No paraíso insular da Indonésia, a escravidão continua sendo uma realidade cotidiana

13 min de leitura
No paraíso insular da Indonésia, a escravidão continua sendo uma realidade cotidiana

Servidão escondida além das praias turísticas de Sumba

A apenas um curto voo e uma viagem de barco das famosas praias de Bali, a ilha indonésia de Sumba carrega um legado social sombrio. Em algumas partes do leste de Sumba, pessoas ainda nascem em servidão, trabalham sem salário e permanecem vinculadas a famílias nobres por meio de uma estrutura de castas que atravessa gerações.

Conteúdo
  1. Servidão escondida além das praias turísticas de Sumba
  2. O que significa o sistema de castas?
  3. Um senhor e seu ata em Tanggedu
  4. A violência por trás da tradição
  5. Por que a prática sobreviveu?
  6. Educação e fuga
  7. O que o governo está fazendo?
  8. Proibição legal e costume vigente
  9. Em resumo

Quem vive como ata, termo local para escravos ou servos, pode trabalhar do amanhecer ao anoitecer em campos e casas. Alguns são transferidos por meio de casamentos, enquanto mulheres e meninas já sofreram abusos sexuais cometidos por homens da classe nobre. Também há relatos de violência física, especialmente quando os trabalhadores não atendem às exigências de seus senhores.

A Indonésia proíbe a escravidão há mais de 160 anos, e a Constituição do país, de 1945, também a proíbe. Em Sumba, porém, a autoridade dos costumes, a propriedade da terra, a pobreza e o isolamento permitiram que formas de servidão hereditária persistissem sob o discurso da tradição.

É difícil para quem vem de fora perceber a prática. Senhores e atas podem dormir sob o mesmo teto, comer alimentos parecidos e parecer dividir as tarefas domésticas. A diferença costuma ficar evidente no trabalho não remunerado, no controle da terra, no status herdado e no medo que impede um ata de partir.

As cachoeiras azul-turquesa e as aldeias tradicionais de Sumba atraem visitantes em busca de um destino tropical remoto. Para chegar à aldeia de Tanggedu, no leste de Sumba, é preciso percorrer estradas rochosas entre colinas secas e o litoral. Em algumas áreas, não há sinal confiável de celular, e os moradores cozinham em fogões a lenha enquanto bois, cabras e cavalos selvagens circulam pela paisagem.

Publicidade

O que significa o sistema de castas?

A ordem social de Sumba está ligada ao marapu, um sistema de crenças antigo que combina culto aos ancestrais, tradições animistas e obrigações rituais. Cerca de oito em cada 10 pessoas da ilha são cristãs, mas o marapu continua moldando cerimônias, a autoridade familiar e a posição social em muitas comunidades.

A ativista pelos direitos humanos Martha Hebi, que estudou o tema e fundou o grupo Solidariedade pelas Mulheres e Crianças de Sumba, descreveu três grandes categorias sociais: os maramba, ou nobres; os kabihu, ou pessoas comuns; e os atas, que ocupam a posição mais baixa.

Muitas famílias maramba são donas de grandes áreas de terra e exercem influência nas comunidades locais. Tradicionalmente, os atas trabalham para elas, cuidam dos animais, preparam comida, cultivam os campos e realizam tarefas domésticas. Em geral, sua posição é herdada dos pais, o que significa que crianças podem receber o mesmo status antes de terem idade para entender o que isso significa.

Umbu Remi Deta, sacerdote marapu, disse que esse sistema de crenças serve de base para a hierarquia social da ilha. Uma lenda tradicional conta que os maramba passaram a ter atas quando chegaram a Sumba. Para as famílias que aceitam essa história, a relação é vista como uma obrigação ancestral, e não como uma forma de exploração.

