O impasse de um Estado de guarnição
Entre as cruéis ironias da guerra civil de Mianmar, que já se arrasta pelo sexto ano, está o fato de que, enquanto luta para recrutar soldados em número suficiente, a junta militar bombardeia repetidamente suas próprias tropas mantidas como prisioneiras de guerra. Nesse Estado de guarnição, tudo parece sacrificável para manter os militares e seu governo civil de fachada no poder. Após eleições amplamente desacreditadas, realizadas no fim de 2025, o conflito se estabilizou em um impasse estratégico no qual nem o Conselho de Administração do Estado (SAC, na sigla em inglês) nem a heterogênea coalizão de forças contrárias à junta conseguem desferir um golpe decisivo.
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As estatísticas retratam uma situação de fragmentação, não de libertação. De acordo com avaliações recentes, os militares controlam apenas 21% do território de Mianmar, enquanto forças rebeldes e exércitos étnicos detêm 42%. Essa vantagem territorial, porém, esconde uma realidade brutal. A junta mantém o controle da maioria das grandes cidades, incluindo Yangon, centro econômico do país, e Naypyidaw, a capital política, enquanto as forças de resistência dominam vastas áreas rurais e regiões de fronteira. Mais de 90 mil pessoas foram mortas desde o golpe de fevereiro de 2021, e mais de três milhões foram expulsas de suas casas.
A guerra civil começou quando as Forças Armadas deram um golpe contra o governo civil eleito, liderado pela ganhadora do Nobel Aung San Suu Kyi. Sem apresentar provas, o Exército alegou irregularidades nas eleições de 2020. Para os militares, permitir eleições competitivas deveria servir apenas de fachada, enquanto tudo seguia como de costume. Eles não previram um desafio genuíno ao seu papel profundamente enraizado no Estado, que a Constituição lhes reserva o direito de remover governos civis quando bem entenderem.
Operação 1027 e a mudança dos rumos
A dinâmica do campo de batalha mudou drasticamente no fim de outubro de 2023, quando a Aliança das Três Irmandades (3BTA, na sigla em inglês), formada pelo Exército Arakan, pelo Exército da Aliança Democrática Nacional de Mianmar (MNDAA, na sigla em inglês) e pelo Exército de Libertação Nacional Ta'ang (TNLA, na sigla em inglês), lançou a Operação 1027. A ofensiva coordenada, no estado de Shan, conquistou um território significativo na fronteira com a China, tomou mais de 180 postos militares em poucas semanas e desencadeou ataques em cascata em todo o país por parte de outros grupos de resistência.
A ofensiva representou o desafio mais sério ao governo militar desde o golpe. Equipadas com armas avançadas, incluindo drones adquiridos em mercados estrangeiros, as forças da 3BTA demonstraram um nível de coordenação sem precedentes. O sucesso inspirou as Forças de Defesa Popular (PDFs, na sigla em inglês) do Governo de Unidade Nacional e outras organizações armadas étnicas a lançar campanhas coordenadas, mudando temporariamente o rumo da guerra.
A vitória, no entanto, foi parcial e reversível. A China, que inicialmente deu aprovação tácita por estar frustrada com as operações de golpes cibernéticos que tinham cidadãos chineses como alvo ao longo da fronteira, logo agiu para restabelecer o equilíbrio. No início de 2025, Pequim havia negociado cessar-fogos e pressionado o MNDAA a devolver à junta o controle da cidade estratégica de Lashio, demonstrando os limites da resistência étnica sem apoio sustentado de grandes potências.
Nos últimos meses, a junta conseguiu algumas retomadas limitadas. Com ataques aéreos incessantes, usando aeronaves fornecidas pela China e pela Rússia, além de novas capacidades com drones e ondas de soldados recrutados à força, os militares reconquistaram várias cidades, incluindo Kyaukme, Hsipaw e Nawnghkio, no norte do estado de Shan. Essas reversões mostram que, embora a junta não consiga reconquistar o país inteiro, ainda tem poder de fogo suficiente para evitar o colapso.
