Taiwan e Coreia do Sul entram em disputa diplomática por classificação em cartão eletrônico de chegada

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Taiwan e Coreia do Sul entram em disputa diplomática por classificação em cartão eletrônico de chegada

Disputa por classificação digital se transforma em atrito diplomático

O que começou como uma digitalização rotineira da documentação de imigração se transformou em um raro confronto diplomático entre Taiwan e Coreia do Sul, dois parceiros econômicos com fortes laços culturais, mas sem relações diplomáticas formais. No centro da controvérsia está um menu suspenso, mais especificamente a forma como o novo sistema sul-coreano de cartão eletrônico de chegada classifica os viajantes taiwaneses que entram no país.

Conteúdo
  1. Disputa por classificação digital se transforma em atrito diplomático
  2. Como o sistema eletrônico mudou tudo
  3. Taipei adota medidas recíprocas
  4. A política dos nomes no Leste Asiático
  5. Tensões regionais complicam a posição de Seul
  6. Interesses econômicos em jogo
  7. Alternativas práticas para os viajantes
  8. Parte de uma tendência mais ampla
  9. O que acontece depois do prazo
  10. Principais pontos

A Coreia do Sul lançou sua plataforma de cartão eletrônico de chegada em fevereiro de 2025, como parte de um esforço mais amplo de modernização para substituir os tradicionais cartões de desembarque em papel nos aeroportos, inclusive no Aeroporto Internacional de Incheon. O sistema exige que os viajantes enviem pela internet as informações de entrada até 72 horas antes da chegada, selecionando sua nacionalidade e os detalhes da viagem em listas digitais predefinidas, em vez de preencher os dados à mão em formulários físicos. Embora o campo de nacionalidade para portadores de passaporte da ilha indique "Taiwan", os campos de partida e destino classificam o território como "China (Taiwan)", designação que, segundo Taipei, mina sua soberania e causa confusão entre os viajantes.

Como o sistema eletrônico mudou tudo

A passagem do papel para o digital pode parecer uma pequena melhoria administrativa, mas, para Taiwan, representa um retrocesso significativo no reconhecimento internacional. No sistema anterior, baseado em formulários de papel, os viajantes taiwaneses podiam simplesmente escrever "Taiwan" nos campos de nacionalidade e partida, garantindo certo grau de autoidentificação que a rígida estrutura digital do novo sistema impede.

O ministro das Relações Exteriores, Lin Chia-lung, explicou que a disputa surgiu especificamente por causa dessa digitalização. "A Coreia do Sul já havia demonstrado boa vontade ao adiar a eliminação completa dos cartões de chegada em papel", observou ele, referindo-se à decisão de Seul de postergar a transição completa, inicialmente prevista para o começo de 2026. O ministro, porém, ressaltou que Taiwan considera que a classificação atual dá a entender que a ilha faz parte da República Popular da China, caracterização que Taipei rejeita.

A inconsistência do próprio sistema tem sido alvo de críticas em particular. Embora os viajantes vejam "Taiwan" no campo de nacionalidade, outras seções, inclusive as destinadas a solicitações de grupos e agências, mantêm a classificação "China (Taiwan)". Essa mensagem contraditória deixou os viajantes sem saber como sua identidade será registrada nos postos de imigração, levando o governo taiwanês a intervir em defesa de seus cidadãos.

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Taipei adota medidas recíprocas

Após meses de protestos diplomáticos sem que houvesse mudanças, Taiwan começou a implementar medidas retaliatórias em março de 2026. A partir de 1º de março, a ilha mudou a forma como os cidadãos sul-coreanos são identificados nos Certificados de Residência para Estrangeiros emitidos pelo governo, substituindo a designação oficial "República da Coreia" pelo nome mais usado, "Coreia do Sul". A mudança vale para certificados novos e renovados, limitando a perturbação imediata, mas enviando um claro sinal diplomático.

A retaliação tem um peso especial porque a Coreia do Sul atribui grande importância ao seu nome oficial. Há cerca de uma década, Seul pediu especificamente que Taiwan usasse "República da Coreia", em vez de "Coreia do Sul", em documentos oficiais. Taipei atendeu ao pedido na época. O ministro das Relações Exteriores, Lin, destacou esse histórico para ressaltar a assimetria na relação atual.

Há cerca de uma década, o governo sul-coreano pediu que Taiwan usasse seu nome oficial, 'República da Coreia', em vez de 'Coreia do Sul'. Taiwan atendeu ao pedido, mas Seul não retribuiu em relação à designação de Taiwan em seu sistema eletrônico de chegada como 'China (Taiwan)', o que dá a entender que Taiwan faz parte da República Popular da China.

Taiwan estabeleceu um prazo definitivo: 31 de março de 2026 para que a Coreia do Sul revise seu sistema eletrônico de chegada. Se Seul não mudar a classificação de "China (Taiwan)" para simplesmente "Taiwan" até essa data, Taipei ameaçou alterar a designação da Coreia do Sul em seu próprio sistema eletrônico de entrada no país, de "República da Coreia" para "Coreia (Sul)". Assim, Seul ficaria na mesma posição entre parênteses que hoje atribui a Taipei, criando uma imagem espelhada da atual afronta.

