Dois métodos de lançamento colocam em evidência as armas navais da Coreia do Norte
A Coreia do Norte testou dois tipos de mísseis de cruzeiro estratégicos lançados de submarinos no Mar do Japão em 14 de outubro, enquanto as Forças Armadas da Coreia do Sul afirmaram ter monitorado as armas desde antes do lançamento até o fim de seus voos. Seul avaliou que um míssil foi disparado verticalmente e o outro por um tubo de torpedo, apontando para duas formas diferentes de lançar armas debaixo d'água.
Conteúdo
- Dois métodos de lançamento colocam em evidência as armas navais da Coreia do Norte
- O que a Coreia do Norte disse estar testando
- Por que os dois ângulos de lançamento são importantes
- Submarino lançado em 2023 volta ao centro das atenções
- O que os mísseis de cruzeiro acrescentam ao arsenal
- Como a Coreia do Sul monitorou o exercício
- Um outubro movimentado para os testes de mísseis
- Tensões na fronteira e próximos exercícios programados
- Principais pontos
A Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA) anunciou o exercício em 15 de outubro, dizendo que o Departamento Geral de Mísseis havia testado a prontidão dos sistemas de combate submarinos e ajudado tripulações da Marinha a praticar missões estratégicas. O local também é conhecido como Mar do Leste na Coreia do Sul.
A Coreia do Norte descreveu os lançamentos como uma demonstração da confiabilidade e da capacidade de sua dissuasão bélica. Analistas sul-coreanos concentraram-se no submarino mostrado no anúncio, identificando-o como provavelmente o Herói Kim Kun Ok, uma embarcação lançada em setembro de 2023 que Pyongyang descreve como um submarino de ataque nuclear tático.
O exercício reúne duas frentes do programa militar norte-coreano: o desenvolvimento de mísseis capazes de voar baixo em direção aos alvos e a preparação de submarinos para transportá-los e lançá-los. Para a Coreia do Sul e o Japão, essa combinação cria um desafio de vigilância, pois tanto o local de lançamento subaquático quanto o míssil em aproximação podem ser difíceis de rastrear.
Pyongyang não divulgou as distâncias percorridas pelos mísseis, a duração dos voos nem as configurações das ogivas, e a identidade do submarino continua sendo uma avaliação de analistas. Esses detalhes ajudariam a esclarecer o alcance das armas e o quanto falta para a embarcação entrar em serviço regular.
O que a Coreia do Norte disse estar testando
A KCNA apresentou o lançamento como um teste de equipamento e um exercício de treinamento. O objetivo declarado era examinar o estado atual de prontidão dos sistemas de combate subaquáticos e aprimorar a capacidade da Marinha de realizar missões estratégicas.
O anúncio da KCNA dizia, na íntegra:
Administração de Mísseis da RPDC testa mísseis de cruzeiro estratégicos lançados de submarino
Pyongyang, 15 de outubro (KCNA) -- A Administração de Mísseis da República Popular Democrática da Coreia testou dois tipos de mísseis de cruzeiro estratégicos lançados de submarinos no Mar do Leste da Coreia em 14 de outubro.
O general Kim Jong Sik, membro da Comissão Militar Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia e primeiro vice-diretor de departamento do Comitê Central do PTC, o general Jang Chang Ha, diretor-geral da Administração de Mísseis da RPDC, e engenheiros da Marinha do Exército Popular da Coreia responsáveis por sistemas de armas subaquáticas acompanharam o teste.
O teste teve como objetivo examinar o atual estado de mobilização dos sistemas de combate subaquáticos e contribuiu para capacitar a Marinha a cumprir suas missões estratégicas e demonstrar a alta confiabilidade, credibilidade e capacidade dos meios de dissuasão bélica da RPDC.
O teste não teve impacto adverso sobre a segurança dos países vizinhos. -0-
Prontidão não diz respeito apenas à capacidade de um míssil sair do tubo de lançamento. A tripulação de um submarino precisa operar a embarcação, preparar a arma e coordenar o lançamento. A descrição norte-coreana destacou essas habilidades operacionais, além dos próprios mísseis.
