Estudantes marcham até a Assembleia de Jharkhand
A polícia indiana usou cassetetes, gás lacrimogêneo e canhões de água contra milhares de estudantes e candidatos a vagas no serviço público que marcharam em direção à Assembleia de Jharkhand, em Ranchi, na segunda-feira. Os manifestantes exigem providências diante de supostos vazamentos de provas, erros de correção e outras irregularidades nos exames de seleção.
Conteúdo
A manifestação ocorreu após mais de duas semanas de protestos no estádio Jaipal Singh Munda. Alguns estudantes estão dormindo ao ar livre, enquanto vários participam de greves de fome. Os manifestantes carregavam bandeiras nacionais e cartazes que pediam o cancelamento dos exames contestados e uma investigação do Escritório Central de Investigação, ou CBI, na sigla em inglês.
A polícia ergueu várias barreiras ao longo do percurso e mobilizou mais de 1.500 agentes de segurança. Autoridades disseram que parte da multidão rompeu as barreiras e que alguns manifestantes atiraram pedras. A polícia informou que três agentes ficaram feridos. Imagens de Ranchi mostraram as forças de segurança usando canhões de água e cassetetes enquanto a multidão avançava em direção ao complexo da Assembleia.
Os manifestantes disseram que a reação policial foi excessiva. Piyush Kumar Soni, um dos participantes, disse à Press Trust of India que a multidão estava pacífica e acusou as autoridades de usar cassetetes contra os estudantes.
A repressão com cassetetes foi bárbara. Protestávamos pacificamente, mas o governo usou cassetetes contra nós.
O número oficial de manifestantes feridos não estava disponível de imediato, embora imagens mostrassem algumas pessoas recebendo atendimento médico.
O que provocou a revolta?
A disputa imediata gira em torno de um exame preliminar para o serviço público realizado em abril pela Comissão de Serviço Público de Jharkhand, ou JPSC, na sigla em inglês. Os candidatos questionaram os resultados anunciados em julho, depois que supostos cartões de respostas circularam nas redes sociais e pareciam mostrar candidatos aprovados respondendo a um número incomumente baixo de questões.
Os estudantes também manifestaram preocupação com o Exame Combinado de Nível Superior da Comissão de Seleção de Funcionários de Jharkhand, conhecido como JSSC CGL, e outras provas usadas para selecionar servidores estaduais. Eles afirmam que suspeitas de vazamento, fraude e falhas administrativas podem privar milhares de candidatos de uma oportunidade justa, após anos de estudo.
Os concursos públicos são extremamente disputados em Jharkhand, um dos estados mais pobres da Índia. Os cargos no setor público são muito procurados porque costumam oferecer salários regulares, benefícios de saúde e aposentadoria. Um processo seletivo recebeu quase 640 mil inscrições para 2.025 vagas. Outro atraiu mais de 322 mil candidatos para apenas 510 vagas.
Muitos candidatos passam anos se preparando para essas provas e pagam por cursos preparatórios ou materiais de estudo. Quando um exame é cancelado ou seus resultados são contestados, os candidatos podem perder tempo e dinheiro. A disputa se transformou, assim, em uma queixa mais ampla sobre a escassez de empregos, a corrupção e a confiança nas instituições públicas.
Governo aceita parte das reivindicações
O governo de Jharkhand, liderado pelo Jharkhand Mukti Morcha, do ministro-chefe Hemant Soren, em aliança com o Congresso e outros partidos, realizou várias rodadas de conversas com grupos estudantis. As autoridades afirmam ter aceitado cerca de 98% das reivindicações dos manifestantes.
Após conversas ao longo de três dias, o governo concordou em cancelar três exames de seleção, segundo relatos. Também apoiou a criação de tribunais de tramitação rápida para agilizar os processos, enquanto vários integrantes da JPSC renunciaram. O presidente da JPSC, L Khiangte, deixou o cargo em 22 de julho e foi preso posteriormente no âmbito da investigação sobre supostas irregularidades.
O Departamento de Investigação Criminal do estado está apurando as denúncias. Mais de uma dúzia de pessoas teriam sido presas, e os investigadores estão analisando o papel de uma empresa privada envolvida em etapas do processo de aplicação das provas. A Diretoria de Execução também abriu um processo por lavagem de dinheiro relacionado às supostas irregularidades.
Os estudantes dizem que a resposta do governo é insuficiente. Eles afirmam que apenas três dos 13 exames contestados foram abordados e continuam exigindo uma investigação do CBI. O órgão federal tem jurisdição mais ampla e é visto pelos manifestantes como mais independente do que uma investigação estadual.
Líder em greve de fome é levado ao hospital
O líder estudantil Devendra Nath Mahto participou da marcha apesar de estar havia nove dias em greve de fome. Seu estado de saúde piorou e ele foi levado ao hospital. Segundo relatos, ele perdeu cerca de 10,5 quilos durante o protesto.
Mahto foi de ambulância até a manifestação e pediu aos participantes que mantivessem a calma. Ele apelou ao ministro-chefe para que não permitisse que o confronto se tornasse violento e alertou que feridos poderiam aumentar ainda mais a revolta da multidão.