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A política dos nomes no Leste Asiático

Para entender por que um menu suspenso provocou uma reação tão forte, é preciso considerar a complexa rede de reconhecimento diplomático que rege as relações no Estreito de Taiwan. A Coreia do Sul, como a maioria dos países, adota uma política de "Uma Só China", que reconhece Pequim como o único governo legítimo da China. Quando Seul estabeleceu relações diplomáticas formais com a República Popular da China, em 1992, rompeu simultaneamente os laços oficiais com Taipei, embora ambos os lados tenham mantido escritórios representativos não oficiais e uma intensa cooperação econômica.

No entanto, o princípio de "Uma Só China" admite diferentes interpretações na prática. Os Estados Unidos, o Japão e a maioria dos países europeus costumam listar "Taiwan" separadamente em seus sistemas de imigração e vistos, mantendo uma distinção que respeita a independência de fato da ilha sem conceder reconhecimento diplomático formal. Ao agrupar Taiwan sob a categoria "China" em seu sistema eletrônico de chegada, a Coreia do Sul adotou uma interpretação mais rígida da política do que muitos de seus aliados democráticos.

O presidente Lai Ching-te levou a questão a público em março, pedindo à Coreia que "respeite a vontade do povo taiwanês" e destacando os estreitos laços comerciais e intercâmbios culturais entre as duas sociedades. Esse raro apelo direto de um chefe de Estado taiwanês a Seul ressalta a sensibilidade do assunto. Parlamentares de todo o espectro político de Taiwan também aderiram às críticas. Integrantes tanto do governista Partido Democrático Progressista quanto do oposicionista Kuomintang sugeriram que Taiwan poderia exercer pressão por meio das cadeias de suprimentos de semicondutores e da demanda turística.

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Tensões regionais complicam a posição de Seul

O momento em que essa disputa ocorre coloca a Coreia do Sul em uma posição diplomática cada vez mais desconfortável. A controvérsia vem após o aumento das tensões entre China e Japão, depois que a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, afirmou em novembro de 2025 que Tóquio poderia exercer a legítima defesa coletiva em caso de uma crise envolvendo Taiwan. Pequim respondeu com medidas retaliatórias, incluindo proibições à importação de frutos do mar e alertas de viagem, criando um ambiente volátil em todo o Nordeste Asiático.

O presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, tentou manter a neutralidade, sugerindo que Seul poderia atuar como mediadora "quando possível", e ressaltando que tomar partido só agravaria as disputas. Esse equilíbrio reflete a dependência econômica da Coreia em relação à China, sua aliança de segurança com os Estados Unidos e o desejo de evitar antagonizar Pequim em um momento em que aeronaves militares chinesas e russas têm invadido repetidamente a zona de identificação de defesa aérea da Coreia.

O professor Kang Jun-young, da Universidade de Estudos Estrangeiros Hankuk, observou que as opções da Coreia continuam limitadas pela guinada diplomática de 1992 em direção a Pequim.

Taiwan parece buscar esclarecimentos sobre a posição da Coreia em meio às tensões regionais entre China e Japão, mas também precisa levar em conta as circunstâncias diplomáticas e de segurança da Coreia. A Coreia também precisa administrar a questão com cuidado para evitar uma escalada.

A entrada de aeronaves militares chinesas e russas no espaço aéreo coreano no mesmo dia de alguns dos protestos de Taipei serviu como um lembrete contundente das pressões de segurança que Seul enfrenta ao conduzir suas relações com Taipei.

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Interesses econômicos em jogo

Além do simbolismo, a disputa tem um peso econômico considerável. Taiwan e Coreia do Sul mantêm uma das relações comerciais mais desequilibradas da região: Taipei registrou um déficit recorde de NT$ 1,16 trilhão (cerca de US$ 46,7 bilhões) em 2025. Esse desequilíbrio se deve em grande parte às exportações coreanas de circuitos integrados e componentes essenciais à produção taiwanesa de servidores de inteligência artificial, o que dá a Seul uma influência considerável no mercado, mas também faz de Taiwan um cliente vital para as exportações de tecnologia da Coreia.

O turismo é outro ponto de tensão. A Coreia do Sul está entre os destinos mais populares para os viajantes taiwaneses, com mais de 2,47 milhões de visitas bilaterais por ano. Em contrapartida, os turistas taiwaneses são uma importante fonte de receita para hotéis, lojas e atrações culturais da Coreia. O Ministério das Relações Exteriores de Taiwan mencionou explicitamente o déficit comercial ao alertar que as relações bilaterais poderiam ser reavaliadas, sugerindo que "medidas hostis" poderiam ter consequências comerciais.

Os fluxos turísticos chineses acrescentam outra camada de complexidade. Como os alertas de viagem de Pequim contra o Japão redirecionaram turistas da China continental para destinos alternativos, inclusive a Coreia do Sul, Seul se beneficiou do aumento no número de visitantes da República Popular. Qualquer medida que irrite Pequim, inclusive uma aparente elevação do status diplomático de Taiwan, poderia pôr em risco esse ganho turístico justamente quando a economia coreana busca se recuperar.

