Hong Kong e Singapura disputam o trono do comércio de ouro na Ásia

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Hong Kong e Singapura disputam o trono do comércio de ouro na Ásia

O tiro de largada: Hong Kong avança com lançamento de sistema de compensação em julho

Hong Kong está prestes a conquistar uma vantagem decisiva por ser o primeiro a agir na acirrada disputa para se tornar o principal centro de negociação de ouro da Ásia. A cidade espera lançar até julho um sistema de compensação de ouro operado pelo governo, uma medida que representa um passo fundamental para construir a liquidez necessária para influenciar os preços regionais. Esse cronograma concreto coloca Hong Kong vários passos à frente de Singapura, que anunciou ambições semelhantes, mas ainda não se comprometeu publicamente com uma data específica para lançar seu próprio mecanismo de compensação.

Conteúdo
  1. O tiro de largada: Hong Kong avança com lançamento de sistema de compensação em julho
  2. Preparando o terreno: cofres, refinarias e salários em alta
  3. Bancos globais e a fronteira dos contratos futuros
  4. A resposta de Singapura: a fortaleza de armazenamento da Ásia
  5. A estratégia oficial de Singapura: quatro pilares e um cronograma paciente
  6. Desafiando Londres: a dimensão geopolítica do ouro
  7. Dois centros, dois futuros: potência de negociação e gigante da custódia
  8. Principais pontos

Um sistema de compensação atua como intermediário financeiro que garante a liquidação das operações, eliminando, na prática, o risco de uma das partes não cumprir sua obrigação após a conclusão de um negócio. Ao centralizar essa função em uma entidade governamental, Hong Kong pretende reduzir o risco de contraparte e padronizar as regras das transações, tornando a cidade um lugar mais seguro e previsível para movimentar grandes quantidades de ouro.

O sistema planejado chega em um momento calculado. A previsão é que a calmaria sazonal na demanda por ouro durante os meses de verão deixe espaço suficiente para que os participantes acumulem estoques do metal, permitindo testar a nova infraestrutura sem a pressão do pico de frenesi do mercado. O mecanismo também se apoiará nos enormes volumes de ouro que já passam por Hong Kong para atender à demanda da China continental, o maior consumidor mundial do metal precioso.

Observadores do setor notaram a urgência demonstrada pelas autoridades de Hong Kong. Adrian Ash, chefe de pesquisa da BullionVault, plataforma on-line de negociação e armazenamento de metais preciosos, fez uma avaliação franca da dinâmica.

Se Hong Kong e Singapura estão numa corrida para construir sistemas de compensação, parece que as autoridades de Hong Kong estão muito empenhadas em vencer.

Esse empenho reflete uma necessidade estratégica mais ampla. Nos últimos meses, as duas cidades avançaram em planos para aproveitar a forte demanda global e reduzir a longa hegemonia de Londres como centro mundial do comércio de ouro. Embora a prolongada alta do ouro possa ter perdido força após o início da guerra no Oriente Médio, muitos bancos mantêm uma perspectiva otimista para o longo prazo em relação ao metal, cobiçado por investidores como reserva alternativa de riqueza em períodos de aumento da incerteza geopolítica.

A rivalidade entre os dois centros financeiros asiáticos se intensificou à medida que os dois governos reconhecem que o controle dos mecanismos de formação de preços de commodities tem importância estratégica que vai muito além dos lucros imediatos com as negociações. Os metais preciosos funcionam ao mesmo tempo como commodities industriais, veículos de investimento e reservas monetárias, o que os torna um pilar singular de qualquer ecossistema financeiro. Para Hong Kong, o sistema de compensação não é apenas uma atualização técnica, mas um passo fundamental para criar um ambiente completo de negociação de ouro.

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Preparando o terreno: cofres, refinarias e salários em alta

Por trás do sistema de compensação há uma infraestrutura física em rápida expansão, projetada para transformar Hong Kong em um centro completo de negociação de ouro. A SF Holding, maior empresa de entregas expressas da China, planeja abrir neste ano um cofre perto do aeroporto da cidade, acrescentando capacidade de armazenamento essencial para atender ao aumento dos fluxos comerciais. Em outro importante sinal de confiança, a Point Gold International, uma grande refinadora chinesa, informou que está investindo US$ 150 milhões para ampliar seus escritórios em Hong Kong e adicionar uma unidade de produção, com início das operações previsto para este ano.

