Nova ofensiva contra religiões não registradas
As autoridades chinesas lançaram uma ampla campanha coordenada contra comunidades cristãs não registradas, que resultou na prisão de líderes proeminentes e na destruição física de locais de culto. Nas últimas semanas, a polícia mirou a influente Igreja da Aliança da Chuva Precoce, na província de Sichuan, detendo vários líderes, entre eles o pastor sênior Li Yingqiang e sua esposa. Ao mesmo tempo, a mais de 1.600 quilômetros dali, na cidade litorânea de Wenzhou, máquinas pesadas foram levadas para demolir o prédio da Igreja de Yayang. Esses episódios representam uma escalada significativa nos esforços de longo prazo do governo para controlar a prática religiosa dentro de suas fronteiras.
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Esta nova onda de repressão ocorre após uma grande operação nacional em outubro de 2025 contra a rede da Igreja de Sião, na qual quase 30 pastores e fiéis foram detidos em sete cidades. Em conjunto, essas ações sinalizam uma postura mais rígida em relação a grupos que atuam fora da estrita supervisão do Estado. Ativistas e organizações de direitos humanos descrevem a ofensiva como uma das mais severas contra a liberdade religiosa na China em décadas.
Detenção de líderes da Igreja da Chuva Precoce
A Igreja da Aliança da Chuva Precoce (ERCC, na sigla em inglês), uma conhecida congregação protestante não registrada sediada em Chengdu, informou que a polícia invadiu as casas de seus líderes e o escritório da igreja. Segundo um comunicado divulgado pela instituição, nove pessoas foram detidas inicialmente em uma terça-feira. Embora cinco tenham sido libertadas no dia seguinte, quatro permaneceram sob custódia, entre elas Li Yingqiang e sua esposa, Zhang Xinyue. A igreja descreveu a operação como um esforço coordenado das autoridades para interromper suas atividades.
Li Yingqiang já havia previsto uma nova ofensiva do governo. Em uma carta aos fiéis, em novembro, ele alertou que uma "tempestade se aproximava" e pediu que sua congregação se preparasse espiritualmente.
Espero sinceramente que nenhuma de nossas famílias tenha de enfrentar novamente uma tempestade como essa. Ainda assim, como ancião designado pelo Senhor para estar entre vocês... é meu dever lembrar a todos que se preparem antes que a tempestade volte.
Suas palavras se mostraram proféticas. A igreja afirmou que os motivos específicos das prisões ainda não estavam claros, mas manifestou preocupação com a segurança e a perseverança dos detidos. Não é a primeira vez que a ERCC enfrenta esse tipo de pressão. Em 2018, o pastor fundador Wang Yi foi preso e, posteriormente, condenado a nove anos de prisão por "incitar a subversão do poder do Estado". Ele continua encarcerado e só deve ser libertado em 2027.
Destruição na Jerusalém da China
Enquanto a polícia prendia líderes em Sichuan, as autoridades locais de Wenzhou, na província de Zhejiang, começaram a demolir o prédio da Igreja de Yayang. Imagens de vídeo obtidas pela ChinaAid, organização sem fins lucrativos que monitora a perseguição religiosa, mostram escavadeiras e guindastes derrubando a estrutura. A operação contou com forte presença de segurança, com centenas de policiais armados e de forças especiais mobilizados para proteger o perímetro.
Wenzhou ocupa um lugar singular no cristianismo chinês devido à grande concentração de fiéis, o que lhe rendeu o apelido de "Jerusalém da China". A demolição serve como um alerta contundente a outras comunidades. Segundo relatos, moradores que viviam perto da igreja foram retirados do local, e trabalhadores da região receberam instruções para não fotografar nem gravar vídeos da destruição.
Bob Fu, fundador da ChinaAid, condenou as operações realizadas em Sichuan e Zhejiang. Ele argumentou que a escala da mobilização indica uma ordem do alto escalão para eliminar a expressão religiosa independente.
A mobilização maciça contra as duas principais redes de igrejas independentes mostra que o governo central está determinado a erradicar completamente as igrejas cristãs, a menos que elas sejam totalmente doutrinadas na ideologia do partido.
O alvo: Igreja de Sião
A repressão contra a Igreja da Aliança da Chuva Precoce ocorre após uma operação semelhante, embora de maior escala, contra a rede da Igreja de Sião em outubro de 2025. Fundada pelo pastor Jin Mingri, também conhecido como Ezra Jin, a Igreja de Sião já foi uma das maiores igrejas não registradas da China, com milhares de fiéis em dezenas de cidades. As autoridades prenderam quase 30 pastores e membros da igreja em uma operação coordenada que abrangeu pelo menos sete províncias.
Entre os detidos estava o próprio Jin Mingri, levado sob custódia na cidade de Beihai, no sul do país. Em novembro de 2025, 18 líderes do grupo haviam sido formalmente presos e acusados de "uso ilegal de redes de informação". A acusação está relacionada ao uso da internet pela igreja para transmitir sermões e se comunicar com os fiéis, prática cada vez mais comum à medida que fica mais difícil realizar encontros presenciais. O crime prevê pena de até três anos de prisão.