Kim Jong Sik, membro da Comissão Militar Central do governista Partido dos Trabalhadores e primeiro vice-diretor de departamento, acompanhou o exercício ao lado de Jang Chang Ha, chefe do Departamento Geral de Mísseis. Engenheiros da Marinha responsáveis pelos sistemas de armas subaquáticas também estiveram presentes.
Kim Jong Un não foi mencionado entre os presentes. O anúncio foi publicado pela KCNA, e não pelo Rodong Sinmun, jornal do Partido dos Trabalhadores amplamente lido na Coreia do Norte. Assim, o teste ganhou visibilidade pública por meio do serviço de notícias externo do país, sem a mesma cobertura em seu principal jornal doméstico.
A KCNA também afirmou que os lançamentos não tiveram impacto adverso sobre a segurança dos países vizinhos. Essa foi a avaliação de Pyongyang sobre o exercício, apresentado como uma demonstração bem-sucedida de dissuasão, isto é, de força militar destinada a desencorajar um adversário de atacar.
Por que os dois ângulos de lançamento são importantes
O Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul avaliou que os dois mísseis usaram sistemas de lançamento diferentes: um tubo de lançamento vertical e um tubo de torpedo. Imagens divulgadas pela KCNA mostraram um míssil subindo verticalmente do mar e outro emergindo em um ângulo aparente de cerca de 45 graus.
Um tubo vertical lança o míssil para cima a partir do submarino. Um tubo de torpedo normalmente se abre na parte dianteira da embarcação e oferece uma rota diferente até a água, antes de o míssil subir e iniciar o voo motorizado.
Hong Min, pesquisador do Instituto Coreano para a Unificação Nacional, afirmou que os diferentes métodos de lançamento têm objetivos táticos. Ao explicar a possível vantagem do método inclinado, disse:
Lançamentos inclinados, por outro lado, permitem que os mísseis voem em altitudes mais baixas desde o início, dificultando sua detecção e interceptação pelos sistemas de defesa antimísseis.
Hong também avaliou que lançar diferentes mísseis de cruzeiro em momentos distintos poderia aumentar a carga de trabalho das defesas aéreas. Se as armas se aproximarem de direções diferentes, em velocidades distintas ou com alcances variados, os defensores poderão ter de lidar com vários tipos de ameaça ao mesmo tempo.
O interesse militar imediato, portanto, está na combinação dos sistemas de lançamento e dos perfis de voo. Um submarino capaz de usar os dois métodos daria a seus operadores mais opções para planejar um ataque.
Submarino lançado em 2023 volta ao centro das atenções
Shin Jong-woo, secretário-geral do Fórum de Defesa e Segurança da Coreia, identificou o exercício como o primeiro teste de armas divulgado publicamente a partir do Herói Kim Kun Ok. Analistas classificaram o submarino como parte de uma classe de embarcações com cerca de 3 mil toneladas e o identificaram com base nas fotografias divulgadas.
A Coreia do Norte lançou o Herói Kim Kun Ok em setembro de 2023, descrevendo-o como seu primeiro submarino de ataque nuclear tático. As fotografias que acompanharam o anúncio mais recente incluíam um submarino navegando na superfície, além de mísseis emergindo da água e voando sobre o mar.
Shin avaliou que a Coreia do Norte estava realizando testes dos sistemas de combate para preparar o submarino para entrar em serviço. Ele também previu que poderiam ocorrer, em seguida, testes de mísseis balísticos lançados de submarinos. Essa foi uma previsão de um analista; Pyongyang não anunciou uma data para outro teste de armas submarinas.
Em geral, não se acredita que a Coreia do Norte tenha um submarino moderno lançador de mísseis em pleno serviço operacional. O exercício mais recente, portanto, é relevante para o processo de colocar em operação, de forma integrada, o submarino, seu equipamento de lançamento, seus mísseis e sua tripulação.