A cidade já abriga um grupo consolidado de refinarias, entre elas a Heraeus e a Metalor Precious Metals Hong Kong. Essa base industrial contrasta fortemente com a de Singapura, que atualmente conta com apenas uma refinaria que produz barras de ouro com a acreditação London Good Delivery, padrão do setor. Bernard Sin, diretor regional para a Grande China da negociadora e refinadora MKS PAMP SA, que recentemente também ampliou suas operações em Hong Kong, destacou a abrangência da cadeia de suprimentos da cidade.

Hong Kong tem refinarias, fabricantes de joias, fábricas e empresas de mineração. É uma porta de entrada para o Nordeste Asiático: China continental, Japão e Coreia.

A disputa por talentos se acirrou com a expansão do setor. Os negociadores de metais preciosos estão recebendo pacotes salariais maiores, e bancos tradicionais competem agressivamente com empresas de tecnologia financeira e corretoras para contratar profissionais experientes. A pressão no mercado de trabalho sinaliza confiança genuína de que os volumes de negociação justificarão o investimento em capital humano. Novas empresas digitais, como a Matrixdock, também buscam contratar na região, enquanto corretoras chinesas, incluindo a HGNH International Futures, estão montando equipes especializadas em negociação de metais preciosos em Hong Kong.

O governo de Hong Kong mantém atualmente cerca de 150 toneladas de capacidade de armazenamento no aeroporto, embora não tenha divulgado a capacidade total dos cofres comerciais da cidade. Essa falta de transparência deixa dúvidas sobre a capacidade física total, mas participantes do setor têm pouca dúvida de que operadores privados ampliarão rapidamente suas instalações se os volumes compensados justificarem o investimento de capital.

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Bancos globais e a fronteira dos contratos futuros

Para que qualquer sistema de compensação prospere, é essencial contar com a participação dos principais bancos de ouro do mundo. Hong Kong e Singapura avançaram significativamente nessa direção. JPMorgan Chase, UBS Group e Citigroup estão apoiando ativamente os planos nas duas cidades, enquanto bancos locais participam de seus respectivos mercados domésticos. Em Hong Kong, bancos chineses ampliaram suas mesas de negociação de ouro ou estão em processo de expansão, refletindo um esforço apoiado pelo Estado para aprofundar a liquidez do mercado.

Mas a infraestrutura e a participação dos bancos, por si só, não garantem poder para determinar preços. Um centro financeiro maduro também precisa de um mercado robusto de contratos futuros, no qual os participantes possam se proteger contra o risco de variação de preços, estabelecer referências em tempo real e atrair capital especulativo. O grande e ativo mercado acionário de Hong Kong, somado aos esforços recentes para fortalecer os fluxos financeiros recíprocos com a China continental, dá à região administrativa especial uma vantagem particular para desenvolver os produtos futuros essenciais para exercer influência real sobre os preços regionais. Os mercados futuros geram liquidez adicional ao permitir que mineradoras, joalheiros e investidores institucionais fixem preços com meses de antecedência, reduzindo sua exposição às oscilações voláteis do mercado à vista.

A importância dos contratos futuros vai além da simples especulação. Para um joalheiro em Shenzhen ou um executivo de mineração em Perth, poder fixar um preço de venda com seis meses de antecedência oferece estabilidade e ajuda no planejamento dos negócios. Sem mercados futuros líquidos, o mercado à vista, sozinho, se torna uma arena arriscada, dominada por fluxos de curto prazo. Ao desenvolver esses recursos de derivativos junto com seu sistema de compensação, Hong Kong espera atrair o capital institucional que cria mercados profundos e resilientes.

A resposta de Singapura: a fortaleza de armazenamento da Ásia

Enquanto Hong Kong avança com sua infraestrutura de negociação e compensação, Singapura constrói uma reputação como cofre de custódia da Ásia. A cidade-Estado pode armazenar atualmente pelo menos 2.200 toneladas de ouro em duas instalações privadas de alta segurança. O The Reserve guarda aproximadamente 500 toneladas, enquanto o Le Freeport, um depósito às vezes conhecido como Fort Knox da Ásia, abriga pelo menos 1.700 toneladas. Lincoln Ng, diretor-executivo do Le Freeport, informou que a demanda por armazenamento de ouro vem crescendo de forma constante nos últimos anos.

O espaço de armazenamento subterrâneo, geralmente preferido para guardar ouro por oferecer mais segurança e maior capacidade de suportar cargas, está perto da ocupação total.

Essa situação de capacidade quase esgotada ressalta a vantagem imediata de Singapura: a cidade já é um destino confiável para a preservação de patrimônio físico. Os investidores veem cada vez mais Singapura como um local preferencial para guardar ativos, uma percepção baseada na estabilidade política, em um sistema financeiro robusto e no sólido Estado de Direito. Esse apelo tem sido particularmente forte entre proprietários de ouro preocupados com a influência política sobre Hong Kong. Nos últimos meses, Singapura também recebeu a custódia de parte do ouro retirado de Dubai devido ao conflito militar na região, e dados oficiais mostram importações recordes dos Emirados Árabes Unidos em março e abril.

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A estratégia oficial de Singapura: quatro pilares e um cronograma paciente

A Autoridade Monetária de Singapura não ficou parada. Em janeiro de 2026, o banco central criou um grupo de trabalho para o desenvolvimento do mercado de ouro, em parceria com a Singapore Bullion Market Association. A iniciativa se concentra em quatro pilares: ampliar os produtos de ouro do mercado de capitais, estabelecer um sistema confiável de compensação e liquidação, reforçar os padrões de armazenamento e logística e explorar serviços de custódia para bancos centrais estrangeiros e entidades soberanas.

O grupo de trabalho da MAS ainda precisa definir padrões técnicos essenciais. As barras grandes, de cerca de 12,4 quilos, são o padrão preferido por instituições em Londres, enquanto as barras de um quilo predominam nos mercados asiáticos de varejo e atacado. Qualquer sistema de compensação que pretenda conectar esses mercados precisará acomodar os dois formatos sem dificuldades, garantindo que bancos internacionais e refinadoras locais possam liquidar operações sem os custos e entraves de conversões.

Chee Hong Tat, vice-presidente da MAS e também ministro do Desenvolvimento Nacional, comparou o projeto ao plantio de árvores, em vez de uma aposta em movimentos de preços de curto prazo.

Com o tempo, se você fizer os investimentos certos nas áreas certas, o ecossistema cresce, e as árvores crescem e dão frutos.

Chee reconheceu o recente acordo de cooperação de Hong Kong com a Bolsa de Ouro de Xangai, mas rejeitou a ideia de que apenas uma cidade poderia prevalecer. Ele observou que os segmentos de mercado não são totalmente iguais, o que abre espaço para que as duas cidades coexistam e desenvolvam seus respectivos serviços. Seus comentários ecoaram as declarações do primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong, que, durante uma recente visita oficial a Hong Kong, afirmou acreditar que a colaboração entre os dois centros financeiros asiáticos beneficiaria o crescimento e a resiliência de ambos.

A estratégia de Singapura aposta deliberadamente na reputação da cidade-Estado de neutralidade e excelência regulatória. Segurança e proteção são considerações prioritárias para bancos centrais que avaliam locais de custódia, e Singapura vê esses atributos como vantagens competitivas naturais. A MAS planeja divulgar mais detalhes sobre iniciativas importantes ao longo do ano, mas ainda não anunciou publicamente um cronograma definido para os testes do sistema de compensação.

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Desafiando Londres: a dimensão geopolítica do ouro

O papel de Londres como centro mundial do ouro há séculos se apoia em enormes estoques de metal, grande parte pertencente a bancos centrais de todo o mundo. Hong Kong e Singapura ainda estão muito atrás nesse aspecto, mas ambas buscam ativamente atrair negócios do setor oficial. A China tem priorizado países participantes de sua Iniciativa do Cinturão e Rota, oferecendo às nações soberanas a opção de armazenar ouro na China continental e apresentando Hong Kong como uma praça offshore mais flexível, de onde o metal pode entrar e sair do continente com relativa facilidade.

O Camboja foi um dos primeiros países a aceitar a oferta da China para guardar ouro no continente, enquanto o Banco da Reserva da África do Sul indicou que consideraria armazenar suas reservas em qualquer local ideal. Esses primeiros sinais sugerem uma mudança gradual na forma como os bancos centrais pensam sobre a diversificação geográfica de suas reservas. Durante décadas, instituições soberanas mantiveram ao menos parte de seu ouro em Londres, onde é mais fácil administrá-lo e a liquidez é gerada por atividades de negociação e empréstimo. A fragmentação dessa concentração poderia remodelar os fluxos globais de liquidação.

A instabilidade geopolítica trouxe nova urgência a essas mudanças estruturais. Quando conflitos interrompem rotas tradicionais de abastecimento ou provocam sanções que dificultam a liquidação por meio de bancos ocidentais, participantes do mercado começam a buscar centros alternativos que possam operar sob diferentes estruturas jurídicas e políticas. O ouro, historicamente um ativo de último recurso em tempos de guerra e inflação, tende naturalmente a fluir para jurisdições que oferecem segurança física e autonomia operacional.

Adrian Ash, da BullionVault, observou que os participantes do mercado discutem há bem mais de uma década a possibilidade de a China desafiar a hegemonia de Londres.

