Rússia amplia sua rede de escolas na Ásia Central em meio à intensificação da disputa linguística

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Rússia amplia sua rede de escolas na Ásia Central em meio à intensificação da disputa linguística

Escolas se tornam a mais nova rede de influência de Moscou

A Rússia está investindo centenas de milhões de dólares em escolas, universidades e programas de formação em toda a Ásia Central, transformando a educação em um instrumento fundamental de sua política regional. Os projetos chegam em um momento em que Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão fortalecem suas identidades nacionais, enquanto China, Turquia, Estados Unidos e países europeus ampliam suas próprias atividades culturais e econômicas.

Conteúdo
  1. Escolas se tornam a mais nova rede de influência de Moscou
  2. Por que a educação é importante para a Rússia
  3. Quirguistão é um campo de testes central
  4. Políticas diferentes para o idioma russo em cada país
  5. Cazaquistão
  6. Uzbequistão
  7. Tajiquistão e Turcomenistão
  8. A identidade nacional está transformando as salas de aula
  9. Como China e Turquia mudam a disputa
  10. Disputas linguísticas têm peso político
  11. O equilíbrio entre oportunidades e autonomia
  12. Em resumo

A estratégia é mais visível no Tajiquistão, onde cinco escolas financiadas pela Rússia foram inauguradas em 2022, como parte de um projeto estatal avaliado em cerca de US$ 150 milhões. Uma delas, na cidade de Bokhtar, no sul do país, leva o nome de Mikhail Lomonosov, cientista russo do século XVIII. O prédio de três andares tem salas de aula modernas, segurança 24 horas e bandeiras da Rússia e do Tajiquistão espalhadas pelo terreno.

Mais de mil alunos frequentam a escola de Bokhtar, e as cinco instituições atendem, juntas, cerca de 6 mil estudantes. As aulas são ministradas principalmente em russo e seguem os padrões educacionais russos. As cerimônias escolares, os símbolos e partes do currículo também refletem a cultura russa.

Para muitas famílias, o atrativo é prático. A educação russa pode dar acesso a universidades na Rússia, à formação técnica e a oportunidades de emprego. O Tajiquistão depende muito de cidadãos que trabalham no exterior, particularmente na Rússia, e o dinheiro enviado pelos migrantes há muito representa uma parcela significativa da renda do país.

Um trabalhador da construção civil local identificado apenas pelo primeiro nome, Mukhtor, disse a jornalistas que esperava matricular a filha e o filho na escola de Bokhtar, pois ela poderia abrir caminhos para o ensino superior e melhores oportunidades de emprego. Sua perspectiva reflete uma realidade mais ampla. As famílias podem enxergar as escolas pela ótica da mobilidade social, enquanto Moscou as vê como uma forma de influenciar a geração que liderará as instituições da Ásia Central nos próximos anos.

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Por que a educação é importante para a Rússia

A educação é uma forma relativamente barata de um Estado construir relações duradouras no exterior. Um projeto rodoviário ou energético cria conexões físicas, enquanto uma escola pode moldar habilidades linguísticas, redes profissionais e ideias sobre história e cultura. Estudantes formados em um sistema estrangeiro podem mais tarde ingressar no governo, no setor empresarial, em universidades ou na mídia já familiarizados com as instituições daquele país.

Autoridades russas apresentam o idioma como uma ponte criada por uma história compartilhada. O russo continua amplamente usado nos negócios, na ciência, na diplomacia e em áreas técnicas, e milhões de cidadãos da Ásia Central estudaram ou trabalharam na Rússia. Por isso, o idioma tem importância para além da minoria étnica russa. Ele é frequentemente usado por pessoas de diferentes países da Ásia Central, onde nem sempre há compreensão mútua entre os idiomas nacionais.

Pesquisas citadas por analistas regionais estimam que mais de 200 mil pessoas da Ásia Central estudam na Rússia. Moscou também apoia centros culturais, cursos profissionalizantes e programas para jovens analistas e futuros formuladores de políticas públicas. A iniciativa Escola para a Ásia Central, organizada pelo Fundo Aleksandr Gorchakov de Diplomacia Pública, reúne jovens especialistas da Rússia e de países da Ásia Central para palestras e debates sobre assuntos regionais.

