Marido desaparecido e transferência supostamente feita por 4 milhões de kyats
Quando Phyo Wai ligou para a esposa de um centro de recrutamento militar, dois dias depois de sair de casa, em Yangon, em 8 de maio de 2025, ela soube que um pedido de ajuda a um parente teria resultado em seu alistamento forçado. Ma Moe San Pan afirma que o homem de 33 anos foi transferido entre administrações de bairros por 4 milhões de kyats, cerca de US$ 900, para cumprir uma cota de recrutamento. O administrador que ajudou a encaminhá-lo às autoridades militares reconhece seu envolvimento, mas nega que tenha havido pagamento.
Conteúdo
- Marido desaparecido e transferência supostamente feita por 4 milhões de kyats
- Em Hpa-An, ganhar a vida significa correr riscos
- O que exige o serviço obrigatório
- Anúncios de desaparecidos mostram forte aumento
- Como Phyo Wai chegou a um centro de recrutamento
- Família que busca libertação enfrenta outra perda
- Como a pressão por cotas pode transformar recrutas em mercadoria
- Prisão em Yangon põe ofertas de emprego sob suspeita
- Reforços militares têm custo para os civis
- Pontos principais
O relato está no centro de acusações mais amplas de que o sistema de serviço militar obrigatório de Mianmar criou um mercado de pessoas. Autoridades locais, agentes de segurança e grupos criminosos são acusados de capturar homens jovens e levá-los a áreas ou unidades militares com dificuldades para cumprir as metas de recrutamento. Famílias relatam desaparecimentos, pedidos de dinheiro e incerteza sobre o paradeiro dos parentes.
Documentos administrativos vazados supostamente instruem as autoridades a cumprir rigorosamente as cotas de recrutamento militar. Estima-se que 100 mil jovens tenham sido recrutados à força, embora os relatos divirjam quanto ao período abrangido: um situa a estimativa desde o início de 2024, enquanto outros se referem aos dois anos e meio anteriores. O número é uma estimativa, não um total oficial divulgado.
O Órgão Central do Exército para Convocação de Servidores Militares do Povo se recusou a comentar as acusações de recrutamento forçado e os sequestros recentes. Enquanto isso, evidências em anúncios de pessoas desaparecidas, denúncias individuais e uma suposta operação de sequestro em Yangon apontam para uma distinção importante para as famílias: ser elegível para o serviço militar não explica como alguém foi capturado, transferido ou obrigado a assinar documentos.
Em Hpa-An, ganhar a vida significa correr riscos
Em Hpa-An, capital do estado de Karen, também conhecido como estado de Kayin, moradores dizem que pessoas à paisana, integrantes ou apoiadoras da junta, têm detido adolescentes e homens na faixa dos 20 e 30 anos. Para muitos jovens, o medo de serem levados fez com que voltar para casa antes de escurecer se tornasse uma precaução.
Zaw Min, motorista de tuk-tuk de 26 anos que usa um nome fictício por segurança, afirma que não pode ficar em casa porque precisa ganhar dinheiro. Sua família liga repetidamente para alertá-lo sobre passageiros e trajetos que o levam para longe de casa. Ao descrever a pressão de trabalhar sob essa ameaça, ele disse:
Tenho medo, mas preciso sair para trabalhar.
Ele diz que algumas pessoas que conhece foram levadas. Outros da mesma idade partiram para a Tailândia ou foram morar com parentes em outras partes de Mianmar. Ele é o único irmão da família que está na faixa etária elegível para o recrutamento, o que faz de cada ida ao trabalho uma fonte de ansiedade para a família.
Esses relatos mostram como o medo do recrutamento afeta até quem ainda não foi detido. Um motorista precisa decidir se aceita um passageiro, um pai ou uma mãe precisa escolher quando chamar o filho de volta para casa, e um jovem trabalhador tem de ponderar a renda em relação ao risco de ser preso. As denúncias envolvem deslocamentos e empregos cotidianos, e não apenas recrutamentos em convocações administrativas programadas.
O que exige o serviço obrigatório
O Exército ativou o serviço militar obrigatório em 2024, três anos após o golpe de fevereiro de 2021 que derrubou o governo eleito liderado por Aung San Suu Kyi. A campanha de recrutamento ocorreu após derrotas militares, queda do moral e deserções durante os combates contra grupos armados étnicos e movimentos de resistência contrários ao governo militar.
