Calor no campo, falta de recursos
O agricultor Sambi Reddy Vuyyuru, do estado de Andhra Pradesh, relata que o crescimento das bananeiras e a produtividade caíram quase 50% enquanto temperaturas excepcionalmente altas continuam afetando as lavouras mesmo após o auge do verão. As frutas estão menores, as sementes de hortaliças têm dificuldade para germinar e ataques severos de pragas aumentam as perdas. Segundo ele, os problemas persistem há dois a três meses.
Conteúdo
- Calor no campo, falta de recursos
- O que os agricultores estão perdendo
- Por que uma previsão precisa de um plano de ação
- Uma lacuna global de financiamento cada vez maior
- Por que os estados indianos arcam com grande parte do ônus
- O plano nacional da Índia e a dimensão das necessidades
- Por que o tipo de financiamento importa
- O que a Índia quer da COP31
- As datas que conectam planos, dinheiro e lavouras
- Principais pontos
A resposta financeira avança muito mais devagar que o clima. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em seu Relatório sobre a Lacuna de Adaptação 2025, calcula que o financiamento público internacional para adaptação destinado a países em desenvolvimento foi de US$ 26 bilhões em 2023, abaixo dos US$ 28 bilhões em 2022. As necessidades anuais estimadas para 2035 vão de US$ 310 bilhões a US$ 365 bilhões.
A primeira Comunicação de Adaptação da Índia, apresentada ao processo climático das Nações Unidas em dezembro de 2023, estimou necessidades acumuladas de gastos com adaptação de 56,68 trilhões de rúpias até 2030. Nos estados indianos, a responsabilidade de proteger lavouras, abastecimento de água e comunidades esbarra nos limites de endividamento e nas demandas concorrentes por recursos dos orçamentos públicos.
Adaptação significa se preparar para impactos climáticos que as comunidades já enfrentam ou podem esperar. Na agricultura, isso pode significar escolher culturas adequadas à disponibilidade de água, mudar o calendário de plantio, melhorar a irrigação ou agir com base em alertas meteorológicos antes que ocorram danos. Mitigação, o outro principal eixo da ação climática, significa reduzir as emissões que causam o aquecimento.
O desafio da Índia conecta todos esses níveis: uma previsão precisa chegar ao agricultor a tempo, ele precisa ter uma resposta viável e alguém precisa pagar por ela. Um alerta sobre calor ou escassez de chuva tem utilidade prática limitada quando uma família não consegue pagar pela irrigação ou por sementes para replantio.
O que os agricultores estão perdendo
Vuyyuru diz que está colhendo apenas quatro ou cinco cachos de banana, quando normalmente colheria seis ou sete. Além das frutas menores, ele relata baixa germinação de hortaliças e danos causados por pragas que afetam quiabo, verduras folhosas e cabaças.
O caso mostra como o estresse climático pode afetar várias etapas da produção. Sementes que não brotam reduzem a lavoura antes mesmo de ela se estabelecer. O crescimento deficiente limita a colheita, enquanto os ataques de pragas criam outra fonte de prejuízo. Para uma família agricultora, a pressão continua mesmo depois que as temperaturas começam a cair.
O cientista climático Roxy Mathew Koll diz que os estoques de arroz e trigo da Índia podem oferecer alguma proteção contra pressões sobre o abastecimento, enquanto leguminosas, oleaginosas e hortaliças continuam vulneráveis. Um déficit de 40% nas chuvas em junho, segundo relatos, atrasou o cultivo, com possíveis efeitos sobre a produção e as safras seguintes.
Saransh Bajpai, do WRI Índia, diz que o Ministério da Agricultura reduziu em 2,63 milhões de toneladas sua estimativa de produção de grãos alimentícios para o ano fiscal. Pequenos agricultores sem irrigação ou dinheiro suficiente para trocar de sementes enfrentam escolhas particularmente difíceis quando as condições de plantio mudam.
Por que uma previsão precisa de um plano de ação
Ben Churchill, diretor regional da Organização Meteorológica Mundial para a Ásia e o Pacífico, pediu que os governos deem mais prioridade à previsão de eventos climáticos extremos e invistam nos serviços nacionais de meteorologia e hidrologia. Esses serviços monitoram a atmosfera e os sistemas hídricos e usam observações para produzir alertas e previsões.