Esses programas criam o que especialistas em políticas públicas chamam de poder brando. O termo se refere à capacidade de influenciar preferências por meio da cultura, da educação e da reputação, em vez de recorrer à pressão militar ou ao controle econômico direto. A política educacional da Rússia se apoia no legado soviético, período em que o russo era o principal idioma da administração, do ensino superior e da ascensão social em toda a região.

A política também responde a um cenário em transformação. A China amplia sua presença por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, de projetos de infraestrutura e de programas de língua chinesa. A Turquia desenvolveu vínculos culturais e acadêmicos com países de língua túrquica. O inglês está cada vez mais associado à educação global, à tecnologia e ao emprego internacional. Assim, os projetos de construção de escolas de Moscou fazem parte de uma disputa mais ampla sobre como as gerações mais jovens da Ásia Central se conectam com o mundo exterior.

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Quirguistão é um campo de testes central

O Quirguistão se tornou um dos parceiros educacionais mais importantes da Rússia na região. Moscou apoia a construção de nove escolas modernas quirguiz-russas pelo país, incluindo instituições planejadas para Bishkek, Osh, Batken e Karakol. A previsão era que as três primeiras começassem a funcionar em 2025.

As escolas foram projetadas para usar currículos dos dois países, com o russo como principal idioma de instrução. A expectativa é que os formandos recebam certificados reconhecidos pelo Quirguistão e pela Rússia. Esse arranjo pode facilitar a continuação dos estudos na Rússia ou o ingresso em redes profissionais que abrangem os dois países.

A Rússia também contribui para um projeto de expansão do campus da Universidade Eslava Quirguiz-Russa, em Bishkek. O projeto foi avaliado em cerca de US$ 200 milhões. A universidade já ocupa um lugar importante no ensino superior quirguiz, especialmente em áreas nas quais o russo continua sendo o principal idioma de ensino.

O Quirguistão é mais aberto à educação russa do que vários de seus vizinhos. O russo tem status de idioma oficial e continua comum em locais de trabalho urbanos, universidades, na mídia e na administração pública. O país também mantém fortes vínculos econômicos com a Rússia. Um grande número de cidadãos quirguizes trabalha lá, e as remessas são essenciais para a renda das famílias e para a economia nacional.

O programa escolar vai além da minoria russa. Os russos étnicos representam uma pequena parcela da população do Quirguistão, mas muitas famílias quirguizes optam pelo ensino em russo porque o associam ao acesso à universidade, à migração e a oportunidades profissionais. Esse apelo mais amplo dá a Moscou um público maior do que o alcançado por uma política voltada apenas aos direitos das minorias.

Políticas diferentes para o idioma russo em cada país

A estratégia educacional da Rússia se adapta às condições políticas e sociais de cada país da Ásia Central. O idioma continua forte em alguns países, enquanto em outros foi afastado de boa parte da vida pública.

Cazaquistão

O Cazaquistão tem a maior população de língua russa da Ásia Central e compartilha uma longa fronteira com a Rússia. Russo e cazaque têm funções oficiais, embora o governo promova o cazaque nas instituições estatais. Durante uma visita a Astana em 28 de maio, o presidente Vladimir Putin afirmou que cerca de 60 mil estudantes cazaques estavam matriculados em universidades russas e mencionou oito filiais de universidades russas em funcionamento no Cazaquistão.

Astana também promoveu uma transição gradual do alfabeto cirílico para o latino na escrita do cazaque. Defensores veem a reforma como parte do desenvolvimento nacional, enquanto políticos russos às vezes apresentam essas mudanças como hostis à cultura russa. O governo precisa equilibrar a reforma linguística com a estabilidade social, sobretudo nas áreas do norte, onde o russo continua amplamente falado.

Uzbequistão

O Uzbequistão tornou o uzbeque o idioma central da vida pública e reduziu o papel do russo na administração estatal e nas escolas. Ainda assim, a educação em russo continua popular no ensino superior, na medicina, na engenharia e em outras áreas técnicas. Universidades russas operam no país, enquanto acordos bilaterais apoiam intercâmbios estudantis e formação profissional.

A migração ajuda a manter a demanda. Um grande número de cidadãos uzbeques vai à Rússia para trabalhar, o que torna o russo útil para o emprego, os trâmites legais e o cotidiano. As famílias podem apoiar políticas de valorização do idioma nacional uzbeque e, ao mesmo tempo, buscar o ensino em russo por razões econômicas.

