Calor recorde atinge a Ásia Central
Uma onda de calor excepcional afeta Tajiquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, quebrando recordes de temperatura e pressionando redes elétricas, estradas, locais de trabalho e serviços públicos. As condições mais severas foram registradas a partir de meados de julho, com temperaturas de até 46 graus Celsius na província de Shakhristan, no Tajiquistão, e previsões de 48 graus em partes da região de Khatlon.
Conteúdo
- Calor recorde atinge a Ásia Central
- Por que o fornecimento de energia está sob pressão
- Estradas, locais de trabalho e mercados enfrentam transtornos imediatos
- Doenças relacionadas ao calor são uma preocupação crescente de saúde pública
- As mudanças climáticas aumentam a exposição da região
- Água, geleiras e agricultura enfrentam riscos de longo prazo
- O que os governos podem fazer antes da próxima onda de calor
- Principais pontos
Em Dushanbe, as temperaturas máximas chegaram perto de 43 graus, com previsão de 44 graus. Outros registros recentes incluem 47,6 graus em Turkmenabat, 45 graus em Shymkent, 44,6 graus em Syrdarya, 43,2 graus em Bishkek e 42,7 graus em Samarcanda e Fergana. Alguns locais da região registraram temperaturas acima de 50 graus durante o período mais amplo de calor extremo.
O calor afeta o cotidiano de maneiras que vão além do desconforto. O Tajiquistão teve cortes repetidos de energia elétrica, o Quirguistão adotou desligamentos temporários em algumas áreas, o Uzbequistão suspendeu atividades perigosas ao ar livre nos horários mais quentes e o Cazaquistão enviou equipes de reparo para estradas danificadas pela deformação térmica.
Especialistas em meteorologia alertaram que as medições devem ser interpretadas corretamente. As temperaturas oficiais do ar são medidas à sombra. Um termômetro exposto à luz solar direta, ao lado de um asfalto quente, pode indicar um valor bem mais alto, embora ainda reflita as condições perigosas enfrentadas por pessoas e infraestruturas ao nível do solo.
Por que o fornecimento de energia está sob pressão
O consumo de eletricidade aumentou acentuadamente, à medida que residências e empresas usam aparelhos de ar-condicionado, refrigeradores, ventiladores e outros equipamentos de refrigeração por períodos mais longos. No Tajiquistão, moradores de Dushanbe e de várias outras áreas relataram apagões sem aviso. Houve reclamações em Zarafshon, Chimteppa e em partes da capital identificadas como distritos 33 e 102, além de cidades e vilarejos de outras regiões do país.
Moradores também relataram cabos superaquecidos ou danificados. Quando a demanda atinge o pico em uma área extensa, as redes de distribuição podem chegar ao limite de operação. Equipamentos já expostos a altas temperaturas externas podem se tornar menos confiáveis, enquanto a demanda adicional por refrigeração aumenta a pressão sobre transformadores e linhas locais.
A rede elétrica nacional do Quirguistão informou que o consumo atingiu níveis recordes e que o sistema operava em capacidade máxima. Cortes temporários em Bishkek e na região de Chuy ocorreram após desligamentos de emergência envolvendo duas linhas de alta tensão. Os apagões interromperam serviços de abastecimento de água e telecomunicações em algumas partes da capital. Elevadores pararam de funcionar e semáforos apagaram, criando riscos para moradores e equipes de emergência.
Esse cenário reflete um desafio mais amplo em toda a Ásia. Uma avaliação recente do Banco Asiático de Desenvolvimento constatou que o calor, a seca, as enchentes e outros riscos climáticos estão cada vez mais prejudicando a geração, a transmissão e a distribuição de eletricidade. A geração hidrelétrica pode ser afetada quando o abastecimento de água se torna menos previsível, enquanto usinas termelétricas podem perder eficiência quando a água de resfriamento é escassa ou está mais quente do que o normal. Linhas de energia e subestações também podem falhar durante eventos climáticos extremos.
Estradas, locais de trabalho e mercados enfrentam transtornos imediatos
No Cazaquistão, as altas temperaturas danificaram estradas de concreto nas regiões de Zhambyl, Pavlodar e Turquestão. As autoridades identificaram seis áreas com deformação térmica, processo em que os materiais das estradas se expandem e perdem a forma sob calor intenso. Equipes de manutenção equipadas para reparos especializados foram enviadas para recuperar os trechos afetados.
O calor também cria sérios riscos para quem trabalha ao ar livre. A Inspeção Estatal do Trabalho do Uzbequistão determinou que os governos locais protejam os trabalhadores de serviços públicos durante os horários mais quentes. Atividades consideradas perigosas para a vida ou a saúde devem ser suspensas entre 10h e 17h. Espera-se que os empregadores ofereçam horários flexíveis, água potável, equipamentos de proteção e áreas sombreadas para descanso.
Trabalhadores que não tenham feito os exames médicos exigidos ou que tenham sido considerados inaptos por razões médicas não podem ser designados para essas funções. Essas regras são especialmente relevantes para a construção civil, a manutenção de estradas, a agricultura e outros trabalhos que exigem exposição prolongada à luz solar direta e esforço físico.
As proteções trabalhistas do Tajiquistão também permitem que os funcionários interrompam o trabalho quando identificarem um perigo que não possa ser eliminado. Nawruz Odinaev, chefe do escritório de advocacia Khimoya, disse que os trabalhadores que exercerem esse direito devem continuar recebendo o salário médio até que o perigo seja eliminado.
Se um funcionário identificar um perigo para a própria vida e saúde e não puder eliminá-lo, terá o direito de interromper o trabalho. O salário médio do funcionário será mantido até que o risco seja eliminado.
Autoridades e empresas também estão adotando medidas menores em áreas movimentadas. Foram instalados bebedouros no mercado Korvon e em outros espaços comerciais ao ar livre, para que comerciantes e visitantes tenham acesso a água potável durante longos períodos de exposição.
Doenças relacionadas ao calor são uma preocupação crescente de saúde pública
O calor extremo pode causar desidratação, exaustão pelo calor e insolação. Também pode agravar problemas cardiovasculares, respiratórios e renais. O risco é maior para pessoas idosas, pessoas com doenças crônicas, gestantes, trabalhadores ao ar livre, pessoas que moram em habitações mal ventiladas e aquelas que não têm condições de pagar por uma refrigeração confiável.
Dados do Cazaquistão mostram como o calor pode afetar os sistemas de saúde antes que uma crise seja oficialmente declarada. O Ministério da Saúde do país informou um aumento de 26% nos casos de hipertensão arterial atendidos em serviços de emergência em junho, em comparação com o mesmo mês de 2025. O Cazaquistão está desenvolvendo serviços de saúde resilientes às mudanças climáticas, embora especialistas em saúde tenham pedido um Plano Nacional de Ação para Calor e Saúde baseado nas orientações da Organização Mundial da Saúde.
As crianças são especialmente vulneráveis. Segundo o UNICEF, mais de 92 milhões de crianças em toda a Europa e Ásia Central já estão expostas a ondas de calor frequentes. Na Ásia Central, a frequência, a duração e a intensidade das ondas de calor aumentaram cerca de 30% cada nos últimos 60 anos. Bebês têm capacidade limitada para regular a temperatura corporal, enquanto crianças maiores estão expostas a riscos durante brincadeiras ao ar livre, atividades esportivas e períodos de desidratação.
O calor também pode prejudicar as crianças antes do nascimento. Temperaturas elevadas durante a gravidez foram associadas ao aumento do risco de parto prematuro, baixo peso ao nascer e outras complicações. Escolas, jardins de infância e clínicas precisam de áreas sombreadas, água potável, ventilação e equipes treinadas para reconhecer os primeiros sinais de estresse térmico.
Medidas simples de proteção podem reduzir os riscos. As pessoas devem beber água regularmente, evitar atividades extenuantes nos horários mais quentes, usar roupas leves e procurar sombra ou ambientes internos mais frescos. Crianças e bebês nunca devem ser deixados em veículos estacionados. Quem cuida de crianças também deve evitar cobrir carrinhos de bebê com tecidos pesados, pois isso pode restringir a circulação do ar e reter calor.
As mudanças climáticas aumentam a exposição da região
A Ásia Central sempre teve verões quentes, especialmente nas áreas de planície. Jamila Baidullaeva, diretora do Centro Hidrometeorológico do Tajiquistão, afirmou que temperaturas próximas de 40 graus em julho podem ser normais nesses locais. As condições se tornam anormais quando esse calor persiste por quatro ou cinco dias consecutivos.
O cenário atual se encaixa em uma tendência de aquecimento de longo prazo. Uma análise rápida de atribuição da World Weather Attribution concluiu que as mudanças climáticas causadas pela atividade humana tornaram pelo menos 4 graus mais quente uma onda de calor que atingiu a Ásia Central no início do ano, com os pesquisadores alertando que essa estimativa pode ser conservadora. O estudo analisou o Cazaquistão, o Uzbequistão, o Turcomenistão, o Tajiquistão e o Quirguistão.
Ben Clarke, autor do estudo e pesquisador do Imperial College London, disse que a contribuição das mudanças climáticas foi muito maior do que o normalmente encontrado em estudos de atribuição.
Nossos estudos sobre ondas de calor costumam detectar mudanças de 2 a 4 graus, então 10 graus é, francamente, absurdo.
Os pesquisadores disseram que eventos antes raros podem ocorrer agora aproximadamente uma vez a cada três anos em um clima em aquecimento. A queima de carvão, petróleo e gás aumenta a concentração de gases que retêm calor na atmosfera, elevando a temperatura de base a partir da qual as ondas de calor se desenvolvem. Isso significa que um período naturalmente quente pode se tornar mais intenso e durar mais tempo.