A compensação é um passo vital para construir os serviços bancários de ouro que ainda faltam à nação número um em mineração e consumo.

O desenvolvimento de uma infraestrutura sediada em Hong Kong poderia, no futuro, oferecer aos bancos centrais asiáticos canais alternativos para administrar reservas, reduzindo a dependência de serviços de custódia ocidentais. A estrutura jurídica de Hong Kong, baseada no direito consuetudinário, oferece segurança contratual e mecanismos de resolução de disputas conhecidos por operadores internacionais, enquanto a paridade do dólar de Hong Kong com o dólar americano elimina os riscos cambiais para participantes globais.

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Dois centros, dois futuros: potência de negociação e gigante da custódia

Veteranos do setor acreditam cada vez mais que, em vez de produzir um único vencedor, a disputa pode levar Hong Kong e Singapura a desenvolver nichos comerciais distintos. Doris Bao, fundadora da consultoria chinesa Gold Harvest Management, previu uma divisão natural de funções.

É provável que Singapura se concentre no armazenamento, enquanto Hong Kong promoverá a negociação e o refino, com o apoio da logística.

Essa divisão aproveita os pontos fortes atuais de cada cidade. Os cofres já existentes em Singapura inspiram confiança entre os proprietários de patrimônio que buscam neutralidade política e discrição. Hong Kong, por sua vez, se beneficia de sua posição como porta de entrada incontestada para o Nordeste Asiático, com ligações diretas à China continental, ao Japão e à Coreia. Seu ecossistema inclui refinarias, fabricantes de joias, fábricas e escritórios de empresas de mineração, criando um ambiente integrado que Singapura não consegue reproduzir com facilidade.

O avanço financeiro mais amplo de Hong Kong dá ainda mais impulso a essa tendência. Recentemente, a cidade ultrapassou a Suíça como principal centro de registro de patrimônio transfronteiriço do mundo, administrando cerca de US$ 2,95 trilhões em ativos offshore, segundo um estudo de 2026. Essa posição como polo de atração de riqueza reforça a ligação natural entre o banco privado e os investimentos em metais preciosos. Ainda assim, Singapura continua muito atraente pela neutralidade política e pela independência regulatória, qualidades que seguem atraindo capital de investidores preocupados com a instabilidade geopolítica.

A projeção é que as duas cidades continuem crescendo como centros de registro de patrimônio transfronteiriço, a uma taxa de cerca de 9% ao ano até 2030, acima da média de 6% esperada para a Suíça no mesmo período. Embora esses números se refiram à gestão de patrimônio em geral, e não especificamente ao ouro, eles mostram a mudança da atração do capital global para centros asiáticos. Para os negociadores de ouro, a mesma proximidade com os clientes que impulsiona o crescimento do banco privado pode facilmente se traduzir em maior demanda por serviços de custódia e negociação de metais preciosos.

Em última análise, a disputa não se resume a cofres e mesas de negociação. O controle dos preços de referência de materiais essenciais tem peso estratégico nas relações internacionais, nas quais instrumentos econômicos servem a objetivos geopolíticos. Os metais preciosos ocupam uma posição singular porque funcionam ao mesmo tempo como commodities industriais, veículos de investimento e reservas monetárias. À medida que os bancos centrais diversificam seus ativos e buscam maior independência monetária, o surgimento de uma estrutura asiática confiável para o ouro pode, gradualmente, reduzir a força de atração que Londres exerce há séculos.

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Principais pontos

  • Hong Kong planeja lançar até julho um sistema estatal de compensação de ouro, garantindo uma vantagem inicial sobre Singapura.
  • Singapura está ampliando sua capacidade de armazenamento e aprimorando sua infraestrutura financeira, mas ainda não anunciou publicamente um cronograma para a compensação.
  • Grandes bancos internacionais, incluindo JPMorgan Chase, UBS e Citigroup, apoiam os planos de desenvolvimento nas duas cidades.
  • Hong Kong se beneficia da proximidade com a China continental, o maior consumidor mundial de ouro, e de uma cadeia de suprimentos que integra refinadoras, fabricantes e prestadores de serviços logísticos.
  • Singapura oferece atualmente uma capacidade de armazenamento em cofres privados muito maior, com pelo menos 2.200 toneladas em instalações de alta segurança.
  • Analistas do setor preveem que Hong Kong se especializará em negociação e refino, enquanto Singapura se concentrará em custódia e armazenamento.
  • As duas cidades buscam reduzir a dependência mundial de Londres como principal centro de formação de preços e liquidação de operações com ouro.
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