Tajiquistão e Turcomenistão

O Tajiquistão ocupa uma posição intermediária. O tajique é o idioma oficial, enquanto o russo é reconhecido como idioma de comunicação internacional. O russo é muito usado na mídia e continua importante no nível universitário, embora relativamente poucos alunos do ensino fundamental e médio estudem em russo. As cinco novas escolas dão a Moscou um papel excepcionalmente visível em um país onde a infraestrutura educacional costuma receber poucos recursos.

O Turcomenistão tomou as medidas mais fortes para se afastar do russo. O país adotou o alfabeto latino após a independência e regula rigorosamente as iniciativas educacionais estrangeiras. O ensino do russo sobrevive principalmente por meio de acordos aprovados pelo Estado e de oportunidades para estudantes turcomenos frequentarem universidades na Rússia.

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A identidade nacional está transformando as salas de aula

Desde o colapso da União Soviética, em 1991, todos os governos da Ásia Central buscam fortalecer seus idiomas nacionais. Esse processo está ligado à construção do Estado, à memória histórica e ao desejo de reduzir a dependência de Moscou. Os idiomas nacionais são usados para apresentar cada país como herdeiro de antigas civilizações locais, e não como uma ex-república soviética.

Essa mudança reduziu o ensino do russo em muitas áreas. No Turcomenistão, o russo praticamente não é ensinado no ensino fundamental e médio. O Uzbequistão ampliou o uso do uzbeque na administração pública e na radiodifusão. Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão adotaram políticas mais graduais, pois o russo continua útil no comércio, nas universidades e na migração.

A transição é dificultada pela desigualdade de recursos. Em algumas áreas, os livros didáticos e a terminologia especializada estão mais desenvolvidos em russo do que nos idiomas locais. O russo continua predominante em partes da ciência, da tecnologia, da medicina, do direito e da administração cultural. O inglês pode abrir portas internacionais, enquanto o chinês ganha importância por meio do comércio e dos investimentos, mas nenhum dos dois está tão disponível quanto o russo.

Isso cria um sistema linguístico de três níveis em algumas partes da região. Os idiomas nacionais expressam identidade e têm status oficial. O russo continua sendo um idioma prático para a administração, a educação e a comunicação entre países. O inglês dá acesso a instituições internacionais, aos negócios globais e a universidades ocidentais. Esse equilíbrio está mudando, mas em ritmos diferentes de um país para outro.

A política linguística também pode ter custos sociais se os governos avançarem rápido demais. Cidadãos mais velhos, formados em russo, podem ter dificuldades com uma mudança administrativa repentina. Comunidades rurais podem não ter professores nem materiais no idioma nacional. Trabalhadores que dependem do russo para conseguir emprego na Rússia podem ver as restrições linguísticas como uma ameaça à renda, e não como uma reforma cultural.

Como China e Turquia mudam a disputa

Os projetos escolares da Rússia estão em curso em meio a uma disputa mais ampla pelas futuras conexões da Ásia Central. A abordagem da China se concentra em infraestrutura, comércio, energia e na ideia de desenvolvimento compartilhado. A ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão é apresentada por Pequim como uma rota para a prosperidade regional e a ampliação do comércio eurasiático. Universidades chinesas, bolsas de estudo e Institutos Confúcio também ampliam a familiaridade com a China.

A Turquia se apoia nos vínculos culturais e linguísticos com os povos túrquicos do Cazaquistão, Quirguistão, Turcomenistão e Uzbequistão. Universidades e programas educacionais turcos ganharam influência entre estudantes que veem a Turquia como um parceiro moderno, com laços culturais com seus próprios países.

Governos e organizações ocidentais apoiam universidades, programas de mídia, projetos de sociedade civil e o ensino do inglês. Para muitos jovens das cidades, o inglês está associado a emprego global, tecnologia e estudos no exterior. O russo continua profundamente enraizado, mas já não tem posição incontestável entre os estudantes que escolhem seu futuro.

A vantagem da Rússia é combinar oportunidades atuais com vínculos herdados. Migrantes da Ásia Central já viajam para a Rússia, autoridades regionais mantêm contatos de longa data com Moscou, e muitas famílias usam o russo em casa ou no trabalho. A vantagem da China é sua grande capacidade de investimento e o foco na infraestrutura do futuro. Os governos da Ásia Central podem aproveitar essa disputa para buscar bolsas de estudo, comércio e investimentos de vários parceiros, evitando a dependência de uma única potência.

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Disputas linguísticas têm peso político

Em Moscou, os debates sobre o russo são frequentemente tratados como algo que vai além da política linguística doméstica. No Quirguistão, propostas para renomear distritos de Bishkek que levam nomes da era soviética provocaram acusações de parlamentares e comentaristas russos de que o país estaria apagando a história compartilhada e discriminando russófonos.

Reações semelhantes ocorreram após discussões sobre o aumento do uso do quirguiz na administração pública. No Cazaquistão, a transição para o alfabeto latino também atraiu críticas de políticos russos. Essas reações podem tornar mais delicadas medidas rotineiras de construção nacional, especialmente para governos que dependem do comércio com a Rússia, de acordos de segurança e do emprego de migrantes.

Para os líderes da Ásia Central, o desafio é ampliar os idiomas nacionais sem transformar os cidadãos russófonos em alvos políticos. Uma abordagem gradual pode preservar o acesso à educação e ao emprego, ao mesmo tempo que amplia o papel do cazaque, do quirguiz, do tajique, do turcomeno e do uzbeque no governo, nas universidades e na mídia.

O debate também revela os limites de tratar os falantes de russo como um único grupo político. Muitas famílias escolhem a educação em russo por razões práticas e não se consideram parte de um projeto político russo. Um pai que busca uma vaga em uma escola nova pode estar pensando no custo da universidade, na migração ou na formação profissional, e não na geopolítica.

Ao mesmo tempo, o idioma influencia as informações que as pessoas recebem e as instituições em que confiam. O russo dá a Moscou acesso a um amplo espaço midiático e cultural, que inclui televisão, plataformas on-line e educação. Esse acesso pode reforçar as narrativas russas sobre história e segurança regional, mesmo quando os governos da Ásia Central seguem políticas externas independentes.

O equilíbrio entre oportunidades e autonomia

O investimento da Rússia em escolas da Ásia Central atende a uma necessidade real da população. Muitas famílias querem prédios modernos, professores melhores, bons programas de ciências e um caminho confiável para o ensino superior. As instituições russas podem oferecer essas oportunidades, especialmente onde os sistemas educacionais nacionais carecem de recursos ou de materiais especializados.

Os mesmos projetos também têm um propósito estratégico. Ao ensinar em russo e seguir padrões russos, Moscou ajuda a preservar um espaço profissional comum que conecta a Ásia Central à Rússia. Os formandos podem se tornar engenheiros, médicos, funcionários públicos ou analistas cujo treinamento e contatos mantêm ativa essa relação.

É improvável que os governos da Ásia Central abandonem o russo rapidamente. Migração, comércio, acesso a universidades e educação técnica mantêm a demanda alta. Também é improvável que aceitem um monopólio russo permanente sobre a educação e a comunicação pública. A valorização dos idiomas nacionais reflete um objetivo central da independência, enquanto o inglês, o chinês e o turco oferecem alternativas ao alcance cultural de Moscou.

O modelo emergente provavelmente será o de um multilinguismo competitivo. O russo continuará útil, especialmente no Cazaquistão, no Quirguistão e no Tajiquistão, enquanto os idiomas nacionais ganharão mais autoridade nas instituições públicas. O inglês e o chinês se expandirão onde levarem a investimentos, tecnologia e estudos internacionais. O resultado variará de um país para outro, conforme a demografia, os vínculos econômicos e a confiança nos sistemas educacionais nacionais.

Em resumo

  • A Rússia inaugurou cinco escolas de língua russa no Tajiquistão, em um projeto avaliado em cerca de US$ 150 milhões.
  • Cerca de 6 mil alunos frequentam as cinco escolas tajiques, que seguem os padrões educacionais russos.
  • Moscou apoia nove novas escolas de língua russa no Quirguistão e um grande campus universitário em Bishkek.
  • Segundo Vladimir Putin, cerca de 60 mil estudantes cazaques estudam em universidades russas.
  • O russo continua valioso para a migração, a educação técnica, os negócios e a comunicação em toda a Ásia Central.
  • Os idiomas nacionais avançam à medida que os governos fortalecem a independência e a identidade local.
  • China, Turquia, Estados Unidos e outras potências externas ampliam seus próprios programas educacionais e culturais.
  • A rede de escolas russas oferece oportunidades práticas às famílias e, ao mesmo tempo, preserva a influência cultural de longo prazo de Moscou.
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