Essa interpretação entra em conflito com a lei indonésia. Nenhum costume pode retirar legalmente o direito de uma pessoa à liberdade, à integridade física, à educação ou a um trabalho remunerado. A persistência da prática revela a distância entre as normas nacionais e o poder local, especialmente onde as pessoas têm pouco acesso a tribunais, à polícia, a escolas ou a uma renda própria.

Um senhor e seu ata em Tanggedu

Kanisius Kanyali Hambarita mora em Tanggedu com Umbu Ana Rara, um maramba de 31 anos, três anos mais jovem que ele. Kanisius prepara bebidas, cuida das tarefas domésticas e ajuda a cuidar dos animais. Os dois homens já foram fotografados sentados juntos sob o calor, mascando nozes de areca enquanto galinhas e gansos circulam a seus pés.

Umbu Ana diz que trata Kanisius como um membro da família. Ele permite que Kanisius ganhe uma pequena renda como mototaxista e cultive alimentos em um terreno. Os dois dormem em esteiras no chão de uma casa tradicional alta, construída com um telhado em formato de chifres de búfalo.

Kanisius fala de sua condição com uma resignação que reflete o quanto essa ordem social foi incorporada. Ele já disse que ser ata não é um fardo para ele e que esse status simboliza uma tradição herdada dos ancestrais. Também afirmou que não é algo que possa simplesmente ser apagado.

Relatos como esse mostram por que pode ser difícil classificar a prática à distância. Alguns senhores oferecem comida, moradia ou acesso limitado à terra, enquanto o ata trabalha sem receber e continua em posição de subordinação social. A dependência pode parecer vida em família quando a pessoa envolvida não tem uma alternativa realista.

O sistema também persiste porque muitos atas não têm terra própria, tiveram acesso limitado à escola e dispõem de pouco dinheiro para pagar transporte ou assistência jurídica. Partir pode significar perder a casa, o acesso à comida e o uso de terras agrícolas. Em aldeias remotas, quem rompe com o sistema pode continuar economicamente dependente da mesma família nobre.

Publicidade

A violência por trás da tradição

Outros atas descrevem uma realidade muito mais dura. Um homem da aldeia vizinha de Napu, hoje na casa dos 40 anos, disse que apanhava quando criança por não trabalhar o suficiente. Era obrigado a trabalhar nos campos depois da escola, alimentar os porcos e cozinhar para seu senhor. Ele se lembra de ter apanhado e de terem jogado água nele.

Ele formou a própria família fora da casa dos nobres e conseguiu enviar dois de seus quatro filhos à universidade com bolsas do governo e dinheiro obtido com a criação de animais. Mesmo assim, a terra onde planta milho, mandioca e verduras ainda pertence a seu antigo senhor.

Ele diz que, quando a família precisa de seu trabalho, ele vai. Se não o chamam, trabalha para si mesmo. Evitou confrontar diretamente seu antigo senhor e preferiu construir uma vida separada, embora continue ligado à antiga casa pela propriedade da terra.

A violência sexual é outra dimensão do sistema. O pastor Marlin Lomi, líder do influente sínodo protestante do leste de Sumba, disse que alguns senhores se consideram no direito de usar as servas. Andy Yentriyani, ex-presidente da Comissão Nacional da Indonésia sobre Violência contra as Mulheres, afirmou que meninas da classe ata podem ser tratadas como propriedade de seus senhores.

Essa crença pode fazer com que os abusos desapareçam dos registros oficiais. As vítimas podem temer represálias, não ter dinheiro ou acreditar que a polícia não vai confrontar uma família nobre. Martha Hebi disse que a violência frequentemente fica impune porque as vítimas não se atrevem a testemunhar.

Uma jovem relatou ter sido estuprada por seu senhor e pelo filho dele a partir dos 13 anos. Ela procurou a polícia em Waingapu em 2024, depois de dar à luz. Dois anos depois, a investigação ainda não havia sido concluída, segundo Dian Sasmita, da Comissão Indonésia para a Proteção da Criança. A mulher, que inicialmente recebeu ajuda de um grupo de defesa de direitos, agora vive sob proteção em sua aldeia.

