando dificuldades duradouras para as empresas chinesas. Ele descreveu o problema da seguinte forma:
"Acho que a China está realmente tendo dificuldade para conter os problemas que enfrentou no passado devido ao excesso de capacidade e a outros fatores",
Cvetanovski ainda vê oportunidades de investimento seletivas em baterias. Sua avaliação resume a tensão enfrentada pelo setor: as fabricantes chinesas podem ser competitivas globalmente e, ao mesmo tempo, ter dificuldade para proteger seus lucros em um mercado extremamente competitivo.
Excesso de capacidade significa que as fábricas conseguem produzir mais mercadorias do que os clientes estão dispostos a comprar a preços que gerem lucro. As empresas podem reduzir os preços para conquistar pedidos, ficando com menos dinheiro em cada venda. Para os acionistas, portanto, o aumento da produção ou das vendas é apenas parte da resposta. Também importa quanto a empresa mantém depois de pagar seus custos.
Lucros oficiais mostram uma economia dividida
O relatório sobre os lucros industriais do Escritório Nacional de Estatísticas mostra como o desempenho das empresas havia se tornado desigual antes das perdas mais recentes do mercado. Os lucros das empresas industriais com receita anual de suas atividades principais de pelo menos 20 milhões de yuans subiram 15,7% de janeiro a agosto de 2026, chegando a cerca de 5,27 trilhões de yuans. Em agosto, o aumento foi bem mais lento: 4,2% em relação ao ano anterior.
Os lucros da indústria de transformação subiram 17,4% nos oito meses, mas os resultados variaram bastante entre os setores. Os lucros da fabricação de computadores, equipamentos de comunicação e outros produtos eletrônicos subiram 109,9%. Os lucros de máquinas e equipamentos elétricos caíram 5,2%, enquanto os da fabricação de veículos recuaram 16%.
Os dados de receita e custos ajudam a explicar a pressão. As empresas de máquinas elétricas aumentaram a receita em 11,5%, mas os custos operacionais subiram mais, 12,6%. As fabricantes de veículos registraram crescimento da receita de 2,9%, ante uma alta de 4% nos custos operacionais. Nos dois setores, as empresas venderam mais e lucraram menos.
Na pesquisa industrial como um todo, as margens de lucro melhoraram para 5,66%, alta de 0,44 ponto percentual em relação ao ano anterior. Isso significa que as empresas pesquisadas lucraram cerca de 5,66 yuans para cada 100 yuans de receita. A melhora nacional ocorreu paralelamente a quedas substanciais em vários setores importantes para os investidores em ações.
Contas não pagas e estoques aumentam a pressão
As empresas industriais chinesas também acumulavam mais mercadorias armazenadas e esperavam mais tempo para receber pagamentos. No fim de agosto, os estoques de produtos acabados chegaram a 7,36 trilhões de yuans, alta de 11% em relação ao ano anterior. As contas a receber, valores devidos pelos clientes, subiram 9%, para 29,48 trilhões de yuans.
Ambos cresceram mais rapidamente do que a receita industrial, que avançou 6,6% de janeiro a agosto. O prazo médio de recebimento chegou a 72,2 dias, 0,9 dia a mais do que um ano antes. Os produtos acabados permaneceram em estoque por uma média de 21,3 dias, um aumento de 0,6 dia.
Para uma fábrica, receber pagamentos mais lentamente pode dificultar as operações diárias, mesmo quando há lucro nos registros. Salários, fornecedores e juros ainda precisam ser pagos. Mercadorias paradas nos armazéns também imobilizam dinheiro que poderia financiar novos pedidos ou quitar dívidas.
Os números ajudam a explicar por que os investidores estão olhando além dos volumes de produção. Uma produção forte é mais atraente para os acionistas quando vem acompanhada de pagamentos confiáveis, estoques administráveis e lucros sustentáveis.
Investidores estatais têm recursos, mas enfrentam uma tarefa prolongada
Rebecca Sin e outros analistas estimam que a Central Huijin tenha arrecadado US$ 231 bilhões com a venda de fundos negociados em bolsa no primeiro semestre de 2026 e realocado US$ 43 bilhões após a retomada das compras em julho. Isso deixaria cerca de US$ 188 bilhões, o suficiente para financiar aproximadamente 75 pregões de compras no ritmo recente.
Um fundo negociado em bolsa, ou ETF, reúne uma cesta de investimentos e é negociado em uma bolsa de valores. Comprar um fundo que acompanha um índice amplo permite que investidores estatais apoiem muitas ações por meio de um único instrumento. Os investidores estatais chineses envolvidos nesses esforços são geralmente chamados de equipe nacional.
Os cerca de US$ 15 bilhões aplicados de 9 a 20 de outubro foram menos do que os aproximadamente US$ 27 bilhões a US$ 28 bilhões usados em cada uma das duas operações de resgate anteriores. Os fluxos recentes dos fundos também sugerem maior foco em tecnologia. Juntos, o STAR 50 e o ChiNext responderam por cerca de 32% das compras estatais estimadas em outubro, ante 11% historicamente. A participação do CSI 300 caiu de 55% para cerca de 45%.