O apelo de Churchill inclui apoio a equipamentos de coleta de dados. Observações confiáveis ajudam os meteorologistas a identificar riscos em formação, mas a resposta também depende de órgãos agrícolas, governos estaduais e comunidades rurais estarem preparados para agir.
A Índia pede que estados e agricultores de áreas dependentes das chuvas e sujeitas à seca considerem culturas que exigem menos água, incluindo variedades adequadas de leguminosas e oleaginosas. O governo também incentiva planos de cultivo baseados em balanços hídricos locais.
Um balanço hídrico compara a quantidade de água que uma região pode esperar ter com a necessária para suas lavouras e outros usuários. Assim, a escolha das culturas se torna uma decisão local, em vez de uma instrução uniforme. Como observa Koll, leguminosas e oleaginosas continuam expostas a danos climáticos, mesmo quando determinadas variedades são mais adequadas à pouca água disponível.
A questão prática é saber se as orientações chegam antes do plantio e se os agricultores têm acesso às sementes, ao crédito e à água necessários para segui-las. A expansão do crédito rural, dos seguros e da tecnologia na Índia pode ajudar, mas mudar o plano de cultivo ainda exige recursos na propriedade.
Uma lacuna global de financiamento cada vez maior
O Pnuma calcula de duas maneiras as necessidades anuais de adaptação dos países em desenvolvimento em 2035. A modelagem econômica estima US$ 310 bilhões. A extrapolação das necessidades registradas nos compromissos climáticos nacionais e nos planos de adaptação resulta na estimativa mais alta, de US$ 365 bilhões.
As duas estimativas superam em muito os US$ 26 bilhões em financiamento público internacional para adaptação registrados em 2023, o ano mais recente com dados confiáveis no relatório. As necessidades anuais futuras são cerca de 12 a 14 vezes maiores que esse fluxo. O financiamento também seguiu na direção errada entre 2022 e 2023, caindo US$ 2 bilhões, ou aproximadamente 7%.
O Pnuma alerta que, se as tendências atuais continuarem, a meta do Pacto Climático de Glasgow de dobrar o financiamento público internacional para adaptação em relação aos níveis de 2019 até 2025 não será alcançada. O relatório também conclui que a nova meta global de financiamento climático é insuficiente para fechar a lacuna de adaptação.
Há avanços na implementação. Os países relataram mais de 1.600 ações de adaptação concluídas, principalmente nas áreas de biodiversidade, agricultura, água e infraestrutura. O apoio de fundos climáticos a novos projetos de adaptação aumentou em 2024. A maioria dos países também conta com pelo menos uma política, estratégia ou plano nacional de adaptação.
Esses avanços mostram que o planejamento e os projetos estão progredindo, enquanto o financiamento permanece muito abaixo das necessidades projetadas. Na agricultura, a pressão é especialmente imediata porque o plantio e a colheita obedecem a prazos sazonais, enquanto as decisões de investimento podem levar muito mais tempo.
Por que os estados indianos arcam com grande parte do ônus
O relatório Financiamento da Adaptação na Índia, da Climate Policy Initiative, publicado em 21 de fevereiro de 2024, estima que apenas seis estados precisam, em conjunto, de investimentos anuais de 444,7 bilhões de rúpias, equivalentes a US$ 5,5 bilhões, entre 2021 e 2030.
O estudo, de Aanandita Sikka, Labanya Prakash Jena, Malini Chakravarty e Uma Pal, coloca os estados no centro da adaptação porque muitas respostas dependem das condições locais. O documento constata que as políticas e os programas estaduais variam tanto no grau de avanço quanto nas prioridades.
As finanças estaduais vêm sofrendo pressão desde a desaceleração econômica de 2019–20, a pandemia de COVID-19, as restrições ao endividamento e a dívida já existente. Assim, os governos responsáveis pela adaptação local têm pouca margem para aumentar os gastos, mesmo com o crescimento dos riscos.
A CPI também identifica um problema de mensuração: a Índia não dispõe de uma estrutura comum para avaliar o risco climático nem de um método sistemático para determinar até que ponto os programas de desenvolvimento enfrentam a vulnerabilidade. Sem avaliações consistentes, os governos têm mais dificuldade para comparar prioridades e acompanhar se os gastos reduzem a exposição a danos.
O estudo recomenda incluir a adaptação nas discussões da Comissão de Finanças sobre repasses aos estados, considerar limites temporários de endividamento vinculados às necessidades climáticas, melhorar os dados sobre financiamento verde e recorrer, quando apropriado, a parcerias entre órgãos públicos e empresas. As propostas abordam tanto o volume de recursos disponíveis quanto a capacidade de direcioná-los com eficácia.
O plano nacional da Índia e a dimensão das necessidades
A Índia começou a elaborar seu primeiro Plano Nacional de Adaptação para incorporar a resiliência climática às políticas, aos programas e ao planejamento do desenvolvimento. Em uma consulta realizada em 10 e 11 de fevereiro de 2025, autoridades descreveram o trabalho em nove setores, com estudos de vulnerabilidade conduzidos pelo Ministério do Meio Ambiente para identificar regiões prioritárias e necessidades de recursos.
Ruchika Drall, subsecretária de mudanças climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Florestas e Mudanças Climáticas, descreveu o cronograma previsto durante o processo de elaboração.
"O Ministério do Meio Ambiente é o órgão responsável por elaborar o Plano Nacional de Adaptação da Índia, que deverá ficar pronto até o fim deste ano, antes da COP30", disse Drall.
Na redução de riscos de desastres, a Autoridade Nacional de Gestão de Desastres foi designada como órgão líder, e o Centro Integrado de Adaptação às Mudanças Climáticas, Redução de Riscos de Desastres e Sustentabilidade, como instituição de referência. Autoridades também defenderam que o planejamento para desastres chegue ao nível das aldeias e que a proteção dos ecossistemas seja incorporada à adaptação.
As estimativas financeiras publicadas têm escopos e níveis de detalhamento diferentes. A Comunicação de Adaptação da Índia de 2023 calculou necessidades acumuladas até 2030 em 56,68 trilhões de rúpias; Bajpai afirma que as necessidades podem chegar a US$ 854 bilhões à medida que os impactos se intensificam. Drall citou separadamente cerca de US$ 73 trilhões durante a consulta, sem apresentar cálculo ou horizonte temporal para esse valor. O cronograma de elaboração também estabeleceu uma meta para concluir o plano nacional, mas não confirmou seu envio posterior.
O planejamento nacional vem se disseminando cada vez mais. Dados climáticos das Nações Unidas citados durante a consulta indicaram que 142 países em desenvolvimento estavam tomando medidas para formular e implementar planos de adaptação, e que 60 haviam apresentado planos até outubro de 2024. Em novembro de 2023, o Fundo Verde para o Clima havia aprovado 83 projetos de adaptação em 44 países, com financiamento total de US$ 18,6 bilhões, dos quais US$ 5,3 bilhões vieram diretamente do fundo.
Por que o tipo de financiamento importa
Bajpai defende mais doações, financiamento em condições favoráveis, investimento privado e acesso mais fácil aos recursos. Uma doação não precisa ser reembolsada. O financiamento em condições favoráveis geralmente oferece termos melhores que o crédito comercial comum, como juros menores ou prazos de pagamento mais longos.
Essas diferenças importam quando um projeto protege meios de subsistência, mas gera pouca renda direta. Equipamentos de observação meteorológica, mapeamento de riscos locais e proteção de comunidades vulneráveis podem trazer benefícios públicos sem gerar um fluxo de receita claro para quitar um empréstimo comercial.
O Pnuma estima que investidores privados poderiam fornecer cerca de US$ 50 bilhões por ano para adaptação se os governos adotarem políticas direcionadas e financiamento combinado. Esse modelo combina recursos públicos ou em condições favoráveis com capital privado, muitas vezes compartilhando riscos que, de outra forma, desestimulariam o investimento.
Mesmo esse potencial de US$ 50 bilhões equivaleria a apenas cerca de 14% a 16% das necessidades anuais estimadas pelo Pnuma, de US$ 310 bilhões a US$ 365 bilhões em 2035. Por isso, o financiamento público continua sendo central. O Pnuma também pede cautela para evitar que aumente a proporção de instrumentos de dívida usados por países vulneráveis.
Entre as medidas propostas no debate que antecede a COP31 estão ampliar a participação dos bancos multilaterais de desenvolvimento, estender os prazos de pagamento, compartilhar riscos e apoiar a preparação de projetos. A preparação de projetos financia trabalhos como estudos de viabilidade e avaliações de risco, ajudando a transformar uma prioridade nacional em uma proposta que possa ser avaliada por um fundo.
O que a Índia quer da COP31
A COP31 está marcada para 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia, e a segurança alimentar e a agricultura estão entre os temas em destaque. A posição da Índia vincula compromissos climáticos mais fortes ao financiamento, à transferência de tecnologia e à capacidade institucional necessária para colocá-los em prática.
Em conversas preparatórias em Fiji, o ministro do Meio Ambiente, Bhupender Yadav, pediu flexibilidade e respeito aos caminhos de implementação escolhidos de acordo com as circunstâncias nacionais. Ele afirmou que a inclusão do Artigo 9.1 do Acordo de Paris na pauta provisória criou uma oportunidade para alinhar o financiamento às necessidades dos países.
O Artigo 9.1 determina que os países desenvolvidos forneçam recursos financeiros para ajudar os países em desenvolvimento na mitigação e na adaptação. Yadav também defendeu o uso da cooperação prevista no Artigo 6, que permite aos países trabalhar juntos em ações climáticas, inclusive por meio de mecanismos de mercado de carbono.
As negociações ocorrem após dois grandes compromissos. Na COP29, os países concordaram que os países desenvolvidos devem liderar a mobilização de pelo menos US$ 300 bilhões por ano para os países em desenvolvimento até 2035, além de ampliar o financiamento climático público e privado total para US$ 1,3 trilhão anuais. A COP30 adotou a meta de triplicar o financiamento para adaptação até 2035.
Os compromissos mais amplos de financiamento climático abrangem tanto a redução de emissões quanto a adaptação. A defesa da Índia por equilíbrio entre as duas áreas chama atenção para o volume de apoio destinado a atividades como proteger lavouras, gerir recursos hídricos e aprimorar alertas precoces, e para saber se esse apoio chega na forma de doações, empréstimos acessíveis ou dívida comum.
As datas que conectam planos, dinheiro e lavouras
As perdas dos agricultores indianos fazem parte de uma sequência mais longa de planejamento nacional e compromissos internacionais. Os principais marcos mostram a distância entre reconhecer as necessidades de adaptação e financiar ações.
- Dezembro de 2023: a Índia apresentou sua primeira Comunicação de Adaptação, estimando necessidades acumuladas de gastos com adaptação de 56,68 trilhões de rúpias até 2030.
- 21 de fevereiro de 2024: a CPI publicou seu estudo, que identificou necessidades anuais de investimento em adaptação de 444,7 bilhões de rúpias em seis estados.
- 10 e 11 de fevereiro de 2025: uma consulta discutiu o primeiro Plano Nacional de Adaptação da Índia e o trabalho em nove setores.
- 2025: o Relatório sobre a Lacuna de Adaptação do Pnuma estimou em US$ 310 bilhões a US$ 365 bilhões as necessidades anuais dos países em desenvolvimento em 2035, em comparação com US$ 26 bilhões de financiamento público internacional em 2023.
- 9 a 20 de novembro de 2026: a COP31 está prevista para acontecer em Antália.
- 2035: esse é o ano-meta dos compromissos internacionais de mobilizar pelo menos US$ 300 bilhões anuais em financiamento climático e triplicar o financiamento para adaptação.
Para os agricultores, o calendário operacional é mais curto: acesso a sementes adequadas antes da semeadura, um plano de uso da água antes que surjam as escassezes e alertas com antecedência suficiente para mudar uma decisão. O principal desafio de financiamento é tornar os planos nacionais e os compromissos internacionais úteis dentro dessas janelas sazonais.
Principais pontos
- O agricultor Sambi Reddy Vuyyuru, de Andhra Pradesh, relata queda de quase 50% no crescimento e na produtividade das bananeiras, além de problemas de germinação de hortaliças e danos causados por pragas.
- O financiamento público internacional para adaptação destinado aos países em desenvolvimento caiu de US$ 28 bilhões em 2022 para US$ 26 bilhões em 2023.
- O Pnuma estima necessidades anuais de adaptação de US$ 310 bilhões a US$ 365 bilhões em 2035, cerca de 12 a 14 vezes os fluxos atuais.
- Segundo a CPI, apenas seis estados indianos precisam de 444,7 bilhões de rúpias por ano para adaptação, enquanto os orçamentos estaduais enfrentam limites de endividamento e dívidas existentes.
- A Índia defende financiamento, tecnologia e apoio à implementação antes da COP31, em Antália, de 9 a 20 de novembro.
- Doações, financiamento acessível e ações locais oportunas são essenciais para transformar previsões em proteção para as lavouras e os meios de subsistência.