Os requisitos de serviço descritos nos relatos abrangem homens de 18 a 35 anos e mulheres de 18 a 27, com pelo menos dois anos sob comando militar. A recusa pode resultar em pena de até cinco anos de prisão. Embora as regras de elegibilidade mencionadas incluam mulheres, os relatos de desaparecimentos e os casos denunciados de comércio de recrutas descritos aqui dizem respeito principalmente a homens e meninos.
A sequência de acontecimentos relaciona a campanha nacional de recrutamento a casos individuais e às conclusões de pesquisas posteriores:
- Fevereiro de 2021: O Exército toma o poder, dando início ao período de conflito contra seu governo.
- 2024: O Exército ativa o serviço obrigatório em meio a perdas no campo de batalha e falta de efetivo.
- 8 de maio de 2025: Phyo Wai sai de casa, em Yangon. A esposa diz que ele liga dois dias depois de um centro de recrutamento.
- Julho de 2025: A Myanmar Witness divulga conclusões baseadas em anúncios de pessoas desaparecidas publicados no Facebook entre 2021 e 2025.
- 25 de agosto: A polícia faz uma operação em um imóvel de Yangon em um caso separado de suposto sequestro envolvendo quatro jovens.
Maj Naung Yoe, ex-oficial militar que aderiu ao Movimento de Desobediência Civil e hoje trabalha com assuntos militares no Instituto de Defesa e Segurança de Mianmar, afirma que a implementação foi muito além da seleção formal. Ele acusa forças de segurança de monitorar os deslocamentos de jovens, ameaçá-los com detenção para extorquir dinheiro e prendê-los durante verificações de listas de moradores ou hóspedes.
Anúncios de desaparecidos mostram forte aumento
A Myanmar Witness analisou centenas de anúncios de pessoas desaparecidas publicados no Facebook entre 2021 e 2025. As conclusões divulgadas em julho mostraram que o número de anúncios em janeiro passou de quatro em 2021, antes do golpe, para 82 em 2025, após o início do recrutamento obrigatório. Homens e meninos eram a maioria das pessoas dadas como desaparecidas.
Assim, a contagem de janeiro foi 20,5 vezes maior que a anterior, um aumento de 78 anúncios. É uma mudança expressiva entre as publicações analisadas, mas não deve ser interpretada como uma taxa nacional de desaparecimentos nem como um total de sequestros confirmados para recrutamento. Os anúncios no Facebook registram famílias em busca de informações; por si só, não comprovam para onde foi cada pessoa desaparecida nem o motivo.
A Myanmar Witness concluiu que o recrutamento frequentemente parecia envolver detenção, coerção e desaparecimentos sem que as famílias fossem avisadas, em vez de convocações formais. A Anistia Internacional, a Human Rights Watch e a Fortify Rights também acusaram o Exército de sequestrar civis e forçá-los a servir.
Os anúncios são importantes porque um desaparecimento pode impedir que a família descubra se um parente está sob custódia policial, em um centro de recrutamento ou em uma unidade militar. A breve ligação de Phyo Wai deu uma pista sobre seu paradeiro. A esposa diz que ainda não sabe onde ele está.
Como Phyo Wai chegou a um centro de recrutamento
Ma Moe San Pan diz que o marido saiu de casa após uma discussão, em 8 de maio de 2025. Ela contou a um primo que trabalhava no escritório da administração local do bairro e pediu que trouxesse Phyo Wai de volta. Em vez disso, segundo ela, o primo o levou ao escritório do bairro, que o transferiu para outro bairro por 4 milhões de kyats, para preencher a cota de recrutamento daquela área.
Não foi possível entrar em contato com o primo para obter comentários. U Maung Maung Lwin, administrador do bairro que o recebeu, reconheceu ter ajudado a encaminhar Phyo Wai às autoridades de recrutamento militar. Ele também disse que recrutas são transferidos de outros distritos quando as cotas locais não podem ser cumpridas, mas negou que haja troca de dinheiro nessas transferências ou que tenha ocorrido um pagamento neste caso.