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Alternativas práticas para os viajantes

Enquanto diplomatas negociam a portas fechadas, as autoridades taiwanesas divulgaram orientações práticas para os viajantes envolvidos na disputa. O Escritório de Assuntos Consulares emitiu um "alerta cinza" de nível 1 para a Coreia do Sul, a categoria mais baixa de alerta de viagem, recomendando especificamente que os cidadãos taiwaneses usem cartões de chegada em papel, em vez do sistema eletrônico.

A recomendação permite que os viajantes evitem completamente os menus suspensos digitais contestados. Ao contrário da plataforma eletrônica de chegada, os formulários em papel permitem que os viajantes escrevam à mão sua nacionalidade e local de origem, sem precisar selecionar "China (Taiwan)". As autoridades coreanas indicaram que, no momento, não há prazo para eliminar os cartões em papel, garantindo que essa alternativa continue disponível por tempo indeterminado.

Viajantes com uma Autorização Eletrônica de Viagem para a Coreia (K-ETA) válida podem dispensar totalmente os cartões de chegada, outra forma de evitar a controvérsia sobre a classificação. Quem precisar preencher a documentação de entrada pode pedir um formulário em papel aos funcionários da companhia aérea durante o voo ou nos locais designados em Incheon e em outros pontos de entrada. Essa é uma solução simples que preserva a integridade dos documentos de viagem e atende às exigências de imigração coreanas.

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Parte de uma tendência mais ampla

A disputa com a Coreia do Sul não é um caso isolado. Taiwan também apresentou protestos contra a Dinamarca, onde, desde 2024, as autoridades de imigração têm identificado residentes taiwaneses em autorizações de residência como "China", em vez de "Taiwan". Taipei alertou Copenhague de que poderia rever os privilégios concedidos a funcionários diplomáticos dinamarqueses caso a designação não seja corrigida, demonstrando uma estratégia coordenada para contestar o que considera um apagamento gradual de sua identidade internacional.

Essa abordagem em várias frentes sinaliza uma mudança na diplomacia taiwanesa. Enquanto governos anteriores talvez se limitassem a protestos verbais, o atual governo do presidente Lai parece disposto a impor custos concretos a parceiros que adotem uma terminologia favorável a Pequim. Com as eleições locais previstas para novembro de 2026, a pressão política interna exige que o governo demonstre firmeza na defesa da dignidade taiwanesa no exterior.

O que acontece depois do prazo

Com a aproximação do prazo de 31 de março, os dois lados enfrentam decisões difíceis. O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul afirmou estar "analisando a questão e levando vários fatores em consideração", o que sugere que não há planos imediatos para alterar a redação atual. Seul afirma que classificações semelhantes aparecem em sistemas de registro de estrangeiros e de vistos desde 2004, dando a entender que as objeções de Taiwan ao sistema eletrônico de chegada representam uma nova sensibilidade, e não um problema novo.

Se Seul mantiver sua posição e Taiwan cumprir a ameaça de classificar a Coreia do Sul como "Coreia (Sul)" em seus próprios sistemas, a relação bilateral poderá entrar em um período de atrito prolongado. Analistas, porém, observam que disputas simbólicas raramente se transformam em guerras comerciais de grandes proporções, sobretudo entre economias tão interligadas. O ex-embaixador sul-coreano Lee Jae-choon considerou o protesto de Taiwan "legítimo" e classificou a disputa atual como "lamentável, dado o progresso geral das relações", indicando que vozes pragmáticas dos dois lados reconhecem o valor de reduzir as tensões.

Por enquanto, o modesto cartão de chegada em papel serve tanto como ferramenta prática para os viajantes quanto como símbolo do delicado equilíbrio que democracias menores precisam manter ao navegar entre as reivindicações de identidade taiwanesa e o poder chinês.

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Principais pontos

  • O sistema eletrônico de cartão de chegada da Coreia do Sul, lançado em fevereiro de 2025, classifica Taiwan como "China (Taiwan)" nos campos de partida e destino, provocando protestos formais de Taipei.
  • Em 1º de março de 2026, Taiwan adotou medidas recíprocas e substituiu "República da Coreia" por "Coreia do Sul" nos Certificados de Residência para Estrangeiros. Taipei ameaça alterar os sistemas eletrônicos de chegada se Seul não atender à exigência até 31 de março.
  • A disputa reflete a interpretação rígida da política de "Uma Só China" pela Coreia do Sul, em comparação com aliados como os Estados Unidos e o Japão, que costumam listar "Taiwan" separadamente em seus sistemas de imigração.
  • Taiwan emitiu um alerta de viagem de nível 1, recomendando que os viajantes taiwaneses usem cartões de chegada em papel, em vez do sistema eletrônico, para evitar a classificação contestada.
  • A disputa ocorre em meio ao aumento das tensões regionais entre China e Japão, complicando os esforços de Seul para manter a neutralidade entre Pequim, Washington e Taipei.
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