A aposta calculada de Pequim
O papel da China se tornou a variável decisiva no conflito de Mianmar, embora a influência de Pequim não seja absoluta nem unidirecional. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, prometeu recentemente US$ 3 bilhões em assistência à junta, incluindo verbas destinadas a um censo e a eleições que devem oferecer aos militares uma saída política. O presidente Xi Jinping se reuniu com o líder da junta, Min Aung Hlaing, e a mídia estatal chinesa se referiu ao general como “presidente interino” de Mianmar, uma mudança significativa em relação ao tratamento diplomático anterior.
Ao mesmo tempo, a China mantém relações com grupos armados étnicos ao longo de sua fronteira, criando uma complexa dinâmica entre patrocinador e aliados na qual Pequim apoia os dois lados para garantir que nenhum alcance a vitória total. O Exército do Estado de Wa Unido (UWSA, na sigla em inglês), o aliado mais poderoso de Pequim entre os grupos étnicos, recebe armas chinesas e as repassa a vários grupos armados, incluindo forças contrárias à junta. Essa estratégia de proteção busca manter uma zona de influência e, ao mesmo tempo, impedir tanto o colapso completo da junta quanto uma vitória democrática unificada.
A intervenção chinesa se mostrou decisiva em momentos específicos. Quando a Aliança das Três Irmandades tomou rotas comerciais na fronteira responsáveis por mais de US$ 1,8 bilhão em comércio transfronteiriço, Pequim cortou o fornecimento de eletricidade e o acesso à internet para pressionar pelo cumprimento de suas exigências. O governo chinês também bloqueou a exportação de tecnologias de uso dual para grupos de oposição, enquanto forneceu à junta aviões de treinamento a jato, aeronaves não tripuladas e assistência técnica para a produção de drones.
A China se opõe ao caos e à guerra em Mianmar”, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, em agosto de 2025, resumindo a principal preocupação de Pequim. “A política de Pequim é evitar o colapso do Estado.
Essa política reflete o temor da China de um colapso semelhante ao da Síria em sua fronteira sudoeste, que poderia prejudicar o Corredor Econômico China-Mianmar e os investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota. Pequim vê os militares como a única força capaz de manter unido o país multiétnico, apesar do desconforto com o golpe de 2021 e suas consequências destrutivas.
A evolução da guerra moderna
O conflito evoluiu para uma corrida tecnológica dominada por sistemas não tripulados. Os dois lados agora usam drones em larga escala, embora a junta mantenha superioridade em aeronaves tripuladas e artilharia pesada. A Força Aérea de Mianmar recebeu aviões de treinamento a jato FTC-2000G da China e continua operando aeronaves fornecidas pela Rússia. No fim de 2024, realizava uma média de quase 300 ataques aéreos por mês.
As forças de resistência inicialmente levaram vantagem com drones comerciais adaptados para uso militar, lançando 25 mil munições só durante a Operação 1027. Essas aeronaves de baixo custo permitiram ataques de precisão e táticas de enxame contra postos isolados. A junta, porém, se adaptou rapidamente, formando unidades especializadas em drones e importando drones kamikaze da China, da Rússia e do Irã.
Os militares compensaram a falta de efetivo com o recrutamento forçado implementado em fevereiro de 2024. Cerca de 60 mil a 80 mil recrutas foram incorporados às Forças Armadas, muitas vezes enviados ao combate com treinamento mínimo, em manobras de “ondas humanas” para sobrepujar as defesas rebeldes. Três combatentes rebeldes confirmaram ter presenciado essas táticas no centro de Mianmar e descreveram como soldados substitutos avançavam logo após as baixas, às vezes sob ameaça de seus próprios oficiais.
