O boom da IA na Ásia é movido a carvão, e as comunidades pagam o preço

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O boom da IA na Ásia é movido a carvão, e as comunidades pagam o preço

O combustível oculto por trás da corrida da Ásia pela inteligência artificial

Em toda a Ásia, o boom da inteligência artificial está sendo construído sobre um recurso que governos e empresas de tecnologia raramente colocam no centro da conversa: o carvão. Segundo algumas estimativas, a região concentra perto de três quintos das reservas conhecidas de carvão do mundo, o que torna esse combustível relativamente barato, amplamente disponível e menos exposto a interrupções no transporte marítimo internacional do que o petróleo ou o gás.

Conteúdo
  1. O combustível oculto por trás da corrida da Ásia pela inteligência artificial
  2. Por que os data centers precisam de tanta energia
  3. A Malásia evidencia claramente essa tensão
  4. O carvão não é o único custo ambiental
  5. As comunidades começam a reagir
  6. O que pode substituir o carvão e o gás?
  7. A cooperação regional pode reduzir a pressão
  8. As escolhas feitas agora vão durar décadas
  9. Pontos principais

Essa vantagem está ficando difícil de ignorar à medida que os data centers se multiplicam. Essas instalações abrigam os servidores que treinam e operam sistemas de inteligência artificial. Elas consomem eletricidade continuamente, muitas vezes em níveis muito altos, porque os equipamentos de computação avançada geram calor e não podem simplesmente ser desligados quando o sol se põe ou o vento diminui.

Alexander Kheder, analista de pesquisa de mercado da BMI que acompanha a infraestrutura de inteligência artificial e a expansão dos data centers, disse que a demanda está chegando mais rápido do que novos projetos de energia limpa podem ser concluídos.

A demanda por IA está se concretizando mais rápido do que a geração de energia limpa pode entrar em operação, disse Kheder.

A energia solar e a eólica estão se expandindo rapidamente na Ásia, mas a variação de sua produção cria um problema para operadores que prometem um serviço quase contínuo. Até que haja baterias suficientes, outros sistemas de armazenamento, linhas de transmissão ou fontes firmes de energia de baixo carbono, é provável que carvão e gás preencham essa lacuna.

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Por que os data centers precisam de tanta energia

Um data center convencional já precisa de um fornecimento constante de eletricidade. As instalações de inteligência artificial impõem uma carga adicional à rede porque usam grandes quantidades de processadores gráficos especializados e outros chips com alto nível de utilização. O treinamento de um modelo pode exigir que milhares de chips trabalhem juntos por dias ou semanas, enquanto serviços populares precisam responder aos usuários a qualquer hora.

A diferença entre capacidade instalada e consumo real de eletricidade é importante. Um projeto pode ser anunciado com uma grande capacidade futura, mas a rede precisa se preparar para a possibilidade de que boa parte dela opere ao mesmo tempo. Em vários mercados, um pedido de conexão de 20 megawatts ou mais pode levar a longos estudos técnicos. Alguns operadores enfrentam espera de uma década ou mais por uma conexão convencional à rede.

A Agência Internacional de Energia prevê que o consumo mundial de eletricidade dos data centers praticamente dobre até 2030. Segundo a agência, os data centers responderam por cerca de 1,5% da demanda global de eletricidade em 2024, e essa parcela pode continuar abaixo de 3% até 2030. Esses números globais escondem as pressões locais. Uma única instalação de grande porte pode consumir tanta eletricidade quanto uma planta industrial, e conjuntos de instalações podem rapidamente se tornar uma das maiores cargas de uma rede regional.

Os operadores estão respondendo ao buscar energia diretamente. Alguns estão construindo usinas a gás ao lado de suas instalações, enquanto outros exploram baterias, microrredes, parques de energia renovável, células a combustível e geração nuclear. Onde essas opções ainda não estão disponíveis ou são inacessíveis, usinas a carvão existentes podem receber novos contratos e operar por mais tempo do que o previsto.

Isso cria o risco de dependência prolongada de combustíveis fósseis. Um data center projetado para operar por 20 ou 25 anos pode sustentar uma usina pelo mesmo período, mesmo que as políticas climáticas nacionais prevejam o fechamento de usinas a carvão nesse intervalo.

A Malásia evidencia claramente essa tensão

A Malásia se tornou um dos locais de crescimento mais rápido para data centers na Ásia, favorecida pela proximidade de Singapura, pela disponibilidade de terrenos e por custos relativamente mais baixos. Cyberjaya, um distrito tecnológico ao sul de Kuala Lumpur, já abriga dezenas de instalações, e há mais projetos planejados. Empresas como Google, Amazon, Alibaba, Microsoft e ByteDance demonstraram interesse na infraestrutura digital do país.

A Malásia anunciou cerca de 850 megawatts de demanda potencial de eletricidade para data centers apenas no primeiro semestre de 2024. Outra avaliação regional estima que a demanda nacional de data centers pode subir de 8,5 terawatts-hora em 2024 para 68 terawatts-hora até 2030. Isso representaria até 30% do fornecimento de eletricidade do país.

A Malásia planeja adicionar entre seis e oito gigawatts de geração a gás até 2030 para atender ao aumento do consumo. A medida pode ajudar a evitar escassez, mas também entra em conflito com as metas de emissões do país. Grande parte do sistema elétrico atual já depende de carvão e gás, o que permite que empresas estrangeiras de tecnologia obtenham eletricidade confiável enquanto as comunidades locais arcam com boa parte da poluição e dos custos de infraestrutura.

Adit Rahim, executivo de comunicação de 49 anos que mora perto de Cyberjaya, disse que os moradores acompanham com preocupação a rápida construção.

O impacto será muito, muito visível, disse Rahim, apontando para a pressão sobre os serviços públicos locais.

A água está se tornando uma segunda limitação. Os data centers costumam usar sistemas de resfriamento que evaporam água para remover o calor dos servidores. Autoridades de Johor e Selangor desaceleraram ou restringiram alguns projetos porque o abastecimento de água já está sob pressão. Em Johor, os empreendedores foram orientados a adiar até 2027 determinados projetos de expansão com resfriamento a água.

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O carvão não é o único custo ambiental

A eletricidade gerada a carvão libera dióxido de carbono e poluentes atmosféricos, mas o impacto ambiental da inteligência artificial vai além das usinas. Os data centers precisam de água para resfriamento, terrenos, infraestrutura de transmissão, geradores de emergência e materiais de construção.

Um estudo de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside e da Universidade do Texas em Arlington estimou que a demanda global por inteligência artificial pode exigir entre 4,2 bilhões e 6,6 bilhões de metros cúbicos de água captada em 2027, incluindo a água usada diretamente para resfriamento e a associada à geração de eletricidade. A estimativa se baseia em modelagens, e não em medições completas de todas as instalações, portanto deve ser tratada como uma faixa, não como um total preciso.

A diferença entre captação e consumo é fundamental. Captação é a água retirada de um rio, reservatório, aquífero ou sistema municipal. Consumo é a parcela que não retorna rapidamente à fonte, muitas vezes porque evapora. Uma instalação pode informar um volume modesto de captação e, ainda assim, pressionar uma bacia hidrográfica local.

Na Índia, muitos polos de data centers ficam em áreas que já enfrentam estresse hídrico. Uma instalação de 30 megawatts pode consumir mais de dois milhões de litros por dia com alguns sistemas de resfriamento. No distrito de Gautam Buddha Nagar, em Uttar Pradesh, a extração de água subterrânea ultrapassou os níveis considerados sustentáveis, enquanto moradores de comunidades próximas passaram a recorrer a entregas caras de água depois que os poços secaram.

A Índia também planeja algumas das maiores instalações de inteligência artificial da região. Em Andhra Pradesh, um data center de um gigawatt do Google, ainda em projeto, faz parte de um investimento de 15 bilhões de dólares. Autoridades estaduais descrevem o investimento como uma forma de atrair fabricantes de equipamentos de energia, sistemas de ar-condicionado e materiais de construção.

Nara Lokesh, ministro de tecnologia da informação do estado, disse que o projeto deveria criar uma base industrial mais ampla, em vez de servir apenas como instalação de servidores.

Para mim, não se trata apenas do data center, disse Lokesh. A eletrônica de potência, o ar-condicionado, o pessoal dos materiais de construção, tudo isso. Agora estamos trazendo todos eles para o meu estado para fabricar esses produtos.