Um programa de construção separado também revela a dimensão das ambições navais de Kim Jong Un. Durante uma visita a instalações de submarinos descrita como tendo ocorrido no ano anterior, a mídia estatal mostrou um submarino de 8,7 mil toneladas, movido por um reator nuclear, em construção. Na ocasião, Kim criticou um acordo sobre submarinos nucleares entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul, classificando-o como uma ameaça à estabilidade na península.
O que os mísseis de cruzeiro acrescentam ao arsenal
Em geral, os mísseis de cruzeiro usam propulsão a jato e permanecem na atmosfera, voando mais como aeronaves do que como mísseis balísticos. Os mísseis balísticos normalmente são impulsionados durante uma etapa inicial e depois seguem uma trajetória em arco elevado antes de descer em direção aos alvos.
Voar baixo pode dificultar a detecção de um míssil de cruzeiro por radar a longas distâncias, pois a curvatura da Terra e o relevo podem bloquear a visão do radar. O lançamento subaquático também torna o ponto de partida menos previsível do que uma instalação fixa em terra.
O uso do termo estratégico pela Coreia do Norte indica que as armas teriam como alvo instalações importantes e é amplamente interpretado como uma sugestão de que poderiam transportar uma ogiva nuclear. O anúncio de 14 de outubro concentrou-se em prontidão e dissuasão, sem descrever as cargas usadas no exercício.
Segundo relatos, a KCNA identificou uma das armas como Pulhwasal-3-31, um tipo que a Coreia do Norte também havia dito ter testado em terra na semana anterior. A análise sul-coreana também levantou a possibilidade de que o par incluísse um Hwasal-2 e um Pulhwasal-3-31. Assim, os nomes dos mísseis continuam menos bem estabelecidos do que os dois métodos de lançamento descritos por Seul.
Os submarinos são importantes para a dissuasão porque uma embarcação que sobreviva a um ataque inicial ainda poderá retaliar. Isso é chamado de capacidade de segundo ataque. Para alcançá-la, é preciso contar com um submarino que opere de forma confiável e seja difícil de localizar, além de armas e sistemas de comunicação confiáveis.
Como a Coreia do Sul monitorou o exercício
O Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul afirmou ter acompanhado continuamente a atividade dos mísseis de cruzeiro por diversos meios, cobrindo o período anterior ao lançamento, o voo e seu término. O porta-voz Jang Do-young disse que as Forças Armadas não divulgam publicamente cada movimentação de mísseis norte-coreanos que detectam.
Seul não emitiu um comunicado separado à imprensa no dia dos lançamentos dos mísseis de cruzeiro. Sua prática habitual é anunciar prontamente os lançamentos de mísseis balísticos norte-coreanos detectados, enquanto a atividade envolvendo mísseis de cruzeiro costuma ser confirmada depois que Pyongyang a torna pública.
Aeronaves de vigilância dos Estados Unidos também estiveram ativas nos arredores da península. Dados de rastreamento de voos mostraram um MQ-4C Triton da Marinha dos Estados Unidos sobrevoando repetidamente a região central da península coreana e o Mar do Leste por cerca de nove horas em 14 de outubro.
O Triton é uma aeronave não tripulada projetada para monitorar grandes áreas marítimas e litorâneas por períodos prolongados. Uma aeronave de reconhecimento e guerra eletrônica ARES do Exército dos Estados Unidos também havia sobrevoado recentemente a península entre os mares do Leste e do Oeste. Essas aeronaves podem coletar informações a partir de sinais de comunicação e de radar.
O objetivo desses voos específicos dos Estados Unidos não foi confirmado publicamente. A declaração de Seul sobre o rastreamento foi o relato militar direto sobre a vigilância associada ao exercício com mísseis.
Um outubro movimentado para os testes de mísseis
O exercício submarino ocorreu após vários outros lançamentos de mísseis, em um período de agravamento das relações entre as duas Coreias. Em 12 de outubro, a Coreia do Norte havia disparado mísseis balísticos táticos da região de Pyongyang em direção ao Mar do Leste, descrevendo o teste como um trabalho para verificar a atualização de um componente tecnológico importante.
