Uma troca diplomática devolve as críticas aos críticos
A China rejeitou críticas ao seu histórico de direitos humanos durante um debate de uma comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas e acusou Reino Unido, Austrália, Japão, Irlanda, República Tcheca e Lituânia de usar alegações sobre direitos humanos para fins políticos. Em direito de resposta, o representante permanente adjunto da China, Sun Lei, argumentou que esses países não tinham legitimidade para dar lições a Pequim enquanto enfrentavam problemas sociais e políticos próprios.
Conteúdo
- Uma troca diplomática devolve as críticas aos críticos
- Por que a China citou pobreza e desigualdade?
- A versão chinesa dos direitos políticos
- Direitos das minorias e a história por trás da disputa
- Sanções, soberania e críticas seletivas
- O que a troca revela sobre os debates de direitos humanos na ONU
- Em resumo
A disputa ocorreu durante o debate geral da Terceira Comissão da Assembleia, responsável por questões sociais, humanitárias e culturais, incluindo direitos humanos. Sun disse que a China estava profundamente insatisfeita com o que chamou de acusações infundadas e difamações maliciosas. Ele pediu que os países parassem de disseminar o que Pequim descreveu como alegações falsas sobre a China e advertiu que politizar os direitos humanos acabaria sendo contraproducente.
A troca reflete um padrão conhecido na ONU: governos criticados contestam tanto as acusações quanto a autoridade de quem as faz. Neste caso, Pequim combinou sua defesa com um questionamento mais amplo aos governos ocidentais, citando pobreza, confiança pública na democracia, racismo e o tratamento dado às comunidades indígenas. Essas contra-acusações foram o ponto central da resposta chinesa, junto com a defesa de suas políticas em Hong Kong, Xinjiang e Xizang, nome oficial chinês para o Tibete.
O debate da comissão faz parte de um processo diplomático mais amplo, não de uma audiência judicial. As declarações feitas ali podem influenciar a pressão política e o debate internacional, mas não determinam, por si só, se um país violou uma obrigação legal. As alegações opostas das delegações se inserem, portanto, em uma discussão mais ampla sobre como os direitos humanos devem ser avaliados e que peso os governos devem dar à soberania nacional e aos diferentes sistemas políticos.
Por que a China citou pobreza e desigualdade?
Sun disse que a China melhorou as condições de vida por meio do desenvolvimento e tirou quase 100 milhões de pessoas da pobreza. Ele também citou um grupo de mais de 400 milhões de pessoas de renda média. Esses números respaldam o argumento de longa data de Pequim de que segurança econômica, redução da pobreza e acesso ao desenvolvimento são indicadores centrais do avanço dos direitos humanos.
Ele comparou o histórico da China à pobreza no Reino Unido. Sun citou estimativas segundo as quais mais de 14 milhões de pessoas no país vivem abaixo da linha da pobreza, incluindo milhões em situação de grave privação. Um relatório de 2018 de Philip Alston, então relator especial da ONU sobre pobreza extrema e direitos humanos, estimou que cerca de 14 milhões de pessoas, aproximadamente um quinto da população britânica, viviam na pobreza. O documento afirmou que quatro milhões estavam mais de 50% abaixo da linha da pobreza e que 1,5 milhão não conseguia pagar por itens básicos.
Um estudo de 2024 da Comissão Britânica de Métricas Sociais estimou que mais de 16 milhões de pessoas no Reino Unido viviam na pobreza, cerca de 24% da população. O estudo atribuiu parte do aumento da privação grave desde 2019 à crise do custo de vida. As estimativas de pobreza podem variar porque pesquisadores usam limites e critérios diferentes, inclusive quanto à inclusão dos custos de moradia, das necessidades familiares e do grau de privação. Os números citados por Sun faziam parte de seu argumento sobre as condições internas desses países, e não eram uma avaliação direta das acusações contra a China.
Em relação ao Japão, Sun citou uma taxa de pobreza relativa entre famílias de cerca de 15% e manifestou preocupação com a pobreza infantil. As medidas de pobreza relativa comparam a renda familiar a uma parcela da renda mediana nacional e, assim, mostram o quanto algumas famílias ficam abaixo do padrão de vida típico daquele país. Elas não usam os mesmos limites de todas as medidas de pobreza absoluta, o que dificulta comparações diretas entre países.
