Maior compromisso doméstico, mas o financiamento continua decisivo
As Filipinas renovaram seu compromisso de reduzir ou evitar 75% das emissões acumuladas projetadas de gases de efeito estufa entre 2025 e 2035, elevando para 7 pontos percentuais a parcela que será cumprida com recursos domésticos. Os 68 pontos percentuais restantes dependem de financiamento climático internacional, transferência de tecnologia e capacitação.
Conteúdo
- Maior compromisso doméstico, mas o financiamento continua decisivo
- O que a meta de 75% mede de fato
- Quanto aumentou a parcela doméstica?
- As florestas fazem a maior diferença no balanço líquido
- Energia lidera as emissões, enquanto limitações da rede atrasam projetos
- Financiamento sem aumentar a dívida nacional
- Comércio de carbono pode atrair investimentos, com salvaguardas contábeis
- Adaptação e orçamentos públicos precisam estar à altura do compromisso
- Consulta foi ampliada, mas a implementação precisa ser verificada
- Principais pontos
O compromisso climático de 2026 do governo também projeta que, se todas as políticas e medidas identificadas forem implementadas, o país poderá absorver mais gases de efeito estufa do que emitir ao longo de todo o período. Florestas e outros usos da terra são centrais nessa projeção, o que torna a proteção dos ecossistemas uma parte importante do compromisso, ao lado de mudanças nos setores de energia, transporte, agricultura, indústria e resíduos.
A meta de 75% repete o percentual do compromisso anterior, mas o período de contabilização, a contribuição doméstica e o tratamento do uso da terra mudaram. O compromisso anterior abrangia 2020 a 2030 e condicionava 72,29 pontos percentuais ao apoio internacional. Isso deixava uma contribuição incondicional de 2,71 pontos percentuais, contra 7 agora.
O secretário de Meio Ambiente e Recursos Naturais, Juan Miguel T. Cuna, afirmou que o presidente Ferdinand R. Marcos Jr. havia aprovado a Contribuição Nacionalmente Determinada atualizada, ou NDC. Ao apresentá-la na Conferência Filipina de Emissões Líquidas Zero, em Pasay City, em 15 de setembro de 2026, Cuna descreveu o compromisso como um programa econômico que conecta a ação climática à segurança energética, à resiliência fiscal e à proteção social.
A distinção entre uma promessa e uma projeção é importante. A meta formal de 75% é medida em relação a um cenário de emissões futuras, e não às emissões atuais. A projeção de um sumidouro líquido vai além dessa meta e depende da execução do conjunto mais amplo de medidas.
O que a meta de 75% mede de fato
O anexo técnico de contabilização do governo identifica 2015 como ano-base e o período de 2025 a 2035 como referência. A meta é calculada em relação às emissões e remoções acumuladas projetadas no cenário de manutenção das tendências atuais, ou seja, o total esperado nesses anos no cenário de referência.
Essa distinção evita uma interpretação equivocada comum: as Filipinas não prometem que as emissões em 2035 serão exatamente 75% menores do que em 2015. Em vez disso, comprometem-se a reduzir ou evitar três quartos do total acumulado projetado, incluindo os efeitos de florestas e outros usos da terra.
O anexo calcula esse total líquido de referência em 1.309,53 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (MtCO2e), incluindo florestas e outros usos da terra. Sem esse setor, o total é de 3.605,09 MtCO2e. O dióxido de carbono equivalente converte diferentes gases de efeito estufa em uma medida comum de acordo com seu efeito de aquecimento.
Aplicada diretamente ao total líquido de referência informado, uma redução de 75% deixaria cerca de 327,38 MtCO2e ao longo do período. Esse valor ainda é positivo. A projeção separada de emissões abaixo de zero descreve, portanto, o potencial modelado de todas as medidas identificadas, e não o resultado numérico mínimo implícito na meta anunciada. O anexo afirma que a meta foi fixada abaixo do nível modelado para torná-la alcançável.
A contabilização abrange dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, hidrofluorcarbonetos e hexafluoreto de enxofre. Um relato da conferência descreveu o compromisso renovado como válido até 2030, mas os dois documentos oficiais especificam o período de 2025 a 2035. O período oficial de referência é a base para compreender o novo compromisso.
Quanto aumentou a parcela doméstica?
A contribuição incondicional subiu 4,29 pontos percentuais, de 2,71 para 7. Agora, equivale a cerca de 2,6 vezes o tamanho anterior. Como parcela do compromisso total de 75 pontos percentuais, a contribuição doméstica aumentou de cerca de 3,6% para 9,3%.