A Coreia do Norte também afirmou ter testado em 3 de outubro um míssil hipersônico de alcance intermediário, que, segundo o país, contou com assistência de inteligência artificial. Posteriormente, a Coreia do Sul testou seu primeiro veículo planador hipersônico desenvolvido internamente, com o presidente Lee Jae Myung acompanhando o disparo.
O termo hipersônico se refere a velocidades de pelo menos cinco vezes a velocidade do som. Um veículo planador também pode manobrar durante parte do voo, o que torna sua trajetória mais difícil de prever. O gabinete de Lee afirmou que, quando estiver totalmente desenvolvido, o armamento da Coreia do Sul aumentará sua capacidade de atingir alvos importantes de surpresa.
A sequência insere o lançamento submarino em uma competição mais ampla envolvendo armas disparadas de terra e do mar:
- Setembro de 2023: a Coreia do Norte lançou o submarino Herói Kim Kun Ok.
- 3 de outubro: a Coreia do Norte afirmou ter testado um míssil hipersônico de alcance intermediário.
- Na semana anterior a 15 de outubro: a Coreia do Sul testou seu primeiro veículo planador hipersônico desenvolvido internamente.
- 12 de outubro: a Coreia do Norte disparou mísseis balísticos táticos da região de Pyongyang.
- 14 de outubro: a Coreia do Norte realizou o exercício com mísseis de cruzeiro lançados de submarino.
- 15 de outubro: a KCNA anunciou o teste submarino, e Seul descreveu o monitoramento e suas avaliações sobre os lançamentos.
Tensões na fronteira e próximos exercícios programados
Três soldados sul-coreanos ficaram feridos em setembro na explosão de uma mina terrestre na parte da Zona Desmilitarizada controlada por Seul. Uma investigação conjunta da Coreia do Sul e das Nações Unidas concluiu que duas minas que explodiram no local haviam sido instaladas por forças norte-coreanas cerca de um ano antes. Seul exigiu um pedido oficial de desculpas.
A Coreia do Norte também acelerou a fortificação militar ao longo da fronteira sob a política de Kim Jong Un de tratar as duas Coreias como Estados hostis. Lançada em 2023, a política busca romper permanentemente os laços com o Sul.
O Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul anunciou que seu exercício Hoguk de 2026 seria realizado de 19 a 30 de outubro. As manobras anuais em campo reúnem unidades do Exército, da Marinha e da Força Aérea; as Forças Armadas disseram que praticariam a integração de operações em terra, no mar e no ar.
Dois dos sete exercícios conjuntos de treinamento em campo adiados após a redução do exercício Escudo da Liberdade Ulchi, em agosto, estavam programados para ocorrer junto com o Hoguk. Os outros cinco estavam previstos para antes do fim do ano.
As negociações diplomáticas avançaram pouco desde que as conversas entre Washington e Pyongyang fracassaram em 2019. Nesse contexto, o lançamento de 14 de outubro acrescenta um desenvolvimento naval concreto às tensões na península: dois tipos de mísseis de cruzeiro testados por meio de diferentes sistemas de lançamento subaquático, com a Coreia do Sul monitorando a operação.
Principais pontos
- A Coreia do Norte afirmou ter testado dois tipos de mísseis de cruzeiro estratégicos lançados de submarino em 14 de outubro.
- A Coreia do Sul avaliou que um usou um tubo de lançamento vertical e o outro, um tubo de torpedo.
- Seul afirmou ter monitorado a atividade desde antes do lançamento até o fim dos voos dos mísseis.
- Analistas identificaram o submarino provável como o Herói Kim Kun Ok, lançado em setembro de 2023.
- Pyongyang descreveu o exercício como um teste de prontidão e treinamento naval, mas não divulgou distâncias percorridas nem tempos de voo.
- A Coreia do Sul programou seu exercício militar Hoguk para o período de 19 a 30 de outubro.