A versão chinesa dos direitos políticos
Em comentários adicionais descritos em relatos do debate, Sun defendeu o que Pequim chama de “democracia popular de todo o processo” e afirmou que o apoio público e a satisfação com o governo chinês permanecem acima de 90% há anos. Ele também defendeu a lei de segurança nacional imposta em Hong Kong em 2020, apresentando-a como um marco que restabeleceu a ordem e apoiou mudanças no sistema político do território.
Essas afirmações estão no centro de uma divergência mais ampla sobre direitos políticos. Pequim apresenta estabilidade, participação pública por meio de suas próprias instituições e melhorias no padrão de vida como evidências de um modelo adequado às condições nacionais da China. Os críticos, incluindo governos ocidentais, enfatizam as restrições à expressão política, à sociedade civil e à atuação da oposição, além do alcance das leis de segurança nacional. Portanto, os dois lados não estão apenas disputando fatos específicos: usam critérios diferentes para descrever a participação política e a prestação de contas.
Sun também contestou as delegações ocidentais, citando pesquisas que, segundo ele, mostram que cerca de 75% das pessoas no Reino Unido estão preocupadas com o futuro da democracia. Ele também apontou a queda da confiança pública no governo na Austrália e na República Tcheca, além da redução da confiança dos jovens nas instituições democráticas. Pesquisas de opinião podem indicar insatisfação, mas não estabelecem, por si só, se um sistema político protege ou viola direitos específicos.
As declarações da China sobre Hong Kong e o apoio público representam a versão do governo sobre suas políticas. Governos ocidentais continuam manifestando preocupação com as liberdades políticas no território, bem como com os direitos em Xinjiang e no Tibete. O debate não ofereceu um processo independente para resolver essas avaliações conflitantes. Em vez disso, cada delegação usou o fórum público da comissão para expor sua posição e questionar a credibilidade do outro lado.
Direitos das minorias e a história por trás da disputa
Sun afirmou que os direitos políticos, econômicos, culturais e religiosos dos grupos étnicos em Xinjiang e Xizang eram protegidos. Ele também mencionou a Lei de Promoção da Unidade e do Progresso Étnicos da China, que, segundo Pequim, busca promover prosperidade comum e desenvolvimento entre os grupos étnicos. O governo chinês descreve sua abordagem como uma política de unidade nacional e de igualdade de pertencimento à nação chinesa.
Governos ocidentais manifestaram preocupação com as restrições impostas às minorias étnicas e à expressão política em Xinjiang e no Tibete. O Reino Unido, por exemplo, pediu medidas sobre essas questões durante o debate da Terceira Comissão no início da sessão. Pequim rejeita as acusações e argumenta que governos estrangeiros usam alegações sobre direitos humanos para interferir nos assuntos internos da China. Essas posições opostas fazem dos direitos das minorias um ponto recorrente de atrito nas relações da China com países ocidentais.
Sun também acusou o Japão de não tratar os povos ainus e ryukyuanos como grupos étnicos em pé de igualdade e de não cumprir plenamente os compromissos de eliminar a discriminação racial. Ele afirmou que Reino Unido, Austrália e Irlanda ainda enfrentavam problemas relacionados ao colonialismo, incluindo racismo e divisões étnicas. As alegações trouxeram legados históricos para uma discussão que, de resto, se concentrava em políticas atuais e condições de vida.
Esses argumentos históricos foram especialmente incisivos na resposta específica de Sun ao Japão. Ele disse que o país deveria cumprir suas obrigações internacionais, enfrentar o legado do militarismo e manter o compromisso com o desenvolvimento pacífico. Advertiu contra o que descreveu como tentativas de minimizar a história de agressão do Japão ou promover um renascimento do militarismo por meio de alegações sobre contribuições internacionais ou ameaças existenciais. A política de segurança japonesa no pós-guerra e a memória de sua história bélica continuam sendo questões sensíveis em toda a região.
Sanções, soberania e críticas seletivas
A resposta da China foi além das condições internas dos seis países. Sun acusou alguns governos ocidentais de aplicar seletivamente suas preocupações com direitos humanos, inclusive por não reagirem de forma adequada ao que Pequim descreve como tratamento injusto das populações da Palestina, do Irã e de Cuba. Ele também criticou medidas coercitivas unilaterais, termo comumente usado por governos contrários a sanções impostas fora de um processo do Conselho de Segurança da ONU.