Como explicou o major Naung Yoe, desertor militar que pesquisa o conflito, após o choque da Operação 1027, a junta substituiu oficiais promovidos por favoritismo por comandantes mais experientes. Essa reformulação de pessoal, combinada com o recrutamento forçado e a aquisição de drones, permitiu que os militares estabilizassem sua posição, apesar das contínuas perdas territoriais nas regiões periféricas.
A catástrofe humanitária
Além das disputas por território, a crise humanitária se agrava. As Nações Unidas informam que 3,6 milhões de pessoas continuam deslocadas, e mais de 500 mil foram obrigadas a deixar suas casas desde outubro de 2023. Com os combates se aproximando de grandes cidades como Mandalay, as necessidades humanitárias atingiram níveis sem precedentes em um país cuja resposta da ONU é a menos financiada do mundo, com menos de 30% dos recursos necessários.
Há muito tempo, a junta restringe o acesso de grupos internacionais de ajuda humanitária, usando leis que limitam como e a quem a assistência pode ser fornecida. Quando grupos de resistência conquistam território, os militares muitas vezes respondem com bloqueios ou ataques aéreos indiscriminados contra escolas, hospitais e campos de deslocados. Em novembro de 2024, um ataque aéreo a uma aldeia no estado de Chin matou 11 civis, incluindo oito crianças.
Organizações locais de ajuda humanitária têm preenchido essa lacuna, prestando assistência às comunidades afetadas em locais onde ONGs internacionais não conseguem atuar com eficácia. No entanto, esses grupos enfrentam graves limitações de recursos e entraves burocráticos, incluindo a exigência do Governo de Unidade Nacional de obter autorização prévia antes de entrar em áreas sob seu controle.
“Estamos tentando esvaziar uma piscina com uma colher, mas a água continua chegando”, disse um trabalhador humanitário internacional que atua em Mianmar e pediu para não ser identificado.
Thomas Kean, consultor sênior sobre Mianmar do International Crisis Group, alertou que a nova fase do conflito teria “um impacto devastador” sobre os civis presos no fogo cruzado, com regimes desesperados recorrendo a “armadilhas explosivas e coisas sinistras desse tipo, retaliações, esquadrões de extermínio”.
Impasse político e fragmentação
A dimensão política do conflito chegou a um impasse que espelha a situação militar. As eleições planejadas pela junta, realizadas em etapas até o fim de 2025, foram amplamente condenadas por não serem livres nem justas. A Liga Nacional pela Democracia foi dissolvida à força, e Aung San Suu Kyi continua detida, tornando a votação um instrumento para legitimar a continuidade do governo militar por meio de representantes civis.
As comunidades de Mianmar no exterior boicotaram em grande parte o processo eleitoral. Na Coreia do Sul e na Tailândia, onde vivem milhões de trabalhadores migrantes de Mianmar, autoridades do regime teriam obrigado pessoas que solicitavam a renovação de passaportes a preencher formulários de votação e telefonado para pedir que participassem. Ativistas organizaram boicotes, e a maioria dos migrantes se recusou a participar do que considerava uma farsa.
O Governo de Unidade Nacional, formado por parlamentares depostos, não conseguiu unificar o movimento de resistência. Apesar de afirmar que conta com 85 mil combatentes em diversas formações das PDFs, o GUN não comanda nem controla as organizações armadas étnicas que detêm a maior parte do território e das armas. Grupos poderosos como o Exército Arakan e o Exército do Estado de Wa Unido mantêm agendas próprias e muitas vezes priorizam conquistas territoriais locais em vez de uma revolução democrática nacional.
Os cessar-fogos recentes negociados pela China desgastaram ainda mais a confiança entre as organizações armadas étnicas e o movimento mais amplo das PDFs. Quando o MNDAA fechou um acordo com a junta para devolver Lashio em troca do reconhecimento do controle do grupo sobre Kokang, violou o princípio de negociação coletiva estabelecido pela Aliança das Três Irmandades. Essa conduta sugere que os grupos étnicos podem priorizar a proteção de suas próprias regiões autônomas em detrimento da mudança do regime nacional.