O ETF E Fund ChiNext atraiu quase 19,4 bilhões de yuans em outubro, enquanto o ETF ChinaAMC STAR 50 recebeu mais de 22,7 bilhões de yuans em entradas líquidas. Analistas da China Securities, entre eles Yao Ziwei, apontaram os grandes fluxos para os principais fundos e o aumento das negociações perto do fechamento como sinais de apoio institucional. As autoridades não haviam confirmado oficialmente a dimensão das compras estatais mais recentes.
Desacelerar a queda é mais fácil do que recuperar a confiança
Zhu Zhenxin, chefe da Asymptote Investment Research em Pequim, disse que a intervenção tinha o objetivo de evitar uma queda perigosamente rápida, e não de garantir uma reversão do mercado. Ele descreveu como o ritmo das vendas poderia influenciar novas compras:
Se o mercado cair rápido demais, a equipe nacional provavelmente continuará comprando, embora a intervenção talvez não seja suficiente para reverter o mercado", disse. "Se a queda desacelerar ou o mercado andar de lado, as compras provavelmente vão parar.
Uma queda longa e gradual pode exigir compras repetidas, à medida que os investidores continuam vendendo. Na avaliação de Sin, isso poderia custar mais do que responder a um episódio repentino de pânico, sobretudo sem uma recuperação das ações globais.
O resgate anterior oferece um exemplo concreto. O Índice Composto de Xangai subiu mais de 4% em agosto após compras estatais, mas voltou a cair e atingiu em outubro seu nível mais baixo desde agosto do ano anterior. Em 2024, as compras contínuas de ETFs também amorteceram a queda do mercado durante o verão, mas uma recuperação duradoura só veio depois que medidas de política econômica mais amplas, em setembro, melhoraram o sentimento.
Pequim continuou privilegiando medidas de apoio direcionadas e graduais, em vez dos grandes pacotes fiscais que alguns investidores esperavam. O crescimento de 4,5% no terceiro trimestre, acima da previsão consensual de 4,4%, manteve a expansão dentro da meta anual do governo, de 4,5% a 5%. O crescimento nos primeiros nove meses foi de 4,6%, e a produção industrial de setembro subiu 5,5%.
Famílias avaliam segurança diante de uma possível recuperação
Investidores individuais respondem por cerca de 90% das negociações diárias na China, segundo dados do HSBC, em comparação com aproximadamente 20% a 25% na Bolsa de Nova York. A participação chinesa é, portanto, cerca de quatro vezes maior, o que torna especialmente importantes para as negociações diárias as mudanças na confiança das famílias.
Shaun Rein, diretor-gerente do China Market Research Group, citou a incerteza geopolítica, os temores de uma bolha de IA e o enfraquecimento da confiança dos consumidores como fontes de maior pressão vendedora. As condições frágeis do mercado imobiliário e do emprego estimularam os investidores a optar por depósitos a prazo, que mantêm o dinheiro aplicado por um período acordado em troca de juros.
Rein explicou a preferência pela segurança:
"Para os chineses, a questão é preservar o patrimônio",
Ainda assim, Rein considerou excessiva a onda de vendas, citando a resiliência das exportações e sinais de melhora nos preços dos imóveis nas principais cidades. Entre os sinais anteriores de uma recuperação desigual do mercado imobiliário estavam cerca de 22 mil transações de imóveis usados em Xangai entre 1º e 23 de março, alta de 170% em relação ao mesmo período de fevereiro. A retomada foi mais forte entre compradores de maior poder aquisitivo, enquanto as incorporadoras continuaram enfrentando problemas de dívida e construção.
Rein previu uma forte recuperação das ações chinesas em 2027. Os investidores vão acompanhar os próximos resultados das empresas no terceiro trimestre em busca de sinais de melhora dos lucros e futuros anúncios de políticas públicas em busca de medidas para apoiar a demanda das famílias. Não foi divulgado nenhum cronograma para um pacote de estímulos mais amplo.
Principais pontos
- O CSI 300 caiu 20% em relação ao pico de junho durante as negociações de 22 de outubro, após 10 semanas consecutivas de queda.
- As ações de tecnologia sofreram perdas maiores, com o STAR 50 em queda de quase 40% no semestre atual.
- As ações da CATL caíram 12% na quarta-feira, após o crescimento do lucro trimestral decepcionar os investidores.
- Os lucros industriais oficiais subiram 15,7% de janeiro a agosto, mas caíram nos setores de máquinas elétricas e fabricação de veículos.
- A Central Huijin pode ter cerca de US$ 188 bilhões disponíveis para novas compras, segundo estimativas de analistas.
- O crescimento econômico melhorou para 4,5% no terceiro trimestre, enquanto a baixa confiança das famílias e a pressão sobre os lucros das empresas continuaram pesando sobre as ações.