Por que a prática sobreviveu?

Sumba fica a cerca de 2 mil quilômetros a leste de Jacarta. A distância da capital nacional, as estradas difíceis e os serviços públicos desiguais ajudaram a preservar as estruturas locais de autoridade. As leis nacionais valem na ilha, mas sua aplicação é muito mais fraca quando as vítimas moram longe dos órgãos públicos e dependem das pessoas que talvez precisem denunciar.

O poder político também está concentrado na classe nobre. Gidion Mbilijora, que governou o distrito de East Sumba por 13 anos, disse que a estrutura de castas está profundamente enraizada. Ele também reconheceu ter dois atas. Quando líderes locais, proprietários de terras e famílias influentes pertencem à classe maramba, contestar o sistema pode ter um alto custo pessoal.

Grandes funerais exibem a autoridade ainda exercida pelas famílias nobres. Milhares de convidados podem comparecer, entre eles atas, enquanto cavalos são sacrificados em cerimônias marapu. A antropóloga Janet Hoskins documentou que a polícia vigiava alguns desses funerais até o início dos anos 1990, por temer que pudesse ocorrer sacrifício humano. Em um período anterior, dizia-se que o ritual marapu exigia que um escravo fosse enterrado com seu senhor.

A escravidão moderna pode assumir diferentes formas. Em Sumba, é hereditária e está estreitamente ligada às castas. O historiador Bondan Kanumoyoso, da Universidade da Indonésia, disse que a servidão por dívidas temporária também existiu em outras regiões, inclusive entre algumas comunidades dayak de Kalimantan. Ele descreveu o sistema de Sumba como distinto porque a relação pode passar de uma geração à seguinte, com senhores e escravos vivendo juntos.

Publicidade

Educação e fuga

Alguns membros da classe nobre tentaram reduzir o controle que exercem sobre os atas. Norlina Rambu Jola Kalunga, uma nobre e pastora de 54 anos, herdou cinco atas quando se casou com alguém de uma família real. Ela apoia a emancipação e defende que a reforma comece dentro das casas nobres.

Ela já disse que libertar seus próprios atas violaria os costumes locais, embora seu avô tenha concedido liberdade a todos os atas sob sua liderança de uma comunidade protestante na vizinha região central de Sumba. Sua posição reflete o conflito entre convicções pessoais e as obrigações sociais associadas ao status nobre.

Outra nobre, Tamu Rambu Margaretha, amplamente conhecida como Mama Margaretha, faz campanha por melhores condições em Prailiu e viajou a Jacarta para defender a emancipação. Ela mandou seus atas à escola com os filhos, argumentando que quem não sabe ler nem escrever tem menos condições de compreender seus direitos.

Seu filho, Umbu Remi, administra uma galeria onde mulheres locais vendem tecidos de ikat. O tecido pode levar meses para ser tramado e tingido, e a renda dá a várias mulheres, inclusive atas, uma forma de ganhar dinheiro fora do trabalho doméstico direto.

Mama Margaretha diz que não impediria seus atas de partir. Nenhum deles, porém, fez isso, pois não tem recursos para viver por conta própria. A liberdade exige mais do que permissão. Também requer terra, renda, educação, moradia e proteção contra represálias.

O homem de Napu acredita que a educação já ajudou seus filhos a enxergar possibilidades que lhe foram negadas. Ele diz que ainda é considerado escravo, mas espera que seus filhos se livrem dos maramba. Para ele, o conhecimento está intimamente ligado à liberdade, pois ajuda as pessoas a compreender e fazer valer as leis que as protegem.

O que o governo está fazendo?

Organizações de defesa de direitos, incluindo a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, pediram a Jacarta que aplique a proibição constitucional e cumpra os compromissos assumidos em acordos internacionais contra a discriminação. Haeril Halim, representante da Anistia Internacional na Indonésia, disse que o governo conhece a situação em Sumba, mas não tomou medidas capazes de acabar com ela.