A construção pode gerar muitos empregos temporários, mas os data centers são altamente automatizados depois que entram em operação. Pesquisas citadas na região indicam que uma grande instalação pode empregar apenas algumas centenas de trabalhadores permanentes. Isso levanta questões sobre se a arrecadação de impostos, os empregos qualificados e a transferência de tecnologia estarão à altura do valor dos terrenos, da eletricidade e da água comprometidos com os projetos.

As comunidades começam a reagir

O debate público muitas vezes ficou para trás em relação às obras. Vários países asiáticos têm regras incompletas para avaliações ambientais de data centers, e as comunidades locais podem receber poucas informações sobre os níveis previstos de consumo de eletricidade e água ou de poluição antes da aprovação.

Em fevereiro de 2026, moradores de Johor realizaram o que foi descrito como o primeiro protesto público da Malásia contra a rápida expansão dos data centers. Os participantes manifestaram preocupação com a poluição e a escassez de água. Disputas semelhantes surgiram na Indonésia, onde moradores questionaram acordos envolvendo terras comunitárias e o uso de fontes locais de água.

A Ásia Central enfrenta riscos relacionados. Um polo de computação proposto em Ekibastuz, no Cazaquistão, poderia exigir 300 megawatts e depender de carvão em uma cidade já afetada pela poluição atmosférica industrial. No Uzbequistão, espera-se que uma instalação de 300 megawatts planejada em Karakalpakstan use eletricidade de uma usina a gás, apesar da grave escassez de água e energia em uma região marcada pelo desaparecimento do mar de Aral.

Esses casos mostram por que as médias nacionais podem ser enganosas. Os data centers podem representar uma pequena parcela da demanda global de eletricidade, mas seu impacto local pode ser substancial quando várias instalações se concentram em uma bacia seca ou em um sistema elétrico frágil.

A demanda de energia para ar-condicionado pode impor uma carga ainda maior às redes do Sudeste Asiático ao longo do tempo. A Agência Internacional de Energia prevê que o número de aparelhos de ar-condicionado na região suba de quase 50 milhões em 2020 para cerca de 300 milhões em 2040. A demanda por resfriamento deve chegar a aproximadamente 300 terawatts-hora, perto do consumo atual combinado de eletricidade da Indonésia e de Singapura.

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O que pode substituir o carvão e o gás?

A energia renovável é parte da resposta, embora painéis solares e turbinas eólicas não possam, por si só, garantir fornecimento contínuo. O elo que falta é a flexibilidade, ou seja, a capacidade de armazenar eletricidade, deslocar a demanda ou ativar outra fonte quando a produção renovável cai.

O armazenamento de energia de longa duração poderia permitir que os data centers usassem energia renovável por períodos mais longos do que as baterias convencionais conseguem oferecer. O armazenamento também pode reduzir a pressão sobre a rede nos horários de pico. Sistemas de baterias, usinas hidrelétricas reversíveis, armazenamento térmico e novas tecnologias químicas estão sendo testados para esse fim.

Algumas empresas de tecnologia já estão assinando contratos que combinam demanda de computação com nova capacidade de geração. Acordos nos Estados Unidos incluem energia renovável respaldada por armazenamento, células a combustível instaladas no local e usinas virtuais que conectam baterias e outros dispositivos flexíveis aos mercados de eletricidade. Esses arranjos mostram que existem alternativas, embora poucas tenham sido implementadas em escala semelhante na Ásia.

A energia nuclear é outra opção em discussão, especialmente os pequenos reatores modulares. Esses reatores poderiam fornecer eletricidade constante com baixas emissões durante a operação, embora atualmente não haja reatores nucleares comerciais em operação no Sudeste Asiático. Licenciamento, segurança, financiamento, prazo de construção, gestão de resíduos e aceitação pública precisariam ser tratados antes que a energia nuclear pudesse atender ao boom dos data centers.

A tecnologia de resfriamento também pode reduzir a pressão. Sistemas líquidos de circuito fechado reutilizam a água em vez de evaporar continuamente água limpa. As instalações podem usar águas residuais tratadas, resfriamento a ar ou projetos que dispensem água potável. Cada opção envolve concessões. O resfriamento a ar pode exigir mais eletricidade em períodos quentes, enquanto o tratamento e o transporte de águas residuais também consomem energia.