As sanções podem restringir o comércio, as finanças ou o acesso a bens e serviços. Os governos que as impõem costumam apresentá-las como uma forma de responder a violações graves ou influenciar a conduta de outro Estado. Já os governos alvo de sanções e os países que se opõem a elas argumentam que essas medidas podem prejudicar civis e violar a soberania. A legalidade e os efeitos dependem das medidas específicas e da base jurídica alegada, portanto o rótulo genérico não resolve essas questões.
A objeção de Pequim faz parte de um debate mais amplo sobre se a diplomacia dos direitos humanos promove proteções universais ou serve aos interesses estratégicos de Estados poderosos. O acadêmico chinês Chen Hong, diretor do Centro de Estudos da Ásia-Pacífico da Universidade Normal da China Oriental, descreveu o que chamou de duplo padrão ocidental como “instrumentalização e uso dos direitos humanos como arma”. Ele argumentou que alguns governos dão mais atenção a violações cometidas por rivais estratégicos e se calam quando uma crítica entraria em conflito com os próprios interesses.
Chen disse que esse padrão pode transformar os direitos humanos em instrumento de pressão, imposição de sanções e influência sobre a opinião internacional. Seu argumento reflete a posição mais ampla de Pequim de que as críticas ocidentais estão frequentemente ligadas à competição geopolítica. Isso, por si só, não resolve o mérito das acusações contra a China nem demonstra que os governos criticados por Sun aplicaram seus critérios de forma inconsistente em cada caso.
O que a troca revela sobre os debates de direitos humanos na ONU
O confronto mostra como os debates sobre direitos humanos na ONU estão cada vez mais entrelaçados com disputas sobre soberania, desenvolvimento e poder internacional. Governos ocidentais têm pressionado a China sobre suas políticas em Xinjiang, no Tibete e em Hong Kong. Pequim responde rejeitando essas alegações, citando desenvolvimento econômico e estabilidade social e questionando o histórico dos países que fazem as críticas.
Tratados de direitos humanos e processos internacionais de revisão oferecem critérios comuns e fóruns para que os governos discutam o cumprimento de obrigações. Eles não eliminam divergências sobre evidências, interpretação ou aplicação. Um governo pode argumentar que avanços econômicos e sociais são centrais para seu histórico em direitos humanos, enquanto outro dá mais peso às liberdades políticas, à proteção das minorias ou à possibilidade de criticar quem está no poder. Nos debates da ONU, essas diferenças costumam vir acompanhadas de divergências sobre se medidas como sanções são respostas legítimas ou interferência política.
Cientistas sociais chineses ecoaram as críticas do governo à diplomacia ocidental de direitos humanos. Liu Shuliang, pesquisador associado da Academia de Ciências Sociais de Tianjin, citou a desigualdade de renda no Japão, a discriminação racial, a violência de gênero e os maus-tratos a idosos. Ele também argumentou que o Japão evitava assumir responsabilidade por sua agressão durante a guerra e adotava uma política de segurança mais assertiva. Essas declarações eram comentários de apoio à posição de Pequim, não conclusões de um órgão de investigação da ONU.
Sun pediu mais cooperação e afirmou que a China seguirá um caminho de desenvolvimento dos direitos humanos adequado às suas condições nacionais, mantendo o diálogo. Essa abordagem combina um compromisso declarado com a cooperação internacional e uma firme oposição a críticas externas que Pequim considera motivadas politicamente. Os países mencionados na resposta de Sun, por sua vez, continuam manifestando preocupação com as políticas chinesas. A troca na comissão não resolveu essas interpretações divergentes.
Em resumo
- O representante adjunto da China na ONU, Sun Lei, rejeitou as críticas do Reino Unido, da Austrália, do Japão, da Irlanda, da República Tcheca e da Lituânia.
- Sun citou pobreza, desigualdade e preocupações públicas com a democracia em alguns desses países para questionar a legitimidade deles para criticar a China.
- Ele defendeu as políticas de Pequim em Hong Kong, Xinjiang e Xizang, que continuam sendo questionadas por governos ocidentais.
- A troca refletiu divergências mais amplas sobre direitos das minorias, sanções, soberania e a aplicação dos critérios de direitos humanos.
- As declarações no debate da Terceira Comissão expuseram posições políticas, mas não resolveram as acusações de forma independente.