Antes da marcha, as autoridades impuseram restrições nos arredores da Assembleia com base na Seção 163 da Bharatiya Nyaya Sanhita. A norma permite que as autoridades restrinjam aglomerações em áreas determinadas quando consideram que a ordem pública está ameaçada. A polícia também reforçou a segurança em Ranchi e restringiu o acesso nas proximidades do Legislativo.
As restrições não impediram a marcha. Os manifestantes atravessaram várias linhas de barreiras antes que a polícia usasse canhões de água, gás lacrimogêneo e cassetetes para fazê-los recuar. A multidão permaneceu na área mais tarde, apesar das repetidas tentativas de dispersá-la.
Disputa política se intensifica
O BJP, partido de oposição em Jharkhand, apoiou os estudantes e pediu uma investigação do CBI. Também convocou uma paralisação estadual em protesto contra a ação policial. Representantes do BJP levantaram o tema na Assembleia estadual e acusaram o governo de não proteger os jovens que buscam emprego.
Sudivya Kumar, ministro estadual do Ensino Superior e Técnico, disse que o governo tentou repetidamente resolver a questão. Ele acusou o BJP de assumir o controle do movimento e de enganar os estudantes, depois que as autoridades concordaram com muitas de suas reivindicações.
O ministro-chefe Soren disse, do lado de fora da Assembleia, que interesses externos tentavam desestabilizar a democracia no estado e alertou contra a transformação do protesto em um confronto político. Seu governo prometeu tomar providências contra os responsáveis por violações nos exames, mas defendeu a decisão de manter uma investigação estadual.
O líder do Congresso Rahul Gandhi condenou o uso da força, embora o partido faça parte da aliança governista em Jharkhand. Ele disse que manifestações pacíficas de estudantes devem ser tratadas por meio do diálogo.
O uso da força contra estudantes que protestam em Jharkhand é errado. Os estudantes têm direito a protestar pacificamente, e só o diálogo pode produzir soluções.
Gandhi também criticou uma ação policial separada contra jovens manifestantes em Nova Délhi, onde os participantes exigiam providências diante de supostos vazamentos em exames nacionais.
Parte de uma insatisfação nacional mais ampla
Os protestos em Ranchi ocorrem após manifestações em todo o país contra supostos vazamentos e falhas nos sistemas de educação e seleção profissional da Índia. Jovens protestaram contra o cancelamento ou a revisão de importantes exames de admissão, incluindo provas para cursos de medicina, após denúncias de vazamento de questões.
Um movimento juvenil conhecido como Cockroach Janta Party, que afirma não ser um partido político convencional, ajudou a organizar grandes manifestações em Nova Délhi em julho. O movimento surgiu após declarações controversas que compararam jovens desempregados a baratas. O protesto de cinco semanas foi encerrado após a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, embora os organizadores tenham afirmado mais tarde que alguns processos judiciais contra manifestantes não haviam sido retirados, como prometido.
As controvérsias envolvendo exames se tornaram especialmente sensíveis na Índia, onde quase dois terços da população têm menos de 35 anos. Dados oficiais mostram que o desemprego diminuiu, mas um estudo de 2026 da Universidade Azim Premji constatou que quase 40% dos formados entre 15 e 25 anos estavam desempregados.
A controvérsia também atravessa as fronteiras partidárias. Vazamentos de provas e escândalos de fraude ocorreram em vários estados indianos e são anteriores ao atual governo nacional. As disputas recorrentes abalaram a confiança dos candidatos, que veem os exames públicos como uma das poucas maneiras de conseguir um emprego estável.
O que acontece agora?
O governo estadual enfrenta pressão para divulgar um cronograma claro para os exames cancelados, explicar como os candidatos afetados serão protegidos e apresentar reformas para as agências de seleção. Os estudantes querem uma investigação independente, medidas mais rigorosas contra vazamentos e procedimentos transparentes para a correção dos cartões de respostas.
A prisão de um ex-presidente da JPSC e as renúncias de integrantes da comissão mostram que as denúncias já tiveram consequências institucionais. Agora, a investigação terá de apurar se houve irregularidades, quem se beneficiou e se autoridades ou empresas contratadas deixaram de cumprir suas obrigações.
Para os manifestantes, a questão central é a confiança. O cancelamento dos exames pode trazer alívio imediato, mas os candidatos também querem garantias de que as próximas provas serão seguras e aplicadas de forma justa. O confronto em frente à Assembleia ampliou a disputa: de uma questão sobre resultados individuais para uma exigência de mudanças duradouras na forma como Jharkhand seleciona servidores públicos.
Principais pontos
- A polícia usou gás lacrimogêneo, cassetetes e canhões de água durante uma marcha estudantil em Ranchi.
- Os manifestantes denunciam irregularidades nos exames da JPSC, no JSSC CGL e em outras seleções para o serviço público.
- O governo afirma ter aceitado cerca de 98% das reivindicações dos estudantes.
- Os estudantes continuam exigindo uma investigação do CBI e reformas mais amplas nos processos de seleção.
- O ex-presidente da JPSC, L Khiangte, foi preso durante a investigação estadual.
- O líder estudantil Devendra Nath Mahto foi hospitalizado após uma prolongada greve de fome.