Os relatos coincidem quanto à participação do administrador no encaminhamento de Phyo Wai às autoridades de recrutamento, mas divergem sobre a suposta venda. Portanto, a acusação da esposa deve ser diferenciada daquilo que o administrador admite. A transferência relatada, por si só, não comprova o pagamento contestado.
Ma Moe San Pan diz que o marido lhe contou que algumas pessoas prometeram ajudá-lo e depois o fizeram assinar documentos. Ao explicar por que se opõe à forma como ele foi levado, ela disse:
Se meu marido tivesse sido legalmente selecionado para o recrutamento pelo processo normal, eu poderia aceitar. O que não posso aceitar é que a administração do nosso próprio bairro supostamente o tenha vendido a outro bairro.
O relato dela se concentra no processo usado para recrutá-lo, não simplesmente na idade dele. Phyo Wai estava dentro da faixa etária masculina estabelecida, mas isso não esclarece a acusação de que uma transferência administrativa foi organizada em troca de dinheiro.
Família que busca libertação enfrenta outra perda
Depois que o marido foi levado, Ma Moe San Pan diz que desconhecidos lhe prometeram falsamente conseguir a libertação dele e a extorquiram em 4,5 milhões de kyats. Essa suposta perda foi 500 mil kyats maior que o pagamento contestado que, segundo ela, teria sido feito pela transferência dele. Os dois valores dizem respeito a transações diferentes: uma supostamente paga entre pessoas envolvidas no recrutamento, e a outra, um dinheiro que ela afirma ter perdido pessoalmente.
Ela apresentou denúncias à polícia tanto pela suposta venda do marido quanto pelo golpe da libertação. Segundo seu relato, a polícia aceitou as denúncias, mas se recusou a incluir uma acusação de tráfico de pessoas, dizendo que esse tipo de caso só poderia ser registrado quando alguém tivesse sido vendido para o exterior.
Essa explicação corresponde à posição da polícia conforme relatada por ela, e não a uma descrição verificada da legislação de Mianmar sobre tráfico de pessoas. Não há notícia de decisão judicial que tenha esclarecido a acusação relacionada ao recrutamento ou a denúncia de fraude. O paradeiro atual do marido também é desconhecido.
O caso mostra uma segunda forma de exposição dos parentes: a incerteza sobre o paradeiro de um recruta pode criar oportunidades para pessoas que vendem falsas promessas de libertação. Ma Moe San Pan conta que perdeu dinheiro sem conseguir trazer o marido de volta para casa.
Como a pressão por cotas pode transformar recrutas em mercadoria
As ordens de recrutamento exigem que vilarejos, bairros e distritos forneçam números de recrutas proporcionais às suas populações. Uma cota é uma meta administrativa: cada área deve entregar um número determinado de pessoas. As acusações sugerem que a pressão para cumprir essas metas levou alguns funcionários e intermediários a buscar recrutas em outros lugares, em vez de recorrer a um processo regular de seleção local.
Naung Yoe acusa as autoridades de prender jovens em postos de controle, interceptá-los a caminho do trabalho, atraí-los por meio de falsos anúncios de emprego ou levá-los de casa. Ele afirma que administradores locais, militares e grupos criminosos fornecem pessoas a unidades militares e comandos regionais que enfrentam falta de efetivo.
Ele também denuncia a existência de um mercado de recrutas substitutos, no qual pessoas com mais recursos pagam para evitar o serviço e alguém com menos dinheiro é enviado em seu lugar. Ao descrever por que essas práticas estão se espalhando, Naung Yoe disse:
"essas práticas estão se intensificando devido às crescentes dificuldades para cumprir as cotas mensais de recrutamento e aos altos lucros financeiros obtidos com o comércio de recrutas na base".
Se algumas pessoas podem pagar para escapar enquanto outras são capturadas para substituí-las, o peso do recrutamento deixa de recair apenas de acordo com a idade ou a população de cada área. Ele também passa a depender da renda e do acesso à proteção. Esse é o mecanismo por trás da pressão desproporcional relatada sobre famílias mais pobres, embora não haja dados numéricos que detalhem os recrutas por renda familiar.