O risco de fragmentação permanente
Analistas alertam cada vez mais que Mianmar enfrenta uma fragmentação permanente, em vez de uma vitória unificada de qualquer um dos lados. O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos descreve o conflito como uma “guerra sem rumo”, na qual a violência prolongada aprofunda divisões e fecha caminhos para a paz. Três cenários dominam o planejamento estratégico: a continuidade da violência prolongada; cessar-fogos parciais e não inclusivos, que estabilizem algumas regiões enquanto intensificam o conflito em outras; ou cessar-fogos inclusivos simultâneos, politicamente improváveis diante da atual desunião.
A própria resistência se fragmentou por linhas étnicas e ideológicas. O Exército Arakan controla a maior parte do estado de Rakhine e busca uma organização confederal, em vez de federal, ao mesmo tempo que adota políticas repressivas contra os rohingyas, com risco de fomentar novas insurgências. O TNLA e o MNDAA entraram em confronto com outros grupos étnicos pelo controle territorial e pela exploração de recursos. No centro de Mianmar, o que começou como uma luta pela democracia se parece cada vez mais com um regime de senhores da guerra, à medida que unidades das PDFs financiam suas atividades com a cobrança de impostos locais e atividades criminosas.
As mudanças geopolíticas reforçaram essas tendências de fragmentação. O retorno de Donald Trump à presidência dos EUA em 2025 sinalizou um menor interesse americano por normas democráticas no exterior, enquanto o apoio contínuo da Rússia oferece cobertura diplomática e equipamento militar à junta. A ASEAN não conseguiu formular uma posição unânime eficaz. As Filipinas estão atualmente à frente das discussões, mas não têm influência para forçar concessões de Naypyidaw.
David Mathieson, analista independente que acompanha os assuntos de Mianmar, observou que “a ASEAN não pode reagir com indignação se a China está fazendo mais ‘progresso’ do que o bloco regional; os esforços regionais não deram frutos”. Essa dinâmica mantém o conflito congelado em uma situação na qual a junta não consegue vencer, mas a resistência não consegue governar.
Principais pontos
- A guerra civil de Mianmar chegou a um impasse estratégico após seis anos. A junta controla 21% do território e as forças de resistência detêm 42%, mas nenhum dos lados consegue desferir um golpe decisivo.
- A Operação 1027, em outubro de 2023, marcou o auge das forças contrárias à junta, mas desde então a intervenção diplomática chinesa forçou recuos parciais, incluindo a devolução da cidade estratégica de Lashio ao controle da junta.
- A China desempenha um papel decisivo e duplo: fornece US$ 3 bilhões à junta e negocia cessar-fogos, ao mesmo tempo que historicamente arma grupos étnicos por meio do Exército do Estado de Wa Unido, adotando uma estratégia de proteção para evitar o colapso total do Estado.
- Os militares se adaptaram com o recrutamento forçado de 60 mil a 80 mil soldados, táticas de infantaria em “ondas humanas” e ampliação da capacidade de guerra com drones fornecidos por Pequim e Moscou.
- As condições humanitárias se deterioraram drasticamente: 3,6 milhões de pessoas estão deslocadas e o acesso da ajuda internacional é severamente restringido, situação que trabalhadores humanitários descrevem como tentar esvaziar uma piscina com uma colher.
- As eleições planejadas para 2025 foram boicotadas por eleitores no exterior e grupos de oposição. Elas não deram legitimidade internacional à junta e expuseram a fragmentação das forças contrárias ao regime.
- Analistas alertam para o risco de fragmentação permanente, já que organizações armadas étnicas priorizam o controle local em detrimento da unidade nacional. Isso pode criar pequenos Estados autônomos dependentes de países vizinhos, em vez de uma democracia federal unificada.