A solução mais limpa varia de acordo com o local. Um data center em uma área rica em água, com geração renovável adicional e resfriamento de circuito fechado, tem uma pegada diferente da de uma instalação em uma região afetada pela seca e abastecida por uma antiga usina a carvão. Os governos deveriam exigir que os empreendedores divulguem dados locais sobre eletricidade, captação e consumo de água e emissões antes de conceder aprovações.

A cooperação regional pode reduzir a pressão

As preocupações com a segurança energética da Ásia ajudam a explicar a atratividade do carvão. Choques nos preços do petróleo, riscos no transporte marítimo e conflitos geopolíticos podem elevar rapidamente o custo dos combustíveis importados. Para os responsáveis pelo planejamento, o carvão produzido na região parece mais previsível, mesmo quando seus custos para a saúde e o clima são muito maiores.

O comércio regional de eletricidade poderia oferecer mais opções aos governos. A Rede Elétrica da ASEAN já permitiu intercâmbios transfronteiriços de eletricidade, inclusive por meio do projeto de integração entre Laos, Tailândia, Malásia e Singapura. A expansão das conexões de transmissão poderia permitir que os países compartilhassem recursos hidrelétricos, solares e eólicos, em vez de construir capacidade isolada de combustíveis fósseis para cada nova carga industrial.

O planejamento energético também precisa considerar as famílias e as empresas existentes. Os data centers podem gerar investimentos e arrecadação de impostos, mas tarifas especiais e subsídios públicos podem transferir os custos de infraestrutura para outros consumidores de eletricidade. Contratos transparentes, regras contra a poluição, limites para o uso da água e contribuições para melhorias na rede dariam às comunidades anfitriãs uma parcela mais clara dos benefícios.

O plano da Malásia para uma nuvem soberana de inteligência artificial reflete o desejo mais amplo de obter mais do que empregos na construção com os investimentos estrangeiros. O país espera desenvolver competências locais, capacidade de pesquisa e controle sobre a infraestrutura digital. Será mais difícil atingir esse objetivo se o país se tornar principalmente uma localização de baixo custo para empresas estrangeiras, enquanto arca com os custos do consumo de eletricidade, água e terras dessas empresas.

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As escolhas feitas agora vão durar décadas

A inteligência artificial tem aplicações reais na medicina, na indústria, na previsão do tempo, na gestão de energia e nos serviços públicos. Os data centers fazem parte da infraestrutura que sustenta esses benefícios. A questão é se sua expansão poderá ser acompanhada por sistemas elétricos e regras ambientais que protejam as pessoas que vivem nas proximidades.

O carvão está preenchendo a lacuna imediata porque está disponível, pode ser acionado conforme a demanda e é uma opção conhecida. Essa solução de curto prazo pode se transformar em um compromisso de longo prazo quando novas instalações são financiadas em torno de usinas existentes e contratos longos. A mesma decisão pode aumentar a poluição do ar, o estresse hídrico e a exposição a futuras regras sobre carbono.

Uma expansão responsável conectaria a nova capacidade de computação a eletricidade limpa adicional, armazenamento e uma rede de transmissão mais robusta. Usaria água reciclada sempre que possível, divulgaria os balanços locais de recursos e envolveria as comunidades antes do início das obras. Quando um projeto não puder atender a condições básicas de água ou energia, uma pausa pode ser mais segura do que permitir que a demanda ultrapasse a capacidade da região.

Pontos principais

  • O carvão continua sendo uma importante fonte de energia de reserva para os data centers de inteligência artificial, que se expandem rapidamente na Ásia.
  • A demora para conectar instalações à rede está levando operadores a recorrer à geração no próprio local, a baterias, microrredes e outros sistemas privados de energia.
  • A demanda de eletricidade dos data centers na Malásia pode subir de 8,5 terawatts-hora em 2024 para 68 terawatts-hora até 2030.
  • O uso de água para resfriamento e geração de eletricidade está aumentando a pressão na Malásia, na Índia e em outras áreas com estresse hídrico.
  • O armazenamento de longa duração, o resfriamento de circuito fechado, a energia renovável e a geração nuclear podem reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
  • O comércio regional de energia, aprovações transparentes e regras ambientais mais rigorosas podem ajudar a distribuir os benefícios e limitar os custos locais.
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