O apoio internacional continua sendo fundamental para cerca de 90,7% da redução e da prevenção prometidas. Esses percentuais representam parcelas da meta de emissões, não parcelas do custo financeiro. Um compromisso incondicional de 7 pontos percentuais não significa que o governo tenha prometido pagar 7% do orçamento do programa.
A sequência de compromissos e etapas de implementação mostra como o novo compromisso se desenvolveu:
- 2021: As Filipinas apresentaram sua NDC anterior, com meta de redução e prevenção de 75% entre 2020 e 2030.
- Fevereiro de 2025: Terminou o prazo para a apresentação da mais recente rodada de compromissos climáticos nacionais atualizados; as Filipinas não enviaram o documento até essa data.
- Abril de 2026: As Filipinas assinaram com Singapura um acordo de implementação do Artigo 6.
- 8 de setembro de 2026: A NDC filipina atualizada foi publicada e, segundo relatos, apresentada às Nações Unidas.
- 15 de setembro de 2026: Cuna discutiu o compromisso aprovado na Conferência Filipina de Emissões Líquidas Zero, em Pasay City.
As NDCs são compromissos nacionais previstos no Acordo de Paris e atualizados a cada cinco anos. O governo filipino afirma que esta versão avança em relação ao compromisso anterior com uma contribuição incondicional maior, cobertura mais ampla e análise aprimorada, embora o percentual anunciado permaneça igual.
As florestas fazem a maior diferença no balanço líquido
Florestas e outros usos da terra respondem por remoções acumuladas projetadas de 2.295,56 MtCO2e no cenário de referência. Essas remoções compensam cerca de 64% das 3.605,09 MtCO2e projetadas nos demais setores. Isso explica por que incluir o uso da terra altera tão acentuadamente o balanço nacional de emissões.
O anexo afirma que o setor é um sumidouro líquido anual desde 2020. Também descreve florestas e outros usos da terra como fonte líquida acumulada de emissões na série histórica de 2010 a 2020. Essas afirmações tratam de medidas diferentes: um setor pode passar a registrar remoções anuais, embora o total de um período anterior ainda indique mais emissões do que absorção.
O governo atribui a forte queda das emissões líquidas anuais em 2020 principalmente a mudanças no uso da terra, incluindo a redução das áreas cultivadas e o aumento contínuo da cobertura florestal. Segundo o governo, a menor pressão da agricultura sobre as florestas e a expansão do sumidouro florestal contribuíram para essa mudança.
O anexo também afirma que as medidas para florestas reduzem em cerca de 2.296 MtCO2e as emissões acumuladas do cenário de manutenção das tendências atuais, e que a mitigação nos demais setores leva o total nacional modelado para abaixo de zero. A relação entre esse valor de mitigação e o número semelhante de remoções no cenário de referência exige explicações cuidadosas nos relatórios de implementação. Os leitores não devem simplesmente somar os dois valores.
As emissões de incêndios estão incluídas no inventário nacional, e a meta atualizada não prevê ajustes por perturbações naturais em terras manejadas. A proteção florestal e a medição precisa são, portanto, centrais para a credibilidade do sumidouro projetado, e não complementos opcionais à transição energética.
Energia lidera as emissões, enquanto limitações da rede atrasam projetos
No cenário de referência, o setor de energia responde por 1.639,8 MtCO2e de emissões acumuladas; o transporte, por 658,81; a agricultura, por 693,9; os resíduos, por 422,67; e os processos industriais e o uso de produtos, por 189,89. Energia e transporte juntos representam cerca de 64% das emissões projetadas, excluídas florestas e outros usos da terra.
O Plano Energético Filipino de 2023 a 2050 estabelece como meta que as energias renováveis respondam por 35% da geração de eletricidade até 2030 e 50% até 2040. O plano de implementação do compromisso climático anterior estimou que a expansão das energias renováveis e a eficiência energética poderiam reduzir as emissões acumuladas em aproximadamente 990 MtCO2e entre 2020 e 2030. Essa estimativa refere-se ao período anterior e não deve ser tratada como uma contribuição quantificada para a nova meta.
Na conferência de setembro, Jerome Cainglet, presidente e diretor de operações da Energy Development Corporation, afirmou que limitações na transmissão impediam o avanço de projetos eólicos potenciais de cerca de 600 megawatts em Ilocos Norte e outros 150 megawatts em Guimaras. Juntos, eles representam cerca de 750 megawatts de capacidade potencial.
Cainglet também afirmou que usinas geotérmicas em Leyte às vezes não conseguiam operar em plena capacidade porque a rede não tinha condições de receber sua produção. A eletricidade que não chega aos consumidores não pode substituir a geração a combustíveis fósseis, mesmo quando há recursos renováveis e equipamentos de geração disponíveis.
A National Grid Corporation of the Philippines previa concluir em 2026 seis projetos de transmissão avaliados em P23,5 bilhões, incluindo a interconexão entre Panay e Guimaras, de P3,6 bilhões. A Comissão Reguladora de Energia aprovou em maio um projeto de P2,79 bilhões para melhorar a qualidade da energia em Laoag e administrar as oscilações de tensão à medida que mais geração eólica e solar se conecta à rede. São investimentos planejados ou aprovados, não uma confirmação de que todas as limitações foram resolvidas.
Financiamento sem aumentar a dívida nacional
A NDC afirma que as Filipinas recorrerão a financiamento público e privado, além de desenvolvimento e transferência de tecnologia e capacitação. O documento pede apoio internacional altamente concessional, que não gere dívida e possa ser acessado por meio de mecanismos mais simples e diretos.
Essa demanda reflete a posição do país de que as nações industrializadas ricas devem oferecer apoio compatível com sua maior contribuição histórica para o aquecimento global e sua maior capacidade financeira. Líderes de países em desenvolvimento e representantes da sociedade civil defendem a concessão de recursos, em vez de empréstimos, para que a ação climática não aumente o endividamento existente.
Cuna pediu a investidores e instituições financeiras que ajudem a desenvolver projetos capazes de atrair recursos. Ele expressou a prioridade de financiamento na Conferência Filipina de Emissões Líquidas Zero:
"Precisamos de capital que ajude a construir. Vamos parar de tratar projetos climáticos como exceções de alto risco; tornar o financiamento verde acessível, escalável e sem gerar dívida", disse Cuna.
Michael Williamson, chefe da seção de Energia da Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia e o Pacífico, apresentou outra opção de financiamento na mesma conferência: empréstimos com juros baixos ou zero para atividades específicas. Esses empréstimos podem reduzir o custo dos investimentos, mas continuam sendo diferentes de doações e do apoio sem geração de dívida exigido pela NDC.
Cuna apresentou um marco mais amplo para a implementação, que abrange a estratégia nacional de longo prazo, o Plano de Implementação da NDC, o Marco para uma Transição Justa, o Marco de Políticas para o Mercado de Carbono e o Plano Financeiro e de Investimentos. A NDC atribui ao plano de implementação a responsabilidade de orientar as estratégias de financiamento, mas não informa o total necessário nem um cronograma para garantir o apoio condicionado.
Comércio de carbono pode atrair investimentos, com salvaguardas contábeis
As Filipinas planejam usar a cooperação prevista no Artigo 6 do Acordo de Paris para atrair investimentos e tecnologia. Esses acordos podem permitir que os países cooperem na redução de emissões, inclusive por meio da transferência de resultados de mitigação reconhecidos, enquanto outras formas de cooperação ocorrem sem negociação de créditos.
O governo informa que assinou um acordo de implementação com Singapura em abril de 2026. O Mecanismo de Crédito Conjunto com o Japão inclui cinco metodologias aprovadas e 31 projetos em desenvolvimento ativo. As metodologias definem como calcular as reduções de emissões de um determinado tipo de projeto; projetos em desenvolvimento não são o mesmo que projetos concluídos que já geram reduções verificadas.
Também estão em negociação possíveis acordos bilaterais com a Nova Zelândia, a Hungria e a Coreia do Sul. Sete iniciativas do antigo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo estão começando o processo de transição, e 14 atividades de mitigação foram submetidas para análise prévia.
A NDC exige salvaguardas de governança, transparência e contabilização para impedir que a mesma redução de emissões seja contabilizada tanto pelas Filipinas quanto pelo país comprador. Os ajustes correspondentes são alterações contábeis usadas para evitar essa dupla contagem. O governo está desenvolvendo uma estratégia para o Artigo 6, sistemas nacionais de monitoramento e um registro de carbono.
O Congresso está analisando projetos de lei para criar um mercado de conformidade, mas o anexo não identifica um sistema aprovado nem uma data para a decisão. Os mercados de carbono fazem parte, portanto, da estrutura de financiamento prevista, e não são prova de que os recursos necessários para a meta condicionada já tenham sido garantidos.
Adaptação e orçamentos públicos precisam estar à altura do compromisso
A NDC aponta o Plano Nacional de Adaptação de 2023 a 2050 como referência para as ações de adaptação. O documento descreve a adaptação como uma prioridade contínua, pois riscos climáticos já ameaçam a infraestrutura, os meios de subsistência, a agricultura, a pesca, os recursos hídricos e a saúde pública.
Com a população projetada para chegar a 123,96 milhões até 2035, o governo conecta a política de emissões à segurança alimentar, à redução da pobreza e à resiliência econômica. A abordagem inclui proteção dos ecossistemas, conhecimentos indígenas, igualdade de gênero, inclusão de pessoas com deficiência e apoio a comunidades vulneráveis.
John Leo Algo, coordenador nacional da Aksyon Klima Pilipinas, argumenta que os orçamentos domésticos precisam refletir essas prioridades. Segundo sua avaliação, o financiamento de 2026 para soluções baseadas na natureza foi 28 vezes menor do que o destinado a estradas, pontes e outras infraestruturas convencionais identificadas como relacionadas ao clima, e cinco vezes inferior a uma referência de gastos da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Essas proporções são uma avaliação dele, e não números estabelecidos pela NDC.
Algo também argumenta que flexibilizar as restrições à moratória do carvão e optar por não aderir a uma coalizão global para abandonar os combustíveis fósseis enfraquece a orientação do governo. Sua crítica evidencia uma tensão prática: um compromisso doméstico maior ainda depende de gastos e políticas energéticas capazes de concretizá-lo.
A transição vai além da eletricidade. Oliver Chan, vice-presidente executivo e diretor de sustentabilidade da Arthaland Corporation, apontou o cimento e o aço como fontes importantes de emissões incorporadas nos materiais de construção. Usar eletricidade mais limpa nas operações dos edifícios não elimina as emissões geradas na produção desses materiais.
Consulta foi ampliada, mas a implementação precisa ser verificada
A declaração de consulta às partes interessadas da Comissão de Mudanças Climáticas descreve uma sessão híbrida em Quezon City com mais de 200 participantes. Entre os representados estavam 14 órgãos do governo nacional, 22 parceiros de desenvolvimento, 35 organizações da sociedade civil e sem fins lucrativos, cinco instituições acadêmicas, três grupos marginalizados e 26 entidades do setor privado.
A comissão e o Departamento de Meio Ambiente e Recursos Naturais lideram conjuntamente a elaboração da NDC atualizada. A comissária Rachel Anne S. Herrera afirmou que as contribuições recebidas nas consultas seriam analisadas e incorporadas ao texto final. Algo reconheceu o avanço na participação, mas pediu comunicações mais rápidas e explicações mais claras sobre como as contribuições foram incorporadas.
A Ordem Executiva 174, de 2014, designa a comissão como principal órgão responsável pelo inventário nacional de gases de efeito estufa e pelo monitoramento, relato e verificação da NDC. O compromisso atualizado se apoia em sistemas setoriais, no inventário nacional e nos requisitos de transparência do Acordo de Paris.
Detalhes importantes sobre a implementação ainda não foram esclarecidos publicamente: o custo total, quanto do compromisso anterior foi executado, quando o apoio internacional será recebido e qual será o cronograma do plano de implementação atualizado. O sumidouro líquido acumulado projetado tampouco constitui um compromisso nacional com data definida para atingir e manter emissões líquidas zero.
Francis Giles B. Puno, presidente da First Gen Holdings Corporation, afirmou que o progresso deve ser medido pelas parcerias formadas e pelos projetos entregues, e não apenas pelos compromissos assumidos. Esse é o teste prático da nova promessa: reduções e remoções verificadas, infraestrutura em funcionamento, financiamento garantido e proteção às pessoas afetadas pela transição.
Principais pontos
- As Filipinas têm como meta reduzir ou evitar 75% das emissões acumuladas projetadas entre 2025 e 2035.
- A contribuição incondicional sobe de 2,71 para 7 pontos percentuais; 68 pontos percentuais dependem de apoio internacional.
- Florestas e outros usos da terra respondem por remoções acumuladas projetadas de 2.295,56 MtCO2e no cenário de referência.
- O sumidouro líquido acumulado é um resultado modelado do conjunto completo de políticas, distinto da meta mínima de 75%.
- Limitações na transmissão afetam cerca de 750 megawatts de projetos eólicos potenciais em Ilocos Norte e Guimaras.
- Os custos de implementação, os compromissos de financiamento e o cronograma de execução ainda precisam de mais detalhes públicos.