Prisão em Yangon põe ofertas de emprego sob suspeita
Um caso separado em Yangon envolve um comandante de uma unidade de reserva de brigada de bombeiros acusado de atrair quatro jovens para sua casa com promessas de emprego. O comandante, integrante do Departamento de Serviços de Bombeiros subordinado ao Ministério do Interior, supostamente manteve os homens confinados em celas construídas especialmente para esse fim, com a intenção de vendê-los para o recrutamento militar.
A polícia fez uma operação na residência em 25 de agosto e prendeu o comandante. Os relatos também mencionam a prisão de um parente do sexo masculino, mas divergem sobre o parentesco: a maioria o identifica como genro do comandante, enquanto um relato o chama de cunhado.
Segundo relatos, o comandante foi acusado de sequestrar ou raptar uma pessoa para mantê-la em confinamento ilegal, crime cuja pena pode chegar a sete anos de prisão. Os relatos descrevem acusações e uma denúncia formal, não uma condenação, e não informam o resultado de um eventual julgamento.
O caso é diferente da suposta transferência de Phyo Wai entre áreas administrativas. Aqui, o método relatado foi uma falsa oferta de emprego seguida de confinamento em um imóvel particular. O episódio mostra por que a busca por emprego, assim como os deslocamentos e os encontros com autoridades, passou a ser motivo de preocupação com o recrutamento.
Reforços militares têm custo para os civis
A campanha de recrutamento atende à necessidade do Exército de obter efetivo em uma guerra prolongada. Segundo relatos, os reforços ajudaram a junta a recuperar território e pressionaram forças de resistência em partes de Mianmar. Isso não permite determinar quantos recrutas foram enviados a operações específicas nem quanto das mudanças territoriais pode ser atribuído a eles.
Dr. Sandeep Singh, pesquisador que leciona estudos militares na Universidade Nacional de Singapura, considera o alistamento de jovens que não querem servir uma evidência da situação fragilizada da junta. Ao descrever a campanha, ele disse que ela:
"parece ser mais uma medida da junta para alistar jovens contra a vontade em um conflito que ressalta sua posição fragilizada na guerra civil".
Também há relatos de que o medo do serviço forçado contribui para deslocamentos internos, partidas para países vizinhos e falta de mão de obra. O relato de Zaw Min dá um exemplo concreto desses deslocamentos: alguns de seus pares partiram para a Tailândia ou foram morar com parentes, enquanto os que ficam limitam seus trajetos. Não há números que separem os deslocamentos causados pelo medo do recrutamento daqueles provocados pelos combates.
O Instituto de Defesa e Segurança de Mianmar afirmou em junho que a lei militar estava sendo usada para fazer os cidadãos lutarem uns contra os outros. Essa avaliação reflete a posição de um instituto cujo representante identificado na área de assuntos militares desertou e aderiu ao movimento contrário ao golpe.
Várias questões continuam sem resposta: o paradeiro de Phyo Wai, se houve pagamento por sua transferência, o resultado das denúncias de sua esposa e o andamento do processo após a operação policial em Yangon. Não há informações sobre futuras datas de audiência ou decisões nesses casos. A recusa do órgão de recrutamento em comentar deixa as autoridades centrais sem apresentar uma resposta substantiva às acusações específicas.
Pontos principais
- Segundo relatos, autoridades locais receberam ordens para cumprir rigorosamente as cotas de recrutamento militar.
- Estima-se que 100 mil jovens tenham sido recrutados à força, mas os relatos divergem quanto ao período abrangido.
- A Myanmar Witness contabilizou 82 anúncios de pessoas desaparecidas em janeiro de 2025, em comparação com quatro em 2021.
- Ma Moe San Pan acusa as autoridades de transferir o marido por 4 milhões de kyats. Um administrador de bairro reconhece seu papel no recrutamento, mas nega que tenha havido pagamento.
- Ela afirma ter perdido separadamente 4,5 milhões de kyats para pessoas que prometeram falsamente libertar o marido.
- Um comandante de uma brigada de bombeiros de Yangon responde a uma acusação de sequestro envolvendo quatro homens que teriam sido alvo de recrutamento. Não há notícia de condenação.
- Famílias relatam restrições aos deslocamentos, partidas para o exterior e incerteza persistente sobre parentes desaparecidos.