A Organização Meteorológica Mundial informou que a Ásia aqueceu a uma taxa quase duas vezes maior que a registrada no período anterior dos dados climáticos modernos. Sua avaliação de 2025 identificou ondas de calor prolongadas em toda a Ásia Central, com temperaturas no Cazaquistão chegando a ficar até 14 graus acima do normal em março, abril, junho e julho.
Água, geleiras e agricultura enfrentam riscos de longo prazo
A pressão imediata sobre as redes elétricas e as estradas é apenas parte do problema. A Ásia Central depende muito da neve das montanhas e das geleiras para o fluxo dos rios, a irrigação e a geração hidrelétrica. As cordilheiras de Tien Shan e Pamir alimentam sistemas hídricos que abastecem lavouras, cidades e indústrias em diferentes países.
A OMM informou que todas as 23 geleiras monitoradas na Alta Montanha da Ásia perderam massa durante o ano glaciológico de 2025. Nas montanhas de Tien Shan e Pamir, a quantidade de neve no inverno ficou abaixo da média e o calor persistente de maio a setembro provocou uma perda substancial de gelo. Por um período, as geleiras podem fornecer mais água ao derreterem mais rápido, mas a perda contínua reduz a reserva de longo prazo disponível durante as estações secas.
O calor e a seca também podem danificar plantações, reduzir a produtividade da pecuária e aumentar a demanda por irrigação. Trabalhadores agrícolas talvez precisem cumprir jornadas mais curtas, enquanto as famílias enfrentam custos crescentes com refrigeração e água. Os efeitos podem se estender aos preços dos alimentos e à renda familiar, especialmente onde a proteção social é limitada ou o trabalho é informal.
Os riscos climáticos também estão cada vez mais interligados. Um período quente e seco pode aumentar o risco de incêndios florestais e tempestades de poeira, enquanto chuvas intensas após um calor prolongado podem provocar enxurradas e erosão do solo. Em toda a Ásia, a OMM registrou uma combinação de calor extremo, seca, perda de geleiras e chuvas intensas. Essa combinação aumenta a pressão sobre os serviços de emergência e os governos locais.
O que os governos podem fazer antes da próxima onda de calor
As autoridades podem reduzir os danos tratando o calor como uma emergência de segurança pública, e não apenas como um evento meteorológico. Os alertas devem explicar os efeitos esperados sobre a saúde, a eletricidade, a água e o transporte, em vez de apresentar apenas números de temperatura. As mensagens precisam chegar aos trabalhadores ao ar livre, às escolas, aos moradores idosos e às pessoas que vivem em comunidades remotas.
Os órgãos de saúde pública podem estabelecer planos de ação para o calor com responsabilidades claras para hospitais, prefeituras, empregadores e serviços sociais. Esses planos podem incluir o acompanhamento de moradores vulneráveis, horários ampliados nas clínicas, centros de refrigeração, distribuição de água e mudanças temporárias nos horários escolares ou de trabalho.
O planejamento energético também precisa levar em conta as condições mais quentes. Equipamentos de transmissão mais resistentes, edifícios com melhor isolamento, geração solar local, armazenamento em baterias e gestão da demanda podem reduzir o risco de apagões generalizados. O Banco Asiático de Desenvolvimento alertou que novos projetos de energia devem ser projetados para as condições climáticas futuras, em vez de depender apenas dos registros meteorológicos históricos.
O planejamento urbano pode ajudar a reduzir a exposição. Árvores, espaços públicos sombreados, telhados refletivos, melhor ventilação e acesso a água potável podem reduzir as temperaturas em bairros densamente povoados. Hospitais, escolas e unidades neonatais precisam de energia de reserva e sistemas de refrigeração confiáveis, pois um apagão durante o calor extremo pode rapidamente se transformar em uma emergência médica.
A cooperação regional é importante porque rios, cordilheiras, redes elétricas e sistemas meteorológicos atravessam fronteiras. Previsões compartilhadas, gestão coordenada da água e padrões comuns para alertas de calor podem ajudar os países a responder mais rapidamente. Os alertas antecipados funcionam melhor quando as pessoas confiam na mensagem e têm recursos para agir.
Principais pontos
- As temperaturas na Ásia Central chegaram à faixa dos 40 graus Celsius, com alguns registros acima de 50 graus.
- O Tajiquistão e o Quirguistão enfrentaram cortes de energia, enquanto a demanda por refrigeração leva as redes elétricas ao limite.
- O Uzbequistão suspendeu atividades perigosas ao ar livre entre 10h e 17h, no período mais quente.
- O calor extremo deformou estradas em várias regiões do Cazaquistão.
- Crianças, pessoas idosas, gestantes e trabalhadores ao ar livre enfrentam os maiores riscos à saúde.
- Avaliações científicas associam a intensificação das ondas de calor na região às mudanças climáticas causadas pela atividade humana.
- Planos de ação para o calor, redes elétricas mais resistentes, alertas antecipados, acesso à água e espaços públicos sombreados podem reduzir os danos.