A repressão contra a Igreja de Sião não teve precedentes em escala e coordenação. Grace Jin Drexel, filha de Jin Mingri, descreveu a confusão e o medo que tomaram conta de sua família quando perceberam a dimensão das prisões. Ela observou que seu pai, ex-aluno da Universidade de Pequim que se converteu ao cristianismo após os protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989, havia se preparado havia muito tempo para a possibilidade de ser preso.
Mudança para a aplicação imediata das regras
Grupos cristãos e especialistas em direito observaram uma mudança clara na forma como as autoridades chinesas aplicam as normas religiosas. No passado, igrejas não registradas poderiam receber uma advertência, seguida de multas e, por fim, detenção caso se recusassem a cumprir as exigências. No entanto, relatos recentes indicam que as autoridades estão pulando as etapas preliminares e partindo diretamente para as prisões.
Essa escalada imediata coincide com novas regulamentações introduzidas pelo governo chinês. Em setembro de 2025, as autoridades publicaram um Código de Conduta Online para Profissionais Religiosos, que na prática proibiu grupos sem licença de realizar sermões pela internet, organizar atividades para crianças ou arrecadar fundos online. Essas regras fecharam o "espaço cinzento" digital de que muitas igrejas dependiam para sobreviver a repressões anteriores.
O sistema jurídico do governo é frequentemente usado para justificar essas ações. Acusações como "provocar brigas e criar tumulto" ou "operações comerciais ilegais" são frequentemente feitas contra líderes religiosos. No caso da Igreja de Sião e da Igreja da Chuva Precoce, o foco passou a ser a "disseminação ilegal de informações religiosas", mirando os próprios meios usados pelas igrejas para manter suas comunidades.
A política de sinicização
A força motriz por trás dessas medidas intensificadas é a doutrina política da "sinicização da religião". Promovida pelo presidente Xi Jinping desde 2015, essa política exige que todas as religiões se conformem à cultura chinesa e, mais importante, à ideologia do Partido Comunista. O objetivo é garantir que a lealdade religiosa nunca se sobreponha à lealdade ao Estado.
Nesse modelo, os únicos grupos cristãos legalmente permitidos são o Movimento Patriótico das Três Autonomias, para os protestantes, e a Associação Patriótica Católica Chinesa. Essas organizações autorizadas pelo Estado devem exibir símbolos patrióticos e frequentemente incorporam textos do governo em seus cultos. Ainda assim, milhões de cristãos chineses optam por cultuar em "igrejas domésticas" não registradas, como a Igreja da Chuva Precoce e a Igreja de Sião, por considerar a interferência estatal uma violação de sua fé.
Yalkun Uluyol, pesquisador sobre a China na Human Rights Watch, explicou que o atual governo vê lealdades independentes como uma ameaça.
O governo do presidente Xi Jinping parece determinado a remodelar a prática religiosa para atender aos interesses do Partido Comunista Chinês, e as congregações que não o fizerem enfrentam perseguição severa.
Resiliência e reação internacional
Apesar da forte pressão, muitos fiéis continuam resistindo. Membros das igrejas relataram que, embora grandes reuniões tenham se tornado perigosas, encontros menores e mais discretos continuam ocorrendo. Alguns líderes acreditam que a perseguição acaba fortalecendo a fé, sentimento expresso pelo pastor Jin Mingri antes de sua detenção. Os membros mais engajados dessas congregações costumam encarar sua luta como uma prova de determinação, e não como motivo para se dispersarem.
A comunidade internacional começou a prestar atenção. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, condenou veementemente as prisões e pediu a libertação imediata dos líderes religiosos detidos. O comissário da Alemanha para a liberdade religiosa também criticou as violações. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores da China reiterou sua posição habitual de que todas as atividades religiosas devem obedecer às leis nacionais e rejeitou a interferência estrangeira em seus assuntos internos.
Com a continuidade da repressão, o futuro das igrejas não registradas na China permanece incerto. Embora o governo disponha de meios para demolir prédios e deter líderes, enfrenta um desafio mais difícil: sufocar as crenças de milhões de cidadãos que continuam praticando sua fé em segredo.
Principais pontos
- As autoridades chinesas prenderam líderes proeminentes da Igreja da Aliança da Chuva Precoce, em Chengdu, entre eles o pastor Li Yingqiang.
- O prédio da Igreja de Yayang, em Wenzhou, foi demolido pelas autoridades com máquinas pesadas, sob a vigilância de centenas de policiais.
- Em outubro de 2025, quase 30 líderes da rede da Igreja de Sião foram detidos em todo o país; 18 foram formalmente acusados de uso ilegal de redes de informação.
- Novas regulamentações que proíbem atividades religiosas online sem licença fecharam os canais digitais de culto.
- A repressão faz parte de uma política mais ampla de "sinicização" da religião, que exige que todas as crenças se alinhem à ideologia do Partido Comunista.