Andreas Harsono, da Human Rights Watch Indonésia, pediu ao governo que declare livres todos os atas submetidos a senhores maramba. Essa abordagem trataria o status herdado como uma violação de direitos, e não como uma prática cultural que pode ser modificada gradualmente.

Yusril Ihza Mahendra, ministro dos Direitos Humanos, disse que a Indonésia é um país muito diverso e que o desenvolvimento social varia entre os grupos étnicos. Ele afirmou que o governo não quer impor mudanças repentinas e prefere responder a cada comunidade passo a passo. Também disse que a educação vai mudar a situação.

Gidion Mbilijora expressou opinião semelhante: segundo ele, mais conhecimento ajudaria as pessoas das classes mais baixas a entender que esse vínculo social já não é aceitável. A abordagem gradual tem apoio de alguns líderes locais, mas defensores dos direitos humanos alertam que esperar pode deixar pessoas expostas à violência e ao trabalho forçado por anos.

Uma ação efetiva exigiria mais do que declarações públicas. As autoridades precisariam investigar abusos, proteger testemunhas, registrar direitos sobre a terra, apoiar a educação das crianças e criar caminhos seguros para os atas que queiram partir. A polícia e os tribunais também precisariam tratar a violência sexual e o trabalho forçado como crimes, independentemente da posição social do responsável.

Publicidade

O caso de Sumba mostra como uma proibição legal pode coexistir com uma instituição local poderosa. A Constituição garante a liberdade, mas, em muitas aldeias, é a autoridade dos costumes que determina quem possui a terra, quem trabalha e quem pode exercer influência.

Chamar essa relação de tradição não elimina seus aspectos coercitivos. Quem herda um status, não pode partir sem perder o acesso à comida ou à terra, trabalha sem receber e teme punições não tem a mesma liberdade que a pessoa que controla a casa.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas envolvidas no sistema descrevem suas relações em termos familiares. Essa linguagem deve ser entendida no contexto da dependência. Um senhor pode oferecer abrigo e comida e ainda assim controlar o trabalho, a circulação, as perspectivas de casamento e os filhos do trabalhador.

Mudar a prática exigirá participação local, especialmente de igrejas, líderes tradicionais, grupos de mulheres, professores e ex-atas. Instituições religiosas já ajudam algumas vítimas quando elas denunciam o que sofreram. O apoio comunitário pode ajudar as pessoas a denunciar abusos sem perder a casa nem expor os filhos a represálias.

O turismo pode trazer novas fontes de renda a Sumba, mas é improvável que os visitantes percebam toda a estrutura por trás da vida nas aldeias. Uma casa tradicional, uma galeria de tecidos ou uma cachoeira não mostra quem é dono da terra nem quem trabalhou sem receber para mantê-la. A atenção pública pode ajudar, desde que leve à proteção e à responsabilização, em vez de transformar o sofrimento em mera curiosidade cultural.

Em resumo

  • A escravidão hereditária persiste em partes do leste de Sumba, apesar da proibição constitucional da Indonésia.
  • Os atas estão na base de uma estrutura de castas de três níveis ligada às tradições marapu.
  • Muitos trabalham sem salário e continuam dependentes de famílias nobres para ter acesso à terra, à moradia e à comida.
  • Ex-atas e organizações de defesa de direitos relatam espancamentos, trabalho forçado e violência sexual.
  • As estimativas variam de cerca de 1.700 atas no leste de Sumba a vários milhares em toda a ilha.
  • Autoridades governamentais defendem mudanças sociais graduais, enquanto organizações de defesa de direitos cobram a aplicação imediata da lei.
  • Educação, renda própria, acesso à terra e proteção jurídica são fundamentais para ajudar famílias a sair da servidão.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar